DEUS E O SER
3.3 Deus e o ser-em-si na Teologia Sistemática
3.3.1 Explicações de Tillich sobre Deus e o ser
Na Introdução do Volume 2 da Teologia Sistemática, Paul Tillich faz uma nova expo- sição dos problemas levantados no primeiro volume da obra, destacando a afirmação de que Deus é o ser-em-si. Nesse contexto, o autor mostra que, ao elaborar essa afirmação, preten- dia superar o conflito entre naturalismo e supranaturalismo. Como exemplo, mostra três maneiras de se interpretar o vocábulo “Deus”: Deus como um ser, Deus como o universo e Deus como autotranscendente. Tillich opta pela compreensão de Deus como autotranscen- dente.
Em seu dizer, a primeira interpretação separa Deus, o ser supremo, dos demais seres, ao lado e acima dos quais ele tem sua existência. Segundo essa interpretação, Deus trouxe à existência o universo num determinado momento, governa-o segundo um plano, dirige-o a um fim, “interfere em seus processos ordinários para superar a resistência e cumprir seu propósito, e o conduzirá à consumação numa catástrofe final” (TILLICH, 2005, p.302). O principal argumento contrário a essa interpretação é que ela transforma a infinitude de Deus numa finitude que é meramente uma extensão das categorias da finitude. As categorias de tempo, espaço, causalidade e substância são atribuídas a Deus.
A segunda interpretação do termo “Deus” identifica Deus como o universo, com sua essência ou com poderes especiais dentro dele. Deus passa a ser o nome para designar o poder e o sentido da realidade. Ele não é identificado com a totalidade das coisas. Mas, é um símbolo da unidade, da harmonia e do poder de ser; “é o centro dinâmico e criativo da realidade” (p.302). Segundo o autor, o naturalismo moderno destruiu a qualidade religiosa do naturalismo de Scotus Erígenas e Spinoza, especialmente entre os cientistas que entende- ram a natureza somente em termos de materialismo e mecanismo. Entretanto, a filosofia, na medida em que se tornou positivista e pragmática, necessitou dessas afirmações sobre a na- tureza como um todo. O principal argumento contra o naturalismo é que ele nega a distância infinita entre a totalidade das coisas e seu fundamento infinito, de modo que o termo “Deus” pode ser substituído pelo termo “universo”, o que torna o naturalismo semanticamente su- pérfluo.
A terceira interpretação, de acordo com Tillich, não é nova. Teólogos como Agosti- nho, Tomás de Aquino, Lutero, Zwínglio, Calvino e Schleiermacher já haviam trilhado esse
caminho, porém não até o fim. Essa tendência afirma que Deus é o fundamento criativo de tudo o que tem ser, isto é, o poder infinito e incondicional do ser. A diferença dessa compreensão com o naturalismo é que Deus, como fundamento, transcende infinitamente aquilo de que ele é o fundamento. “Ele está contra o mundo, na medida em que o mundo está contra Ele, e está a favor do mundo, possibilitando assim que o mundo esteja a favor Dele” (p.203). Essa liberdade mostra a transcendência de Deus e o modo como o mundo finito aponta para além de si mesmo. Segundo o autor, “o mundo é autotranscendente” (p.203). Tillich também aponta que o êxtase, como estado da mente, é o correlato exato da autotranscendência como estado da realidade. Em outras palavras, essa compreensão auto- transcendente de Deus expõe um encontro extático com o sagrado, “experiência que trans- cende a experiência comum sem anulá-la” (p.303). Ademais, o autor diz que a transcendên- cia divina é idêntica à liberdade da criatura de se afastar da unidade essencial com o funda- mento criativo de seu ser. Essa compreensão torna impossível o panteísmo e a noção de um ser supremo paralelo ao mundo. Segundo o autor, essa compreensão de Deus está presente em todo seu sistema teológico.
