2 REVISÃO DA LITERATURA
2.1 FACTORES PSICOLÓGICOS DETERMINANTES DO RENDIMENTO
Uma das primeiras abordagens realizadas a esta temática dizia respeito à personalidade dos atletas, procurando saber-se se as diferenças entre atletas com níveis de rendimento diferenciados se deviam às variabilidades individuais no campo da personalidade. Os resultados para além de não serem muito animadores, não permitiram encontrar "perfis" na "maneira de ser" que justificassem as diferenças de rendimento (Gomes & Cruz, 2001). Assim, os
investigadores procuraram encontrar outras justificações, fora do contexto da personalidade, numa área de interesse distinta, mais preocupada em analisar processos e factores cognitivos envolvidos no rendimento dos atletas. Ou seja, para além de continuar a ser importante determinar as características psicológicas que diferenciam os desportistas entre si, também se tornou crucial avaliar e compreender o modo como eles percebem e avaliam, do ponto de vista cognitivo, as competições (Gomes & Cruz, 2001). A existência de um determinado contexto desportivo, com as suas próprias especificidades e exigências, implica que se contemple a análise da relação atleta-meio, nomeadamente a forma como o atleta interpreta esse meio, a relação que tem com ele e a maneira como todos estes aspectos influenciam o seu comportamento.
Foram surgindo, assim, ao longo das últimas décadas, autores e investigações, nas mais variadas modalidades e contextos desportivos, que se focalizaram não só no estudo dos processos psicológicos que envolvem e influenciam o desempenho desportivo e seus constructos, mas também nas características, factores e competências psicológicas que distinguem atletas de diferentes níveis competitivos e rendimento.
Williams (1991) defende que é importante conhecer se existe um estado psicológico óptimo para a realização de execuções plenas. Preconiza que existe um perfil psicológico que se relaciona estritamente com aquelas. Para este autor, embora existam diferenças individuais, aquele perfil, na maior parte dos casos, define-se pelas seguintes características: auto-regulação no nível de activação, alta confiança em si mesmo, melhor concentração, estar sob controle sem forçar, preocupação positiva pelo desporto, determinação e compromisso. Como tal, uma execução plena trata-se de um produto do corpo e da mente, que não ocorre frequentemente, mas que pode ser treinado. Ao aprendermos a controlar a disponibilidade psicológica e o clima mental ideal, podemos aumentar a probabilidade de que a execução plena se dê (Williams, 1991).
Vasconcelos-Raposo (1991) e Hogg (2001) também referenciam um estado óptimo ou ideal de prestação desportiva. Para o primeiro a sua manifestação é caracterizada por músculos “soltos", movimentos fáceis e precisos, sentimento de auto-confiança, optimismo e atitude positiva. Todas estas variáveis deverão estar harmoniosamente integradas entre o corpo e a mente, para que, na altura da competição, o atleta não questione o que vai fazer ao longo do dia da prova. Por seu lado, Hogg (2001) sustenta que o estado ideal de prestação desportiva é alcançado quando os atletas se sentem completamente preparados e prontos para realizarem as tarefas da sua modalidade de uma forma controlada e consistente.
No contexto da demanda pela identificação de factores e perfis psicológicos associados a desempenhos desportivos de sucesso no futebol encontramos alguns estudos. Corrêa, Alchieri, Duarte e Strey (2002) identificaram a motivação, a confiança, a preparação mental e o momento psicológico no decorrer da partida como sendo considerados, por jogadores, ex-jogadores, treinadores e preparadores físicos, importantes para a performance desportiva.
Pain e Harwood (2008) referenciaram diversas variáveis influenciadoras da performance das equipas no futebol, num estudo muito abrangente realizado com jogadores, treinadores, fisioterapeutas, médicos e fisiologistas. Neste estudo foram reconhecidos o suporte positivo dos amigos e da família, a existência de rotinas pré-competitivas consistentes, formulação de objectivos individuais e colectivos claros, compreensão do papel a desempenhar, existência de uma liderança positiva, forte coesão entre todos, compromisso colectivo, boa relação treinador-equipa, forte resiliência de equipa, bons feedbacks por parte dos treinadores, análise dos jogos em vídeo, saber o que se espera da equipa adversária, actuação clara e de forma simples por parte do treinador, boa recuperação do ponto de vista físico, disponibilidade das equipas médicas e boa preparação física e mental, como factores influenciadores do desempenho desportivo individual e colectivo.
