DIMENSÃO DA PESQUISA
2. MEMORIAL DA PESQUISADORA
2.6 UM PARADIGMA PARA A PESQUISA E PARA A VIDA
Hoje, revivendo os momentos de conclusão do Mestrado, recordo-me da banca de defesa, quando um dos membros. O prof. Síveres, me fez uma provocação. Ele começou narrando que, enquanto lia o meu trabalho, veio-lhe a imagem de São Paulo, também chamado Saulo, cavalgando no seu cavalo com o objetivo de perseguir os cristãos. Num dado momento da viagem, surge do céu uma luz muito forte, tão ofuscante, que o derruba do cavalo. Ao tentar levantar-se percebe que está meio cego e ouve a voz: Saulo, Saulo, por que me persegues? A partir desta experiência, ele abandona o cavalo e se transforma num discípulo e missionário cristão. Aquela profusão de luz, que o deixou momentaneamente cego, abriu-lhe os olhos para a obra redentora de Cristo. O cavalo era apenas uma instrumentalidade, e o fundamental foi a mudança de vida, isto é, a mudança de paradigma, o novo jeito de ver o mundo.
Remetendo-me para aquele mesmo cenário, o prof. Síveres disse me imaginar cavalgando numa longa estrada, simbolizada ali pela travessia da minha jornada profissional até chegar àquele momento. Baseando-se no resultado do estudo que estava avaliando, ele questionou-me, mais ou menos nesses termos:
‒ Por que você esteve montada, por tanto tempo, num paradigma tradicional? ‒ Qual foi a luz que te iluminou para mudar de paradigma?
‒ Quando essa luz te ofuscou e te derrubou do cavalo, você o abandonou e seguiu ou desceu do cavalo e seguiu ao lado dele?
‒ Como você se sentiu “cavalgando” num novo paradigma?
Naquela ocasião, respondi instintivamente, mas disse exatamente o que, na minha percepção, havia ocorrido comigo. Aquele estudo para o mestrado representou uma espécie de catarse, tornando-se um divisor de águas e ressignificando o curso da minha vida em todos os aspectos. Posso ilustrar a sensação como a de um herói dos contos de fada que vence a batalha contra o mais cruel dos vilões. Sentia-me como alguém que passou por um processo de purificação do espírito e fez a travessia para o estado de libertação. Foi uma sensação de esvaziamento, de um bem-estar dialético, provocado pela visão de que a tese e a antítese estiveram em conflito por cerca de trinta anos e o movimento de síntese tivesse ocorrido naquela ocasião.
Baseando-me no que expõe Moraes (2015), posso relacionar com o acesso a um novo nível de realidade, uma vez que “a existência de um nível diferente de realidade, ou de materialidade do objeto, está associada à ruptura de lógica, de linguagem ou de princípios”
(p. 71). A resposta sobre abandonar o cavalo ou descer e seguir ao lado dele me remete, hoje, à “lógica do terceiro incluído”, compreendendo, nesse contexto, que a tese e a antítese, ainda articuladas quando estive montada no cavalo, proporcionaram-me encontrar “um terceiro mecanismo possível” (p. 72), e, a mudança para a síntese, constituiu-se uma ruptura com os princípios anteriores. Vivi o “princípio da complementaridade de Bohr” (p. 73), quando dimensões antagônicas, porém não excludentes, se articularam e me lançaram para uma terceira possibilidade.
Em Rolnik (1993, p. 10), nos deparamos com essa mesma percepção do alívio pós- ruptura, quando a autora considera que a “além do trivial caseiro do desassossego que a move e a faz criar um mundo onde encontramos um novo equilíbrio”, a escrita adquire um poder terapêutico em face do que ela chama de “marcas-ferida”. Identifico-me com Rolnik, especialmente quando ela se refere às “marcas de experiências que produzem em nós um estado de enfraquecimento de nossa potência de agir” e, que, atingindo certo limite, produz uma espécie de “intoxicação”. A escrita, por ser uma expressão direta do pensamento, adquire o poder “de penetrar nestas marcas, anular seu veneno, e nos fazer recuperar nossa potência”, como se fossem as próprias marcas a exercer o ato de escrever. Isto me leva a concordar que a catarse foi desencadeada pelo ato de imersão na escrita desse processo intenso de estudo e reverberações, confirmando a manifestação do poder da escrita, nesta perspectiva de Rolnik (1993).
