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EXPULSÃO DE ALUNO – DEVIDO PROCESSO LEGAL

No documento rdj107n.2 (páginas 169-174)

Acórdão 912907

Desª. Vera Andrighi Relatora – 6ª Turma Cível

AS PENALIDADES APLICADAS AOS ALUNOS DE INSTITUIÇÃO DE EN- SINO EM RAZÃO DE CONDUTAS DE INDISCIPLINA DEVEM OBEDECER AO PROCEDIMENTO PREVISTO EM NORMA REGIMENTAL, BEM COMO OPORTUNIZAR A MANIFESTAÇÃO FORMAL SOBRE OS FATOS OBJETO DA SANÇÃO SOB PENA DE ILEGALIDADE E DE OFENSA AOS PRINCÍPIOS DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA.

O autor requereu indenização por danos materiais e morais em de- corrência de sua expulsão da instituição de ensino onde estudou por quase dois anos e foi condecorado como aluno exemplar duas vezes. Alegou que, embora tenha sido penalizado com a suspensão de três dias e com a obri- gação de limpar os três banheiros que pichou com mais dois colegas, ao comparecer à escola no dia seguinte, com os seus pais, foi surpreendido com a decisão de sua expulsão sem que lhe fosse oportunizado o direito de defesa.

Em Primeira Instância, a Juíza julgou parcialmente procedentes os pedidos para condenar a instituição de ensino a pagar ao autor o valor de R$ 15.000,00 (quinze mil reais) a título de danos morais e a importância de R$ 411,53 (quatrocentos e onze reais e cinquenta e três centavos) por danos materiais. Além disso, declarou a inexistência dos débitos corresponden- tes às mensalidades devidas pelo autor vencidas em outubro, novembro e dezembro de 2012.

A ré interpôs recurso de apelação. Suscitou a nulidade da r. sen- tença por ofensa ao princípio da identidade física do juiz, sob o argumento de que a juíza que presidiu e concluiu a audiência de instrução não foi a

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mesma que julgou a causa. No mérito, aduziu que não houve a expulsão sumária do aluno sem que lhe fosse concedido o direito de ampla defesa, mas sim a ocorrência de falta grave e o pedido espon- tâneo de transferência por seus pais.

Com relação à alegação de violação ao princípio da identidade física do juiz, a Desembarga- dora Relatora, Vera Andrighi, rejeitou a preliminar, filiando-se ao entendimento da jurisprudência do TJDFT de que, ocorrida a remoção da juíza que realizou a instrução do processo para outra vara, deve a sentença ser proferida pelo juiz titular ou substituto que a sucedeu no juízo em período pos- terior à conclusão dos autos.

No mérito, enfatizou que, sendo a relação entre as partes de consumo, a responsabilidade da prestadora de serviço é objetiva, podendo ser elidida se comprovada a culpa exclusiva do consumi- dor, de terceiro ou a inexistência de defeito nos termos do art. 14, § 3º, do CPC.

No caso em tela, a Desembargadora consignou que a questão fundamental se limita a ve- rificar se o autor foi efetivamente expulso pela instituição de ensino e se, na hipótese de ter sido desligado, foi respeitado o procedimento previsto no regimento escolar.

Apontou que, de acordo com a ficha escolar do aluno e a declaração firmada pela diretoria pedagógica da unidade escolar, a instituição de ensino solicitou aos pais que pedissem a transfe- rência do estudante para outra escola; desse modo, a seu ver, ficou configurada a expulsão do aluno. Assentado esse fato, a Relatora passou a analisar se o procedimento previsto no regimento escolar foi seguido pela apelante. Salientou, inicialmente, que as instituições de ensino podem apli- car sanções administrativas para o cumprimento das regras escolares pelos alunos, todavia, devem seguir as normas regulamentares previamente estipuladas.