Se Deus como fundamento do ser transcende infinitamente tudo o que é, seguem-se duas conseqüências: primeiro, tudo o que sabemos sobre um ser finito, sabemos também sobre Deus, porque todas as coisas finitas estão enraizadas em Deus como seu fundamento; segundo, nada do que sabemos sobre um ser finito pode ser aplicado a Deus, porque ele é, como dissemos, o “totalmente outro” ou, se quisermos, o “extaticamente transcendente” (TILLICH, 2005, p.304).
A unidade dessas conseqüências divergentes, no dizer do teólogo, é o conhecimento simbólico ou analógico de Deus. Um símbolo religioso usa o material da experiência cotidi- ana para falar de Deus, mas acaba afirmando e negando o sentido comum do material que usa. Com efeito, todo símbolo religioso nega-se a si mesmo em seu sentido literal e, ao mesmo tempo, se afirma em seu sentido autotranscendente. Diferentemente do sinal, o sím- bolo participa da realidade que simboliza. Portanto, “tudo o que a religião afirma sobre Deus, inclusive suas qualidades, ações e manifestações, tem um caráter simbólico” (p.205). Ora, se dissermos que tudo o que a religião afirma sobre Deus é simbólico, então, essa as- serção é uma declaração sobre Deus que, em si mesma, não é simbólica. No entanto, se fa- zemos uma afirmação não simbólica sobre Deus, parece que colocamos em perigo seu cará- ter transcendente e extático. Tillich diz que essa é uma dificuldade que reflete a situação humana com respeito ao fundamento divino do ser. Embora o ser humano esteja realmente
separado do infinito, ele não poderia estar consciente disso se não participasse potenci- almente do infinito.
Quando se afirma que Deus é o infinito, o incondicional ou o ser-em-si, fala-se racio- nal e extaticamente, pois, segundo Tillich, esses termos “designam precisamente a linha divisória em que coincide o simbólico e o não-simbólico. Até esse ponto, toda afirmação é não-simbólica. Além desse ponto, toda afirmação é simbólica” (p.305). O ponto em si, po- rém, é simbólico e não-simbólico concomitantemente. Essa situação constitui a expressão conceitual da situação existencial do ser humano. É, sobretudo, a condição para a existência religiosa do ser humano e para sua capacidade de receber a revelação.
Na obra Ultimate concern, no terceiro diálogo, Paul Tillich diz “esse „ser‟ não apenas existe e não é apenas essencial, mas transcende essa diferenciação, que pertence à finitu- de”68. Além disso, segundo o autor, sempre que usamos termos simbólicos como “funda-
mento do ser” expressamos a experiência de algo que nos preocupa ultimamente; que subjaz a tudo o que existe e que é seu fundamento criativo (ou sua unidade de formação); e que não pode ser definido para além desses termos negativos.
Ao ser questionado se seus conceitos são sem sentido, o autor responde que só é pos- sível dizer que essas afirmações são realmente sem sentido se alguém não tem a experiência pessoal de ser tomado por uma preocupação última ou de algo incondicional. Se alguém tiver tido uma experiência dessas, conscientemente, mesmo utilizando terminologia diferen- te, então ele entende que a tentativa de falar sobre isso é uma tentativa de dizer sim e não ao mesmo tempo. A mente e a definição somente apontam para ela, mas sem a experiência pessoal não é possível falar em preocupação última.
De acordo com Tillich, o termo “fundamento do ser” é necessário, pois esse termo preserva o elemento metafórico do conceito.
Fundamento é, obviamente, uma metáfora. E isso é uma metáfora que realmente chama a atenção para a idéia de criação, o símbolo da criação. Eu tenho usado este termo, hoje tão frequentemente utilizados no atual debate teológico, porque tem lógica e poder metafórico69.
68
TILLICH, Paul. Ultimate concern – Tillich in dialogue by D. Mackenzie Brown (1965), Online edition: <http://www.religion-online.org/showbook.asp?title=538>, Bison Press edition. Terceiro diálogo.
69 Cf. TILLICH, Paul. Ultimate concern – Tillich in dialogue by D. Mackenzie Brown (1965), Online edition: