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EXPERTISE: IMPLICAÇÕES DO REPERTÓRIO CONCEITUAL

DIMENSÃO DA PESQUISA

3. DIMENSÃO TEÓRICA DA PESQUISA

3.2. EXPERTISE: IMPLICAÇÕES DO REPERTÓRIO CONCEITUAL

Como síntese das definições que constam dos dicionários8, expertise é uma palavra de origem francesa que significa competência ou qualidade de especialista; ser perito em um assunto; resultado de uma avaliação ou comprovação realizada por um especialista em determinado tópico; experiência adquirida num mesmo segmento; especialização; conjunto de habilidades e conhecimentos de uma pessoa ou de um sistema; capacidade de adquirir e aplicar determinado conhecimento; destreza e competência na execução de determinada

8 As definições foram compendiadas de diferentes fontes e elaboradas a partir do que consta em dicionários

eletrônicos comuns e de domínio público, tais como: Houaiss, Dicionário Eletrônico, Significados.com e Dicionário Informal.

tarefa; uma pessoa versada no conhecimento de determinada coisa; capacidade de aplicar o que aprendeu de forma adequada ao que é requerido pela função exercida.

Existe, em comum, em quase todas as maneiras de definir a expertise, o foco em uma área específica, expresso por diferentes modos, e a presença de um determinado quantum de conhecimentos. Quem é especialista ou perito o é em alguma área de interesse específica. Contudo, não podemos restringir o critério de distinção à quantidade de conhecimentos na respectiva área ou à comparação do desempenho entre um veterano e um aprendiz.

Outro aspecto conceitual importante está na origem francesa da palavra e o seu uso no contexto brasileiro, o que torna desnecessária a escrita em itálico como destaque para outro idioma. A palavra francesa de onde se origina é o verbo expertiser, que em português, significa “periciar”. A palavra em português que mais se aproxima é “perícia” que, por sua vez, refere-se a uma “competência específica”. O fato de a expressão constituir a melhor tradução, somado à ausência de um único termo que sintetize o que se deseja significar para expressar a mesma coisa, levou à opção por importar a palavra “expertise” e naturalizá-la inserindo-a nos dicionários brasileiros.

É possível que o conceito de expertise tenha sido incorporado à nacionalidade brasileira, devido à necessidade de expressar que a maior eficiência no desempenho está além do nível de conhecimento. E, ainda, que para se tornar um especialista ou perito em determinada área, não basta saber mais do que um aprendiz. A comparação entre veteranos e aprendizes envolve tempo de experiência e, supostamente, poderia reduzir ou equiparar em importância o critério de se ter um tempo determinado de experiência na área.

Ao contrário do que ocorre com as definições de criatividade, a expertise parece reunir mais possibilidades de consenso entre autores e critérios que estabelecem parâmetros demarcadores de fronteiras para o desempenho expert. Embora se tenha constatado a existência de um repertório de palavras e expressões comumente citadas nas definições clássicas da criatividade, também há uma grande incidência de citações acerca de que ela consiste em um fenômeno multifacetado. Assim sendo, mesmo entre os autores que a definem, percebemos que reconhecem as dificuldades de estabelecer parâmetros precisos para caracterizar ou categorizar as manifestações verdadeiramente criativas, bem como de compreender e definir os processos e origens deste fenômeno. Não é o que sugere ocorrer na área da expertise. Percebemos que tanto em relação ao arcabouço teórico que a fundamenta como à diversidade e quantidade de definições, de autores que abordam o fenômeno e de

áreas que abrange, esse repertório parece sugerir maior grau de consenso e possibilidades mais precisas para se estabelecer delimitações.

Há forte tendência em compreender a expertise como um fenômeno circunscrito, por exemplo, à visão de Ericsson (2003, p. 56), a partir da qual é mantido um vínculo conceitual com a ideia de treinamento e tempo mínimo: “quando um treinamento apropriadamente projetado é mantido em estado de concentração total numa base regular de semanas, meses, ou mesmo anos, características inatas não modificáveis não parecem restringir qualquer um de alcançar altos níveis de desempenho”. Especificamente, as palavras finais do pensamento do autor – “não parecem restringir qualquer um de alcançar altos níveis de desempenho” – podemos entender que concentra um dos aspectos de tensão existente, em especial, entre criatividade e expertise, mas que abrange também os outros fenômenos da mesma ordem epistemológica (inteligência, talento e altas habilidades/superdotação).

