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(Im)Penhorabilidade do bem de família

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FRANCIELI VANESSA SCHERER

(IM)PENHORABILIDADE DO BEM DE FAMÍLIA

Santa Rosa (RS) 2015

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FRANCIELI VANESSA SCHERER

(IM)PENHORABILIDADE DO BEM DE FAMÍLIA

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.

UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientadora: MSc. Francieli Formentini

Santa Rosa (RS) 2015

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Dedico este trabalho a minha família e a uma pessoa muito especial, que foram de extrema importância e valor, dando apoio, incentivo e amor durante minha caminhada acadêmica.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente aos meus pais, pelos princípios passados e pelos exemplos de vida, pessoas que admiro e que tenho eterna gratidão, pois, sempre estiveram ao meu lado, me dando amor, confiança e que possibilitaram essa conquista.

Ao meu namorado, Cristiano Dumke, pessoa que sempre esteve ao meu lado, me incentivando nesta caminhada com muito amor e carinho.

A minha orientadora, Francieli Formentini, pelos ensinamentos, confiança, dedicação e disponibilidade, me conduzindo pelo caminho do conhecimento.

E as demais pessoas que de alguma forma contribuíram para a minha caminhada acadêmica.

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“Assim como o homem não pode viver sem alimentos, não pode a família existir sem uma efetiva proteção pelo Estado Moderno” Álvaro Villaça Azevedo.

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RESUMO

O presente trabalho busca analisar as características e o conceito do bem de família, bem como, os requisitos para essa configuração, além disso, estudar a proteção do bem de família em seus aspectos históricos, principiológicos e legais, para entender os casos em que é possível a penhora do bem de família sob a visão do processo de execução e sua efetividade, para ao final examinar os posicionamentos jurisprudenciais acerca da penhorabilidade do bem de família. Debatendo as situações adequadas a cada caso, para dessa maneira, chegar a uma conclusão, se o bem de família é revestido pelo instituto da impenhorabilidade, previsto na Lei n° 8.009/90.

Palavras-Chave: Impenhorabilidade. Bem de Família. Exceções. Lei n° 8.009/90.

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ABSTRACT

This study aims to analyze the characteristics and the concept of homestead, and the requirements for this setting, also study the family home and the protection of this historical, principles and legal aspects, to understaand when the garnishment of homestead is possible inside the execution process analyzing the jurisprudencial positions. Debating the appropriate situations in each case, for come to a conclusion, if the homestead is garnishment impossible institute, established by Law No. 8.009 / 90.

Keywords: Garnishment Impossible. Homestead. Exceptions. Law No. 8.009 / 90.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 9

1 O BEM DE FAMÍLIA ... 11

1.1 Gêneros de família ... 12

1.2 Bem de família: origem, conceito e especificidades ... 16

1.3 Espécies de bem de família e sua proteção no Direito Brasileiro ... 22

2 A (IM)PENHORABILIDADE DO BEM DE FAMÍLIA ... 33

2.1 Extensão da impenhorabilidade do bem de família... ... 34

2.2 Hipóteses de penhorabilidade do bem de família ... 37

2.3 Posicionamentos jurisprudenciais acerca da possibilidade de penhora do bem de família ... 41

CONCLUSÃO ... 52

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INTRODUÇÃO

A norma processual sempre visa à proteção de um bem específico, seja a vida, a liberdade ou o patrimônio. Por ser de profunda importância para o desenvolvimento da sociedade, é preciso que haja um constante debate sobre as normas que protegem, ou não, o bem de família, devendo sempre prevalecer à necessidade de ocorrer uma proteção a este bem, pois, visa garantir um mínimo existencial a quem dele necessite, já que além de abrigar a família, ele também fornece meios para sua subsistência.

Nessa linha, destaca-se uma crescente problemática existente na efetividade do resultado no processo de execução, versus a impenhorabilidade de bens do devedor, pois, quando existe somente um imóvel no qual o executado reside com sua família, este bem está protegido e, na maioria das vezes, não se sujeita a penhora, por ser considerado bem de família.

No que tange a essa proteção legal do bem de família, sabe-se que o único imóvel pertencente à entidade familiar e, no qual esta reside, é protegido pelo ordenamento jurídico sendo considerado, portanto, absolutamente impenhorável. Nesse viés, ordena sobre o tema a Lei nº 8.009/90, a qual institui que o imóvel residencial da família, seja ele urbano ou rural, como também, suas benfeitorias, móveis que guarnecem a casa e equipamentos, não estão sujeitos à penhora, aplicando-se essa regra.

De outra banda, existem algumas exceções, visto que a segunda corrente menciona que o bem de família pode sujeitar-se a restrição judicial, já que é considerado relativamente impenhorável. Nesse sentido, estabelece o artigo 3º da

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Lei nº 8.009/90, mencionando que nos casos de obrigações decorrentes do financiamento para aquisição ou construção do imóvel, dívida de obrigação alimentar, inadimplemento de imposto predial ou territorial, como também taxas ou contribuições de melhorias referentes ao imóvel familiar, casos em que o imóvel for oferecido como garantia real para execução de hipoteca, créditos em que a residência familiar for adquirida com produto de crime ou para execução de sentença penal condenatória a ressarcimento, indenização ou perdimento de bens e, em casos de fiança concedida em contrato de locação, poderá então o bem de família sujeitar-se a penhora.

Assim, o presente trabalho acadêmico visa analisar as características do bem de família, seu conceito e quando ele poderá ser considerado impenhorável ou penhorável, segundo algumas exceções que a lei apresenta e, ainda, conforme os julgados que estão sendo proferidos em nossas cortes.

Dessa forma, no primeiro capítulo abordar-se-á o estudo do bem de família, desde o seu conceito até a origem no ordenamento brasileiro com suas principais especificidades. Enquanto no segundo capítulo, será analisada a impenhorabilidade do bem de família e suas extensões a outros bens do devedor, bem como, os casos em que será possível a penhora, inclusive, tendo um parâmetro com os posicionamentos jurisprudenciais sobre o tema.

Para tanto a pesquisa será do tipo exploratória, onde será utilizado em seu deslinde a coleta de dados em doutrinas, tanto as disponíveis em meio físico como aquelas disponíveis na rede de computadores. Dados estes que possibilitam a construção referencial sobre o tema proposto, para que se possam atingir os objetivos traçados, chegando a um resultado sobre o problema indagado, após, realizar-se-á uma leitura e posterior fichamento do material escolhido, para ser feita a exposição dos resultados obtidos através de um texto escrito monográfico.

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1 BEM DE FAMÍLIA

De início, insta observar algumas considerações sobre o processo de execução e sua real efetividade. Assim, certo é que toda tutela jurisdicional busca de imediato a satisfação de um direito previsto em lei, todavia, sempre há nesta trajetória alguns percalços ou insatisfações para conseguir chegar ao objeto almejado.

Não é diferente o que acontece no processo de execução, o qual busca por meio de um título que seja líquido, certo e exigível a satisfação de uma obrigação para chegar a um resultado útil do processo, conforme Alexandre Freitas Câmara (2014, p. 14).

Entretanto, nem sempre isso acontece, pois segundo Sidnei Amendoeira Jr. (2014, p. 954), na execução existem limites a serem observados que visam à proteção do executado, estes limites baseiam-se no princípio da dignidade da pessoa humana. Seu principal objetivo é garantir ao executado condições mínimas para prover sua subsistência com dignidade.

Contudo, tais empecilhos fazem com que o principal objetivo do processo de execução seja perdido, ou seja, a satisfação do crédito se torna cada vez mais difícil e o credor encontra sempre mais dificuldades em alcançar bens para a penhora.

