1.2 O OBJETO DE ESTUDO: HISTORICIDADE ECOLÓGICA DAS VIOLÊNCIAS
1.2.2 Explorando Textos que Abordam as Violências, Interpretando Mundos
As dimensões contemporâneas das violências, tais como a estrutural, a simbólica, a cultural, a étnica, a de gênero, a do Estado e a urbana, são causadas por interações entre diferentes variáveis: etnia, religião, migrações, identidades, globalização da sociedade civil e domínios dos grandes blocos econômicos. Tais interações acontecem no cenário mundial sem que haja uma necessária civilização da ética global. Todas essas dimensões conferem um caráter único e específico ao fenômeno das violências, o que requer cuidado na generalização dos dados das diversas pesquisas publicadas na área. Nesse sentido, afirma-se que os debates acerca das violências não devem possuir caráter universal, mas considerar as particularidades de cada cultura, de cada região, de cada realidade social e
econômica e, assim, contribuir para a formulação de políticas de enfrentamento às violências em nível local.
Stanko21 chama a atenção para a ambiguidade do termo “violência” e conclui que o significado dele repousa sobre a convergência de interações, contextos sociais e espaciais, a cultura e uma diversidade de variáveis. Ele é fluido e moldado por diferentes atores na tentativa de descrever a complexidade dos eventos, dos sentimentos e da injúria provocados pela violência. Quiçá por isso o destaque que o tema recebe, pela sua “onipresença” na vida norte-americana e sua “presença endêmica” na comunidade global, gerando até o pensamento nas implicações de uma crescente obsessão da civilização pós-moderna com o tópico da violência22.
A diversidade de definições de violência pode estar relacionada à complexidade dos mecanismos de construção de significado da palavra e suas derivações, à amplitude e ao fato de que cada área de conhecimento analisa o problema a partir de recortes especiais de caráter disciplinar. Pode, ainda, estar associada à dificuldade de entendimento da ambiguidade interpretativa do tema, que requer rejeição de definições estáveis e permanentes. Com isso, conceitos de violência e comportamentos violentos, geralmente pesquisados numa variedade de perspectivas – filosófica, sociológica, psicológica, moral e biológica –, mesmo quando estudados numa ótica interdisciplinar, enfrentam dificuldade semântica, ideológica e hermenêutica. Wieviorka23 alerta para a dificuldade de apresentar a violência de maneira objetiva devido ao fato de ela ser um fenômeno altamente subjetivo.
Esse fenômeno multidimensional e subjetivo é também marcado pela variação decorrente da cultura de cada sociedade e das relações de gênero prescritas nos códigos sociais. As violências cometidas pelos parceiros íntimos acompanham as sociedades, atravessando épocas e eras nas mais diversas condições da existência humana e da sistematização do conhecimento acerca dos processos de masculinidades e feminilidades sociais. Nesse sentido, a definição de violência não é universal nem possui uma “existência” em si. As VBGs são analisadas como algo que precisa ser visualizado e descrito em cada sociedade. Enfim, a violência deve ser referida como um conceito polissêmico que se constrói e se define no código civil, penal e nas práticas e valores sociais das organizações. Michaud24 afirma que é preciso admitir que não existe um discurso universal sobre a
violência, ainda que alguns valores recebam ampla adesão de diversos grupos humanos. Cada sociedade lida com o fenômeno segundo seus próprios critérios e administra seus problemas de acordo com a diversidade de suas normas jurídicas e institucionais. Boulding,25 tratando das dimensões da violência, propõe as seguintes categorias:
Estrutural
É aquela advinda da conduta política do Estado e seus governantes ao privilegiar alguns grupos em detrimento de outros, definindo políticas públicas frágeis, as quais não combatem as desigualdades e terminam por contribuir com a exclusão. Origina-se no sistema social e fecunda as desigualdades e suas diversas manifestações. Constitui-se na violência presente em uma sociedade estruturalmente corrompida e afetada profundamente pelo egoísmo, que é evidenciado na tendência ilimitada à acumulação e ao excesso. É a explosão da individualidade no limite, a serviço do prazer sem compromisso nem responsabilidade em relação ao outro ou à sustentabilidade das gerações futuras. Trata-se, enfim, da violência em uma sociedade marcada pela frieza, indiferença e insensibilidade, que coloca em primeiro lugar seus objetivos imediatos, na corrida pela acumulação do lucro e na soberba do poder.
Neste ponto, cada um de nós é convidado a sentir-se responsável por essa rota de colisão em que embarcamos na modernidade. Enquanto permanecermos procurando culpados apenas no anonimato da “sociedade” e do “Estado”, não nos veremos como protagonistas no processo de reversão da rota. Somos consumidores e atores no palco das violências; quanto mais rápido nos conscientizarmos disso, mais profundo será o nosso olhar para compor um cenário de mudança. Os deveres que temos uns para com os outros também fazem parte dos direitos que reivindicamos para o binômio nós/eles, ou melhor, estabelecidos/outsiders (os de fora).
