A t´ıtulo de exemplo, vamos descrever em detalhe uma aplica¸c˜ao das ideias anteriores `a Criptografia. Precisamos para isso de alguns resultados prelimi- nares. Supomos conhecida a express˜ao para Ckn, o “n´umero de combina¸c˜oes de n elementos em grupos de k”, e em particular a equa¸c˜ao
k!(n− k)!Ckn= n!.
Como n|n!, ´e evidente, da equa¸c˜ao anterior e do Lema de Euclides, que, se n = p ´e primo e k verifica 0 < k < p, ent˜ao p|Ckp. Enunciamos este resultado na seguinte forma:
2.9. Factoriza¸c˜ao Prima e Criptografia 111
Lema 2.9.1. Se p ´e primo e 0 < k < p, ent˜ao Ckp ≡ 0 (mod p).
Supomos tamb´em conhecida a f´ormula do bin´omio de Newton, que pode em qualquer caso ser demonstrada por indu¸c˜ao em qualquer anel comutativo. Esta f´ormula ´e
(2.9.1) (a + b)n=
n X k=0
Cknakbn−k.
No caso em que n = p ´e primo, conclu´ımos sem dificuldade que
Proposi¸c˜ao 2.9.2 (“A f´ormula do caloiro”). Se p ´e primo, (a + b)p ≡ ap+ bp (mod p).
Demonstra¸c˜ao. Pelo Lema 2.9.1, os ´unicos termos da expans˜ao do bin´omio que podem n˜ao ser congruentes com zero (mod p) correspondem a k = 0 e k = n.
Teorema 2.9.3 (Fermat). Se p ´e primo, ap≡ a (mod p).
Demonstra¸c˜ao. Provaremos este resultado por indu¸c˜ao em a. O resultado ´e ´
obvio para a = 0. Se for verdadeiro para um inteiro a≥ 0, temos (a + 1)p ≡ ap+ 1 (mod p), pela f´ormula do caloiro, e ap ≡ a (mod p), pela hip´otese de indu¸c˜ao. Conclu´ımos que (a + 1)p ≡ a + 1 (mod p), e o resultado ´e verdadeiro para qualquer inteiro a≥ 0. Como (−1)p ≡ (−1) (mod p) para qualquer primo p (porquˆe?), o resultado ´e v´alido para qualquer inteiro.
Um corol´ario interessante deste teorema ´e o seguinte, que descreve ex- plicitamente como calcular inversos (mod p).
Corol´ario 2.9.4. Se p ´e primo e a6≡ 0 (mod p), ent˜ao ap−1 ≡ 1 (mod p). Demonstra¸c˜ao. ´E evidente que mdc(a, p) = p (donde a ≡ 0 (mod p)) ou ent˜ao mdc(a, p) = 1. Temos portanto e por hip´otese que mdc(a, p) = 1. De acordo com a lei do corte, obtemos, do teorema, que
ap = ap−1a≡ a (mod p) =⇒ ap−1≡ 1 (mod p).
Podemos agora expor um mecanismo de codifica¸c˜ao particularmente as- tucioso, do tipo a que se chama de chave p´ublica. Esta express˜ao ´e utilizada porque o processo de codifica¸c˜ao pode ser conhecido por todos, sendo apenas o processo de descodifica¸c˜ao mantido secreto. Este tipo de codifica¸c˜ao ´e por exemplo utilizado na Internet em transac¸c˜oes financeiras17.
17O sistema mais utilizado na Internet ´e o chamado sistema de codifica¸c˜ao RSA (des-
coberto por Rivest, Shamir e Adleman) ou suas variantes. Este ´e um sistema de chave p´ublica, como o que descrevemos, que inclui ainda um esquema simples (mas engenhoso) de verifica¸c˜ao de assinatura, crucial nas comunica¸c˜oes privadas via canais p´ublicos.
Os ingredientes fundamentais s˜ao um natural N , da forma N = pq, onde p e q s˜ao primos distintos, e um outro natural r, que deve ser primo relativamente a p−1 e a q−1. Os n´umeros N e r s˜ao do dom´ınio p´ublico, mas a factoriza¸c˜ao de N deve ser mantida secreta. Este sistema explora portanto a possibilidade de determinar n´umeros primos grandes, juntamente com a dificuldade de c´alculo dos factores primos de naturais grandes.
O procedimento a seguir ´e o seguinte: os s´ımbolos a transmitir s˜ao n´umeros a verificando 0≤ a ≤ N. Em lugar de transmitir a, transmite-se o resto da divis˜ao de ar por N , que designamos por b = ρ(ar, N ). A desco- difica¸c˜ao corresponde ao c´alculo de a, conhecido b = ρ(ar, N ). Este c´alculo, por sua vez, s´o ´e pr´atico se conhecidos os factores primos de N , e neste caso ´e uma aplica¸c˜ao de alguns dos resultados acima.
Por um lado, tomando c = ρ(b, p) e d = ρ(b, q), ´e evidente que c≡ ar (mod p) e d≡ ar (mod q).
Por outro lado, como r ´e suposto primo relativamente a p−1 e q −1, existem inteiros x, y, x′, y′ tais que
1 = rx + (p− 1)y = rx′+ (q− 1)y′, donde
a = arx+(p−1)y≡ (ar)x
≡ cx (mod p), e a = arx′+(q−1)y′ ≡ (ar)x′ ≡ dx′ (mod q),
de acordo com o corol´ario acima. Note-se que o c´alculo de x e x′ pode ser feito directamente com o Algoritmo de Euclides. As potˆencias negativas de a devem ser interpretadas como potˆencias positivas dum inverso de a, mas ´e claro que x e x′ podem ser sempre escolhidos ambos positivos.
Conclu´ımos que a mensagem original a satisfaz o sistema a ≡ (ρ(b, p))x (mod p)
a≡ (ρ(b, q))x′
(mod q) .
De acordo com o Teorema Chinˆes do Resto, estas equa¸c˜oes determinam uni- camente a (mod pq), i.e., (mod N ). A sua resolu¸c˜ao envolve apenas conhe- cer um inverso de p (mod q), o que representa mais uma vez uma aplica¸c˜ao do Algoritmo de Euclides. Isto tudo ´e ilustrado no exemplo seguinte. Exemplo 2.9.5.
Seja N = 21 = 3· 7 = p · q, e r = 5 que ´e primo relativamente a p − 1 = 2 e
q− 1 = 6. Suponhamos que se quer transmitir a mensagem a = 4. De acordo
com o procedimento descrito acima, em vez de transmitir a, transmite-se o
resto da divis˜ao de ar = 1024 por N = 21, que ´e b = ρ(1024, 21) = 16 (pois
2.9. Factoriza¸c˜ao Prima e Criptografia 113
Suponhamos que receb´ıamos a mensagem codificada b = 16 e que quer´ıamos descodificar, de forma a recuperar a mensagem a (que desconhec´ıamos). Como
1 = 5· (−1) + 2 · 3 = 5 · (−1) + 6′· 1,
conclu´ımos que x =−1 e x′ =−1. Por sua vez, os n´umeros c e d s˜ao dados
por
c = ρ(b, p) = 1, (pois 16 = 3· 5 + 1) d = ρ(b, q) = 2, (pois 16 = 7· 2 + 2).
Assim, o n´umero a procurado satisfaz o sistema
a≡ (1)−1 (mod 3)
a≡ (2)−1 (mod 7) .
Como o inverso de 2 (mod 7) ´e 4 (pois 2· 4 = 8 ≡ 1 (mod 7)), conclu´ımos que
a satisfaz o sistema
a≡ 1 (mod 3) a≡ 4 (mod 7) .
A primeira equa¸c˜ao tem como solu¸c˜oes a = 1 + 3n onde n∈ Z, o que, substi-
tuindo na segunda equa¸c˜ao, fornece
1 + 3n≡ 4 (mod 7),
ou ainda
3n≡ 3 (mod 7).
