4.1 AWM Engenharia Ltda
4.1.3 Aprendizagem dos gestores por meio das experiências e reflexões
4.1.3.1 Experiências específicas da prática profissional
A AWM é uma empresa familiar, e essa especificidade da incorporadora gera experiências profissionais específicas. Os dois sócios consideram uma vantagem o fato de serem irmãos, pois já conhecem seus pontos fortes e fracos, o que falta em um e sobra no outro.
Eu já tinha trabalhado junto [com meu irmão], já havia um relacionamento independente de irmão, um relacionamento profissional dentro de uma empresa, e que mostrava que tínhamos claramente condições de juntar as duas empresas. (...) aí juntou forças, juntou conhecimento. Eu digo muito até que são dois perfis diferentes, ele tem o perfil da sensibilidade por ser arquiteto (...), todos os projetos e compras de terreno passam por ele, por essa visão que ele tem, a visão do arquiteto. E no meu caso cabe muito mais administrar as obras, os funcionários, o escritório como um todo. Então a gente dividiu as tarefas, por isso vem dando certo até hoje. (MIRINDA)
Os dois diretores, apesar de buscarem ajuda de especialistas para resolver questões da empresa, não deixam de procurar os filhos (que atuam na área da construção civil na própria AWM) para escutar suas opiniões. Há, portanto, uma troca de experiências constante entre os familiares pelo simples fato de serem familiares. Pois Mirinda declarou que discutia questões da empresa com sua filha, que não era da área. Dessa forma, o simples fato de fazer parte da família “habilita” os indivíduos a trocarem experiências profissionais.
Nesses dez anos de empresa, os dois sócios em conjunto com os filhos passaram por várias experiências específicas que não teriam ocorrido se o contexto não fosse familiar. Dessa forma, os diretores têm aprendido por meio de experiências familiares dentro do contexto profissional.
Nós estamos ganhando o amadurecimento de ouvir os próprios filhos, todos os dois. Um já é engenheiro e o outro está terminado engenharia e nos
acompanhando desde o primeiro ano da escola, então há cinco anos eles estão aqui. (...) quando eu ouço meu filho e meu sobrinho (...) „eu acho que o senhor não deve ir por aí, eu acho que aqui o senhor está errado‟, e talvez outras opiniões do meu sócio, meu irmão, mas que é conflitante (...) [então] vêm duas opiniões isentas, por que eles querem o melhor da empresa. (MIRINDA)
Os gestores também afirmaram a importância de possuir experiências em outros cargos para que pudessem chegar à gerência. Tais experiências fizeram com que aprendessem como funciona uma incorporadora no todo e forneceram a ambição necessária para que pudessem galgar todos os cargos possíveis.
Eu fazia de tudo quando entrei na outra empresa, então fui crescendo aos pouquinhos. (...) Eu já fui secretária executiva, já fui gerente. Eu sou uma pessoa muito dinâmica, então o que eu puder aprender, onde eu estou eu aprendo. Então, assim, hoje eu estou como gerente administrativa. (EUGENEIDE LIMA)
Além de possuírem experiências em outros cargos, no caso dos diretores foi muito importante a experiência em outra empresa de construção que não lhes permitia crescer até onde eles queriam. Os diretores perceberam que possuíam mais ambição e potencial do que a empresa estava disposta a suportar, então juntaram todos os anos de experiências – e conseqüente aprendizado – como empregados e usaram para abrir sua própria empresa e virar empregadores.
Esta possibilidade de aprender por meio de experiências passadas demonstra que os gestores refletiram sobre suas experiências no passado, aprenderam com elas e formaram, assim, o que Dewey (1976) e Jarvis (1987) chamam de estoque de conhecimentos. A partir do estoque de conhecimentos que vai acumulando em sua vida, o gestor tem a possibilidade de responder às experiências cotidianas do trabalho de uma forma rápida, quase automática, uma vez que tais experiências não fogem do conhecimento que o gestor tem estocado. Nessa situação, as experiências podem ser reforçadas e tomadas como certas, mas não há aprendizagem por não haver acréscimo ao estoque de conhecimentos.
O gestor irá aprender a partir das experiências passadas quando se deparar com uma nova experiência que não consiga dar por certa. Nesse ponto, o gestor irá unir o conhecimento que já possui estocado à reflexão sobre a nova experiência, gerando assim um novo aprendizado e aumentando ainda mais seu estoque de conhecimentos. Isso ocorre porque o indivíduo confere um significado à nova experiência ao refletir sobre ela (JARVIS, 1987).
Trabalhei treze anos numa empresa construtora e daí vislumbrei a minha tendência como gestor. Eu sentia que podia exercer a função de gestor. E na
empresa que eu trabalhava não tinha espaço para mim. Então eu procurei esse espaço através de uma empresa que eu pudesse administrar, e saí para botar o meu próprio negócio. (ALBERTO MOREIRA)
Eu fui galgando todos os caminhos, desde estagiário, engenheiro contratado, depois engenheiro de obras (...), supervisor de todas as obras. Quando eu cheguei em um ponto que não dava (...), não por falta de competência administrativa (...), ali era o limite, não tinha como. Só se eu fosse ser sócio dos meus patrões. (MIRINDA)
Contudo, a aprendizagem de um indivíduo pode ser dificultada por fatores internos ou externos à pessoa. E isso ficou evidente nas falas de Mirinda e Eugeneide Lima. Ao perceberem que possuíam características que, de alguma forma, estavam atrapalhando seu aprendizado, refletiram sobre esse fenômeno e aprenderam a subjugá-lo. A partir das experiências negativas resultantes dessas características, aprenderam que era preciso mudar o comportamento para que o trabalho não fosse prejudicado.
(...) ser concentrador. Você com certeza aprenderia mais se fosse mais [aberto]. (MIRINDA)
(...) [ser] muito impaciente, é que eu quero que as coisas aconteçam (...), então eu fiz terapia para que eu me controlasse (...). Por que eu comecei a perceber que eu estava atrapalhando o desenvolvimento de quem estava trabalhando comigo. (EUGENEIDE LIMA)
Portanto, as experiências específicas do contexto profissional são capazes de gerar aprendizado para os gestores. Os gerentes têm consciência de que as experiências vivenciadas em outros cargos e empresas são responsáveis pelo aprendizado acumulado que possuem e que sem elas talvez não tivessem conseguido chegar tão longe como gestores.
Eles também têm consciência de que existem fatores internos e externos que são capazes de dificultar seu processo de aprendizagem e que, portanto, é preciso saber superá-los para que possuam mais oportunidades de aprender. No que tange às experiências familiares, os diretores deixaram claro que não só estão abertos a aprender com os filhos como já deram início a esse processo.