GRUPO III Lê com atenção o excerto que se segue.
4. Explicita o sentido da última frase de Matilde.
B
Na contracapa da edição da Areal Editores da obra Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Mon- teiro, podem ler-se as seguintes palavras:
“[…] a peça Felizmente Há Luar!, publicada em 1961 […], esteve proibida pela censura durante muitos anos. Só em 1978 foi pela primeira vez levada à cena, no Teatro Nacional […].”
Fazendo apelo à tua experiência de leitura, comenta, num texto de oitenta a cento e trinta palavras, o enunciado acima transcrito, explicando as razões dos factos aí mencionados.
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Todos somos Cristo, Reverência, e todos começamos pela espe- rança de que se realize o que há de Cristo em cada um de nós.
A uns mata-lhes a vida a esperança, a outros matam-na os que em seu nome falam, tendo-a já perdido…
Mas há quem escape, Reverência, quem chegue ao fim da vida com o seu Cristo tão intacto como no dia em que nasceu.
Esses morrem na forca ou apodrecem nas prisões, não vá a sua presença incomodar a burocracia de Deus!
[…] 20 pontos 15 pontos 20 pontos 15 pontos 30 pontos 35 40
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GRUPO II Lê o texto que se segue.
Conhecemos a Guidinha num domingo à tarde, em casa da avó Paula, pela mão do nosso Pai, aliás, pela voz dele porque, nessa altura, em 1969, quando a Guidinha come- çou a escrever ainda a Clara e eu não sabíamos ler. Essa leitura em voz alta, saboreada vezes três, tornou-se num ritual aguardado semanalmente com curiosidade e entu- siasmo. Mais tarde, aprendidas as letras, ganhámos desenvoltura e vocabulário da melhor maneira: a sorrir!
Graças à Guidinha, soube pela primeira vez que existia um bairro chamado Graça, onde fui parar em crescida e ainda moro radiante. Também por isso, vai para dez anos, aprendi a descortinar sentidos na ausência deliberada de pontuação cultivada com mestria pela língua afiada de Luís Sttau Monteiro (1926-93) e generosamente posta ao serviço da sua lucidez crítica, em tempos de censura – o ignóbil lápis azul – pude acei- tar trinta e tal anos mais tarde este saboroso desafio duplo: o do mergulho retrospetivo numa infância feliz vivida em estereofonia e na atribulada história recente de Portugal que a minha geração só pôde decifrar a posteriori.
[…]
A Guidinha com graça em plena Ditadura no tempo das Conversas em Família, de Marcelo Caetano, do Se Bem Me Lembro, de Vitorino Nemésio, da pasta medicinal Couto, do restaurador Olex, do creme desodorizante Bily, do Cartaz TV, do TV Rural, dos pastéis de bacalhau sem bacalhau, do E a Vida Continua, do folclore popular e tele- visivo, com ou sem Pedro Homem de Mello, do Museu de Cinema mudo com Lopes Ribeiro e António Melo, à voz e ao piano muitos artistas de variedades, outras tantas metáforas do país amordaçado […].
Entre 1969 e 1980, primeiro no suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa, pela mão do “padrinho” Cardoso Pires, depois em O Jornal, pela mão afável de Afonso Praça, graças ao talento de Luís Sttau Monteiro, antes a Guidinha emprestou a sua voz infantil aos que não tinham voz, porque às crianças mais facilmente se perdoa o não terem papas na língua… embora, nessa altura, nem sequer fosse permitido festejar o Dia Mundial da Criança. Depois, quando as vozes se levantaram, e por vezes se confun- diram, a Guidinha em trânsito sobreviveu teimosamente, mostrando que continuava atenta, sem condescendências...
Grata à Guidinha, pois, também porque, pelo caminho, encontrei outros “grilos” desenhados que podiam ser primos dela, o Astérix, a Mafalda, o Calvin, mas só pude reconhecê-los por a ter conhecido tão cedo...