Para resolver esta ultima equa¸c˜ao notamos que o inverso de 3 (mod 7) ´e 5
(pois 3· 5 = 15 ≡ 1 (mod 7)), logo:
n≡ 3 · 5 = 15 (mod 7).
Assim, pelo Teorema Chinˆes do Resto, conclu´ımos que a ≡ 1 + 3 · 15 = 46
(mod 21). Como 0≤ a < 21, obtemos finalmente a resposta correcta: a = 4.
Exerc´ıcios.
1. Uma palavra ´e codificada fazendo corresponder a cada letra do alfabeto por- tuguˆes (23 letras) um n´umero inteiro, de forma que a7→ 1, b 7→ 2, c 7→ 3,. . . . De seguida ´e transmitida num sistema de chave p´ublica com N = 35 e r = 5. Sabendo que a mensagem transmitida ´e “33, 10, 12, 24, 14” determine a palavra original.
2. Demonstre a seguinte generaliza¸c˜ao do Teorema Chinˆes do Resto: Seja d = mdc(m, n). O sistema
x≡ a (mod m)
x≡ b (mod n)
tem solu¸c˜oes se e s´o se d|(a−b). Neste caso, se c ´e uma solu¸c˜ao, ent˜ao o sistema ´e equivalente a x≡ c (mod mmc(n, m)).
Cap´ıtulo 3
Outros Exemplos de An´eis
3.1
Os An´eis Z
mNo Cap´ıtulo 2 vimos em pormenor o anel dos inteiros. O leitor tamb´em conhece certamente muitas das propriedades alg´ebricas de corpos como Q, R ou C. Existem no entanto outros exemplos de an´eis muito importantes que vamos estudar neste cap´ıtulo.
Come¸camos pelo estudo dos an´eis associados `a congruˆencia (mod m), os an´eis Zm. No Cap´ıtulo 1 j´a vimos brevemente os casos Z2e Z3, sem qualquer referˆencia `a congruˆencia (mod m). Um estudo sistem´atico destes an´eis exige no entanto a utiliza¸c˜ao desta congruˆencia. Observamos que a congruˆencia (mod m) pode ser substitu´ıda por uma igualdade se “identificarmos” (i.e., tratarmos como um ´unico objecto) todos os inteiros congruentes entre si. O procedimento que seguimos ´e aplic´avel a qualquer rela¸c˜ao de equivalˆencia, e consiste em utilizar em lugar de um determinado objecto a classe de todos os objectos que lhe s˜ao equivalentes. Para isso, supomos fixado o m´odulo de congruˆencia m∈ Z, e sendo x um inteiro arbitr´ario, introduzimos:
Defini¸c˜ao 3.1.1. A classe de equivalˆencia (mod m) de x ´e o conjunto x dos inteiros congruentes com x (mod m), ou seja,
x ={y ∈ Z : x ≡ y (mod m)}. Exemplo 3.1.2.
Com o m´odulo de congruˆencia m = 3, temos
0 ={0, ±3, ±6, . . . }, 1 ={1, 1 ± 3, 1 ± 6, . . . }, 2 ={2, 2 ± 3, 2 ± 6, . . . }.
´
E claro que o s´ımbolo x ´e amb´ıguo porque n˜ao cont´em qualquer in- forma¸c˜ao sobre o m´odulo de congruˆencia m em causa. No entanto, ´e evidente
que
x ={x + ym : y ∈ Z}, ou ainda
x ={x + z : z ∈ hmi}.
Por este motivo, sempre que necess´ario escrevemos x +hmi em lugar de x. Exemplo 3.1.3.
Para m = 4 e m = 5 temos respectivamente
m = 4 : 3 = 3 +h4i = {. . . , −5, −1, 3, 7, 11, . . .}, m = 5 : 3 = 3 +h5i = {. . . , −7, −2, 3, 8, 13, . . .}.
Para substituir a congruˆencia x≡ y (mod m) por uma igualdade, usa- mos o seguinte lema, que como consequˆencia directa da Proposi¸c˜ao 2.8.2 ´e na realidade aplic´avel a qualquer rela¸c˜ao de equivalˆencia.