Beck26, discutindo a sociedade global do risco, afirma que, nessa sociedade, uma minoria enriquece cada vez mais, com 5% dos mais ricos retendo 85% da riqueza mundial; paralelamente, 5% dos mais pobres da população global são depositários de uma parcela de 1,4% dessa riqueza. Só esses números já nos fornecem uma imagem da organização das relações de poder. Este é exercido à
custa da democracia, ou às margens dela, e estabelece no limite as regras e os rumos das economias e das políticas, que não são nem de redistribuição de rendas, nem de proteção social.
Cultural
É a violência presente na cultura de um povo, na manifestação de seus preconceitos e na estruturação de seus valores (racismo, machismo, entre outros). Trata-se da tolerância a relacionamentos violentos e desumanos baseados na incivilidade. Nesse sentido, uma cultura violenta pode “educar” as gerações a expressar pública e privadamente os mecanismos de poder e dominação de uns sobre outros. As gerações expressam os mecanismos de poder e dominação pelo uso da força, como acontece no caso das violências praticadas por parceiros íntimos e seu impacto nos membros da família.
Numa perspectiva cultural, Gomes,27 pesquisando sobre a transmissão psíquica da violência conjugal, demonstra o estabelecimento das relações de poder na família. Ele explica que conteúdos violentos são transmitidos de maneira intergeracional, o que inclui um espaço de metabolização do material psíquico, e transgeracional, como um fato psíquico inconsciente que atravessa diversas gerações.
De resistência
É manifestada pelos grupos oprimidos e subjugados como resposta à violência estrutural e cultural sofrida ao longo do processo histórico de suas lutas (negros, sem-terra, entre outros). As causas desse tipo de violência têm se difundido, e a luta contra os preconceitos raciais, por exemplo, tem avançado no cenário contemporâneo. O que se vem questionando são os meios, ou seja, o uso da violência contra a violência. A violência gera não-sujeitos, e seu emprego como forma de resistência tem sido gradualmente deslegitimado. O princípio da não violência é o caminho defendido.
De delinquência
É expressa nas formas mais visíveis ao senso comum, como em crime contra o patrimônio, roubo, assalto e sequestro. A delinquência permite uma visualização
das violências sob a ótica da criminalidade e dos conflitos com a lei. Essa dimensão de criminalidade da violência se tornou central na pauta da mídia, assumindo uma presença excessiva nos programas e jornais que iluminam o palco das cidades e deixam muito pouco facho de luz para os gestos de solidariedade ainda presentes. A matéria-prima da violência criminal se tornou um produto muito valioso, pois garante audiência crescente. A sociedade do espetáculo consome esse produto e, ao mesmo tempo, é consumida pela insegurança e pelo medo. Todo esse excesso de cobertura midiática da violência como criminalidade termina por reforçar uma equivocada equação unidirecional: pobreza-desemprego-violência.
Lipovetsky28 esclarece que, devido ao processo de civilização, somente recentemente a violência se tornou um problema central para a humanidade, mesmo tendo estado presente em toda a história humana. Ações que eram percebidas como inevitáveis na ordem de um mundo regido durante milênios pelos códigos da honra e da vingança, como aconteceu com as sociedades “selvagens”, passaram a ser indesejáveis e combatidas pelas sociedades democráticas.
As violências têm sido classificadas, ainda, segundo o efeito que provocam sobre as pessoas convivendo no espaço urbano ou no campo e suas interferências no tecido social, como manifestações urbanas ou rurais. O fato é que, na modernidade, há uma intensificação da urbanização, que tem gerado um número crescente de problemas relacionados à qualidade das condições de vida das pessoas. A precariedade do espaço urbano tem sido descrita como uma das faces da globalização, em cujo bojo reside o desmantelamento do Estado de bem-estar social e a regulação do mercado pelo mercado. Este, por sua vez, é controlado pelo excesso e pela acumulação de poucos em detrimento da precarização das condições de vida de muitos. O que se tem observado no cenário local e em partes do cenário global são os índices recordes de desigualdade social e as negações da vida, com a presença da fome oculta, dos holocaustos nacionais e raciais e das violências29.
Outra tendência percebida na modernidade é a interiorização da violência, com a penetração do crime organizado para além das fronteiras das grandes cidades, atingindo as regiões metropolitanas consideradas periféricas. Essas regiões são marcadas pela degradação ambiental e pela insuficiência dos equipamentos urbanos. A ocupação desse espaço por uma camada populacional
pobre e vulnerável tem sido acompanhada por indicadores que demonstram a insegurança social, configurando um fenômeno chamado de “periferização da pobreza”. Assim, a maior batalha no Brasil não é contra os criminosos e os agentes da violência, mas sim contra a pobreza e a iniquidade social, bem como contra a insegurança produzida por elas num cenário de desemprego e de expansão da economia informal – que, em algumas ocasiões, é subsidiada pelo crime organizado30.