Quase vinte e cinco anos depois da última “Redação da Guidinha”, muitas idiossin- crasias persistem, mas o sentido de oportunidade da partilha mantém-se, para que a Guidinha nos lembre sempre que a amargura e a deceção que os regimes mais ou menos musculados suscitam pode ser transformada de maneira construtiva num
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sarcasmo metódico que aposta em pôr-nos a nu através do ridículo tão temido, quando muitos insistem em gabar-nos os fatos.
Antes e depois, como nas dietas, fora e dentro, como nas viagens... Abrir e fechar os olhos e a boca... Resistir e acreditar, sorrindo!
Helena De Gubernatis, in Luís de Sttau Monteiro – A Guidinha antes e depois, (“Da arte de driblar a Censura”), O Independente, 2004 (adaptado, com introdução de pontuação)
1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1. a 1.7., seleciona a única opção que permite obter uma afirmação correta. Escreve, na folha de respostas, o número de cada item e a letra que identifica a opção escolhida.
1.1. A autora e a irmã conheceram a Guidinha, na infância,
(A) quando a visitavam pela mão do pai.
(B) quando o pai lhes lia as suas redações.
(C) depois de lerem três vezes as suas redações.
(D) quando aprenderam a ler e a escrever.
1.2. A expressão “Graças à Guidinha […]” (l. 7 ) configura uma modalidade
(A) deôntica.
(B) apreciativa.
(C) epistémica.
(D) com valor de permissão.
1.3. Na linha 8, “onde”, em “[…] onde fui parar em crescida […]”, introduz uma oração
(A) subordinada substantiva relativa sem antecedente.
(B) subordinada substantiva completiva.
(C) coordenada explicativa.
(D) subordinada adjetiva relativa explicativa.
1.4. O segmento “[…] com mestria […]” (ll. 9-10) assume a função sintática de
(A) modificador da frase.
(B) complemento oblíquo.
(C) modificador do grupo verbal.
(D) complemento do adjetivo.
1.5. Em “[…] posta ao serviço da sua lucidez crítica […]” (ll. 10-11), o segmento sublinhado desempenha a função de
(A) complemento do nome.
(B) modificador restritivo do nome.
(C) modificador apositivo do nome.
(D) complemento oblíquo. 5 pontos 5 pontos 5 pontos 5 pontos 5 pontos 40
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1.6. Com a expressão “[…] outras tantas metáforas do país amordaçado […]” (ll. 20-21), o autor pretende
(A) criar a imagem de um Portugal de poetas.
(B) referir a ausência de liberdade de expressão.
(C) explicar a mediocridade cultural do país.
(D) referir-se às prisões políticas da ditadura.
1.7. Nas linhas 33 e 34, o vocábulo “idiossincrasias” significa
(A) atitudes de despotismo.
(B) bandas desenhadas.
(C) atividades culturais.
(D) características peculiares.
2. Responde de forma correta aos itens apresentados.
2.1. Indica o valor da expressão indefinida “[…] numa infância feliz […]” (l. 13).
2.2. Classifica a oração “[…] embora, nessa altura, nem sequer fosse permitido […]” (l. 26).
2.3. Classifica o sujeito de “[…] e por vezes se confundiram […]” (ll. 27-28).
GRUPO III Lê com atenção o excerto que se segue.
“O nosso problema grande é estarmos convencidos que os problemas deles [dos vizinhos/ dos outros] não nos dizem respeito. A nossa tragédia é acharmos que não temos nada a ver com isso.”
José Luís Peixoto, “Somos a primeira pessoa do plural”, in revista Visão, 8 a 14 de dezembro de 2011
Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas pala- vras, apresenta uma reflexão sobre o que é afirmado no excerto transcrito relativamente ao individualismo do ser humano.
Para fundamentar o teu ponto de vista, recorre, no mínimo, a dois argumentos, ilustrando cada um deles com, pelo menos, um exemplo significativo.
5 pontos 5 pontos 5 pontos 5 pontos 5 pontos 50 pontos TOTAL: 200 pontos
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GRUPO I A Lê o texto que se segue.