Coetzee e colaboradores (2006), num estudo realizado com 36 futebolistas, identificaram a preparação mental, concentração, capacidade de lidar com a pressão, formulação de objectivos, motivação para a realização e controlo da activação como os mais importantes factores diferenciadores entre as equipas de sucesso e as outras. Constataram ainda que os jogadores de maior sucesso revelaram índices de concentração, treinabilidade e preparação mental superiores aos seus colegas de menor sucesso. Para aqueles investigadores os resultados obtidos reforçam a necessidade de contemplação dos skills psicológicos desportivos nos protocolos de identificação de talentos.
Reforçando igualmente a importância da existência de uma Psicologia do Desporto aplicada ao futebol, especificamente no âmbito táctico-técnico, referenciamos aqui o trabalho de Thelwell, Greenlees e Weston (2006), que viram reconhecidos por parte de futebolistas os efeitos positivos sobre o rendimento individual de uma intervenção psicológica específica realizada com jogadores médio-centro, através de práticas de relaxamento, imagética e self- talk. Os resultados sugeriram a possível eficácia de uma preparação psicológica específica sobre a performance individual de futebolistas.
No âmbito das lesões entre jogadores de futebol, Johnson e colaboradores (2005) procederam a uma intervenção com futebolistas, antecipadamente identificados como tendo elevado risco de vir a sofrer lesões no futuro, que consistiu na aplicação de um programa, durante 19 semanas, de tratamentos e procedimentos diversos como relaxamento cognitivo e somático, desenvolvimento de skills de controlo do stress, formulação de objectivos, treino de autoconfiança e identificação e discussão sobre os potenciais incidentes relacionados com a participação no futebol e nas situações do quotidiano. Esta investigação reforçou a potencialidade da Psicologia do Desporto na prevenção de leões, dado que a breve intervenção de Johnson e colaboradores (2005) baixou significativamente o número de lesões no grupo de tratamento, durante aquele período de tempo, comparativamente ao grupo de controlo. Zafra e colaboradores (2006) propõem, em termos gerais, que alguns factores psicológicos do rendimento desportivo influenciam o risco dos futebolistas se lesionarem. Segundo estes autores, os jogadores que possuem
mais recursos psicológicos e melhor capacidade para o utilizar, face às exigências da prática desportiva, tendem a lesionar-se menos que os que têm menores recursos ou não fazem uso deles.
O modelo teórico que adoptamos para o nosso trabalho tem por base a linha de investigação proposta por Loehr (1986) e Vasconcelos-Raposo (1993). Loehr (1986) faz referência ao conceito de robustez mental. Define-a como a capacidade de sustentar, de forma consistente e face a todas as adversidades, um estado ideal de performance durante a competição. Para este autor, com excepção da influência dos factores físicos, a consistência da performance é resultado da consistência psicológica, sendo o controlo psicológico um pré- requisito fundamental para o controlo da performance, ou seja, a robustez mental requer um elevado grau de controlo sobre o estado de performance ideal. Consequentemente, estabelecer e manter um clima interno estável durante a competição é um dos factores mais importantes no sucesso desportivo. O modelo de Loehr (1986) tem como base a aplicação do instrumento PPP (Perfil Psicológico de Prestação) que contempla o estudo de sete skills psicológicos: a autoconfiança, o controlo do negativismo, a atenção, a visualização, a motivação, os pensamentos positivos e a atitude competitiva. Segundo este paradigma, os atletas capazes de exercer um melhor controlo sobre estas competências atingem uma maior consistência nas suas prestações. No entanto, hoje em dia, embora a maior parte dos atletas e treinadores reconheça a importância do treino psicológico na preparação para a competição, a verdade é que na prática este aspecto raramente é contemplado. Entre outras razões porque existe a crença de que os skills psicológicos são inatos. Ora para Loehr (1986), estas competências são aprendidas e não inatas, sendo necessário um treino psicológico para o seu desenvolvimento. Este autor também defende que o atleta consegue uma melhor preparação psicológica se tiver consciência das suas reais capacidades mentais, forças e fraquezas.
Loehr (1986) sustenta que desportistas do mesmo nível competitivo deverão apresentar um perfil psicológico idêntico, devendo os valores mais elevados serem obtidos pelos atletas de nível de prestação desportiva superior.
Defende igualmente que há pelo menos oito condições mentais essenciais para que um atleta constitua um estado ideal que aumente as suas possibilidades de obtenção de uma prestação de excelência: estarem mentalmente calmos, fisicamente descontraídos, auto-confiantes e optimistas, elevada concentração no presente, índice elevado de energia, alerta mental, auto-controlo e cocoon.