Nesse sentido, transcreveu o seguinte julgado desta Corte de Justiça:

CIVIL. DANO MORAL. EXPULSÃO DE ALUNO. INOBSERVÂNCIA DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA. EFICÁCIA HORIZONTAL DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS. INO- BSERVÂNCIA DO REGIMENTO ESCOLAR. DANO EM RICOCHETE DOS PAIS. AUSÊNCIA DE DANOS MATERIAIS. A educação é considerada genericamente como serviço público e embora não se submeta ao regime jurídico administrativo, quando prestada por par- ticulares, se subsume aos princípios constitucionais aplicáveis á Administração Pública, sobretudo no que diz respeito à observância do contraditório e da ampla defesa na sua relação com o aluno, em respeito ao sistema jurídico pátrio. Os direitos fundamentais, que originalmente foram concebidos para serem oponíveis contra as arbitrariedades do Estado, hodiernamente têm sido invocados e admitidos nas relações interprivadas, nos termos da denominada “Teoria da eficácia horizontal dos direitos fundamentais”. Con- figura ilegalidade a inobservância de procedimento previsto no Regimento Escolar para o desligamento do aluno da instituição. A oportunidade de defesa deve ser efetiva e não se confunde com a oportunidade de recorrer. Se a decisão é tomada antes de se oferecer a oportunidade de contraditório, ofende-se o corolário do sistema de defesa, no qual se enquadra o processo dialético onde a tese e antítese antecedem a síntese. [...] (TJDFT, 1ª Turma Cível, Acórdão n. 763886, APC 20120111047688, Relatora Desª. Leila Arlanch, DJe de 28/2/2014, p. 108.)

Prosseguiu, consignando que, embora constasse no regimento escolar o procedimento para a punição do aluno, a apelante, de forma arbitrária, expulsou o aluno sem que lhe fossem assegura- dos a ampla defesa e o contraditório.

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De acordo com as normas estipuladas pela instituição de ensino, verificou que a transfe- rência por inadaptação só pode ser feita pelo diretor pedagógico após o esgotamento de todas as medidas para a integração do aluno e a manifestação do Conselho de Classe e do Conselho Tutelar, devendo ser resguardado ao estudante o direito de ampla defesa. A Relatora pôs em relevo as se- guintes observações:

Na lide em exame, ficou demonstrado pelo documento à fl. 43/4 (Cadex-2012) que o alu- no recebeu de início a sanção de suspensão por três dias cumulada com a obrigação de reparar o dano (limpar os banheiros); mas, no dia posterior, quando compareceu à esco- la para iniciar a limpeza dos banheiros, foi informado que haviam decidido pela sanção mais grave - expulsão ou transferência de escola. Não há nos autos documentos sobre essa decisão mais gravosa ter sido decidida por Conselho de Classe ou discutida com os pais do aluno. (TJDFT, 6ª Turma Cível, Acórdão n. 912907, APC 20130710090909, Relatora Desª. Vera Andrighi, DJe de 21/1/2016, p. 720.)

Nessa linha de entendimento, também apontou como razões de decidir a fundamentação apresentada pela Juíza a quo, in verbis:

[...] In casu, restou demonstrado claramente que o réu prestou um serviço defeituoso ao autor, na medida em que não lhe ofereceu oportunidade para se manifestar sobre a ex- pulsão, não lhe forneceu apoio pedagógico diante da situação, não aplicou penalidades de forma gradativa, não fundamentou o ato de expulsão em decisão do conselho de classe ou do conselho tutelar, não tomou qualquer medida de integração do autor no ambiente es- colar, nem respeitou sua própria decisão anterior de aplicar suspensão de três dias mais a obrigação de limpar a pichação. Presente a violação dos direitos fundamentais do autor, garantidos pela Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, nota- damente, por não terem lhe sido asseguradas a ampla defesa e o contraditório, e por ter sido violado frontalmente a sua dignidade como pessoa. (TJDFT, 6ª Turma Cível, Acórdão n. 912907, APC 20130710090909, Relatora Desª. Vera Andrighi, DJe de 21/1/2016, p. 720.)

Desse modo, a Relatora concluiu haver efetiva comprovação do nexo causal entre o defeito na prestação do serviço prestado pela instituição de ensino e o dano extrapatrimonial causado ao autor, pois violados os direitos da ampla defesa e do contraditório bem como da dignidade do aluno como pessoa.

Quanto ao valor da indenização por danos morais, a Relatora reduziu para a quantia de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) sob o fundamento de que a compensação moral deve “obedecer aos prin- cípios da proporcionalidade (intensidade dos transtornos), da exemplaridade (desestímulo à con- duta) e da razoabilidade (adequação e modicidade)”.