Lema 3.1.4. Para todo os inteiros x, y temos:
x≡ y (mod m) ⇐⇒ x = y ⇐⇒ x∩ y 6= ∅.
Demonstra¸c˜ao. ´E evidente da transitividade da rela¸c˜ao de congruˆencia que, se x ≡ y (mod m), ent˜ao x ⊇ y. Por simetria, x ≡ y (mod m) ⇔ y ≡ x (mod m), logo tamb´em x⊆ y. Conclu´ımos que, se x ≡ y (mod m), ent˜ao x = y.
Por reflexividade, sabemos tamb´em que y∈ y. Portanto, se x = y, ent˜ao x∩ y 6= ∅.
Finalmente, se x∩ y 6= ∅, seja z um elemento de x ∩ y, e note-se que, por defini¸c˜ao de classe de equivalˆencia, se tem x≡ z (mod m) e y ≡ z (mod m), donde se segue por simetria e transitividade que x≡ y (mod m).
De acordo com a propriedade reflexiva, qualquer inteiro x pertence `a classe x, e portanto a uni˜ao de todas as classes de equivalˆencia ´e o conjunto Z. Por este motivo, dizemos que o conjunto de todas as classes de equivalˆencia para um dado m´odulo m, que ´e o conjunto {x : x ∈ Z}, ´e uma cobertura de Z. Al´em disso, de acordo com o lema anterior, as classes de equivalˆencias distintas s˜ao necessariamente disjuntas. Dizemos por isso que o conjunto {x : x ∈ Z} ´e uma parti¸c˜ao de Z. Recorde-se ainda que, como indic´amos no Cap´ıtulo anterior, e quando m6= 0, dizemos que x ´e uma textscclasse de restos.
Exemplos 3.1.5.
1. Se m = 2, a parti¸c˜ao referida ´e a habitual classifica¸c˜ao dos inteiros em pares
3.1. Os An´eis Zm 117
2. Se m = 3, a parti¸c˜ao corresponde `a classifica¸c˜ao dos inteiros em termos do
resto da sua divis˜ao por 3:
Z ={0, ±3, ±6, . . . } ∪ {1, 1 ± 3, 1 ± 6, . . . } ∪ {2 ± 3, 2 ± 6, . . . }.
Note-se de passagem que a classe de equivalˆencia x fica unicamente de- terminada por qualquer um dos inteiros que a constituem. Por este motivo, qualquer inteiro y em x diz-se um representante da classe x, j´a que y = x. Exemplo 3.1.6.
Se m = 3, os inteiros 1, 4, 7,−2 e −5 s˜ao todos representantes de 1, e temos
1 = 4 = 7 =−2 = −5.
Dada uma rela¸c˜ao de equivalˆencia “∼” num conjunto X, o conjunto das respectivas classes de equivalˆencia diz-se o quociente de X por∼ e designa- se em geral por X/ ∼. A fun¸c˜ao π : X → X/ ∼ dada por π(x) = x, que transforma cada elemento de X na sua classe de equivalˆencia, ´e a aplicac¸ ˜ao quociente. No caso de X = Z, e quando ∼ ´e a rela¸c˜ao de equivalˆencia m´odulo m, designamos o conjunto quociente Z/ ∼ por Zm, e a aplica¸c˜ao quociente por πm, ou apenas π. Temos por isso πm(x) = x +hmi = x. Mais formalmente,
Defini¸c˜ao 3.1.7. Sendo x = {y ∈ Z : y ≡ x (mod m)}, ent˜ao Zm = {x : x∈ Z}, e πm : Z→ Zm ´e dada por πm(x) = x.
Com esta nova nota¸c˜ao, a Proposi¸c˜ao 2.8.4 resume-se agora em contar o n´umero de elementos de Zm:
Proposi¸c˜ao 3.1.8. Se m > 0, Zm ={0, 1, . . . , m − 1} tem m elementos. Observe-se ainda que, se m = 0, ent˜ao x ={x}, e portanto Z0´e um con- junto infinito. Na realidade, e com as opera¸c˜oes alg´ebricas que definiremos a seguir, Z0 e Z s˜ao an´eis isomorfos.