A principal ideia de impor limites, como mencionado, é proteger o executado, porém, o que se deixou de observar foi o direito do credor, isso por que é necessário dispor como ficará a sua dignidade caso esse direito seja frustrado. De tal modo, pode-se perceber que a execução civil está cada vez mais perdendo seu foco e seu objetivo, se distanciando dos seus princípios norteadores, como o princípio da patrimonialidade, da satisfatividade, da especificidade e da utilidade, exemplos que menciona Olavo de Oliveira Neto (2014, p. 770-776).

Um dos principais empecilhos encontrados pelo credor, diz respeito a aqueles bens considerados impenhoráveis, dos quais se destacam os absolutamente impenhoráveis e relativamente impenhoráveis. Nessa premissa,

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surge a impossibilidade de penhora da residência do executado, o que como sedimentado busca garantir o princípio da dignidade humana.

Levando em conta a proteção do imóvel residencial do executado é que surgiu uma legislação específica para este caso, com o intuito de delinear qual imóvel será protegido da penhora, bem como, suas exceções. Trata-se da Lei 8.009/90 que inclui na lista dos bens impenhoráveis o bem de família.

Assim, como o objetivo central deste trabalho é estudar quando o bem de família é absolutamente impenhorável ou relativamente impenhorável, para verificar sua proteção ou não no ordenamento brasileiro, cabe destacar algumas considerações sobre este bem.

Nesse jaez, entender como este instituto legal surgiu para direcionar um conceito onde se possa compreender o que é considerado bem de família com suas especificidades e principais gêneros, para ao final, verificar a existência ou não da proteção no direito brasileiro deste imóvel.

Além disso, buscar entender como se procede a impenhorabilidade, bem como, as hipóteses de penhora do imóvel residencial familiar, conquanto analisar se esta impenhorabilidade abrange tão somente o imóvel, ou contempla algumas extensões e alargamentos, para ao final verificar os posicionamentos jurisprudências sobre a sua penhora.

1.1 Gêneros de família

A família, nesse sentido é de suma importância para o Estado, tendo em vista que é nela que se formam os indivíduos, e com ela que o indivíduo aprende valores imensuráveis como por exemplo, amor, caráter, respeito ao próximo, ética, entre outros. Daí surge a estima seriedade do aprendizado perante o seio familiar, o qual torna possível uma vida em sociedade mais harmônica e correta, isso tudo gera uma caracterização da família como a base da sociedade, segundo Mariana Ribeiro Santiago (2007).

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Dessa forma, levando em conta que a família passa a ensinar e preparar um indivíduo para o convívio em sociedade, propriamente dito, deve o Estado fornecer e dedicar proteção especial à família, já que, é esta quem paga tributos para o fim de sustentar toda a máquina estatal. Daí decorre a obrigação do Estado em fornecer a entidade familiar meios adequados para uma vida com dignidade, proteção esta que já está consagrada na lei maior. (SANTIAGO, 2007).

Essa proteção se dá, por exemplo, no processo de execução onde os bens do devedor ficam sujeitos à penhora e, assim ocorrendo, permanecem à disposição do credor. A penhora cabe tanto àqueles presentes como os que, porventura vierem a configurar o patrimônio do executado, salvo algumas exceções previstas em lei, dentre elas, o imóvel residencial da família, conforme previsão da Lei nº 8.009/90.

Portanto, imensurável o valor do bem de família perante seus titulares, pois fornece a estes uma garantia, uma certeza e um amparo patrimonial, tanto em relação a um abrigo, quanto em relação a um mínimo para sua subsistência, no caso da propriedade rural. Devendo sempre existir um tratamento diferenciado para a família e o seu único imóvel, justamente para que seja preservada a entidade familiar, sendo ela de suma importância não só para o desenvolvimento individual do cidadão, como para o crescimento e fortalecimento da sociedade em si.

Assim, como o presente trabalho tem como objetivo analisar as formas de impenhorabilidade do bem de família surge à importância de estudar o conceito de família, para entender efetivamente as diversas formas de entidade familiar.

Como todos sabem, a família mais tradicional é formada pelo pai (homem) e mãe (mulher), que unidos pelo casamento, com ou sem filhos, compõem o núcleo familiar. Em suma, para ser considerado como uma família é necessário que as pessoas residentes sobre o mesmo imóvel possuam um grau de parentesco entre si, o que menciona Maria Berenice Dias (2011, p. 40)

Na atualidade, entretanto, devido às mudanças constantes na sociedade e a readequação de costumes, a família vem passando por diversas transformações sociais. Em consequência disso, o Estado teve a necessidade de reconhecer e

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admitir como entidade familiar outras formas de relacionamento, como por exemplo, as relações extramatrimoniais, famílias monoparentais e uniões homoafetivas.

A par do exposto, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 226, elenca e conceitua as diversas formas de família, dentre estas se destaca o disposto nos parágrafos 3º e 4º, que admitem o reconhecimento de família como aquela constituída pela união estável entre homem e mulher e a família monoparental, que é aquela formada por qualquer dos pais e seus descendentes:

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. § 1º O casamento é civil e gratuita a celebração.

§ 2º O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei.

§ 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.

§ 4º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.

§ 5º Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher.

§ 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio.

§ 7º Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.

§ 8º O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações. (BRASIL, 2015, grifo nosso).

Além destas, Dias (2011, p. 48-50) elenca a existência da família pluriparental, na qual, um ou ambos dos integrantes possuem filhos provenientes de relações anteriores, a família parental, da qual convivem sob um mesmo teto pessoas parentes entre si ou não parentes e, a família denominada paralela, tendo em vista a existência de vínculos concomitantes, ou seja, uniões adulterinas.

Muito embora, ainda existam barreiras sociais, vem ocorrendo um crescimento significativo de lares que são formados por estes novos tipos de família (pluriparentais, parentais, paralelas, e, homoafetivas), o que obrigou o Estado a criar mecanismos de proteção para estes indivíduos, e principalmente, reconhecer direitos as novas entidades familiares dada a sua incidência no âmbito social. (FARIAS et al, 2013, p. 1079).

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Exemplo do mencionado é o reconhecimento do casamento homoafetivo, que foi recentemente aprovado no Supremo Tribunal Federal, por meio da ADPF 132 (BRASIL 2015).

Nesse ponto, “a ideia formal, cujo comprometimento mútuo decorre do casamento, vem cedendo lugar à certeza de que é o envolvimento afetivo que garante um espaço de individualidade e assegura uma auréola de privacidade indispensável ao pleno desenvolvimento do ser humano”. (DIAS, 2011, p. 54). Portanto, percebe-se com isso, que é no âmbito das relações afetuosas que um indivíduo passa a construção e desenvolvimento da sua personalidade e caráter.

Para tentar chegar a um conceito de família, Dias (2011, p. 43) destaca:

É necessário ter uma visão pluralista da família, abrigando os mais diversos arranjos familiares, devendo-se buscar o elemento que permite enlaçar no conceito de entidade familiar todos os relacionamentos que têm origem em um elo de afetividade, independentemente de sua conformação.

[...]

O novo modelo da família funda-se sobre os pilares da repersonalização, da afetividade, da pluralidade e do eudemonismo, exprimindo nova roupagem axiológica ao direito de família.

A família, como se percebe, advém de relacionamentos que possuem elos de afetividade, independentemente de diferenças que possam existir entre seus membros. Por isso, que a família necessita de proteção do Estado, inclusive sendo nela que o sujeito recebe princípios para a sua formação, preparando este para a vida em coletividade.

Nesse contexto, a família deve ser amparada juridicamente para que com isso possa dar acesso a uma vida com dignidade a seus membros, bem como, tenha meios adequados para sua subsistência e de seus dependentes, garantindo assim uma proteção especial.

