CAPÍTULO I. ENQUADRAMENTO TEÓRICO
1. Aspectos gerais do formaldeído
1.5 Exposição profissional
A importância e dimensão da produção e utilização de formaldeído a nível económico determinam a extensão de pessoas expostas profissionalmente a este agente químico. A exposição ocorre não só na produção directa de formaldeído mas, também, na sua utilização como matéria-prima em diversas áreas de actividade (Zhang, Steinmaus e Eastmond, 2009).
Embora não existam, a nível mundial, dados específicos e precisos sobre o número de pessoas ocupacionalmente expostas a formaldeído, algumas estimativas permitem reconhecer a dimensão e importância desta questão.
Na União Europeia, segundo os dados apresentados em 1998 pelo International Information System on Occupational Exposure to Carcinogens (CAREX), desenvolvido pelo Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional, no início dos anos 90 existiriam mais de 900 mil trabalhadores expostos a níveis inferiores a 0,1 ppm (0,12 mg/m3). Segundo esta estimativa, a exposição a formaldeído, pelo menos a níveis baixos, ocorreria numa grande variedade de actividades (cf. Figura 1.6) (Kauppinen, Toikkanen e Pedersen, 2000; International Agency for Research on Cancer, 2006).
Área de Actividade Estimativa
Produção de móveis 179.000
Serviços de saúde e veterinários 174.000
Produção de vestuário 94.000
Transformação da madeira e produção de derivados 70.000
Serviços domésticos 62.000
Construção 60.000
Produção têxtil 37.000
Indústria do ferro e do aço 29.000
Produção e fabrico de produtos metálicos, excepto máquinas 29.000
Produção de outros não-metálicos produtos 23.000
Produção de máquinas, excepto equipamento eléctrico 20.000
Indústria química 17.000
Produção de produtos plásticos 16.000
Agricultura e caça 16.000
Produção de papel e de produtos derivados 13.000
Impressão, publicação e actividades relacionadas 13.000
Restauração e hotelaria 13.000
Produção de equipamento de transporte 11.000
Produção de equipamento eléctrico 10.000
Produção de calçado 9.000
Produção de vidro e de produtos de vidro 8.000
Investigação 7.000
Produção de materiais não-ferrosos 6.000
Produção de pele e de produtos de pele ou seus substituintes 6.000
Produção de material fotográfico e óptico 4.000
Produção de alimentos 3.000
Produção de gás natural e petróleo 2.000
Produção de produtos de borracha 4.000
Educação 2.000
Serviços de saneamento e similares 2.000
Nos Estados Unidos, o National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH) estimava que, entre 1981 e 1983, neste país, existiam cerca de 1,4 milhões de indivíduos, em mais de 60 sectores de actividade, potencialmente expostos a formaldeído (U.S. Department of Health and Human Services, 1999; International Agency for Research on Cancer, 2005). Destes, cerca de 1,1 milhões trabalhariam em instituições de saúde e em áreas de actividade como a produção de produtos químicos e de papel, produção de maquinaria (excepto eléctrica), actividades de comércio a retalho, concessionários automóveis, estações de serviço, estabelecimentos de restauração e bebidas, agências funerárias, estúdios fotográficos, limpeza, entre outros (International Agency for Research on Cancer, 2005).
As exposições mais importantes, entre 2 e 5 ppm, são mais frequentes em actividades profissionais relacionadas com a indústria da madeira e dos têxteis, sendo que as exposições de curta duração, com elevados níveis de concentração de formaldeído (iguais ou superiores a 3 ppm), se encontram associadas a actividades como o embalsamamento e a anatomia patológica (International Agency for Research on Cancer, 2006).
Por seu lado, níveis inferiores de exposição são frequentemente verificados durante o fabrico de fibras de vidro artificiais, abrasivos e borracha, na produção de resinas, de produtos plásticos e nas indústrias produtoras de formaldeído (cf. Figura 1.7). Importa, no entanto, mencionar que em alguns países e em alguns contextos ocupacionais existem ainda exposições elevadas, como as referidas por um estudo desenvolvido recentemente na China, em 2009, onde foram detectados valores de exposição média ponderada elevados, designadamente 3,20 ppm, quando o valor de referência da Occupational Safety and Health Administration (OSHA) para este referencial de medição é de 0,75 ppm (He e Zang, 2009).
A melhoria das condições de ventilação nas unidades de laboração, bem como o desenvolvimento de resinas que emitem menores quantidades de formaldeído têm, entretanto, vindo a permitir uma redução dos níveis de exposição em muitos ambientes industriais (International Agency for Research on Cancer, 2005).
Área de Actividade Concentração (ppm) Produção de Fertilizantes 0,2 – 1,9 Serviços Funerários < 0,1 – 5,8 Produção de Tecidos < 0,1 – 1,4 Resinas < 0,1 – 5,5 Fundição de Bronze 0,12 – 0,8 Fundição de Ferro < 0,02 – 18,3 Tratamento de Papel 0,14 – 0,99
Transformação de Matérias Plásticas > 2,0
Sala de Autópsias 2,2 – 7,9
Laboratórios de Patologia > 2,0
Indústria da Madeira 1,0 – 2,5
Fonte: National Institute for Occupational Safety and Health (1981) Figura 1.7: Intervalo de concentração de formaldeído por área de actividade.