[…] Quando Baltasar entra em casa, ouve o murmúrio que vem da cozinha, é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma, ora outra, mal se conhecem e têm tanto para dizer, é a grande, interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pen- sam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fosse falarem as mulheres umas com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta, Deite-me a sua bênção, minha mãe, Deus te abençoe, meu filho, não falou Blimunda, não lhe falou Baltasar, apenas se olharam, olharem-se era a casa de ambos.
Há muitos modos de juntar um homem e uma mulher, mas, não sendo isto inven- tário nem vademeco de casamentar, fiquem registados apenas dois deles, e o primeiro é estarem ele e ela perto um do outro, nem te sei nem te conheço, num auto de fé, da banda de fora, claro está, a ver passar os penitentes, e de repente volta-se a mulher para o homem e pergunta, Que nome é o seu, não foi inspiração divina, não perguntou por sua vontade própria, foi ordem mental que lhe veio da própria mãe, a que ia na procis- são, a que tinha visões e revelações, e se, como diz o Santo Ofício, as fingia, não fingiu estas, não, que bem viu e se lhe revelou ser este soldado maneta o homem que haveria de ser de sua filha, e desta maneira os juntou. Outro modo é estarem ele e ela longe um do outro, nem te sei nem te conheço, cada qual em sua corte, ele Lisboa, ela Viena, ele dezanove anos, ela vinte e cinco, e casaram-nos por procuração uns tantos embaixado- res, viram-se primeiro os noivos em retratos favorecidos, ele boa figura e pelescurita, ela roliça e brancaustríaca, e tanto lhes fazia gostarem-se como não, nasceram para casar assim e não doutra maneira, mas ele vai desforrar-se bem, não ela, coitada, que é honesta mulher, incapaz de levantar os olhos para outro homem, o que acontece nos sonhos não conta.
Na guerra de João perdeu a mão Baltasar, na guerra da Inquisição perdeu Blimunda a mãe, nem João ganhou, que feitas as pazes ficámos como dantes, nem ganhou a Inquisição, que por cada feiticeira morta nascem dez, sem contar os machos, que tam- bém não são poucos. Cada qual tem sua contabilidade, seu razão e seu diário, escritura- ram-se os mortos num lado da página, apuram-se os vivos do outro lado, também há modos diferentes de pagar e cobrar o imposto, com o dinheiro do sangue e o sangue do dinheiro, mas há quem prefira a oração, é o caso da rainha, devota parideira que veio ao mundo só para isso, ao todo dará seis filhos, mas de preces contam-se por milhões, agora vai à casa do noviciado da Companhia de Jesus, agora à igreja paroquial de S. Paulo, agora faz a novena de S. Francisco Xavier, agora visita a imagem de Nossa Senhora das Necessidades, agora vai ao convento de S. Bento dos Loios, e vai à igreja paroquial da Encarnação, e vai ao convento da Conceição de Marvila, e vai ao convento de S. Bento da Saúde, e vai visitar a imagem de Nossa Senhora da Luz, e vai à igreja do Corpo Santo, e vai à igreja de Nossa Senhora da Graça, e à igreja de S. Roque, e à igreja
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da Santíssima Trindade, e ao real convento da Madre de Deus, e visita a imagem de Nossa Senhora da Lembrança, e vai à igreja de S. Pedro de Alcântara, e à igreja de Nossa Senhora do Loreto, e ao convento do Bom Sucesso, quando está para sair do paço às suas devoções rufa o tambor e repenica o pífaro, não ela, claro está, que ideia, uma rainha a tamborilar e a repenicar, põem-se em ala os alabardeiros, e estando as ruas sujas, como sempre estão, por mais avisos e decretos que as mandem limpar, vão à frente da rainha os mariolas com umas tábuas largas às costas, sai ela do coche e eles colocam as tábuas no chão, é um corrupio, a rainha a andar sobre as tábuas, os mariolas a levá-las de trás para diante; […]
José Saramago, Memorial do Convento, 50.ª ed., Caminho, 2011
Apresenta, de forma clara e bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.
1. Identifica as diferentes vozes do texto e delimita os segmentos textuais que lhes