Por conta disso, o Estado passa a regulamentar leis e normas que vem justamente para este fim, resguardar a família, dentre estas surge, também, a proteção especial ao bem da família, ou seja, o imóvel onde toda a entidade familiar reside, o que confere aos membros familiares uma vida mais digna e com direito ao

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mínimo de patrimônio para a sua subsistência e de seus membros.

Oportuno mencionar também o direito social a moradia, previsto no artigo 6° da Constituição Federal de 1988, trata-se de direito fundamental, ligado inclusive ao direito a vida digna, principalmente para os mais necessitados que acabam sendo esquecidos pelo sistema político brasileiro. In verbis:

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (BRASIL, 2015).

Percebe-se, portanto, que o bem de família está interligado, diretamente ao direito a moradia, pois ambos visam atender uma necessidade que busca todo ser humano, ter direito a uma vida digna, com condições básicas essenciais para o seu bem estar. Assim ter direito a uma moradia não é benefício de todos ainda e por conta disso este bem tão precioso para a família merece proteção especial. (FARIAS et al, 2013, p. 1288).

Mesmo que o ordenamento garanta o direito à dignidade humana, direito este que norteia todo o âmbito jurídico, sabemos que a realidade que se vivencia está bem longe de implantar tal direito a todos os cidadãos, dessa forma surge a importância da proteção de alguns bens adquiridos pelo indivíduo, destacando-se em especial o bem de família.

Feitas essas premissas, esclarece-se que como objetivo norteador deste primeiro capítulo é estudar o bem de família, ou seja, analisar suas origens, conceitos, espécies e a proteção conferida pelo ordenamento brasileiro a este bem que tem muita importância para a família.

1.2 Bem de família: origem, conceito e especificidades

O instituto do bem de família originou-se por conta de uma crise econômica verificada nos Estados Unidos da América, diversamente de outros direitos e garantias, este instituto não teve sua origem no direito romano, mas sim, no direito

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americano, como será analisado. (SIMÕES, 2015, p. 86).

Os Estados Unidos da América como território pobre, possuíam inúmeras terras férteis que estavam no aguardo de civilização, passou-se então, com o trabalho do povo a cultivação dessas terras por meio da agricultura e comércio. Como consequência teve-se um grande desenvolvimento naquela região, chamando a atenção dos bancos da Europa, os quais acabaram fixando-se por lá, estes bancos possibilitaram a realização de operações bancárias e contribuíram para o desenvolvimento da economia americana. Porém, este cenário não perdurou por muito tempo. (AZEVEDO, 2010, p. 13-14).

Os bancos dessa região, permitiram a realização de grandes empréstimos, criando-se “a ilusão dourada do lucro fácil que levou o povo a ultrapassar os limites da realidade, abusando desses empréstimos e do elevadíssimo nível de vida no prisma econômico-financeiro” (AZEVEDO, 2010, p. 13). O que acarretou uma crise entre os anos de 1837 e 1839, que levou a falência diversos bancos, inclusive, um grande banco de Nova York, gerando como consequência, uma enorme crise econômica e financeira a civilização americana.

Com isso as famílias americanas foram profundamente atingidas, passando por um total desamparo e ficando em completo desabrigo econômico, pois:

Os credores realizavam penhoras em massa nos bens dos devedores, nesse amargo momento, em que era nula qualquer pretensão a obtenção de crédito, tendo estes que sofrer essa execução por presos irrisórios, resumindo-se um patrimônio, composto de terra, animais e instrumentos agrícolas, em quase nada, ate o exorbitante valor por eles pago antes da crise. (AZEVEDO, 2010, p. 13).

Nessa época, tendo em vista movimentos democráticos dos trabalhadores, passou-se a serem editadas leis que os protegiam, surgindo, com isso, a que revogou a prisão por dívidas.

Nesse cenário, o Texas passava por uma superpopulação por conta de emigrantes americanos que buscavam uma nova vida para reconstruir seus lares, como também, atravessava por uma acentuada crise na economia que gerou a

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quebra de grandes empresas na sua região, o que acarretou o surgimento do homestead estadual, com o intuito de salvaguardar as famílias da extrema pobreza e garantir-lhes um lar, como bem, explica Santiago (2007):

A lei texana veio a proteger as suas famílias do desabrigo e consequente desestruturação, tornando impenhorável, por qualquer execução judicial, a porção de 50 acres de terra rural ou um lote de terreno na cidade, de valor não superior a 500 dólares, habitados pelas famílias radicadas na República do Texas.

Desse modo, após o Texas ser anexado aos EUA, segundo ensinamentos de Santiago (2007), com o intuito de colonizar o oeste do seu país, os Estados Unidos da América criaram o homestead federal, com isso passou-se a disponibilizar terras para o cultivo da agricultura para as famílias que naquela região transferissem seu domicílio. Para tanto era necessário que as famílias ali colocadas tornassem aquelas terras produtivas, para passado cinco anos adquirir a propriedade do imóvel concedido. Durante esse período a quantia de terras que lhes eram proporcionadas para o cultivo, passava a ser considerada inalienável e impenhorável, garantindo assim, a proteção a este imóvel.

Assim, segundo Cristiano Chaves de Freitas e Nelson Rosenvald (2012, p. 909), o instituto do bem de família originou-se no direito americano, despontando na antiga República do Texas. Foi lá que ficou caracterizada a proteção especial ao domicílio da entidade familiar, por meio do chamado homestead1, o qual consagrou a aplicação desta proteção ao bem de família, vejamos:

Muito embora na Antiga Roma já estivesse consagrado o princípio da inalienabilidade dos bens que compunham o patrimônio familiar, foi na República do Texas, antes de sua incorporação aos Estados Unidos da América, que, em 1839, descortinou-se o instituto do bem de família. Através do Homestead Exemption Act, foi conferida proteção especial ao domicílio das famílias, salvaguardando-o das crises econômicas e incentivando a fixação do homem às inóspitas terras texanas, com vistas a torna-las produtivas.

Nessa mesma linha, colaciona-se o entendimento de Azevedo (2010, p. 11): “pode-se dizer, seguramente, que o bem de família nasceu com tratamento jurídico específico, na República do Texas, sendo certo que, no Direito Americano, desponta

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ele como sendo uma pequena propriedade agrícola, residencial, da família, consagrada à proteção desta.”

A partir daí o homestead se propagou pelos demais estados dos Estados Unidos da América e, posteriormente, acabou influenciando outras legislações pelo mundo. Por conseguinte, então passou a se falar em impenhorabilidade do bem de família, em razão de suma importância sua proteção, o deixando a salvo de obrigações contraídas por seus titulares, tendo em vista que este bem serve de abrigo para o grupo familiar. (SANTIAGO, 2007).

No Brasil, o tema passou a existir pelo já revogado Código Civil de 1916, mas precisamente nos artigos 70 a 73, que tratavam sobre o bem de família. Depois surgiram outros dispositivos que regulavam a matéria, como o Decreto Lei nº 3.200/41, a Lei nº 6.742/79 e a Lei nº 6.015/73. (Brasil, 2015).

Assim, o Decreto Lei nº 3.200/41composto por quarenta e três artigos, traz disposições sobre organização e proteção da família, a Lei nº 6.742/79 composta por três artigos que vieram a modificar o valor do bem de família, alterando o artigo 19 do decreto citado e a Lei nº 6.015/73 que dispõe sobre os registros públicos. (BRASIL, 2015).

Manifesta-se nesse sentido Azevedo (2010, p. 68):

Primeiramente, cumpre notar que o bem de família foi colocado em nosso Código Civil em sua Parte Geral, no Livro das Pessoas, sendo certo que, só após veemente censura de Justiniano Serpa, foi a matéria transferida para o Livro dos Bens, dessa mesma Parte Geral.