Não existem, em Portugal, dados sistematizados e publicados referentes à exposição a formaldeído nas diferentes áreas de actividade em que o mesmo é utilizado, designadamente o número de trabalhadores expostos e os níveis de exposição.
Contudo, e considerando as suas diversas aplicações, pode referir-se a existência de exposição profissional a formaldeído em actividades diversas existentes no nosso país,como a produção de formaldeído e resinas, a indústria do papel, a produção de laminados e de plásticos, a indústria têxtil, a construção civil e em serviços de saúde.
Segundo os dados do CAREX (Kauppinen, Toikkanen e Pedersen, 1998), o número de trabalhadores expostos a formaldeído em Portugal foi estimado em 36.000 (período de 1990 a 1993), sendo considerado o nono agente químico no que diz respeito ao número de trabalhadores expostos. O mesmo estudo disponibilizou também uma estimativa do número de indivíduos expostos a este agente químico por área de actividade, sendo que as áreas de actividade da produção de vestuário e mobiliário, transformação da madeira e indústria têxtil foram as que apresentaram um maior número de trabalhadores expostos (cf.
Área de actividade Nº de trabalhadores (estimado)
Produção de Petróleo e Gás Natural 24
Produção industrial de bebidas 170
Indústria têxtil 2.994
Produção de vestuário (excepto calçado) 16.104
Transformação de madeira e derivados 5.556
Produção de mobiliário 9.011
Produção de papel e derivados 93
Indústria química 135
Produção de produtos plásticos 151
Produção de outros produtos minerais não-metálicos 141
Industria do ferro e aço 406
Indústria de metal não-ferroso 36
Fabrico de produtos metálicos 133
Fabrico de maquinaria (excepto eléctrica) 40
Construção civil 561
Educação e Investigação 47
Saúde 205
Serviços Domésticos 43
Fonte: Kauppinen, Toikkanen e Pedersen (1998) Figura 1.8: Estimativa de trabalhadores expostos a formaldeído por área de actividade.
Dados mais recentes permitem acrescer alguma informação sobre a realidade da exposição a formaldeído em Portugal.
A produção de formaldeído e de resinas à base de formaldeído, actividade com importantes fontes de exposição a este agente químico, é assegurada por duas unidades industriais localizadas em Sines e Aveiro, com cerca de 500 trabalhadores no total.
No sector da transformação da madeira, em 2006, e considerando apenas as áreas dos painéis, carpintaria e mobiliário por serem as áreas que envolvem o uso frequente de produtos com formaldeído, existiam aproximadamente 50.000 trabalhadores envolvidos (Associação de Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal, 2006).
Na indústria do papel, em 2007, existiam cerca de 3.200 trabalhadores em Portugal a desenvolver a sua actividade profissional, embora se desconheça a proporção destes exposta a formaldeído (CELPA, 2008).
Dados referentes a 2006 indicam que a indústria têxtil e do vestuário empregava cerca de 180.000 trabalhadores em Portugal e a indústria do calçado, por sua vez, cerca de 80.000 (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele, 2007). São números importantes e representativos da dimensão que esta área de actividade apresenta em Portugal.
Segundo dados mais recentes da Direcção-Geral da Saúde, no ano de 2004 existiam, em Portugal, 41 Unidades Hospitalares do sector público com Serviços de Anatomia Patológica (área de actividade com exposição a formaldeído bem identificada), sendo de 124 o número de técnicos envolvidos na zona de Lisboa (Adriano, Palma e Sousa, 2005).
Em 2005, um estudo desenvolvido em Portugal com o objectivo de conhecer as concentrações de compostos orgânicos voláteis em 5 laboratórios hospitalares de anatomia patológica evidenciou exposições elevadas a formaldeído (> 5 ppm) (Albuquerque e Ferro, 2005).
Mais recentemente, em 2008, uma avaliação em situação de exposição profissional identificou concentrações mais elevadas (5,02 ppm) em laboratórios hospitalares de anatomia patológica do que em contextos industriais de produção ou utilização de formaldeído (Viegas e Prista, 2009b).
Ainda entre nós, as concentrações de formaldeído em vários postos de trabalho de uma unidade de produção de resinas e formaldeído foram avaliadas, tendo sido identificados valores máximos elevados (1,09 ppm) e superiores ao valor de referência (0,3 ppm) (Viegas, Ladeira e Vacas, 2008; Viegas e Prista, 2009b).
No mesmo ano, os mesmos autores efectuaram medições numa unidade de impregnação de papel com resinas à base de formaldeído, tendo igualmente obtido valores de concentrações elevadas de exposição ao formaldeído (1,04 ppm) (Viegas, Ladeira e Vacas, 2008; Viegas e Prista, 2009b).
São dados que falam de realidades em áreas de actividade em que, reconhecidamente, se regista exposição profissional ao formaldeído. Contudo, embora alguns estudos recentes constituam um passo inicial, muito há a investigar para um cabal conhecimento da exposição profissional a formaldeído em Portugal.