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FACEBOOK: CALIDOSCOPIA DE GÊNEROS TEXTUAIS

2 A ESCOLA, A SALA DE AULA E A PESQUISA

3.2 FACEBOOK: CALIDOSCOPIA DE GÊNEROS TEXTUAIS

A importância de se trabalhar com os gêneros textuais desde as primeiras séries do ensino fundamental é uma realidade bastante estudada, como salientou Marchuschi, “podemos afirmar que estamos presenciando uma espécie de ‘explosão’ de estudos na área, a ponto de essa vertente de trabalho ter-se tornado uma moda” (2008, p.146). Essa tendência perdura e está estabelecido nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) que não se pode mais pensar em ensino de língua materna sem levar em consideração, entre outros aspectos, o estudo com os gêneros.

Os gêneros discursivos cada vez mais flexíveis no mundo moderno nos dizem sobre a natureza social da língua. [...] A funcionalidade dos discursos estipula o como e o que dizer. A linguagem verbal é dialógica e só podemos analisá-la em funcionamento, no ato comunicativo, considerando todos os elementos implicados nesse ato.

A língua, na sua atualização, representa e reflete a experiência em ação, as emoções, desejos, necessidades, a visão de mundo, valores, pontos de vista. A linguagem verbal é encontro e luta, é o corpo a corpo que não admite passividade.

Toda e qualquer análise gramatical, estilística, textual deve considerar a dimensão dialógica da linguagem como ponto de partida. O contexto, os interlocutores, gêneros discursivos, recursos utilizados pelos interlocutores para afirmar o dito/escrito, os significados sociais, a função, os valores e o ponto de vista determinam formas de dizer/escrever. As paixões escondidas nas palavras, as relações de autoridade, o dialogismo entre textos e o diálogo fazem o cenário no qual a língua assume o papel principal (BRASIL, 2000, P.21).

Trazer para a aula os gêneros é apresentar ao aluno a dimensão dialógica da língua, é fazê-lo refletir e exercitar a comunicação para desenvolver suas habilidades de leitura e escrita, de produção e analise textuais, proporcionando-lhe “uma visão ampla das possibilidades de usos da linguagem” (BRASIL, 2000, p. 8) e sua materialização nos textos orais, escritos e imagéticos. Desta forma, trabalhar com gêneros discursivos e textuais é uma das vertentes do projeto, um de seus objetivos específicos, visto que é uma necessidade curricular e uma forma de contextualizar as aulas de língua às necessidades sociointerativas do aluno, já que,

como manifestação da linguagem, os gêneros textuais circulam em todas as esferas sociais. Para Marcuschi, “quando dominamos um gênero textual, não dominamos uma forma linguística e sim uma forma de realizar linguisticamente objetivos específicos em situações sociais particulares” (2008, p.154), então trabalhar os gêneros textuais é contribuir para a formação integral do aluno.

Para elucidar melhor esse aspecto que contribuiu para a escolha do

Facebook como suporte para esse projeto de pesquisa, usarei a metaforização que

lhe apresento no subtítulo desse tópico, calidoscopia de gêneros textuais. Quem já viu um calidoscópio e já olhou através dele, sabe que esse objeto forma múltiplas imagens por meio da combinação de reflexos e de movimentos. A palavra

calidoscópio deriva de três palavras gregas, καλός (kalos), είδος (eidos) e

σκοπέω(skopeō), que significam respectivamente, belo, figura e observar. Faço tal

relação para expressar a variedade de gêneros textuais imersos no Facebook e que podem compor seus posts, gerando múltiplas formas de trabalho pedagógico. Assim como cada movimento do calidoscópio gera novas imagens, essa rede social tem, desde a sua superfície ao seu cerne, múltiplos gêneros textuais compondo-a, são infinitas possibilidades de exploração de gêneros e a cada direcionamento que o professor dá a sua utilização pedagógica, a cada ângulo que a ferramenta é girada, geram-se novos exercícios, fomentando multiletramentos.