Já no Código Civil de 2002, o bem de família foi alocado na esfera do direito patrimonial, com subtítulo bem de família, disposto nos artigos 1.711 a 1.722. Conquanto a disposição sobre o assunto, Santiago (2007) “Essa foi, mais acertadamente, a orientação que vingou no Código Civil, de 2002, que regula o bem de família no âmbito do direito patrimonial de família”.

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família no artigo 5º, XXVI, o qual foi regulamentado com o advento da Lei nº 8.009/90, que tratou de denominar o bem de família legal ou obrigatório. Tal lei em seu artigo 1° conceituou o bem de família como aquele imóvel urbano ou rural que serve de residência para a entidade familiar e que não será objeto de penhora por dívidas contraídas pelos cônjuges, pais ou filhos que dele sejam proprietários, reafirmando a proteção legal com o escopo de preservar o direito a moradia e a dignidade do executado e dos demais membros familiares. (BRASIL, 2015).

Percebe-se, dessa forma que para que seja reconhecida a impenhorabilidade e, então sua proteção ao bem de família, deve este ser destinado, tão somente a residência familiar, abrangendo seus membros.

Oportuno mencionar a súmula nº 364 do Supremo Tribunal de Justiça, que esclarece o seguinte: “O conceito de impenhorabilidade de bem de família abrange também o imóvel pertencente a pessoas solteiras, separadas e viúvas”. (BRASIL, 2015). Isso no sentido de reconhecer a proteção do imóvel residencial não apenas a casais, mas o que se quer aqui é estender o conceito de família para gerar a aplicabilidade a outras formas de família.

Nesse ínterim, importante salientar que o projeto lei PL 2285/2007 que institui o Estatuto da Família, o qual está tramitando na Câmara dos Deputados, trará grandes melhoras para o ordenamento jurídico, já que, regula a união estável homoafetiva, havido entre duas pessoas do mesmo sexo e a família parental, tida entre as pessoas que possuem relação de parentesco, e que, estão reunidas com o objetivo de convivência familiar. (BRASIL, 2015).

Na mesma linha, o Estatuto da Família prevê que a entidade familiar terá o livre arbítrio de escolha do seu domicílio, podendo até haver pluralidade domiciliar, ou seja, mais de uma residência, isso é o que menciona o artigo 19 e parágrafo único do citado regulamento. Outrossim, neste projeto de lei o legislador justifica a não previsão de medidas relacionadas ao bem de família, tendo em vista sua regulamentação em lei própria. (BRASIL, 2015).

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REsp 827962/RS (BRASIL, 2015), segue o entendimento do estatuto da família para reconhecer para todos os efeitos legais a união havida entre pessoas do mesmo sexo, entendendo tratar-se de entidade familiar e como tal, o benefício da impenhorabilidade do bem de família se aplica também a estes casos.

O que se percebe até o momento é que a família abrange diversas relações afetivas, sendo entendida como um laço afetuoso havido entre pessoas sejam elas homem e mulher, pessoas do mesmo sexo ou simplesmente pessoas unidas por um vínculo parental, onde ambas possuem a finalidade de constituir uma família propriamente dita.

Consequentemente, isso torna possível ao jurista reconhecer no caso concreto a proteção do imóvel residencial a pessoas que estão unidas por um vínculo de afetividade, sem distinções de gênero, já que, o principal objetivo desta proteção é garantir a dignidade humana, respeitando-se o direito à moradia para que se possa ter um mínimo existencial.

Válido o que acrescenta Flávio Tartuce (2012, p. 176), acerca do conceito de bem de família: “O bem de família pode ser conceituado como o imóvel utilizado como residência da entidade familiar, decorrente de casamento, união estável, entidade monoparental, ou entidade de outra origem, protegido por previsão legal específica”.

Conforme define a professora Maria Helena Diniz (2005, p. 219), o bem de família é:

[...] um instituto originário dos Estados Unidos ou, melhor, do Texas, onde, em 1839, editou-se o Homestead exemption act, e que tem por escopo assegurar um lar à família ou meios para o seu sustento, pondo-a ao abrigo de penhoras por débitos posteriores à instituição, salvo as provierem de tributos relativos ao prédio, ou de despesas condominiais, visto que, pela sua natureza de obrigações propter rem, decorrem da titulariedade do domínio ou da posse sobre a coisa, não podendo deixar de ser pagas, sob pena de execução do bem que as gerou, mesmo que seja bem de família.

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O bem de família é o meio de garantir um asilo à família, tornando-se o imóvel onde a mesma se instala domicílio impenhorável e inalienável, enquanto forem vivos os cônjuges e até que os filhos completem sua maioridade.

[...]

O bem de família é, assim, no Código Civil, um imóvel urbano ou rural, que serve à proteção da família, como domicílio seu, inalienável e impenhorável, sob certas circunstâncias.

Diante do exposto, nota-se que o ordenamento jurídico não trouxe uma exata definição de bem de família, porém, deixou bem claro sua finalidade, por meio da qual o torna diferente de outros bens considerados inalienáveis e impenhoráveis.

Importante referir, que a impenhorabilidade não atinge somente o imóvel residencial, como também onde se assenta a construção, as plantações, as benfeitorias e todos os equipamentos, incluindo até os de uso profissional e móveis que constituem a residência, conforme dispõem os artigos 1ª e 2º da Lei 8.009/80 (BRASIL, 2015).

Por conseguinte, observa-se que a impenhorabilidade do bem de família é um instituto que busca assegurar a todo o grupo familiar, seja ele formado pelo casamento, união estável, união homoafetiva ou a família parental, uma garantia mínima de patrimônio ou bem, o qual segundo Sidnei Amendoeira Jr. (2014, p. 954), tem por base o princípio da dignidade da pessoa humana, de modo que, conforme referido, busca garantir o mínimo de patrimônio a entidade familiar, ou seja, um ínfimo para manter a sua estabilidade.

1.3 Espécies de bem de família e sua proteção no Direito Brasileiro

Nessa linha, entende-se que a doutrina busca como critérios para classificar as espécies de bem de família a sua maneira de constituição, ou seja, como se dá a sua instituição e consideração como bem de família.

Instituiu-se então, conforme o ordenamento jurídico, dois tipos de bem de família, o voluntário ou convencional, previsto nos artigos 1.711 a 1.722 do Código Civil e o legal ou involuntário, disciplinado pela Lei nº 8.009/90, os quais serão abordados e exauridos um a um, de acordo com suas disposições legais, origem,

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conceitos e regulamentos próprios.

Deste modo o Código Civil de 1916, no artigo 70, compreendia o bem de família voluntário como “o prédio destinado pelos chefes de família ao exclusivo domicílio desta, mediante especialização no Registro Imobiliário, consagrando-lhe uma impenhorabilidade limitada e inalienabilidade relativa.” (BRASIL, 2015). Trata-se, portanto, como visto de ato voluntário do proprietário, que visa proteger sua família de futuras crises econômicas.

Já no Código Civil de 2002, o artigo 1.712 (BRASIL, 2015), aponta que “o bem de família consistirá em prédio residencial urbano ou rural, com suas pertenças e acessórios, destinando-se em ambos os casos a domicílio familiar, e poderá abranger valores mobiliários, cuja renda será aplicada na conservação do imóvel e no sustento da família”.

Analisando os dois artigos citados acima, nota-se que a redação do atual Código Civil excluiu a denominação “chefes de família” e passou a reconhecer a impenhorabilidade dos acessórios e valores mobiliários do imóvel residencial.