Diante disto, só posso concluir que o que dá sentido à pesquisa é vivê-la no contexto da criatividade, mas, como pensou Winnicott, na concepção do brincar como experiência criativa, ou seja, simplesmente, “uma forma básica de viver” (1975, p.75). Inspirada em Winnicott (1975; 1989), percebi que reconhecer ter vivido essa experiência com a criatividade é conceber o fenômeno criativo como parte inerente da constituição e desenvolvimento humano, da nossa própria constituição como ser, visão que nos insere no caminho de encontro ao sentido do que buscamos, do que vivemos, do que fazemos e do que pesquisamos embalados e impulsionados pela liberdade.
Porém, para enxergar a luz (o sentido da mudança) é preciso que as escamas dos nossos olhos comecem a cair, o que nos exige a atitude de descer do cavalo e seguir por outras paragens. A resposta ao prof. Síveres não foi expressa somente em palavras, mas na transmutação que provocou na minha vida depois que a luz derrubou-me de um cavalo sobre o qual eu cavalgava há mais de trinta anos. E a luz que a iluminou foi gerada de uma ruptura, a partir da qual, por uma feliz escolha, fui lançada para uma nova estrada. Uma estrada ainda
pouco conhecida, mas que, de algum modo fazia sentido, e este sentido me desafiava a enfrentar muitos daqueles medos incutidos pelos meus queridos pais na tentativa de garantir uma suposta segurança diante do mundo.
Ao mesmo tempo em que tentava enfrentar e encontrar meios de desafiar os mitos e crenças metodológicas na pesquisa que realizava, enfrentava e desafiava os medos pessoais que me paralisavam. Esta percepção levou-me a constatar que a mudança de paradigma, sendo legítima e não só discursada, reflete-se e materializa-se nas experiências vividas mudando o curso de nossas histórias de vida em todos os aspectos, para além do âmbito acadêmico.
Em Sakamoto (2008, p. 268), predomina uma noção de criatividade que a situa no campo conceitual de Winnicott (1975), cuja descrição me levou a relacioná-la com esse contexto: “a criatividade, em essência, traduz a espontânea atividade de experimentação que o ser humano pratica no seu relacionamento com o mundo em que vive e encontra-se no cerne da singular individualidade de cada um”. Entendo, refletindo, hoje, sobre minhas ações nesses episódios, que ela reforça a ideia de que aspectos inerentes ao pensamento criativo tendem a levar qualquer pessoa a atitudes de inconsciente ousadia. Tais atitudes tendem a induzir-nos à superação de desafios que parecem intransponíveis, sem que isso decorra de uma intenção explícita ou de um plano elaborado.
Tenho presente lembranças de pequenas revoluções internas articulando-se entre os objetos de pânico que eu trazia dentro de mim. Depois de momentos de escuridão e concluída a travessia, dei-me conta do ponto de evolução para o qual aquele estudo havia me transportado. Senti que, de fato, a travessia pelo caminho metodológico, materializada na síntese dialógica entre dois métodos adversários na ciência e, no princípio, desconhecidos para mim, estimulou-me para assumir diferentes desafios, como um protótipo de mudança de visão de mundo e de pesquisa. Como nos inspira Guimarães Rosa,
[...] todo caminho da gente é resvaloso [...] O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza (ROSA, 1956/2005, p. 440; 448).
Parafraseando Gadotti (2003), pesquisar com sentido é pesquisar com um sonho na mente. E, o mais importante, deixar-se conduzir por esse sonho como um elemento real que põe a vida em movimento, integrando o objeto e a experiência vivida ao nosso próprio ser, na dimensão de sujeito. Respondo, hoje, chegando aos termos finais dessa nova pesquisa com cara de projeto de vida, que a luz que ofuscou a minha visão para ser derrubada do cavalo
antigo foi a luz de um cavalo novo. Porém, não se trata de uma luz que me orienta a abandonar o velho cavalo, mas a torná-lo a parte de mim geradora de contradições. Contradições que são, na visão de Scárdua (2006, p. 90), “não apenas constituintes próprias da humanidade, mas também ponto de partida para o processo educativo, para a superação e para o crescimento”.
E, assim, as contradições seguem nos constituindo e nos reconstituindo, como resultado das nossas próprias marcas. Seguimos em cavalgada, existindo por sensações, crenças e percepções que não são nossas, enquanto indivíduos, mas das marcas tatuadas pelas rupturas que optamos por dissolver, resolver ou absolver pelo caminho. E em que tudo isso tem relação com a pesquisa acadêmica? A relação está no desassossego, como se expressaria Fernando Pessoa (1988/2011), provocado por esse movimento dialógico que se chama vida.
Outros ciclos virão, porque a nossa vida não segue um padrão fixado entre o nascer e o morrer. Seguimos nos constituindo em processos de vir-a-ser, e, como uma metamorfose contínua e histórica, não nos satisfazemos com a mera contemplação de um percurso que passa aos nossos olhos (SAVELI, 2006).