Exemplo 3.1.9.
O conjunto Z6 tem precisamente 6 elementos, e podemos escrever
Z6={0, 1, 2, 3, 4, 5} = {6, 7, 8, 9, 10, 11} = {36, −5, 2, 63, 610, −19}, etc.
Note-se mais uma vez a ambiguidade da nota¸c˜ao que utilizamos: quando es-
crevemos Z4 ={0, 1, 2, 3}, os s´ımbolos nesta lista designam objectos que n˜ao
s˜ao elementos de Z6. Por exemplo,
De acordo com a Proposi¸c˜ao 2.8.6, sabemos que, quando x≡ x′ (mod m) e y ≡ y′ (mod m), ent˜ao x + y ≡ x′ + y′ (mod m) e xy ≡ x′y′ (mod m). Em termos de classes de equivalˆencia, temos
x = x′ e y = y′ =⇒ x + y = x′+ y′ e xy = x′y′.
Por outras palavras, as classes x + y e xy n˜ao dependem dos representantes x e y, mas apenas das classes x e y. Aproveitamos este facto para introduzir opera¸c˜oes de soma e produto em Zm.
Defini¸c˜ao 3.1.10. A soma e produto em Zm s˜ao dados por x + y = x + y, e x· y = xy.
Como seria de esperar, uma parte das propriedades das opera¸c˜oes alg´e- bricas em Z transferem-se automaticamente para as opera¸c˜oes agora defini- das. Por exemplo, observe-se que
x + (y + z) = x + y + z, = x + (y + z), = (x + y) + z, = x + y + z, = (x + y) + z,
donde conclu´ımos que a adi¸c˜ao em Zm ´e associativa. Deixamos como exer- c´ıcio a verifica¸c˜ao do seguinte
Teorema 3.1.11. (Zm, +,·) ´e um anel abeliano com identidade. Exemplo 3.1.12.
As “tabuadas“ da soma e do produto em Z4 s˜ao:
+ 0 1 2 3 0 0 1 2 3 1 1 2 3 0 2 2 3 0 1 3 3 0 1 2 · 0 1 2 3 0 0 0 0 0 1 0 1 2 3 2 0 2 0 2 3 0 3 2 1 ´
E curioso observar algumas diferen¸cas e semelhan¸cas entre este anel e Z:
• A equa¸c˜ao x = −x tem duas solu¸c˜oes em Z4;
• Como 2 · 2 = 0 ´e claro que 2 ´e um divisor de zero, e portanto Z4 n˜ao ´e
um dom´ınio integral;
• Os m´ultiplos naturais da identidade 1 s˜ao trivialmente 1· 1 = 1, 2 · 1 = 2, 3 · 1 = 3, 4 · 1 = 4 = 0, etc.
3.1. Os An´eis Zm 119
• Os suban´eis de Z4 s˜ao todos ideais principais (tal como ocorre no anel
dos inteiros), e reduzem-se a
h1i = h3i = Z4, h2i = {0, 2}, e h0i = h4i = {0}.
Note-se que estes ideais correspondem exactamente aos divisores de 4.
Regressamos agora ao caso geral do anel Zm, com m > 0, e come¸camos por identificar os elementos invert´ıveis de Zm, que formam o conjunto Z∗m, (na nota¸c˜ao introduzida no Cap´ıtulo 1). Dado a ∈ Z, ´e claro que a ´e invert´ıvel em Zm se e s´o se a equa¸c˜ao a· x = 1 tem solu¸c˜oes em Zm. De acordo com os resultados da Sec¸c˜ao 2.8, temos, ainda, que:
a∈ Z∗m ⇐⇒ a · x = 1 tem solu¸c˜ao em Zm,
⇐⇒ ax ≡ 1 (mod m) tem solu¸c˜ao em Z, ⇐⇒ mdc(a, m) = 1.
