v) Ser multiplicidade
F IGURA 16 V IDEOGUERRILHA
Na projeção acima, o blogue da Voice enuncia “as possibilidades de mudanças no espaço urbano por meio de megaprojeções de imagens, fotos, vídeos, animações e gravuras”2.
O conceito de biopolítica passou por uma variação de estilo de governo para estética de guerrilha por agregar vida, natureza, conhecimento no campo da disputa do sensível e relacional3. Em a governamentalidade, Foucault (1997) caracteriza a biopolítica no campo do poder exercido em torno da vida, uma regulamentação da população, uma racionalidade política e funcional. Numa segunda projeção, passa a ser um poder que se expressa pela vida.
2 BLOG DA VOICE. Rua Augusta é o palco da 2ª edição do Video Guerrilha. Blog da Voice. 2011. Cf.:
<http://blogdavoice.blogspot.com.br/2011/11/rua-augusta-e-palco-da-2-edicao-do.html>. Acesso em: 6 out. 2014.
3 Com relação a esta “mistura” de autores e teorias, é pertinente assinalar que a heurística desta pesquisa busca
um fazer ser dos bricoleurs – um trânsito mesmo que caótico entre as teorias e autores, espaços e contextos para fazer acontecer um percurso multilógico, multirreferencial sobre as artistagens na blogosfera radical, esta mesma um fenômeno permeado de nuances e instabilidades. Como afirmam Kincheloe e Berry (2007, p. 11), os processos da bricolagem “redefinem o objeto de investigação, adotando uma ontologia crítica, relacional”. Qual seja, um pensamento-rizoma, singularizando a criação conceitual como um “poeta”, abolindo figuras de representação que tanto nos causam influência nas sedes por porto seguro. O tecimento da bricolagem nesta pesquisa está bem especificado no capítulo 8, referente à metodologia: “Ator-rede: habitar, guerrear, sentir”.
Na síntese de Negri (2003), a biopolítca é o biopoder da vida - abertura intransitiva da liberdade contra toda máquina, contra toda estrutura de poder. Como teia de um objeto, a biopolítica tem uma história e, ao mesmo tempo, um devir como estilo e dispositivo, transitando de ‘ciência de polícia’ (estilo de governo para manutenção da ordem social) para ‘ultrapassagem do direito público’ (função política), como bem o observa:
§ Estilo de governo: em a governamentalidade, Foucault (1997) caracteriza a biopolítica por meio de suas redes de controle e percepção: i) higiênica-pública: natalidade, mortalidade, longevidade; ii) assistência-seguros: velhice, acidentes, doenças; iii) espaços-leis: organização da cidade. Nesta perspectiva, a população (ao invés do homem como indivíduo disciplinado) é objeto de regulação política. “Se, no começo, a biopolítica nasce como ciência de polícia, como uma tecnologia ligada ao agir do Estado, sucessivamente ela vem representando-se como um tecido geral que concerne à relação total entre Estado e sociedade (NEGRI, 2003, p. 105-106).
§ Estética de guerrilha: da segunda formulação no texto acima, Negri problematiza a biopolítica como um conjunto de biopoderes que derivam de atividade de governo ou da vida: um poder que se expressa pela vida, não somente no
trabalho e na linguagem, mas também nos corpos, nos afetos, nos desejos, na sexualidade. E indaga se não podemos identificar, na vida, o lugar de emergência
de uma espécie de antipoder, de uma potência, de uma produção de
subjetividade que se dá como momento de dessujeição. Negri chega a um novo
conceito de biopolítica com base na reformulação mesma do conceito, segundo o próprio Foucault: a biopolítica como biopoder da vida inerente a cada existência:
Em 1982, Foucault sustentava que ‘a análise da população, o questionamento das relações de poder e do antagonismo entre relações de poder e a afirmação de intransitividade da liberdade constituem uma tarefa política contínua. É lá, nessa abertura intransitiva da liberdade contra toda máquina, contra toda estrutura de poder, que se estabelece a tarefa política inerente a cada existência social’ (NEGRI,
2003, p. 106).