Ademais, em consonância com o atual conceito de família, percebe-se que a palavra chefe de família está totalmente equivocada, tendo em vista que família abrange qualquer relação afetiva havida entre pessoas distintas ou do mesmo sexo, sem distinções, estando a matéria já pacificada, pois as diversas espécies de família podem e devem ser protegidas pelo ordenamento jurídico, o qual, inclusive, deve se adequar as mudanças sociais.

Buscando chegar a um conceito de bem de família voluntário, mencionam Farias e Rosenvald (2012, p. 913) que:

O bem de família convencional ou voluntário é aquele imóvel protegido em razão de ato espontâneo da parte interessada, através de registro público no cartório de imóveis, conferindo publicidade para justificar a impenhorabilidade e inalienabilidade do bem.

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mesmo se trata de um bem de família, e, portanto, será automaticamente declarado como impenhorável.

Dessa maneira, entende-se que para sua efetivação, deverá o proprietário por meio de escritura pública ou testamento, comparecer ao Cartório de Registros onde o imóvel está devidamente registrado e, por escrito constituir tal proteção.

Portanto, como dispõem o artigo 1.711 do Código Civil de 2002, a constituição no registro imobiliário cabe tanto aos cônjuges, como à entidade familiar ou a terceiros, como menciona o parágrafo único do citado artigo, observemos:

Art. 1.711. Podem os cônjuges, ou a entidade familiar, mediante escritura pública ou testamento, destinar parte de seu patrimônio para instituir bem de família, desde que não ultrapasse um terço do patrimônio líquido existente ao tempo da instituição, mantidas as regras sobre a impenhorabilidade do imóvel residencial estabelecida em lei especial. Parágrafo único. O terceiro poderá igualmente instituir bem de família por testamento ou doação, dependendo a eficácia do ato da aceitação expressa de ambos os cônjuges beneficiados ou da entidade familiar beneficiada. (BRASIL, 2015).

Entretanto, para que isso seja possível é necessário que o bem realmente consista em imóvel no qual a família reside, seja este rural ou urbano, conforme já referido, abrangendo também seus acessórios. Igualmente, como condições para sua instituição é necessário que se tenha a propriedade do bem e a solvabilidade do seu instituidor, ou seja, o instituidor deve ser necessariamente proprietário do bem a ser destinado como bem de família, bem como, encontrar-se em estado de solvência.

Por oportuno, Farias e Rosenvald (2012, p. 913) ilustram as características do bem de família convencional, como o fato de que “i) depende de ato voluntário do titular, por escritura pública, testamento ou doação; ii) gera inalienabilidade e impenhorabilidade; iii) refere-se ao bem imóvel onde a família está residindo; iv) tem duração limitada à vida dos instituidores ou até a maioridade civil dos filhos”.

Com o registro desta proteção o imóvel passa a ser considerado inalienável, incidindo assim, o instituto da impenhorabilidade, ficando este a salvo de execuções por dívidas que sobrevierem ao seu registro como bem de família. Porém, tal

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prerrogativa não será levada em conta nos casos de dívidas anteriores ao registro e, em casos de tributos relativos ao IPTU ou ITR e despesas de condomínio, mesmo que estes sejam posteriores a seu registro. Nestes casos, ocorrendo à execução de tais tributos e restando algum saldo, este valor deverá ser destinado a outro imóvel que será considerado como bem de família, ou em título de dívida pública, para assegurar o sustento familiar.

O imóvel que foi constituído como bem de família, assim será considerado até que ambos os cônjuges vierem a falecer, caso em que, se permanecerem filhos a instituição persistirá até que estes completarem a maioridade. Registre-se que no caso de morte de um dos membros da entidade familiar, o sobrevivente poderá demandar a extinção do bem de família, assim como prevê os artigos 1.721, Parágrafo único e 1.722 do CC/02. Porém, tal extinção não afasta a aplicabilidade da proteção da Lei nº 8.009/90. (BRASIL, 2015).

Já por outro lado, o bem de família legal, como já diz o próprio nome, decorre de lei, e, também visa assegurar a proteção do bem familiar, mas independentemente deste ato de vontade do titular, ou seja, não precisa necessariamente, existir qualquer ato formal em cartório para tanto. Assim, segundo Farias e Rosenvald (2012, p. 919):

Dessa maneira, o regime jurídico do bem de família legal reconhece a

impenhorabilidade do imóvel que serve de residência para o titular e o seu núcleo familiar, por força de lei, não existindo qualquer registro em cartório

ou ato expresso de vontade.

De tal modo o bem de família legal está previsto no artigo 1° da Lei n° 8.009/90. Seguindo esse entendimento, Tartuce (2012, p. 179), menciona que “a Lei 8.009/90 traça as regras específicas quanto à proteção do bem de família legal. [...] Trata-se de importante norma de ordem pública que protege tanto a família quanto a pessoa humana”.

Tal disposição legal visa a proteção da família e consequentemente garantir a esta o direito à moradia. Corroborando esta concepção, o Superior Tribunal de Justiça, por meio da edição da súmula nº 205, entende, inclusive, que tal regra aplica-se em penhoras instituídas até mesmo antes entrada em vigor da citada lei.

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(Brasil, 2015).

Já na hipótese de haver mais de um imóvel em nome do devedor, será considerado imóvel de família aquele de menor valor, logo se por acaso a família não queira que a penhora recaia sobre o de menor valor será necessária a sua iniciativa, conforme previsão do artigo 5º da Lei nº 8.009/90. (FARIAS e ROSENVALD, 2012, p. 919).

Da mesma forma que o bem de família voluntário, o bem de família legal para ser assim considerado, necessitará ser o imóvel onde a família constituiu a residência e seu possuidor deverá ter o título essencial de propriedade do imóvel, sem esses requisitos impossibilitará o seu reconhecimento como bem de família legal. Neste caso por trata-se de norma pública que o Estado impõe e tem aplicabilidade imediata, não cabe o reconhecimento do imóvel por terceiros como bem de família legal.

Outro fator importante é que na Lei nº 8.009/90 não restou implícito a inalienabilidade do bem de família legal, dessa maneira, dada a ausência deste instituto nada impede que o seu proprietário possa negociá-lo a qualquer tempo, podendo, inclusive vendê-lo para posteriormente, caso queira, morar de aluguel.

Igualmente, nota-se que a lei deixou de abarcar a forma de extinção deste bem, ou seja, não dispõe qual meio cabível para ser desconstituído como bem de família legal. Dessa forma, interpreta-se por analogia que tal extinção se dará quando for cessada a moradia permanente ou então, quando não estiverem presentes todos os requisitos exigidos pela lei para que se possa configurar bem de família, caso em que não gera impenhorabilidade.

Outrossim, quando houver mudança de residência, cessará a impenhorabilidade do imóvel anterior, criando-se assim, nova impenhorabilidade, enquanto perdurar a residência no novo imóvel.

Destarte, levando em conta a importância do bem de família, já que possui uma função de abrigo e, de certa forma, é considerado um amparo para a

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sobrevivência de maneira digna do grupo familiar, necessário se dar uma proteção, para salvaguardar esse imóvel de possíveis atos judiciais de credores.

Nota-se que o ordenamento jurídico segue a linha de que toda e qualquer responsabilização por dívidas contraídas recai sobre o patrimônio do devedor, isso é possível pelo chamado princípio da responsabilidade patrimonial, previsto nos artigos 391 do Código Civil e no artigo 591 do Código de Processo Civil (BRASIL, 2015), in verbis:

Art. 391. Pelo inadimplemento das obrigações respondem todos os bens do devedor.

Art. 591. O devedor responde, para o cumprimento de suas obrigações, com todos os seus bens presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei.

A Lei n° 13.105/15, que institui o novo Código de Processo Civil, que entrará em vigor em março do ano de 2016, passou a prever tal princípio no artigo 789, Capítulo V, que se refere à Responsabilidade Patrimonial.

Tem-se uma única exceção onde a dívida recairá diretamente sobre o executado, ou seja, a execução pessoal, que será abrangida por valores provenientes da obrigação alimentar, os quais, podem levar o devedor a prisão, buscando assim, o pagamento do débito diretamente na pessoa do devedor, segundo Farias et al. (2013, p. 332).

Destarte, o que se percebe é que essa responsabilidade patrimonial do executado buscará quantos bens forem possíveis e necessários para satisfazer o direito do credor, o que se tornará possível por meio da penhora que constitui o ato por meio do qual os bens do devedor são individualizados, segundo Bruno Garcia Redondo e Márcio Manoel Maidame (2014, p. 100).

Dessa maneira, a efetividade do processo de execução depende, muitas vezes, da penhora a ser realizada, a qual deverá ser a mais ampla possível. Todavia, o sucesso desse procedimento se torna ineficaz por conta do que menciona a parte final do artigo 591, o qual exclui do ato de restrição judicial as exceções previstas em lei, conforme Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart

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(2014, p. 258).

Assim, o exequente encontra obstáculos pelos quais dificultam a satisfação do seu crédito, por conta das exceções que não permitem a penhora de certos bens. Isso faz com que o processo de execução acabe se afastando da sua efetividade, que é o cumprimento da obrigação inadimplente.

Portanto, essa regra de que todos os bens do devedor estão sujeitos à satisfação da obrigação, comportam algumas exceções, como no caso do bem de família, já referido.

Tais exceções constituem-se nos chamados bens impenhoráveis e inalienáveis, que segundo Azevedo (2010, p. 174) “O bem de família, além de ser declarado impenhorável, isento de penhora, respeitadas as exigências legais, [...] é ainda, inalienável, em face do art. 1.717 do atual Código Civil.”

Dessa forma, dispõem o artigo 1.717, do Código Civil:

Art. 1.717. O prédio e os valores mobiliários, constituídos como bem da família, não podem ter destino diverso do previsto no art. 1.712 ou serem alienados sem o consentimento dos interessados e seus representantes legais, ouvido o Ministério Público. (BRASIL, 2015).

Ou seja, caso haja a alienação do imóvel familiar, isto só será possível com o expresso consentimento dos interessados e seus representantes legais, após ser ouvido o Ministério Público, pois a regra é a inalienabilidade do bem de família. (AZEVEDO, 2010, p. 174).

Percebe-se, que acerca do tema da impenhorabilidade e inalienabilidade o Código de Processo Civil elenca um rol destes bens em seu artigo 649, os quais são considerados absolutamente impenhoráveis. Entende-se, dessa forma, que este rol de bens em nenhuma hipótese poderá ser objeto de penhora no processo de execução.

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I - os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à execução;

II - os móveis, pertences e utilidades domésticas que guarnecem a residência do executado, salvo os de elevado valor ou que ultrapassem as necessidades comuns correspondentes a um médio padrão de vida; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).

III - os vestuários, bem como os pertences de uso pessoal do executado, salvo se de elevado valor; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006). IV - os vencimentos, subsídios, soldos, salários, remunerações, proventos de aposentadoria, pensões, pecúlios e montepios; as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, observado o disposto no § 3o deste artigo; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).

V - os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou outros bens móveis necessários ou úteis ao exercício de qualquer profissão; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).

VI - o seguro de vida; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).

VII - os materiais necessários para obras em andamento, salvo se essas forem penhoradas; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).

VIII - a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).

IX - os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação compulsória em educação, saúde ou assistência social; (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006).

X - até o limite de 40 (quarenta) salários mínimos, a quantia depositada em caderneta de poupança. (Redação dada pela Lei nº 11.382, de 2006). XI - os recursos públicos do fundo partidário recebidos, nos termos da lei, por partido político. (Incluído pela Lei nº 11.694, de 2008)

§ 1o A impenhorabilidade não é oponível à cobrança do crédito concedido para a aquisição do próprio bem. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006). § 2o O disposto no inciso IV do caput deste artigo não se aplica no caso de penhora para pagamento de prestação alimentícia. (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006).

§ 3o (VETADO). (Incluído pela Lei nº 11.382, de 2006). (BRASIL, 2015).

Eis aí um rol taxativo de bens considerados absolutamente impenhoráveis, o qual, inclusive passará a ser disposto no artigo 833 do novo Código de Processo Civil. (Brasil, 2015).

No entanto, ao analisar tal dispositivo, resta claro que o mesmo traz duas exceções, que é o caso de execução por pensão alimentícia, que está previsto no parágrafo segundo do referido artigo. Dessa forma, ficaria autorizada a penhora de salário e outras remunerações em parcelas que permitam a satisfação do alimentante. Outrossim, a segunda possibilidade de penhora, refere-se ao parágrafo primeiro deste artigo, que autoriza a penhora de crédito que foi liberado para a aquisição do próprio bem. (BRASIL, 2015).

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menos, um mínimo seja resguardado ao devedor, pois, leva-se em conta o princípio da dignidade da pessoa humana.

O princípio da dignidade da pessoa humana está previsto no artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal. Assim este princípio propõe que na relação entre o Estado e o indivíduo devem prevalecer os interesses do ser humano e de sua personalidade, isso, levando em conta que a pessoa não é meramente um reflexo da ordem jurídica, mas, sobretudo, constitui o seu objetivo soberano, segundo Dirley da Cunha Jr. e Marcelo Novelino (2010, p. 12):

Núcleo axiológico do constitucionalismo contemporâneo, constitui o valor

constitucional supremo que irá informar a criação, a interpretação e a

aplicação de toda a ordem normativa constitucional, sobretudo, o sistema dos direitos fundamentais.

Avançando nesse sentido, ressalta-se que o projeto do Código Civil de 1916, de Clóvis Beviláqua, não se incluiu a implantação do instituto do bem de família, porém, tiveram-se outras tentativas no direito brasileiro que vingaram.

Já por outro lado, Antônio Coelho Rodrigues no seu projeto de Código Civil Brasileiro, publicado no ano de 1893, previa tal instituto no campo do Direito de Família, por meio dos artigos 2.079 a 2.090, designando este instituto como “da constituição do lar da família”, segundo Azevedo (2012, p. 66).

Nesse sentido, vários foram os projetos apresentados à Câmara dos Deputados com o intuito de inserir o bem de família no Código de 16, dentre os quais se sobressaem o projeto de Leovigildo Filgueiras, Luiz Domingues e o de Francisco de Toledo Malta. (BRASIL, 2015).

Contudo, a Câmara dos Deputados não aprovou a ideia de implementar no projeto de Beviláqua, os artigos que tratavam da constituição do lar da família do projeto de Antônio Coelho Rodrigues.

Introduziu-se então, por meio do projeto do deputado paulista Francisco de Toledo Malta, quinze artigos a respeito do homestead, o qual, após ser aprovado foi

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encaminhado ao Senado. Nessa Casa Legislativa, houve uma modificação deste instituto para o fim de retira-lo do livro das pessoas e inseri-lo no livro dos bens, previsto, desse modo, no Código Civil de 16 nos artigos 70 a 73. Nesse sentido menciona João Luis Alvez (apud AZEVEDO, 2012, p. 67) que “a instituição do bem de família foi proposta por emenda do Sen. Mendes de Almeida, por ocasião da votação do projeto do Código no Senado”.

O atual Código Civil de 2002 trata com melhor ênfase sobre o bem de família, haja vista que está disposto no Livro do Direito de Família, nos artigos 1.711 a 1.722.

Assim foi instituído no ordenamento brasileiro o bem de família, portanto, necessário mencionar a importância que tal instituto produz perante seus titulares, pois, serve este como um lar, um abrigo para o núcleo familiar, devendo a constrição judicial ser sopesada a essas características.

Daí surge o valor da Lei nº 8.009/90 para o ordenamento jurídico, tendo em vista que passa a dispor que o bem de família é assim considerado independentemente de ato de vontade ou constituição a ser realizado pela parte, gerando assim uma garantia real, resguardando de possíveis penhoras, o imóvel onde a família reside.

Sobre a natureza jurídica do bem de família no direito brasileiro, destaca Azevedo (2012, p. 93):

[...] o bem de família é um patrimônio especial, que se institui por um negócio jurídico de natureza especial, pelo qual o proprietário de determinado imóvel, nos termos da lei, cria um benefício de natureza econômica, com o escopo de garantir a sobrevivência da família, em seu mínimo existencial, como célula indispensável à realização da justiça social. A primeira finalística de caráter econômico, a segunda de sentido social e político, tudo a mostrar a preocupação do Estado em garantir a residência da família ou a obtenção de rendimentos aptos ao sustento desta.

Nesse viés, a família acaba ganhando uma garantia mínima de patrimônio, proporcionando assim, uma segurança ao núcleo familiar e assegurando o direito à moradia, elencado em na Constituição Federal de 1988.

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Da mesma forma, buscando enfatizar a proteção do ser humano, mencionam Farias e Rosenvald (2012, p. 906):

[...] as regras jurídicas criadas para as mais variadas relações intersubjetivas devem assegurar permanentemente a dignidade da pessoa

humana. Para tanto, é necessário ultrapassar as fronteiras dos direitos da

personalidade para buscar, também nos direitos patrimoniais, a afirmação da proteção funcionalizada da pessoa humana.

É de notório conhecimento que a Constituição Federal busca como princípios norteadores a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades sociais, dessa maneira, passa o patrimônio ser meio de garantir a cidadania, vindo por conta disso, a justificar a separação de parcela que seja essencial e básica para satisfazer as principais necessidades do ser humano.

Carece, portanto, ser reconhecida proteção especial ao patrimônio que seja meio de garantir a subsistência do ser humano e de sua família, pois conforme Roberto Lisboa (apud FARIAS e ROSENVALD, 2012, p. 906) a “liberdade de garantir bens é relativa e, por vezes, inexistindo para inúmeras pessoas na sociedade, deve-se buscar uma definição de quais bens são indispensáveis para as necessidades básicas das pessoas”.

Assim, para garantir o direito a um patrimônio mínimo, nada mais contundente do que reconhecer proteção especial ao bem da família, que por vezes, é o único meio a garantir o sustento e amparo do núcleo familiar.

Isso faz com que o juiz passe a analisar cada caso concreto, não deixando que o direito do credor em buscar a satisfação do seu crédito, seja mais formidável do que o direito do patrimônio do devedor, neste caso inserido como um patrimônio mínimo que garanta sua sobrevivência e de seus familiares com dignidade. Claro que não se pode deixar de lado o direito do credor, que por conta disso, caso exista bem que ultrapasse esse mínimo necessário para garantir a dignidade, a penhora judicial será realizada com posterior restituição do valor para que o devedor, assegurando assim um mínimo de dignidade ao devedor e igualmente atendendo ao crédito do credor.

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2. (IM)PENHORABILIDADE DO BEM DE FAMÍLIA

A impenhorabilidade do bem de família, como já se demonstrou, está prevista na Lei nº 8.009/90 e no Código Civil de 2002, como já salientado no capítulo anterior, normas essas que instituem o bem de família legal e o bem de família involuntário, respectivamente.

No entanto, para ser considerado impenhorável o bem de família deve enquadrar-se em determinados requisitos, dos quais se destaca principalmente, ser o imóvel urbano ou rural onde o núcleo familiar reside e constitui seu lar. Assim esse instituto cumpre sua função social de abrigo e de disponibilizar um mínimo para a subsistência da família, garantindo o direito a dignidade e a moradia, preceitos elencados na Constituição Federal.

O principal objetivo da proteção legal do bem de família a ensejar a impenhorabilidade é basicamente garantir aos familiares o direito de um mínimo existencial e patrimonial, onde os membros da família possam retirar o mínimo que necessitam, não ficando assim desamparados em meio a uma sociedade capitalista e consumidora. (DIDIER JR. et al, 2010, p. 550).

Nesse ínterim, Azevedo (2010, p. 93), menciona em relação ao bem de família voluntário:

No Direito Brasileiro, o bem de família é um patrimônio especial, que se institui por um negócio jurídico de natureza especial, pelo qual o proprietário de determinado imóvel, nos termos da lei, cria um benefício de natureza econômica, com o escopo de garantir a sobrevivência da família, em seu mínimo existencial, como célula indispensável à realização da justiça social. A primeira finalística de caráter econômico, a segunda de sentido social e político, tudo a mostrar a preocupação do Estado em garantir a residência da família ou a obtenção de rendimentos aptos ao sustento desta.

A lei que institui o bem de família involuntário ou legal esclarece vários requisitos, sendo eles quando se pode ampliar a aplicabilidade da impenhorabilidade e, os casos em que o bem de família ficará sujeito à penhora. Portanto a partir desse item, serão estudados tais casos, bem como o entendimento dos órgãos julgadores desse País.

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2.1 Extensão da impenhorabilidade do bem de família

Ao analisar os efeitos da impenhorabilidade do bem de família, percebeu-se que seus efeitos geram a impenhorabilidade e inalienabilidade do imóvel urbano ou rural que constitui residência da família.

Nesse sentido, a impenhorabilidade e inalienabilidade mencionada acarretam algumas extensões, portanto, não atingem somente o imóvel rural ou urbano, mas, também, suas pertenças e acessórios, assim como disciplina o artigo 1.712 do Código Civil:

Art. 1.712. O bem de família consistirá em prédio residencial urbano ou rural, com suas pertenças e acessórios, destinando-se em ambos os casos a domicílio familiar, e poderá abranger valores mobiliários, cuja renda será aplicada na conservação do imóvel e no sustento da família (BRASIL, 2015).

Já Santiago (2007) comenta que o Código Civil de 1916, não fixava valor ou extensão do imóvel residencial da família, embora naquela época existisse companha para sua criação, por influência do instituto texano.

Importante, mencionar a limitação prevista no artigo 1.711 do Código Civil atual, o qual estabelece que a instituição do imóvel como bem de família pode-se proceder desde que não ultrapasse um terço do patrimônio líquido existente ao tempo da sua instituição. Compreende-se que tal dispositivo quer constar que o imóvel, seja ele urbano ou rural, não pode no momento de sua instituição, ter valor superior a um terço do patrimônio líquido do seu possuidor.

Por derradeiro, se tal norma não seja observada no momento da instituição do bem de família, ficaria o mecanismo da impenhorabilidade afastado, exceto àquela prevista para o bem de família involuntário.

Entretanto, na Lei 8.009/90, que regula o bem de família involuntário ou legal, tais premissas não foram incluídas, isso por que, a referida lei não traz nenhuma ressalva ou limites acerca do valor ou sua extensão. Infere-se, portanto, que a escolha caberá ao seu instituidor, o qual gozará da liberdade de escolher

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entre seus bens aquele que será considerado bem de família, cabendo tal prerrogativa ao mais pobre ao mais abastado, sem distinções. (FARIAS E ROSENVALD, 2012, p. 915).

Com efeito, o disposto na Lei 8.009/90, em seu artigo 1º, parágrafo único e artigo 2º, parágrafo único, bem disciplinam a aplicabilidade da extensão da impenhorabilidade. Vejamos:

Art. 1º O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus proprietários e nele residam, salvo nas hipóteses previstas nesta lei.