De fato, o treinamento está entre os recursos prestigiados como sendo capazes de levar “qualquer um” a desenvolver um nível de desempenho, no mínimo, diferenciado. Ericsson (2003) confirma a regra estabelecida por Chase e Simon (1973), de que dez anos ou dez mil horas é critério e condição para a expertise. Se assim o fosse, o que explicaria, por exemplo, os que se dedicam até por bem mais de dez anos a determinada área e não atingem níveis elevados de desempenho? E aqueles que, em muito menos tempo, destacam-se entre os pares por suas realizações? O que se apreende de aparentemente indiscutível nessa questão e que parece subjacente à teoria de Ericsson, da maioria dos autores da expertise e até mesmo de leigos no assunto, é considerar que especialistas, por definição, possuem um corpo de conhecimento sobre o próprio domínio de especialização maior do que qualquer outro indivíduo poderia ter.

Com relação à visão sobre a eficácia do treinamento, me parece contraditório relacioná-lo a excelência, quando observamos que os autores que discutem a expertise vinculam a concepção deles ao campo da excelência e do alto desempenho. A questão que nos intriga é: um aprendiz, ao passar pelo mesmo tempo de treinamento, não alcançaria um nível de desempenho correspondente ao de um veterano na área? Mas, Ericsson, bem como Chase e Simon, determinam que isto ocorra por um período de dez anos acima. É coerente e suportável um tempo tão extenso dedicado a tarefas concebidas na dimensão do treinamento ou preparação intensa?

Treinamento e preparação remetem a tempo de “incubação”, que, por sua vez, pressupõe excessiva repetição. Assim, um tempo demasiadamente extenso de treinamento e

preparação pressupõe um risco iminente de alienação frente à realidade emergente. Por outro lado, a menção ao alto desempenho e excelência, não faria mais sentido diante da presença da expertise, naturalizada justamente para conseguir designar o que está além do nível de conhecimento, do tempo de experiência, do tempo de treinamento, apesar das limitações a que remetem o conceito de especialização? Neste caso, focaliza-se o fato de a especialidade ter de estar circunscrita a uma área única de atuação, como o primeiro risco de entrincheiramento.

Parti do pressuposto de que a visão passiva de treinamento, característica da psicologia comportamentalista, está sendo considerada na mesma acepção de prática. Não há como evitar estabelecermos uma relação conceitual intrínseca entre termos como treinar e praticar e seus correlatos: adestrar, habituar, acostumar. Na mesma direção, há um vínculo com a ideia de tempo, na medida em que não conseguimos criar um hábito, refinar a prática ou considerar alguém treinado para determinada tarefa, sem requerer uma demanda mínima de tempo. Tanto que, para estudiosos da expertise (CHASE; SIMON, 1973; ERICSSON, 2003; ERICSSON; TESCH-ROMER; KRAMP, 1993) essa exigência se torna considerável, somente quando se define em torno de dez anos, período que já foi criticado, aqui, como sendo demasiado longo para as limitações a que remetem as definições da palavra treinamento.

Seguindo o mesmo raciocínio, a tríade treino-prática-tempo, de fato, remete a uma proximidade com dimensões de ação física, mecânica, que levam ao desenvolvimento do automatismo, aspectos geralmente abordados em áreas como a do esporte ou da música, por exemplo, mas criticado em outras áreas que envolvem a mente, o intelecto. Além disso, todo esse corpo de elementos, incluídos na definição de treinamento, traz subjacente a ideia de pouca flexibilidade, de levar as pessoas a agirem de forma passiva, a incorporarem informações, conhecimentos e até habilidades sem questioná-los. Como falar de excelência e alto desempenho vinculando a esses conceitos e percepções? Excelência remete a “estar acima de”, superar perspectivas, ou seja, conceitos que se constituem em campos opostos ao do treinamento e à prática aparentemente mecânica e de longo tempo.

A expertise estaria designada a um processo a posteriori? Isto é, poderíamos concebê- la como a etapa subsequente a essa condição, porém, transcendendo-a, ou seja, rompendo o vínculo com esse tipo de procedimento? Mas, estas são as condições requeridas para que a expertise seja reconhecida, segundo a literatura. Neste caso, o que explicaria a realidade inconteste de que não são todos ou são poucos os que avançam para essa etapa, sobretudo em se tratando da relação que é estabelecida entre a compreensão do que seriam os altos níveis de

desempenho e a combinação envolvida na tríade treinamento-prática-tempo, considerando-se o domínio da expertise?