Com base na fundamentação defendida pela Relatora, Desª. Vera Andrighi, a 6ª Turma Cí- vel deu parcial provimento ao recurso apenas para reduzir o valor da indenização fixada a título de danos morais.

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EXTRAVIO DE BAGAGEM –

INEXISTÊNCIA DE PROVAS

Acórdão 919198

Juiz João Luis Fischer Dias

Relator – 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do Distrito Federal

É DEVIDA A INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS DECORRENTES DO EXTRAVIO DE BAGAGEM, MESMO SEM PROVA DOCUMENTAL DOS BENS CONTIDOS NAS MALAS, DESDE QUE OBSERVADOS OS CRITÉRIOS DA RAZOABILIDADE E DA VEROSSIMILHANÇA.

Trata-se de ação de reparação de danos proposta por passageira em razão do extravio de suas bagagens em voo internacional.

A autora narrou que, ao retornar de Copenhagen, na Dinamarca, com destino a Brasília, suas bagagens não foram localizadas, o que causou a perda de diversos pertences, como maquiagens, cosméticos, suvenires, roupas usadas e roupas novas adquiridas na viagem.

Julgado parcialmente procedente o pedido na Primeira Instância, a ré interpôs recurso de apelação, para reformar a sentença ou, alternativa- mente, para reduzir o quantum indenizatório.

Para o Relator, Juiz João Luis Fisher Dias, nos casos de comprovado extravio de bagagem, é devida a indenização por danos materiais, obser- vados os critérios da razoabilidade e da verossimilhança, ainda que ausen- te prova documental dos bens que supostamente compunham a bagagem. Afirmou que exigir da passageira a juntada das notas fiscais de to- dos os pertences extraviados, inclusive daqueles que não foram adquiridos na viagem, mas levados na bagagem desde a partida, não é razoável, tam- pouco cumpre a finalidade de conferir segurança à tutela buscada.

Segundo o Magistrado, em qualquer contrato de transporte é ine- rente a cláusula de incolumidade, na qual se assume o perfil da garantia de

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risco. Assim, se por sua escolha operacional a empresa transportadora não exige de todos os seus passageiros a declaração de bens, deverá reparar o dano decorrente do extravio de bagagem confor- me a situação fática apresentada pelo consumidor, observadas a verossimilhança e a razoabilidade.

Nesse particular, teceu as seguintes considerações:

Constitui dever da empresa aérea a obrigação de constatar previamente o valor da ba- gagem (artigo 734, parágrafo único, do Código Civil) para, com isso, limitar a indeni- zação, de modo que, acaso não o faça, não haverá limitação, devendo ser prestigiado o valor alegado pelo transportado como extraviado, desde que analisado sob os prismas já expostos anteriormente. (TJDFT, 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do Distrito Federal, Acórdão n. 919198, ACJ 20141110053845, Relator Juiz João Luis Fischer Dias, DJe de 23/2/2016, p. 456.)

Entretanto, o Relator verificou que a autora não produziu qualquer prova da individualização dos bens transportados, sequer os supostamente comprados durante a viagem, e também não re- gistrou protesto escrito sobre o extravio no qual especificasse o conteúdo da bagagem.

Além disso, observou que a relação de bens apresentada incluía itens não usuais para o tipo de viagem, como peças de vestuário masculino e bens de alto valor, que deveriam ter sua aquisição comprovada, uma vez que não condizentes com a situação econômica da autora.

Desse modo, o Julgador reconheceu a necessidade de ajustar o valor da indenização por da- nos materiais em atendimento aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade.

No que diz respeito ao dano moral, manteve a decisão da Primeira Instância, por entender que:

[...] o extravio da bagagem da recorrida e a ausência da sua localização decorridos mais de um ano do evento, não pode ser considerado mero dissabor, pois é dever da fornecedora dos serviços (transportadora aérea) zelar pelos bens a ela confiados durante a prestação do serviço. (TJDFT, 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do Distrito Federal, Acórdão n. 919198, ACJ 20141110053845, Relator Juiz João Luis Fischer Dias, DJe de 23/2/2016, p. 456.)

Com base nos fundamentos apresentados, a 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do Dis- trito Federal reformou a sentença, apenas para reduzir os valores fixados a título de danos morais.

Acórdão 916484

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