O Facebook constitui um meio de articulação de diversas linguagens. Vale ressaltar também a fluidez e o hibridismo presentes em sua composição estrutural, já que é um ambiente mesclado de outros gêneros que compõe um todo interativo, como um calidoscópio, uma característica própria da internet e da arquitetura dos espaços virtuais. Ao imergir no Facebook o usuário interage com e a partir de gêneros diversos e a cada movimento criam-se novas possibilidades de comunicação e interação linguísticas através deles.

Desde quando o usuário se inscreve no Facebook, ele já tem contato com um gênero textual comum aos ambientes físicos da esfera social, que é o formulário. Para se inscrever em uma rede social é preciso cadastrar-se e os formulários solicitam dados que devem ser preenchidos, tal como o preenchimento de formulários impressos. Assim, o indivíduo começa a interagir na rede utilizando um gênero textual muito comum. Um novo giro no calidoscópio e outras possibilidades

de trabalhar os gêneros e suas relações tipológicas imergem. O ambiente então o direciona para a construção do perfil, que solicita dados pessoais que se assemelham a um currículo, dados de formação escolar, experiências de trabalho, uma parte memorialística relacionada à família, gostos e interesses pessoais, formando assim um combinado de tipos e gêneros textuais, devido às relações intimas e fronteiriças dos gêneros, já que estes mantem certa estabilidade, mas não são formas rígidas, enquadradas.

Passadas as etapas de formação do perfil, o usuário tem à mão sua página, que basicamente tem dois lados, duas novas figuras se formam nesse calidoscópio, a página do usuário e o feed de notícias, que os considero gêneros textuais próprios da internet. Para embasar tal afirmação, tomo a definição de gênero textual feita por Marcuschi:

Gênero textual refere os textos materializados em situações comunicativas recorrentes. Os gêneros textuais são os textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados na interação de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas. Em contraposição aos tipos textuais, os gêneros são entidades empíricas em situações comunicativas e se expressam em designações diversas, constituindo em princípio listagens abertas (2008, p.155).

Por conseguinte, as páginas de usuário e os feeds de notícias são gêneros textuais contemporâneos, já que são duas formas de comunicação discursiva estabelecidas nos ambientes das redes sociais, de amplo uso e difusão, que formalizam situações comunicativas. São objetos de legitimação de discursos e fonte de produção e suporte textual, visto que “os gêneros não são entidades formais, mas sim entidades comunicativas em que predominam os aspectos relativos a funções, propósitos, ações e conteúdos” (MARCUSCHI, 2008, p.159). Um perfil e um feed são elemento da comunicação contemporânea que mantém certa estabilidade formal, mas não são rígidos, completamente estáveis. A partir de um leque de possibilidades, variam de acordo com as características do usuário, tomando formas diversas que expressam personalidades e estilos individuais, têm funções ligadas a propósitos pessoais e variam principalmente também quanto ao conteúdo exposto.

Os feeds de notícias apresentam certa semelhança com gêneros textuais bem comuns aos ambientes físicos, que são os noticiários, os jornais, os textos informativos, bem verdade, certamente neles foram inspirados, contudo tem no seu cerne o DNA da propaganda. Entretanto, trazem uma característica própria que é a capacidade de limitar-se a noticiar, talvez o melhor verbo fosse publicitar, apenas notícias relacionadas a interesses do usuário e aos seus relacionamentos na rede, o que também abre margem para a manipulação institucional.

A cada entrada, a cada aprofundamento, a cada giro no calidoscópio, a cada direcionamento do olhar, uma nova imagem, um novo reflexo, outros gêneros textuais. Na composição do perfil, da página do usuário, um dos elementos centrais é o Post. Uma ação marcada temporalmente no perfil do usuário e associado aos

feeds de notícia de seus seguidores, dentro dessa teia relacional que compõe uma

rede social. Também considero o post um gênero textual da contemporaneidade devido às mesmas características elencadas nos parágrafos anteriores para o perfil de usuário e os feeds de notícias. O post é o resultado de uma combinação de possibilidades disponibilizada pelo ambiente no painel do usuário, como ilustrado na figura 2, em que se pode arquitetar seu objeto de comunicação através de textos escritos, de formas audiovisuais, foto, vídeo, de hiperlinks, de emojes28 ou outras imagens, estáticas ou dinâmicas, ou de uma combinação de alguns, ou todos esses elementos.

Figura 2 - Painel para construção do Post.

Os posts são comuns a diversas redes sociais e uma das mais populares formas de expressão do pensamento, das emoções, dos desejos, da personalidade. Através deles, contemporaneamente, o indivíduo manifesta seu pensamento, produz

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De origem japonesa, são ideogramas e Smileys usados em mensagens eletrônicas para facilitar a comunicação, expressando sentimentos, ideias ou situações, uma representação textual imagética, que assumem funções comunicativas dentro do discurso da internet. O primeiro Emoji foi criado em 1998 pelo japonês Shigetaka Kurita.

conhecimento, divulga e convence, atraí parceiros, estabelece diálogos e firma contratos sociais. Também é uma forma de expressar-se artisticamente, de liberdade poética, de manifestação política, de demonstrar ou expurgar sentimentos, felicidade, amor, contentamento, raiva e inconformismo, sobretudo, é um veículo de manifestação da opinião.

Dada sua amplitude e alcance, exige hoje uma grande responsabilidade e é um dos elementos das redes sociais que merece atenção especial, que requer muito estudo e apropriação por parte da escola e da academia, uma vez que é preciso despertar nas pessoas, e será eficiente que seja desde cedo, a consciência sobre o uso responsável e cidadão dessa ferramenta de comunicação e de expressão da cidadania. É primordial que a escola discuta fortemente com seus alunos os aspectos formais e morais que envolvem a produção e divulgação dos posts, já que existem muitos problemas de ordem sociopolítica envolvidos. É importante trazer

para o debate questões éticas e de autoria, o cyberbullying29, a exposição de dados,

a divulgação de notícias e veracidade de fatos, sobre como minha opinião pode interferir no outro e os impactos que atualmente as redes sociais, muito, bem verdade, através dos posts, têm refletido nos caminhos políticos e na formação do pensamento coletivo, na expressão da vontade social, por si só, esse tema já daria uma bela tese de doutorado.

Quando trabalho nesse projeto com a leitura de posts em uma página do

Facebook e estimulo a reflexão sobre os temas que nortearam essas publicações e,

na sequência, fomento a escrita crítica do aluno que interage nos fóruns de discussão, meu objeto é atravessado por todas essas questões acima mencionadas. Até chegar a escrita na página, deve-se haver todo um trabalho prévio de discussão sobre o que é escrever em rede e todos esses temas tão importantes devem ser levados em consideração. Construir ou responder a um post passa pela reflexão, planejamento, delineamento de objetivos, previsão de impactos e desdobramentos possíveis dessa construção textual. Nas rodas de conversa em sala de aula, nos debates prévios à interação em um ambiente virtual, no caso desse projeto, no

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Assim como o bullying, o cyberbullying é um grave problema que cerca os adolescentes e deve ser objeto de atenção na comunidade escolar. O cyberbullying um tipo de prática de violência contra colegas através da internet e demais tecnologias associadas, principalmente em redes sociais, usando o espaço virtual para intimidar, difamar, atacar moralmente o outro de maneira covarde e constante.

Facebook, deve sempre fazer parte e nortear as discussões essa responsabilidade e

a atenção que se deve dar ao que lançamos na rede, às garrafas atiradas ao mar, que podem trazer consequências, ferir, maltratar, tanto o outro, quanto a si próprio.

Quando se trata da arquitetura de uma postagem, poderia direcionar meu calidoscópio ainda a outros gêneros textuais contemporâneos e frutos da internet, como os Memes, por exemplo, mas irei direcionar a análise para outro gênero que será trabalhado muito fortemente nesse projeto, e que é consequência dos posts, muito presente e integrante dessa grande teia comunicacional que forma a rede que são as mensagens que compõe diálogos que os usuários estabelecem nos ambientes virtuais, como afirma Bakhtin o diálogo “é a forma mais simples e clássica de comunicação discursiva” (2010, p.279). No ambiente físico os diálogos entre pessoas caracterizam-se não só pela emissão de mensagens verbais, mas são constituídas por expressões faciais, gestos, uma série combinada de signos linguísticos.

Entretanto as ferramentas que o ambiente da internet propicia potencializam, turbinam esse ato discursivo já que uma mensagem trocada em um diálogo na rede é constituída não apenas por sintagmas verbais. Podem ser usados na construção da mensagem diversos outros recursos como imagens, que podem ser emojes, ou

outras imagens estáticas, bem como imagens dinâmicas, como as Gifs30, vídeos e,

sobretudo, os hiperlinks, elementos que podem tomar emprestado outros enunciados e produções de infinitos autores, trazendo profundidade, um terreno em que não existe solo, uma infinita abertura de janelas para composição da comunicação, uma série de recursos que quebram a linearidade das mensagens e potencializam a transmissão da informação, podendo assim superar os recursos de um diálogo presencial. O uso das mensagens nas redes sociais popularizou-se tanto que acabou extrapolando o ambiente virtual mediado pelo computador e hoje está em diversos aplicativos para tablets e smarthphones, como os messengers e o mais popular no Brasil, o whatssap.

Outro fator que diferencia muito os diálogos em rede dos presenciais é a forma como eles se processam. Nem sempre essa troca é contínua, simultânea.

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Abreviação para Graphics Interchange Format é um formato de imagens estáticas, mas normalmente animadas, imagens em movimento, muito usadas na internet.

Pode haver intervalos temporais entre a troca das mensagens já que nem sempre os interlocutores estarão on-line, conectados, e é comum troca de mensagens off-line nos ambientes virtuais, havendo uma segmentação temporal nos diálogos o que não afeta a comunicação diretamente, apenas impõe um ritmo diverso da comunicação presencial. Bem verdade, o recurso dos feeds de notícia e as notificações, aceleram bastante a velocidade, estimulando a interação.

Mas essa troca de mensagens pode ser, por sua vez, caracterizada por diversas intencionalidades e se realizar entre diferentes interlocutores. As mensagens podem ser Inbox, privadas, tendo a interlocução entre duas pessoas, ou um grupo fechado de interlocutores, ou podem ser Direct, públicas, para qualquer usuário cadastrado no sistema, na rede social. Independente de qual seja a forma de execução desses diálogos, a maneira como se processam essas trocas de informação, esses debates, em grupos menores ou maiores, abertos ou fechados, em chats ou off-line, dialogar em rede, principalmente em redes sociais, é uma constante forma de comunicação moderna e essa tendência estabeleceu-se, assim como vem evoluindo.

Principalmente, comentar posts em redes sociais é uma forte tendência, atrevo-me a dizer, um hábito social. Essa forma de interação é muito popular e também polêmica. As pessoas que têm um olhar reticente sobre essa forma de expressão contemporânea criticam-na, e com fundamento, afirmando que todo mundo quer dar palpite em todos os assuntos, todos hoje sabem de tudo, de política à religião, todo mundo é especialista ou doutor no assunto. Realmente, como destaquei a poucas linhas atrás, essa postura de falar de tudo e as polêmicas que surgem nos debates em redes sociais gerados por posts são um fenômeno que cabe também à escola trazer para a discussão, incluir nos currículos da educação básica a formação do internauta, do que eu classificaria como cirbercidadão, e que, modestamente, é uma tentativa que proponho realizando esse projeto.