Retomando o que postula Ericsson (2003, p. 56) parece correto entender que seu pensamento atribui um valor de tal modo ao “treinamento apropriadamente projetado” que chega a transcender “características inatas não modificáveis” levando “qualquer um a alcançar altos níveis de desempenho”. Este pensamento parece contradizer a relação que o próprio autor estabelece entre expertise e excelência ou desempenho superior. Se consideradas as questões semânticas, o termo superior já se define como algo que ultrapassa os outros em mérito, qualidade, ou que atinge grau mais elevado.

Teoricamente, a ideia de treinamento, de consistência de procedimentos, por meio da prática de longo tempo, não sugere possibilidades de ultrapassar o que está “apropriadamente projetado” e remete à conformação de determinado comportamento ao que dele se espera em determinado ambiente ou ocasião. Comumente, a intenção implícita à ideia de treinamento é a de não transgredir o que foi estabelecido como regra, de não permitir pensar „fora da caixa‟. Isto reduz as possibilidades de enxergarmos as emergências, um fator preponderante para a criatividade.

O próprio Ericsson afirma, nas citações de Goleman (2014, p. 161), que “o especialista contraria ativamente as tendências ao automatismo, construindo e buscando deliberadamente treinamentos, nos quais a meta estabelecida excede seus níveis atuais de desempenho”. Ele acrescenta, ainda, que, “quanto mais tempo o especialista consegue investir no treino deliberado com concentração total, mais desenvolvido e refinado será o seu desempenho”. Significa que, para um desempenho cada vez mais eficiente e refinado, seria necessária a inserção de estratégias novas a cada tentativa deliberada de melhoria dos procedimentos de resolução dos problemas do campo. Como estratégia nova, pressupomos a inexistência de modelos, o insight diante do ainda não conhecido e do “não treinado”. Mais uma vez, há uma referência à flexibilidade e à abertura para enxergar e acolher as emergências, elementos difíceis de operar na presença e execução de procedimentos treinados.

Há outros aspectos que podem ser focalizados na constituição da expertise na dimensão conceitual. São aspectos que podem auxiliar a compreensão na busca das possíveis interações com a criatividade. O primeiro deles, e considerado um fator determinante para o desenvolvimento da expertise, é a prática deliberada. Deliberada se refere ao que foi refletido, antes de ser decidido e que foi realizado com algum propósito, de modo intencional. Portanto, constitui uma prática adquirida com o tempo, mas não de forma aleatória, instintiva ou obtida

pelo hábito cotidiano, incorporado mesmo sem esforço, somente pela repetição. Também pode ser entendida como uma prática que se opõe à informal pela presença da estrutura e ausência do improviso. Este é o enfoque ao qual se reporta Ericsson e colaboradores (1996; 1998; 1993; 1994; 2007).

Ericsson e colaboradores acrescentam uma regra conhecida que é a de, no mínimo, uma década de prática deliberada intensiva como condição para atingir o nível mais elevado de rendimento e desempenho. Na definição de Ericsson e Lehmann (1996, p. 278), a prática deliberada é um “treino individualizado, preparado por um treinador ou professor para aumentar aspectos específicos do desempenho de um indivíduo, através de repetição e refinamentos sucessivos”. Este aspecto sugere reafirmar o vínculo com o planejamento, o estudo e a estruturação voltados para um propósito preestabelecido. Tanto que Ericsson, Krampe e Tesch-Römer (1993, p. 368) definem prática deliberada como “um conjunto de atividades e estratégias de estudo, cuidadosamente planejadas, que têm, como objetivo, ajudar o indivíduo a superar as próprias fragilidades e melhorar a performance”. Isto não ocorre, necessariamente, de forma prazerosa, mas exige grande esforço, sobretudo pelo tempo extenso de preparação. Tais condições poderiam se tornar uma tortura, se não fosse componente do perfil expert a alta motivação pela melhoria constante do desempenho e o foco na meta que estabeleceu para si (ERICSSON; TESCH-ROMER; KRAMP, 1993).