Parágrafo único. A impenhorabilidade compreende o imóvel sobre o qual se assentam a construção, as plantações, as benfeitorias de qualquer natureza e todos os equipamentos, inclusive os de uso profissional, ou móveis que guarnecem a casa, desde que quitados. Art. 2º Excluem-se da impenhorabilidade os veículos de transporte, obras de arte e adornos suntuosos.

Parágrafo único. No caso de imóvel locado, a impenhorabilidade aplica-se aos bens móveis quitados que guarneçam a residência e que sejam de propriedade do locatário, observado o disposto neste artigo. (BRASIL, 2015, grifo nosso).

Portanto, pode-se compreender que a impenhorabilidade prevista para o bem de família legal, não compreende somente o imóvel rural ou urbano, como também, as construções, as plantações e as benfeitorias de qualquer natureza, inclusive, abrangendo, também, todos os equipamentos de trabalho, como tratores e outros utensílios, e os de uso profissional, como livros e outros instrumentos para o exercício de qualquer profissão. Essa última premissa, está prevista igualmente no artigo 648, inciso VI do Código de Processo Civil de 1973. (BRASIL, 2015).

Assim, a impenhorabilidade atinge os aparelhos essenciais à manutenção da residência familiar, tais como telefone, geladeira, televisão e outros. Sobre esse tema o Código Civil de 1916, nada mencionava, entretanto tinha-se um entendimento nesse sentido. (FARIAS E ROSENVALD, 2012, p. 914).

Por conseguinte, tais artigos regulam a proibição da penhora dos móveis que guarnecem a residência familiar, admitindo-se apenas sua penhora quando tratar-se de bens que tenham um elevado valor, ou seja, aquele móvel que foge das

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necessidades de um padrão médio de vida, como exemplo de tal colocação, tem-se os aparelhos de TV de plasma ou LCD, móveis em duplicidade, como geladeiras, televisores, aparelhos de ar-condicionado, peças de decoração, faqueiros de prata, adega climatizada, entre outros exemplos citados por Didier Jr. et al (2010, p. 554).

Por outro lado, cabe uma observação nesse sentido, a citada impenhorabilidade dos bens móveis implica que eles já tenham sido pagos, pois, caso contrário, será plenamente admissível sua penhora em execução de créditos relativos à sua aquisição. O que acarretará a não aplicabilidade da proteção legal, já que tal hipótese está prevista nas exceções do artigo 3º da Lei 8.009/90. (BRASIL, 2015).

Contudo, Simões (2015) menciona que por analogia com o disposto no artigo 1º, parágrafo único, da Lei n° 8.009/90, que os bens da vida moderna, como aparelhos eletrodomésticos, desde que componham a residência familiar, serão considerados impenhoráveis.

Aliado a esse sentido, surge, também, a possibilidade da proteção abranger valores mobiliários, para tanto, deverá ser inserida uma cláusula nesse sentido, desse modo à importância auferida deve necessariamente ser aplicada na conservação do bem familiar ou contribuir para o sustento da família, desde que tais valores não ultrapassem o valor do próprio imóvel instituído. (FARIAS e ROSENVALD, 2012, p. 914).

Nesse caso, deverá o instituidor, além de inserir cláusula que autorize essa possibilidade, deverá também, individualizar tais valores no instrumento da instituição, vinculando sempre os valores imobiliários para a manutenção e subsistência daqueles que configuram o núcleo familiar, sendo assim autorizado ao titular destinar à sua família meios possíveis para seu sustento, conforme Farias et al (2013, p. 1295).

Assim, ao mesmo tempo em que todo o ordenamento exige que, para ser um imóvel considerado bem de família deve este servir de moradia ao núcleo familiar, surge a possibilidade inversa desse entendimento, qual seja, o imóvel que

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for alugado e a renda auferida contribuir para o sustento familiar, deverá ser conferida a sua impenhorabilidade. Certo que o único imóvel que alugado à terceiro será considerado, portanto, uma extensão da aplicabilidade da impenhorabilidade, contudo, sempre que o valor do aluguel constitua meio de sobrevivência do proprietário e consequentemente de sua família, conforme entendimento pacificado do STJ.

Desse modo, o STJ editou a Súmula n° 486, disciplinado que o “único imóvel residencial alugado a terceiros é impenhorável, desde que a renda obtida com o aluguel seja para subsistência do proprietário”. (BRASIL, 2015).

A possibilidade que tem a família de alugar seu único imóvel para terceiro e com os frutos recebidos morar de aluguel em outro imóvel, deve ser reconhecida com cautela, tendo em vista, que se trata de uma exceção legal, porém, com entendimento pacificado nas cortes julgadoras.

2.2 Hipóteses de penhorabilidade do bem de família

Como já salientado a regra é de que o bem de família é impenhorável, não recaindo sobre ele a apreensão judicial, pois este bem possui um papel de dar abrigo, moradia e meios para o grupo familiar sobreviver. Contudo, a referida impenhorabilidade é relativa, já que a própria Lei 8.009/90 traz possibilidade de penhora do imóvel residencial da família.

Assim, até o momento analisaram-se todos os modos em que o bem de família será considerado impenhorável e inalienável, dada algumas particularidades e levando em conta sua real função de servir como abrigo para o núcleo familiar.

Todavia, toda regra tem sua exceção, dessa maneira quando se fala em impenhorabilidade do bem de família, está se falando de uma impenhorabilidade relativa como mencionado, já que comporta exceções, as quais serão analisadas a seguir.

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objeto de penhora estão previstas na Lei n° 8.009/90, a qual elenca em seu artigo 3º essa possibilidade:

Art. 3º A impenhorabilidade é oponível em qualquer processo de execução civil, fiscal, previdenciária, trabalhista ou de outra natureza, salvo se movido: I - em razão dos créditos de trabalhadores da própria residência e das respectivas contribuições previdenciárias; (Revogado pela Lei Complementar nº 150, de 2015)

II - pelo titular do crédito decorrente do financiamento destinado à construção ou à aquisição do imóvel, no limite dos créditos e acréscimos constituídos em função do respectivo contrato;

III -- pelo credor de pensão alimentícia;

III – pelo credor da pensão alimentícia, resguardados os direitos, sobre o bem, do seu coproprietário que, com o devedor, integre união estável ou conjugal, observadas as hipóteses em que ambos responderão pela dívida; (Redação dada pela Lei nº 13.144 de 2015)

IV - para cobrança de impostos, predial ou territorial, taxas e contribuições devidas em função do imóvel familiar;

V - para execução de hipoteca sobre o imóvel oferecido como garantia real pelo casal ou pela entidade familiar;

VI - por ter sido adquirido com produto de crime ou para execução de sentença penal condenatória a ressarcimento, indenização ou perdimento de bens.

VII - por obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação. (BRASIL, 2015).

Como se percebe do texto legal, o qual elenca seis possibilidades de penhora do bem de família, já que o inciso primeiro acabou sendo revogado pela Lei Complementar n° 150, de 2015, que trata acerca do contrato de trabalho doméstico.

Com efeito, as exceções à impenhorabilidade se aplicam quando da existência de dívidas que se referem às obrigações decorrentes do financiamento para aquisição ou construção do imóvel, no limite dos créditos e acréscimos do contrato.

Portanto, a primeira exceção está ligada a ideia de utilização pelo núcleo familiar do bem de família, do empréstimo obtido, para construção ou aquisição do imóvel que servirá de moradia. Tendo em vista que o que se quer aqui é dizer que não seria justa a aplicação da impenhorabilidade, já que foi por meio desse débito (financiamento) que possibilitou a construção ou aquisição do bem. (FARIAS e ROSENVALD, 2012, p. 932).

Referências

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