Vasconcelos-Raposo (1993), ao objectivar estudar o processo que envolveu e determinou o desenvolvimento dos perfis psico-sócio-culturais com que os atletas olímpicos portugueses se apresentaram nos Jogos Olímpicos de 1992, desenvolveu um modelo sustentado nas teorias de Loehr (1986), já exposta, e de Hemery (1986), que preconiza que os domínios social, cultural, físico, mental e moral são os factores que influenciam e determinam os comportamentos dos indivíduos e, consequentemente, as suas prestações desportivas. Nesse trabalho comparou um grupo de atletas portugueses qualificados para as olimpíadas de Barcelona em 1992 com outro constituído por desportistas, também nacionais, não qualificados para aquele evento. Estes dois conjuntos foram depois comparados com o grupo de atletas da investigação de Hemery (1986), composto exclusivamente por campeões mundiais. Concluiu-se que, dos factores físico-psico-socio-morais, somente os psicológicos diferenciavam níveis de prestação, evidenciando-se a preparação mental como um factor determinante para a alta competição. Também se constatou que os atletas com maior controlo sobre esses factores obtiveram superiores prestações desportivas, os de maior idade e mais experientes em termos competitivos têm melhores índices de skills psicológicos, os de superior nível de rendimento são significativamente mais orientados, em termos motivacionais, para a tarefa e menos para o resultado, e os de menor sucesso demonstram uma orientação cognitiva mais direccionada para o resultado. Segundo Vasconcelos-Raposo (1993), os atletas cuja orientação motivacional é a de resultado, por dependerem de factores externos para se sentirem bem sucedidos, tendem a experimentar um maior sentimento de frustração e, consequentemente, de negativismo.
A nossa investigação constitui uma duplicação, para a realidade portuguesa, do trabalho de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005), realizado com
futebolistas brasileiros de dois níveis competitivos, nacional e regional, no qual foram utilizados o PPP, O CSAI-2 e o TEOSQ. Os autores visaram, para além da avaliação das características psicométricas dos instrumentos, a caracterização do perfil psicológico de prestação do jogador profissional de futebol brasileiro, identificando igualmente as áreas que mais contribuem para a prestação desportiva dos mesmos.
2.2 AUTOCONFIANÇA
São inúmeras as declarações de futebolistas nas quais associam as suas boas prestações a elevados estados de autoconfiança. Para Loehr (1986) o nível de autoconfiança é um dos melhores preditores do sucesso desportivo, permitindo aos atletas acreditar que têm competências psicológicas e mentais para atingir o seu máximo potencial, sendo certo que, independentemente do talento e da habilidade física, a perda de confiança afecta sempre o desempenho. Segundo este autor, a autoconfiança é vista como um sentimento e uma certeza que mostram que somos capazes de realizar uma boa prestação, que acreditamos em nós mesmos e que desta forma seremos bem sucedidos, sendo o sucesso percebido o ingrediente chave para tal acontecer.
Segundo Williams (1991) a autoconfiança desenvolve-se durante muitos anos e, frequentemente, é o resultado do pensamento positivo e várias experiências concluídas com êxito. O pensamento positivo dos atletas confiantes conduz, com maior probabilidade, a sentimentos capacitantes e a uma boa actuação, da mesma forma que o pensamento inapropriado e erróneo dos atletas sem confiança conduz, provavelmente, a sentimentos negativos e a uma execução pobre. Por outro lado, a melhoria da destreza física é uma maneira óbvia de edificar a autoconfiança, dado que ao gerar-se uma história de experiências de êxito constrói-se tanto confiança como expectativas de êxito futuras. Pelo contrário, a perda de confiança criada por sentimentos de fracasso faz com que o atleta duvide da sua própria capacidade.
Para Cruz e Viana (1996), os atletas bem sucedidos evidenciam elevados níveis de confiança nas suas capacidades. Por seu lado, Hanton, Mellalieu e Hall (2005) defendem que a autoconfiança é uma qualidade essencial para os atletas de elite, uma vez que os pode proteger contra potenciais pensamentos e sentimentos debilitadores vivenciados em situações competitivas. Cruz e Viana (1996) referem que, para promover a optimização da ansiedade e o funcionamento óptimo dos atletas, é necessário aumentar a sua autoconfiança e trabalhar a sua motivação. Contudo, autoconfiança não é ter a convicção de que se poderá ganhar sempre ou que nunca se errará. É sim a convicção de que se poderá corrigir os erros cometidos desde que se trabalhe com esforço e empenho para aperfeiçoar o conjunto das capacidades. Segundo aqueles autores, o aspecto que mais determina a autoconfiança é a percepção, por parte dos atletas, de que são capazes de executar ou realizar as tarefas requeridas pela sua especialidade. Como tal, aqueles só poderão sentir-se confiantes se estiverem bem preparados sob o ponto de vista físico e técnico. Devem possuir força, rapidez, flexibilidade e resistência necessárias para responder às exigências das actividades (Cruz & Viana, 1996).
Na sua Teoria Multidimensional da Ansiedade Competitiva, Martens, Burton, Vealey, Bump e Smith (1990) consideram a autoconfiança como uma componente cognitiva, oposta ao estado de ansiedade pré-competitiva (negativismo no contexto desportivo), vista como ausência de pensamentos negativos. Aquele modelo pressupõe que a autoconfiança se relaciona de forma positiva e linear com o rendimento, em que o estado de autoconfiança aumenta, assim que as expectativas positivas de sucesso aumentam. Segundo este paradigma, os atletas mais habilidosos e capazes possuem, antes da competição, níveis de autoconfiança superiores aos seus colegas menos competentes.
2.3 NEGATIVISMO
O termo “ansiedade” é recorrente no discurso de futebolistas, treinadores e restantes agentes desportivos. A capacidade dos atletas controlarem as próprias emoções é, sem dúvida, um factor determinante para o seu desempenho no desporto de competição, nomeadamente nas situações de grande pressão competitiva, pois, como argumentam Palmeira, Ramos e Passos (2002), as emoções estão presentes em todos os aspectos da vida humana, incluindo o desportivo.
Contudo, para Vasconcelos-Raposo (1993), o conceito de ansiedade foi erradamente adaptado, por psicólogos clínicos e psiquiatras, ao contexto desportivo, dado que parte do pressuposto da universalidade das experiências e das suas classificações pelos indivíduos. Aquele investigador, mais tarde, reforça que existe a necessidade de se rejeitar e proceder a uma reclassificação daquele conceito, por se enquadrar na Psicologia Clínica (Vasconcelos-Raposo, 2000). Na sua opinião, o que está em causa é estado emocional vivido no contexto desportivo, concretamente as sensações e dúvidas que os atletas podem ter relativamente às suas capacidades nos momentos que antecedem a competição. Assim sendo, neste nosso trabalho, que segue a linha de Mahl e Vasconcelos-Raposo (2005) e outros concretizados na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro com a colaboração do Professor Vasconcelos-Raposo, substituiremos o termo ansiedade por negativismo.
Foram várias as abordagens realizadas ao negativismo pré-competitivo no desporto, nomeadamente à sua relação com o rendimento. Para uns, a situação desportiva competitiva é sempre geradora de pensamentos negativos prejudiciais à performance desportiva, existindo uma relação inversa entre negativismo pré-competitivo e rendimento (Martens, Vealey, & Burton, 1990). Para outros, o negativismo pré-competitivo, na mesma situação, pode ser facilitador para uns atletas e prejudicial para outros (Cruz, 1996c). O efeitos benéficos para a prestação desportiva são igualmente contemplados por Jones e Hanton (2001).
Martens e colaboradores (1990a) propuseram a Teoria Multidimensional da Ansiedade Competitiva, que pressupõe que as três dimensões (negativismo, activação e autoconfiança) se relacionam de forma diferente com o rendimento: o negativismo de forma negativa e linear, a activação de forma curvilínea, em U-invertido, e a autoconfiança de forma positiva e linear. Ou seja, o aumento do negativismo faz desviar, erradamente, a atenção de aspectos relevantes à tarefa, para aspectos de avaliação do "eu" ou avaliação social, irrelevantes para a tarefa, e assim, a performance poderá diminuir. Aqueles autores defendem ainda que os pensamentos negativos têm uma correlação mais forte com a performance que a activação, uma vez que é indicador das expectativas negativas do sucesso numa determinada tarefa, tendo, como tal, um forte impacto na performance. Por outro lado, a diminuição da activação no início da competição leva a que o negativismo e a autoconfiança se tornem mais fortemente preditoras da performance. Pode existir, no entanto, uma situação em que esta correlação seja superior, nomeadamente quando a activação é tão elevada que a atenção é desviada da tarefa a realizar, por estados internos como preocupação e pensamentos negativos, o que prejudica a performance. Em conclusão, Martens e colaboradores (1990a) sugerem que os atletas mais habilidosos têm uma superior capacidade para lidar com os pensamentos negativos que os menos hábeis, além de que revelam, antes da competição, níveis de negativismo e activação inferiores e uma autoconfiança superior.