Alves, em um estudo sobre a vulnerabilidade socioambiental da cidade de São Paulo, afirma que não é por acaso que as áreas de risco e degradação ambiental também costumam ser áreas de pobreza e privação social31. Embora a criminalidade se distribua por todas as camadas populacionais, os crimes variam de pequenos delitos e furtos, numa escala micro, até grandes furtos, numa escala analítica da corrupção sistêmica instalada na macroestrutura social, onde se inclui a máquina estatal. Temos crimes dos “sem colarinho” e crimes “de colarinho”, cujas cores variam do branco ao azul – ainda que se observe uma correlação positiva entre baixa renda e elevada criminalidade em determinados espaços, marcados pela escassez de recursos destinados a infraestrutura e equipamentos urbanos.
O enfrentamento da escalada de violências no Brasil passa pelo desenvolvimento socioeconômico do país, bem como dos demais países da América Latina, que apresentam as maiores desigualdades sociais e econômicas do mundo. No caso brasileiro, assiste-se ainda a um escalonamento da corrupção – tido por alguns não como escalonamento, mas como uma maior visibilidade do fenômeno, que antes se ocultava sob o tapete do regime não democrático.29 Observa-se também um crescimento da capacidade expansionista do crime organizado, com suas operações na esfera econômica, social e política32. Além desses fatores, verifica-se uma fragilização da segurança pública e do sistema penal brasileiro, que, em repetidas ocasiões, deu sinais da necessidade de reestruturação devido ao crescimento da impunidade e à consequente diminuição dos mecanismos de controle social e coerção da violência.
Peralva descreve a crescente coexistência da violência e da democracia como o “paradoxo brasileiro” e ressalta que a incapacidade do Estado de garantir a ordem pública delineou o quadro dos novos conflitos socioculturais e fertilizou novas formas de violência29. Nessa mesma direção, Machado da Silva, ao pensar a
violência urbana, apresenta o surgimento de uma sociabilidade violenta, cujo princípio de organização é a utilização da força33. Ainda que as considerações desses teoristas não sejam específicas ao campo da violência cometida por parceiro íntimo, suas implicações abarcam o plano das práticas cotidianas dos agentes sociais, que com frequência se encontram diante das múltiplas faces das violências contra a mulher. Esse tipo de violência não pode ser isolado como tema, ainda que possua um perfil específico. Ele precisa ser visto dentro de um contexto maior de violência urbana, real e socialmente representada.
Chesnais afirma que a escalada da violência brasileira, tanto real como simbólica, choca e gera um profundo sentimento de insegurança. Este também é provocado pela desintegração do tecido social, levando a um mal-estar coletivo e a um desregramento das instituições públicas34. A magnitude e a intensidade da violência social brasileira, expressas por intermédio dos indicadores epidemiológicos e criminais, possuem um crescimento superior àquele presente em países em estado de guerra32. Embora vivamos um mito de país pacífico, sem guerra oficial declarada, labutamos cotidianamente com os espólios e as consequências de uma “guerra” gerada pela crescente exclusão social e pela desigualdade de acesso a elementos básicos da sobrevivência.
Para encerrar essa sucinta revisão do complexo fenômeno das violências, gostaríamos de atrelar os tópicos discutidos a um quadro pintado em palavras pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Como um artista, ele desenha um cenário um tanto quanto sombrio dos efeitos da modernização que produz, cada vez mais, o que ele chama de “refugo humano”:
As causas da exclusão podem ser diferentes, mas, para aqueles situados na ponta receptora, os resultados parecem ser quase os mesmos. Confrontados pela intimidante tarefa de ganhar os meios para a sobrevivência biológica, enquanto se vêem privados da autoconfiança e da auto-estima necessárias para a sustentação da sobrevivência social, eles não têm motivos para contemplar e saborear as distinções sutis entre o sofrimento planejado e a miséria por descuido. [...] Seja por uma sentença explícita ou por um veredicto implícito, mas nunca oficialmente publicado, tornaram-se supérfluos, imprestáveis, desnecessários e indesejados, e suas reações, inadequadas ou ausentes, transmitem a censura de uma profecia auto-realizada35: 54.
Viver na contemporaneidade significa acompanhar de perto – mas, de fato, bem de longe – as situações caóticas de inúmeros grupos sociais e a luta pela sobrevivência – de vidas que apenas aguardam o destino da exclusão. E significa
assistir aos espetáculos e às ruínas nas cidades, bem como às disputas pelas terras e pela sobrevivência no campo. Significa acompanhar as guerras étnicas e religiosas, os atos terroristas, a destruição de inteiras regiões via desastres “naturais”.
Em tempos de rápidas mudanças, é pertinente uma percepção da complexidade de fenômenos que se acumularam no tempo. Os autores citados nesta breve reflexão, bem como outros de importância reconhecida, apenas pavimentaram a estrada. Este breve levantamento do fenômeno da violência problematizado por autores clássicos e contemporâneos serviu como um delineador das múltiplas nuances envolvidas em uma macro e microescala de localização do fenômeno. Não se pretendeu realizar um trabalho completo sobre a temática dos implementos da violência nas interações humanas, mas uma introdução à reflexão sobre alguns conceitos e construtos teóricos que serão úteis no decorrer da análise dos dados. Buscamos inventariar algumas postulações teóricas que têm contribuído para a discussão da violência na estruturação do social e do político e servido de referencial para ajudar a perceber a presença de violência nas interações humanas, em especial nas relações íntimo-afetivas das mulheres.