Por palavras, os elementos invert´ıveis de Zm correspondem aos naturais k, 1≤ k ≤ m, que s˜ao primos relativamente a m. O n´umero de elementos de Z∗m, designa-se por ϕ(m), e `a fun¸c˜ao ϕ : N→ N assim definida chamamos func¸˜ao de Euler.
Exemplo 3.1.13.
Os elementos invert´ıveis no anel Z9 formam o conjunto
Z∗9={1, 2, 4, 5, 7, 8},
portanto, ϕ(9) = 6.
Veremos adiante como calcular a fun¸c˜ao de Euler, conhecidos os factores primos do seu argumento. Para j´a, observamos que, se p ´e um n´umero primo, ent˜ao ϕ(p) = p− 1, e todos os elementos n˜ao-nulos de Zp s˜ao invert´ıveis. Dito doutra forma:
Teorema 3.1.14. Se p ´e primo, ent˜ao Zp´e um corpo finito com p elementos. A caracter´ıstica dos an´eis Zm ´e muito f´acil de calcular. J´a observ´amos que Z4 tem caracter´ıstica 4. Na realidade, ´e f´acil mostrar que
Teorema 3.1.15. O anel Zm tem caracter´ıstica m. Demonstra¸c˜ao. De facto, por indu¸c˜ao, vemos que (3.1.1) ∀n ∈ N, a ∈ Z : na = n · a = na. No caso espec´ıfico de a = 1, temos
n1 = 0 ⇐⇒ n = 0 ⇐⇒ n∈ hmi,
Identific´amos acima todos os suban´eis e ideais de Z4, e not´amos que neste anel (tal como no anel dos inteiros) os respectivos suban´eis s˜ao na realidade ideais principais. Antes de provar esta afirma¸c˜ao para qualquer valor de m, examinemos em pormenor os ideais gerados por cada um dos elementos de Zm. A proposi¸c˜ao seguinte ´e ´obvia da comutatividade da multiplica¸c˜ao de Zm, e de (3.1.1).
Proposi¸c˜ao 3.1.16. Se a∈ Z, ent˜ao hai = {a·n : n ∈ Zm} = {na : n ∈ Z}. Assim, ´e f´acil listar os elementos de um ideal de Zm, uma vez dado um gerador. Exemplos 3.1.17. 1. Em Z40 temos: h15i = {15, 30, 45 = 5, 20, 35, 50 = 10, 25, 40 = 0}. 2. Em Z21 temos: h15i = {15, 30 = 9, 24 = 3, 18, 33 = 12, 27 = 6, 21 = 0}.
Um momento de reflex˜ao mostra que os elementos do idealhai correspon- dem aos inteiros b para os quais a equa¸c˜ao ax ≡ b (mod m) tem solu¸c˜oes. Estes inteiros s˜ao, como sabemos, os m´ultiplos de d = mdc(a, m). ´E agora poss´ıvel exprimir este resultado na seguinte forma:
Proposi¸c˜ao 3.1.18. Se d = mdc(a, m), ent˜ao temos quehai = hdi em Zm. Demonstra¸c˜ao. Como d = ax+my, temos d = ax, donde d∈ hai e hai ⊃ hdi. Como a = dz, temos a = dz, donde a∈ hdi, e hdi ⊃ hai.
Observe-se que o resultado anterior torna simples a contagem dos ele- mentos de hai. Na verdade, se d = mdc(a, m), ent˜ao m = dk, e hai = hdi tem k elementos1. Exemplos 3.1.19. 1. Em Z40 temos: h15i = h5i = {5, 10, 15, 20, 25, 30, 35, 0}, com 405 = 8 elementos. 2. Em Z21 temos h15i = h3i = {3, 6, 9, 12, 15, 18, 0}, com 21 3 = 7 elementos.