Convém dar destaque especial sobre o que mantém experts altamente motivados. Muitas vezes, é a própria expectativa de evolução eminente que ele pode adquirir, acrescidos de fatores pessoais, genéticos ou adquiridos por enculturação, que auxiliam para que ocorra esta evolução. Mcpherson e Renwick (2001, p. 170-1) classificaram seis dimensões para determinar o nível da habilidade autorregulatória, que é própria dos experts, entre as quais os autores incluem a motivação:

1. a motivação, como a capacidade de decidir sobre o quanto e quando deve estudar;

2. o método, definido como a capacidade de planejar e empregar adequadamente as estratégias que planejou;

3. o tempo, fator que se aplica como a capacidade de organizar a própria rotina e colocar em prática as metas de estudo;

4. o desempenho, neste caso dando ênfase à capacidade de monitorar, avaliar e controlar gradativamente os avanços que vai obtendo;

5. o ambiente de estudo, ou seja, a preparação do espaço adequado para realizar o estudo, de modo que não seja traído pela distração, desviando-se da meta; e, por fim,

6. os fatores sociais, tratados por estes autores como a busca focalizada de informação para enriquecer e aprofundar o estudo que está realizando, neste caso, referindo-se a informações obtidas de professores, familiares, amigos, fontes documentais, só para citar exemplos.

Collins e Evans (2010, p. 105) também mencionam um tipo de expertise adquirida por enculturação. Neste caso, por estar “imbuída de conhecimento tácito na linguagem de um campo”. Este conceito não se distancia muito do modo como foi definido por Green (2001, p. 22), por meio do qual adquirimos habilidades e conhecimentos pela “imersão nas práticas diárias do contexto social” envolvido.

Também faz parte da teoria de Collins e Evans (2010), a classificação da experiência em um campo específico, como o critério que delimita a “melhor fronteira” para a expertise. Inclusive, eles fazem uso da redundância para enfatizar que sem a experiência não há “expertise especializada”. Ainda, ilustram o argumento deles complementando que, “sem experiência em fazer ciência, falar com cientistas, tocar ou ouvir violino ou observar e discutir assentamento de azulejos em banheiros”, um indivíduo não atinge os padrões mínimos para resolver problemas ou emitir qualquer julgamento nestas áreas.

Resgatando a questão do treinamento e exemplificando pelo campo que mais dá ênfase à aplicação desse recurso - o treinamento esportivo – há um paradoxo nas teorias clássicas da expertise, que se apresenta de forma bastante evidente. Embora não se possa ignorar a imprescindibilidade do treino para que um atleta obtenha sucesso, ao mesmo tempo podemos inferir, que, mesmo submetido a um processo intensivo que agregue elementos como orientação apropriada, oportunidade, estímulo e motivação, não é qualquer atleta que se torna extraordinário. Tal evidência comprova, entre outros aspectos, que também a prática por si (agregada do treino, tempo e dedicação a uma área específica ou especialização) não pressupõe expertise, especialmente se levado em conta a exigência de implicar um desempenho incomum.

Schneider (1997), por exemplo, concorda que ainda são insuficientes os conhecimentos consolidados em termos de pesquisas e de literatura, que apresentem parâmetros mais precisos para se definir questões como estas. E complementa que ainda não foi apresentada nenhuma evidência científica que elegesse as características hereditárias ou ambientais como determinantes do alto desempenho esportivo.

Não obstante o alerta de Schneider (1997) trata-se de proposições que tendem a fortalecer, entre outras teses, as possibilidades de que características hereditárias ou ambientais não devem ser desprezadas. Bouchard, Malina e Pérusse (1997), destacam que,

apesar das controvérsias e lacunas existentes, tais características podem ser antropométricas, como a composição corporal – estatura, por exemplo – as quais também sofrem importante influência ambiental. Os autores integram as duas perspectivas para explicar a origem do que podemos considerar além da prática ou treino intensivo. Para esses autores, é provável que a predisposição genética da estatura afete o desempenho esportivo, podendo limitar as possibilidades de superar dificuldades, mesmo com o treinamento.