Na análise da blogosfera, a biopolítica é campo híbrido que agrega vida, natureza, conhecimento como um conceito-rede do ativismo humano-máquina que ocorre pela ativação
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do corpóreo e do intelectual nas micropolíticas de resistência e insurreição. Eis o poder: poder mobilizar, poder interceder, poder evocar a diferença, poder articular o rompimento do mesmo, do natural, do senso comum. Este poder está ligado à ideia de devir: de rupturas com as subjetivações dominantes, ou de corrosão da sua linguagem, na arte da produção da diferença. Parafraseando Guattari e Rolnik (2011, p.87), seja uma construção de uma subjetividade que se conecta e se entrelaça com problemáticas que se encontram nos campos da liberdade de expressão, dos direitos e de uma outra democracia, portando uma esfera das lutas cognitivas e práticas.
i) Símbolos
Lazzarato e Negri (2013, p.28) afirmam que “o capitalismo se torna cognitivo não pelo fato de mobilizar o conhecimento, mas porque passamos de uma situação na qual se produziam mercadorias por meio de conhecimento à outra”. Nesta cadeia de produção, “o conhecimento produz, tautologicamente, conhecimento: a produção e a manipulação de símbolos torna-se a base de manipulação da natureza, até o ponto de nela determinarem-se verdadeiros processos de valorização”. A produção da vida ocorre numa modelagem comunicacional, espirituosa, produzida em interfaces.
A centralidade do trabalho imaterial diz respeito ao fato de suas atividades materiais (de manipulação e transformação da natureza) dependerem de seus elementos cognitivos, linguísticos e afetivos (de manipulação dos símbolos). Ou seja, o trabalho material passa a depender do imaterial, onde o imaterial diz respeito à subjetividade: conhecimento, comunicação, afetos (COCCO,2013, p. 10).
Um stress comunicativo produz o dia a dia com a vida posta a todo instante a trabalhar. A mistura do trabalho-lazer-vida pessoal já não mais é perceptível porque está no tecido dos processos do imaterial assim como a captação dos seus dividendos. Sua própria dinâmica é uma guerrilha permanente, uma vez que, como assinalam Albagli e Maciel (2012, p. 51), o capitalismo cognitivo (sobre)vive da exploração parasitária e rentista da produção coletiva:
“diferentemente do fordismo, no capitalismo cognitivo a cooperação social é cada vez menos organizada previamente pelo capital, sendo sua captura realizada a posteriori”. O antagonismo se estabelece agora entre a autonomia do saber vivo e a captura capitalista.
Na descrição desse novo cenário, no qual a criação da riqueza passa a depender menos das delimitações da produção em tempos e espaços imediatos e mais das relações entre os sujeitos, Lazzarato e Negri (2013, p.52) afirmam que se desenvolve um novo ser: o indivíduo
social, ator do trabalho imaterial que se apresenta como o grande pilar de sustentação da produção e da riqueza. No que concerne a ação coletiva e luta social, entra em cena a multidão do trabalho imaterial. Este ‘ator’ é o agente também da hegemonização de uma nova
forma de produção na qual o tempo livre para formação, criação, desenvolvimento artístico se expande e socializa para o desenvolvimento das forças gerais da mente humana. O tempo de trabalho cessa de ser a riqueza e sua medida, numa contradição em processo:
De um lado, o capital reduz a força de trabalho a um ‘capital fixo’, subordinando-a sempre mais no processo produtivo; de outro ele demonstra, através dessa subordinação total, que o ator fundamental do processo social de produção é tornado agora ‘o saber social geral’ (seja sob a forma do trabalho científico geral, seja sob a forma do ‘por’ em relação às atividades sociais: ‘cooperação’) (LAZZARATO;
NEGRI , 2013, p. 53).
Uma nova subjetividade é produzida através da: a) independência da atividade produtiva em face da organização da produção e b) constituição de uma intelectualidade de
massa (subjetividade autônoma). A relação não é mais de simples subordinação, posto que
adquire independência frente ao tempo de trabalho imposto e se põe em termos de autonomia no que concerne à exploração, como capacidade produtiva, individual e coletiva, que se manifesta como capacidade de fruição. O produto deixa de ser o produto do trabalho isolado imediato. O trabalho ganha novo sentido e toma conta de toda a vida assim como as subjetividades: o ser deixa de ser apêndice da produção e se fragmenta assim como as inteligências das máquinas. O produto torna-se a combinação da atividade social. Entram em
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cena com uma radicalidade inusitada os recursos imateriais: o conhecimento, a comunicação e a cooperação. Conforma-se uma nova subjetividade biopolítica, potência educomunicativa geradora de rompimentos.
ii) Força produtiva
Os produtos, eles mesmos, são redes de produções. Assim como seu produtor, como bem ilustra o post do blogue DCM – Diário do Centro do Mundo, no qual o autor e seus co- autores em rede agem como seres de uma mesma causa para produção do que se chama rede das audiências ativas, o ativismo das minorias4: