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UMA REDE SOCIAL A SERVIÇO DA APRENDIZAGEM

2 A ESCOLA, A SALA DE AULA E A PESQUISA

3.3 UMA REDE SOCIAL A SERVIÇO DA APRENDIZAGEM

Antes de entrar propriamente no trabalho na página do Facebook, fiz com meu aluno todo o percurso acima descrito. Utilizei a calidoscopia de gêneros textuais do

Facebook em aulas e rodas de conversa em sala, para criar a preparação

necessária para as leituras e a escrita críticas. Criar os pré-requisitos necessários, despertar a reflexão sobre o uso dos ambientes virtuais, sobre a transposição dos ambientes e suas relações, as contribuições que os universos físicos e virtuais trazem para seu crescimento pessoal, entre tantos outros aspectos inerentes à sua formação integral.

As pesquisas acadêmicas sobre o Facebook na educação já são bastante vastas, sendo assim esse trabalho não é exatamente uma novidade. Existem aproximadamente 114.000 dissertações de mestrado e 30.000 teses de doutorado

catalogadas no banco de teses da CAPES31, entre os anos de 2014 a 2018,

associadas às palavras-chave Facebook e educação, o que demonstra que a escola e a universidade já perceberam que essa rede social pode ser usada com fins educacionais e que deve ser objeto de estudo acadêmico. Entretanto, pode-se averiguar na produção acadêmica que a maneira como é utilizada, a metodologia de trabalho com essa plataforma na escola é variada. Muitos trabalhos mostram que o mais comum é utilizá-la como forma de divulgação de ações, como uma coluna social de eventos escolares, como mural de fotos, como veículo de propaganda e interação com a comunidade escolar. Outros a utilizam como repositório de conteúdos, suporte bibliográfico ao trabalho docente, como uma biblioteca virtual multiplataforma, interligada por hiperlinks a outros sites, como o Youtube e

Wikipédia, por exemplo, para leitura de textos e vídeos didáticos.

O caminho que escolhi, como já explicitei anteriormente, foi utilizar o Facebook como plataforma para desenvolver com meu aluno atividades de leitura de posts que apurassem o seu olhar para o texto, suas formas de composição e seus elementos implícitos, refletindo sobre as características contemporâneas da leitura em rede, bem como praticar a escrita de textos de opinião em fóruns de discussão, sempre refletindo sobre o peso e a responsabilidade dessa interação. Para que tais objetivos fossem cumpridos, era preciso definir alguns padrões de uso do Facebook e optar,

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entre as possibilidades disponibilizadas por essa plataforma, pela que mais se adequasse aos objetivos da pesquisa.

Criar um perfil de usuário, dando um nome criativo relacionado à pesquisa, foi minha ideia inicial, mas deparei-me com diversas dificuldades impostas pela política de uso e privacidade da plataforma. Desde algum tempo, o Facebook adotou uma política, como seus executivos afirmam, de transparência para a criação de um perfil de usuário, com a intenção de evitar que as pessoas criem perfis fictícios que possam esconder sua verdadeira identidade. Afirmam que é um princípio para tornar a rede um ambiente mais transparente, ao menos em tese. Portanto, privilegia que o título do perfil seja o nome real do usuário, o sistema rejeita determinados nomes para perfis bloqueando sua criação e sugerindo alternativas, a depender do nome que for preenchido na ficha cadastral, oferece outras opções, uma página, um

Grupo, uma Fanpage32.

Como eu já tinha dois perfis, um pessoal para interação com amigos mais próximos e familiares e outro do Professor, usado exclusivamente para interagir com alunos e ex-alunos, teria dificuldades para a criação de um terceiro. Vinculado a esse segundo perfil, o do professor, criei uma página que chamei de “Leitura de Mundo”. Pensei nesse recurso disponibilizado pelo Facebook, para qualquer um de seus usuários, dada a facilidade para criá-la e gerenciá-la. Além disso, teria dois vínculos com meu aluno, um da página, espaço onde desenvolveríamos as atividades escolares da pesquisa e outro da amizade no perfil, podendo assim também, apresentar outros textos e leituras complementares de maneira indireta no meu perfil.

A ideia principal baseava-se em formatar uma espécie de revista interativa tendo como base posts construído e publicados por mim, a partir dos temas definidos pelos alunos em rodas de conversa na sala de aula. O aluno interagiria quinzenalmente, fazendo a leitura do post e respondendo com um comentário,

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A fanpage é um recurso oferecido pelo Facebook para seus usuários criarem espaços alternativos aos seus perfis de usuários para conectarem-se com suas marcas, empresas ou celebridades favoritas. Elas têm um endereço URL simplificado, o que facilita sua memorização, além disso, é um espaço mais aberto que pode ser visualizado por pessoas conectadas à internet que não tenham perfil de usuário no Facebook, aparecendo assim em sites de busca como o Google. Já as páginas do usuário, assim como os Grupos, são outros recursos do Facebook disponibilizados com funções bem parecidas, mas que a diferença básica reside no caráter mais fechado, ficando esses restritos a usuários com perfil na rede social.

praticando assim a escrita crítica. Mas a escrita não se restringia a um único comentário, já que na interação com o post o alunado iria desenvolvendo um fórum de discussão, interagindo também com os comentários dos colegas, em uma construção textual coletiva e compartilhada. Essa construção estaria livre para o uso de linguagens híbridas, jogos de construção de significado com texto gráfico, imagens estáticas ou animadas, utilização ou criação de memes33, enfim, todas as possibilidades de construção linguística próprios do meio digital poderiam ser empregadas na redação do texto.

O único destaque que fiz, foi que deveria haver certo monitoramento da linguagem empregada, privilegiando o uso das formas normativas, da linguagem culta, para os signos textuais. Não desejava que o aluno usasse um vernáculo catedrático, longe disso, nem necessariamente era uma imposição rígida, mas sim uma orientação, uma sugestão e para elucidar melhor e alcançar o objetivo pretendido, fizemos uma roda de conversa partindo do conceito Bakhtiniano de

língua34. Levantamos questões como adequação e inadequação linguística, bem

como as diversas modalidades da linguagem, a formalidade e a informalidade linguística, a adequação verbal aos ambientes de uso, buscando a reflexão para a construção textual e formação argumentativa, que o aluno fizesse antes de escrever seus comentários na página um trabalho metacognitivo para a construção do texto. Desta forma ele passaria a fazer uma interação na página mais consciente, busquei que todos fizessem um monitoramento crítico de seu processo de construção textual, refletindo sobre suas intenções comunicativas na produção, seus objetivos argumentativos e a atenção às características do ambiente de interação, que, apesar de manter certa informalidade pelo próprio caráter da rede social, todavia, como extensão do ambiente físico escolar, e por tratar-se de atividade didática formal, implica maior monitoramento.

33 Meme é um termo grego que significa “imitação”. O conceito de meme refere-se a uma ampla teoria

de informações culturais criada pelo escritor Richard Dawkins em 1976 em seu livro “The Selfish

Gene (O Gene Egoísta)”. Simplificadamente o termo nomeia toda informação que viraliza na internet

em determinado formato que vai de imagem, vídeo, frase, ideia, música, entre outros, visualizados e replicados pelos usuários podendo ser recriados por quem os transmite. Hoje, estão bastante associados ao humor e a trollagem (gíria da internet para referir-se ao ato de zoar, chatear, tirar sarro, sacanear participantes de uma discussão em fóruns da internet, apenas com a finalidade de perturbar.).

34 Para o autor a língua apresenta-se como corrente evolutiva ininterrupta, aberta, variável e flexível

3.4 A CONSTRUÇÃO DA PÁGINA E O PRIMEIRO POST: A INTERNET ESTÁ NOS