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Extensão da impenhorabilidade do bem de família

No documento (Im)Penhorabilidade do bem de família (páginas 34-37)

Ao analisar os efeitos da impenhorabilidade do bem de família, percebeu-se que seus efeitos geram a impenhorabilidade e inalienabilidade do imóvel urbano ou rural que constitui residência da família.

Nesse sentido, a impenhorabilidade e inalienabilidade mencionada acarretam algumas extensões, portanto, não atingem somente o imóvel rural ou urbano, mas, também, suas pertenças e acessórios, assim como disciplina o artigo 1.712 do Código Civil:

Art. 1.712. O bem de família consistirá em prédio residencial urbano ou rural, com suas pertenças e acessórios, destinando-se em ambos os casos a domicílio familiar, e poderá abranger valores mobiliários, cuja renda será aplicada na conservação do imóvel e no sustento da família (BRASIL, 2015).

Já Santiago (2007) comenta que o Código Civil de 1916, não fixava valor ou extensão do imóvel residencial da família, embora naquela época existisse companha para sua criação, por influência do instituto texano.

Importante, mencionar a limitação prevista no artigo 1.711 do Código Civil atual, o qual estabelece que a instituição do imóvel como bem de família pode-se proceder desde que não ultrapasse um terço do patrimônio líquido existente ao tempo da sua instituição. Compreende-se que tal dispositivo quer constar que o imóvel, seja ele urbano ou rural, não pode no momento de sua instituição, ter valor superior a um terço do patrimônio líquido do seu possuidor.

Por derradeiro, se tal norma não seja observada no momento da instituição do bem de família, ficaria o mecanismo da impenhorabilidade afastado, exceto àquela prevista para o bem de família involuntário.

Entretanto, na Lei 8.009/90, que regula o bem de família involuntário ou legal, tais premissas não foram incluídas, isso por que, a referida lei não traz nenhuma ressalva ou limites acerca do valor ou sua extensão. Infere-se, portanto, que a escolha caberá ao seu instituidor, o qual gozará da liberdade de escolher

entre seus bens aquele que será considerado bem de família, cabendo tal prerrogativa ao mais pobre ao mais abastado, sem distinções. (FARIAS E ROSENVALD, 2012, p. 915).

Com efeito, o disposto na Lei 8.009/90, em seu artigo 1º, parágrafo único e artigo 2º, parágrafo único, bem disciplinam a aplicabilidade da extensão da impenhorabilidade. Vejamos:

Art. 1º O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus proprietários e nele residam, salvo nas hipóteses previstas nesta lei.

Parágrafo único. A impenhorabilidade compreende o imóvel sobre o qual se assentam a construção, as plantações, as benfeitorias de qualquer natureza e todos os equipamentos, inclusive os de uso profissional, ou móveis que guarnecem a casa, desde que quitados. Art. 2º Excluem-se da impenhorabilidade os veículos de transporte, obras de arte e adornos suntuosos.

Parágrafo único. No caso de imóvel locado, a impenhorabilidade aplica-se aos bens móveis quitados que guarneçam a residência e que sejam de propriedade do locatário, observado o disposto neste artigo. (BRASIL, 2015, grifo nosso).

Portanto, pode-se compreender que a impenhorabilidade prevista para o bem de família legal, não compreende somente o imóvel rural ou urbano, como também, as construções, as plantações e as benfeitorias de qualquer natureza, inclusive, abrangendo, também, todos os equipamentos de trabalho, como tratores e outros utensílios, e os de uso profissional, como livros e outros instrumentos para o exercício de qualquer profissão. Essa última premissa, está prevista igualmente no artigo 648, inciso VI do Código de Processo Civil de 1973. (BRASIL, 2015).

Assim, a impenhorabilidade atinge os aparelhos essenciais à manutenção da residência familiar, tais como telefone, geladeira, televisão e outros. Sobre esse tema o Código Civil de 1916, nada mencionava, entretanto tinha-se um entendimento nesse sentido. (FARIAS E ROSENVALD, 2012, p. 914).

Por conseguinte, tais artigos regulam a proibição da penhora dos móveis que guarnecem a residência familiar, admitindo-se apenas sua penhora quando tratar-se de bens que tenham um elevado valor, ou seja, aquele móvel que foge das

necessidades de um padrão médio de vida, como exemplo de tal colocação, tem-se os aparelhos de TV de plasma ou LCD, móveis em duplicidade, como geladeiras, televisores, aparelhos de ar-condicionado, peças de decoração, faqueiros de prata, adega climatizada, entre outros exemplos citados por Didier Jr. et al (2010, p. 554).

Por outro lado, cabe uma observação nesse sentido, a citada impenhorabilidade dos bens móveis implica que eles já tenham sido pagos, pois, caso contrário, será plenamente admissível sua penhora em execução de créditos relativos à sua aquisição. O que acarretará a não aplicabilidade da proteção legal, já que tal hipótese está prevista nas exceções do artigo 3º da Lei 8.009/90. (BRASIL, 2015).

Contudo, Simões (2015) menciona que por analogia com o disposto no artigo 1º, parágrafo único, da Lei n° 8.009/90, que os bens da vida moderna, como aparelhos eletrodomésticos, desde que componham a residência familiar, serão considerados impenhoráveis.

Aliado a esse sentido, surge, também, a possibilidade da proteção abranger valores mobiliários, para tanto, deverá ser inserida uma cláusula nesse sentido, desse modo à importância auferida deve necessariamente ser aplicada na conservação do bem familiar ou contribuir para o sustento da família, desde que tais valores não ultrapassem o valor do próprio imóvel instituído. (FARIAS e ROSENVALD, 2012, p. 914).

Nesse caso, deverá o instituidor, além de inserir cláusula que autorize essa possibilidade, deverá também, individualizar tais valores no instrumento da instituição, vinculando sempre os valores imobiliários para a manutenção e subsistência daqueles que configuram o núcleo familiar, sendo assim autorizado ao titular destinar à sua família meios possíveis para seu sustento, conforme Farias et al (2013, p. 1295).

Assim, ao mesmo tempo em que todo o ordenamento exige que, para ser um imóvel considerado bem de família deve este servir de moradia ao núcleo familiar, surge a possibilidade inversa desse entendimento, qual seja, o imóvel que

for alugado e a renda auferida contribuir para o sustento familiar, deverá ser conferida a sua impenhorabilidade. Certo que o único imóvel que alugado à terceiro será considerado, portanto, uma extensão da aplicabilidade da impenhorabilidade, contudo, sempre que o valor do aluguel constitua meio de sobrevivência do proprietário e consequentemente de sua família, conforme entendimento pacificado do STJ.

Desse modo, o STJ editou a Súmula n° 486, disciplinado que o “único imóvel residencial alugado a terceiros é impenhorável, desde que a renda obtida com o aluguel seja para subsistência do proprietário”. (BRASIL, 2015).

A possibilidade que tem a família de alugar seu único imóvel para terceiro e com os frutos recebidos morar de aluguel em outro imóvel, deve ser reconhecida com cautela, tendo em vista, que se trata de uma exceção legal, porém, com entendimento pacificado nas cortes julgadoras.

No documento (Im)Penhorabilidade do bem de família (páginas 34-37)

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