A discussão, até aqui, deu ênfase à reflexão sobre um dos aspectos considerados como contraditório na literatura da expertise. Nesse contexto, envolve o componente mais citado no repertório que a define, que é a tríade treino-prática-tempo. São aspectos associados à dimensão física, a partir da qual presumimos ser o mais propenso a desenvolver o automatismo. Outro aspecto contraditório é o que sugere remeter a expertise para o domínio dos fenômenos complexos e multifacetados. Neste caso, a dimensão humana deve ser considerada. Por sua natureza, a expertise deve sempre ser discutida em diálogo com fenômenos como a criatividade, o talento, a inteligência e as altas habilidades. Em outras palavras, a ação do expert deve transcender, além do conhecimento, também o que foi consolidado, via treinamento ou prática.

Para refletir sobre essa condição da expertise precisamos reconhecer as situações em que as soluções convencionais não causam o efeito necessário. Isto contraria a principal contribuição do expert, que é fazer com que o background que adquiriu opere de forma eficiente. Contudo, os problemas não seguem uma ordem fixa, imutável, circunscrita a procedimentos treináveis. Kasparov (2007), ex-campeão mundial, exemplifica com situações desafiadoras como o xadrez, jogo no qual, limitar-se às estratégias amplamente conhecidas, treinadas por ambos os jogadores não os tornariam eminentes. A jogada excepcional, aquela que poderá colocar um deles em vantagem sobre o outro, resultará da busca por conexões não evidentes de tempo, espaço e material (KASPAROV, 2007), visto que as regras básicas são dominadas por todos os jogadores.

Na experiência prática de Kasparov, ele concluiu: mais do que o conhecimento de padrões de ataque e defesa e da técnica adquirida, o que irá definir a mestria do jogador, elevando-o na tabela de classificação, será exatamente a capacidade de perceber a exceção às regras aprendidas, via conhecimento estabelecido, e por meio do treinamento intensivo. A capacidade de o jogador experiente questionar o conhecido e agir de forma inesperada e criativa, é que o levará a estabelecer relações inusitadas em situações que ele acredita dominar

pela prática. A recomendação do jogador é de que “as mentes mais criativas têm maiores conhecimentos sobre o assunto à mão” (KASPAROV, 2007, p. 135), e que:

Quando tivermos absorvido completamente o conhecimento, podemos nos afastar dele com segurança, o suficiente para ter um quadro global. Partindo dele, podemos ver novos caminhos e fazer novas conexões. Surgem novas relevâncias, informações antigas parecem novas, e a inovação torna-se a regra em vez da exceção (KASPAROV, 2007, p. 151).

A experiência de um ex-campeão, que se tornou mundialmente reconhecido como enxadrista expert, ressalta a visão de que faltam elementos à expertise para que a contribuição de experts, como ele e outros, em diferentes áreas, seja reconhecida em qualquer campo de atuação. Este elemento foi explorado, nesta tese, como o acesso do expert ao espaço potencial da criatividade, especialmente se pensarmos a expertise numa visão que não se restringe às modalidades físicas e esportivas. Há uma ênfase deliberada em estudos que apontam a influência do treinamento como condição para o desempenho de alto nível (DAVIDS; BAKER, 2007; HELSEN, STARKES; HODGES, 1998; BOUCHARD; MALINA, 1983), inclusive corroborando Ericsson, Tesch-Romer e Kramp (1993), na correlação entre treinamento e alto desempenho.

Para Ericsson, atribuir o treinamento intenso e de longo tempo à explicação para uma grande quantidade de características empíricas do desempenho superior torna-se mais compreensível do que a tese da genética. Entretanto, é preciso reconhecer que tal alegação parte, recorrentemente, de áreas cujas habilidades estão mais relacionadas ao automatismo e, por isso, estas áreas dependem de longo tempo de exercício, como a música, o esporte e o xadrez, por exemplo. Estas concepções acerca da expertise parecem sugerir que fatores genéticos não sejam tão proeminentes. Faz-se necessário, contudo, evitarmos que a exigência da excelência se restrinja ao domínio do que pode ser generalizado, como se fosse apenas uma decorrência do talento (musical ou esportivo, principalmente). Esta visão deve se tornar abrangente e se estender para todos os campos do conhecimento e campos profissionais.

Neste sentido, já existem estudos que sinalizam uma preocupação em promover a excelência em todos os campos, começando por enfatizar a busca da excelência pessoal. Tal como assinalam autores como Baker e Horton (2004), Hodges et. al. (2004), com a evolução científica tornou-se importante pensar em abordagens multidimensionais e multidisciplinares que permitam uma compreensão global e integrada das questões do alto desempenho.