Com a apresentação da Teoria Multidimensional da Ansiedade Competitiva, na qual sugerem que a análise da relação ansiedade-rendimento deve ser realizada numa perspectiva multidimensional, Martens e colaboradores (1990a) propuseram o Inventário de Estado de Ansiedade Competitiva-2 (Competitive State Anxiety Inventory-2, CSAI-2) para a avaliação das dimensões negativismo (prevalência de pensamentos negativos), a activação (intensidade do comportamento) e a autoconfiança, esta aqui também considerada como uma componente cognitiva, oposta ao estado de negativismo, sendo vista como ausência de pensamentos negativos.
2.4 ATENÇÃO
Por ser indissociável dos bons desempenhos desportivos, foram vários os autores que, no âmbito da Psicologia do Desporto, abordaram a atenção. Viana e Cruz (1996) sustentam que é óbvio e consensual, entre os desportistas, que a capacidade para dirigir e manter de forma adequada a atenção nos aspectos necessários à realização de uma tarefa é um pré- requisito essencial tanto no processo de aprendizagem como no desempenho competitivo. Segundo estes autores, o conceito de atenção tem sido alvo de vários sentidos: selectividade, concentração, consciência, escrutínio visual, processamento de informação, activação, entre outros. Os nossos sentidos são alvo constante de estímulos externos provenientes do meio que nos rodeia ou por estimulação interna. A nossa experiência só não é um caos completo porque só parte dessa estimulação é percebida pelo indivíduo, sendo a atenção o processo que o leva a direccionar e manter a sua consciência nos estímulos percebidos. Se o indivíduo não dirigir a atenção para essa estimulação não a perceberá nem vivenciará. Viana e Cruz (1996) referenciam o conceito de atenção selectiva como a capacidade de direccionar a atenção para os estímulos relevantes à realização da tarefa em mão, independentemente da influência dos estímulos distractores.
Loehr (1986) sustenta que a atenção é a capacidade de manter a focalização contínua numa tarefa, executando-a na perfeição. Reforça ainda que este skill não é mais do que a habilidade de se centrar naquilo que é importante e ignorar aquilo que não interessa. Como exemplificam Viana e Cruz (1996), durante um jogo de futebol, o barulho provocado pela assistência, a movimentação das pessoas fora das quatro linhas ou o pensamento numa jogada já passada, serão, em princípio, irrelevantes para a realização da tarefa. Já a localização da bola, o posicionamento do guarda-redes ou a movimentação de um adversário, constituem pistas importantes a atender. No entanto, para além da importância ou relevância dos estímulos inerentes a cada situação, existem, segundo Viana e Cruz (1996), outras características da estimulação que influenciam o processo de selectividade. A quantidade e complexidade das pistas a atender, a sua origem interna ou externa ao sujeito,
o facto de constituírem ou não novidade ou de serem particularmente valorizadas pelo indivíduo, são outros factores do processo de selectividade, tornando-o voluntário ou involuntário, automático e rápido ou mais lento.
Viana e Cruz (1996) alertam para o facto de que determinadas modalidades, como por exemplo o futebol, obrigam o atleta a prestar atenção a um grande número de estímulos em constante transformação: movimentação da bola, colocação dos colegas e adversários, flutuação dos processos colectivos, a localização das balizas, as instruções do treinador, o planeamento e execução de uma estratégia, entre outras. Por outro lado, noutras situações ou modalidades desportivas, o número de pistas relevantes é menor e mantém- se relativamente constante ao longo da competição, como por exemplo o lançamento ao cesto no basquetebol. O chamado reflexo, ou resposta de orientação, dirige automaticamente a nossa atenção para a ocorrência percebida como pouco usual. Este é um mecanismo que permite a detecção, sem esforço voluntário, de estímulos mais intensos que o habitual (luzes, ruídos, cheiros) ou estímulos com alguma novidade ou que estejam em movimento, como por exemplo a detecção rápida da desmarcação de um adversário dentro do campo visual. Como observam Viana e Cruz (1996), este mecanismo pode levar alguns atletas a distraírem-se com ocorrências pouco