4.2 DISCURSO DA REALIDADE VIVIDA PELAS MULHERES
4.2.3 Violências Silenciosas ou Silenciadas?
4.2.3.1 Discurso do Sujeito Coletivo 15
Idéia Central: A violência não é invisível à família
EM BRIGA DE MARIDO E MULHER A FAMÍLIA NÃO ESTÁ METENDO A COLHER
Minha tia foi espancada muitas vezes pelo marido e quando ela estava grávida, ela foi amarrada e queimada. Ela tem um coágulo de sangue no cérebro e já quebrou a perna de tanto apanhar do meu tio que é um policial, policia militar. Ele não deixava ir ao hospital, pois ele era policial e podia dar problema. Meu tio esfaqueou a esposa porque ela estava traindo ele. Hoje ele esta na cadeia.
Você tinha que fazer essa entrevista com minha irmã. Você ficaria assustada com o que ela te contaria da violência que ela sofre com o marido. Minha irmã mais velha apanha muito do marido há muito tempo. Uma vez, ela levou um soco tão grande que ficou com o olho roxo por muito tempo. De fato, minhas duas irmãs já apanharam dos maridos. Uma delas sofreu um atentado quando o marido tentou sufocar ela. Quando ela chegava da rua, ele ficava cheirando ela, cheirando a calcinha dela. Minha irmã casou com um homem que bate nela até dizer chega.
Minha mãe e meu pai foram forçados pela família a se casarem. Minha mãe conta que ele estuprava menina nova que morava perto da casa dele, mas a policia nunca pegou ele. Minha mãe fugiu do meu pai porque ele era meio doido e batia nela. Isso afetava todo mundo da casa. Nós morávamos em Cuiabá e tivemos que vir com minha mãe fugida aqui para Brasília. Minha mãe veio só com as malas e deixou tudo para trás. (...) Ela arranjou um namorado que judiou muito dela, ele batia nela com fio de energia e ameaçava bater em mim se eu chamasse a policia. Uma vez, ele bateu e pôs ela pelada para correr na rua com a arma para matá-la. Atirava nos dedos dela e colocava a arma na boca dela e dizia que ia atirar.
Minha cunhada vive apanhando do marido dela. Eu nunca apanhei de marido, só do meu pai. Ele me bateu muitas vezes depois que eu já era grande. Meus irmãos batem muito nas mulheres deles. Eu me lembro que meu pai bebia muito e
batia muito em minha mãe. Eu me lembro de tudo e minha mãe nega até hoje, pois acho que ela quer esquecer.
A esposa do meu sobrinho foi espancada e eu levei ela na delegacia de policia. Ontem ele bateu de novo nela e foi preso. Comigo nunca teve violência, mas minha prima vive apanhando do marido. Ela é vitima de violência!
4.2.3.2 Discurso do Sujeito Coletivo 16
Idéia Central: As violências cometidas por Parceiros íntimos testemunhadas pelos filhos
OS FILHOS POR TESTEMUNHAS
Meu pai batia muito na minha mãe. Isso afetava todo mundo da casa. Ela apanhou demais de meu pai. Ele já quebrou o braço dela e deixou o rosto dela deformado. Meu pai era tão agressivo que ele batia até na policia. Ele era muito violento com minha mãe e ele já apontou uma arma para ela. Ela apanhava dele e mudou para outra cidade. Aí, a amante do marido da minha mãe me pirraçava e passava em frente daqui de casa olhando para dentro e vigiando.
Quanto a mim, já apanhei e fui ameaçada muitas vezes. Um dia meu marido jogou um brinquedinho do meu filho na minha cabeça porque ele queria sair comigo e eu não quis. Sangrou muito e ele me levou para o hospital. Outra vez ele jogou leite quente em mim e meu filho de 3 anos viu. Eu corri e chamei a policia. Meu marido me batia, colocava o revolver na minha cabeça quando eu não deixava usar minha casa como ponto de venda da droga. Meus filhos viam tudo. Ele falava para meus filhos que eles iam ser aviãozinho e traficar droga para ele. Além disso, um dia meu filho ouviu no bar que ele ia me matar naquela noite (...) ele foi para me chutar e acertou meu filho de seis anos que estava dormindo comigo. Ele acertou no nariz dele e quebrou. Foi tanto sangue que vazou no colchão todo. Numa outra ocasião, eu estava com um short curto e meu marido pediu para eu tirar. Eu respondi que só ia fazer uma vitamina para meu filho e já ia tirar. De repente, ele sem falar nada, bateu em mim com o facão e cortou minha mão (olha aqui as marcas), saiu tanto sangue que meu filho de três anos foi enxugar o chão.
Da outra vez, nós estávamos conversando – eu, minha filha e meu marido- ele estava bêbado. Ele de repente deu um murro em mim e minha filha deu um grito e saiu correndo. Ele pegou minha filha e puxou os cabelos dela. Ela levou um susto tão grande que passou uns três dias sem conversar com ele. Ela só tem sete anos!
Sabe, as brigas eram na frente dos meus filhos. Meu filho nunca esqueceu o dia que meu marido jogou o copo e cortou a minha perna. Hoje, meu filho tem cinco anos e diz que se o pai me pegar de novo ele vai matar o pai.
4.2.3.3 Discurso do Sujeito Coletivo 17
Idéia Central: Denuncias não ouvida da criança
QUANDO A CRIANÇA FALA E O CUIDADOR CALA
Eu contava pra mãe, mas ela não acreditava. Ela demorou a fazer alguma coisa, pois tinha medo do meu pai. Eu queria chamar a policia, mas minha mãe não deixou. Eu falei pra minha tia e depois para minha mãe, mas elas disseram que ele era meu tio e que ele não tinha coragem de fazer isso e que eu estava mentindo. Então, eu contei para minha mãe e primeiro ela não acreditou e aí eu contei para minha irmã de 38 anos e ela me levou para a delegacia. Eles me levaram para fazer exame no IML e comprovaram o abuso. Logo quando eu contei para minha mãe, ela disse que eu estava sonhando. Depois de um tempo, ela mesma pegou ele fazendo isso comigo e o mandou embora. Ela só acreditou depois que viu. Minha mãe não fez nada, pois ela nunca gostou da gente. Se eu contasse para minha mãe adotiva, eu é que ia ficar como mentirosa, pois ela não ia acreditar em mim. Minha mãe sabia e não fazia nada!
4.2.3.4 Discurso do Sujeito Coletivo 18
NEM VOCÊ FALA E NEM EU PERGUNTO: PROFISSIONAIS DA SAÚDE EM FOCO
Quando fiquei grávida do meu tio ele me deu remédio, tomei dois por cima e dois por baixo e perdi o bebe. Tive que ir para o hospital e lá eles inventaram um monte de história para o pessoal do hospital. Mas o médico nunca me perguntou pela verdade. Eu disse no hospital que caí e bati a cabeça. Ninguém perguntou mais nada. Eu e minha mãe não falamos para ninguém no hospital sobre o que tinha acontecido. Eu falei para o médico que eu escorreguei e ninguém me perguntou mais nada. Então, todas as vezes que eu fui parar no hospital por causa das violências que meu marido fazia, eu nunca contei nada. Eu mentia por vergonha do pessoal do hospital falar que eu apanhei porque tinha feito algo de errado, ou medo deles chamarem a polícia e depois que ele saísse da cadeia eu é que teria de enfrentá-lo. Sabe, eu nem sei se eles iam se importar... Acho que foi melhor ficar quieta.