1Vemos aqui directamente que o n´umero de elementos do ideal hai ´e um factor do
n´umero de elementos do anel Zm. Veremos no pr´oximo cap´ıtulo que este facto n˜ao passa
3.1. Os An´eis Zm 121
Todos os suban´eis do anel Z4 s˜ao ideais principais, tal como todos os suban´eis do anel dos inteiros. Verificamos agora que esta ´e uma propriedade comum a todos os an´eis Zm. Com este objectivo, come¸camos por estabelecer uma rela¸c˜ao directa entre os suban´eis de Zm e os suban´eis do anel dos inteiros. Esta rela¸c˜ao envolve a aplica¸c˜ao quociente π : Z→ Zm, dada como sabemos por π(x) = x, e ´e ilustrada na figura seguinte.
✁ ✄✂ ☎ ✆ ✝✟✞✡✠ ☛ ☞ ☛ Figura 3.1.1: Suban´eis de Z e de Zm.
Proposi¸c˜ao 3.1.20. Se I ´e um subconjunto de Zm, e J = {a ∈ Z : a ∈ I} = π−1(I), ent˜ao I ´e um subanel de Zm se e s´o se J ´e um subanel de Z que cont´em hmi.
Demonstra¸c˜ao. Provamos apenas que, se I ´e um subanel, ent˜ao J ´e tamb´em um subanel.
Obviamente, se a, b∈ J, ent˜ao a, b ∈ I. Logo, vemos que a− b = a − b ∈ I =⇒ a − b ∈ J,
a· b = ab ∈ I =⇒ ab ∈ J.
O seguinte corol´ario ´e imediato.
Corol´ario 3.1.21. Se I ´e um subconjunto de Zm, as seguintes afirma¸c˜oes s˜ao equivalentes:
(i) I ´e um subanel de Zm; (ii) I ´e um ideal de Zm;
(iii) existe d∈ Z tal que d|m e I = hdi.
Demonstra¸c˜ao. Deve ser ´obvio que (iii)⇒(ii)⇒(i). O corol´ario fica portanto provado se estabelecermos que (i)⇒(iii), o que deixamos para os exerc´ıcios.
Segue-se deste corol´ario que Zm tem precisamente um subanel (que ´e necessariamente um ideal principal) por cada um dos divisores de m. Isto mesmo se ilustra na figura seguinte, para m = 40. Aproveitamos ainda este exemplo para ilustrar a utiliza¸c˜ao da Proposi¸c˜ao 3.1.18 no c´alculo de todos os geradores de cada um destes ideais.
✁✂ ✁✂ ✄✂ ✄✂ ☎✂ ☎✂ ✆✂ ✆✂ ✁✞✝✂ ✁✞✝✂ ✄✞✝✂ ✄✟✝✂ ✠✂ ✠✂ ✝✂ ✝✂ Figura 3.1.2: Os ideais de Z40. Exemplo 3.1.22.
Os geradores de h1i = Z40 correspondem `as solu¸c˜oes de mdc(x, 40) = 1:
h1i = h3i = h7i = h9i = h11i = h13i = h17i = h19i = h21i = h23i = h27i = h29i = h31i = h33i = h37i = h39i.
Os geradores deh2i correspondem `as solu¸c˜oes de mdc(x, 40) = 2:
h2i = h6i = h14i = h18i = h22i = h26i = h34i = h38i.
Os geradores deh4i correspondem `as solu¸c˜oes de mdc(x, 40) = 4:
h4i = h12i = h28i = h36i.
Os geradores deh8i correspondem `as solu¸c˜oes de mdc(x, 40) = 8:
h8i = h16i = h24i = h32i.
Os geradores deh5i correspondem `as solu¸c˜oes de mdc(x, 40) = 5:
h5i = h15i = h25i = h35i.
Os geradores deh10i correspondem `as solu¸c˜oes de mdc(x, 40) = 10:
h10i = h30i.
Os ideaish20i e h0i tˆem naturalmente um ´unico gerador.
Suponha-se que n|m, e B ´e o subanel de Zm com n elementos. ´E muito interessante estudar desde j´a as seguintes quest˜oes:
3.1. Os An´eis Zm 123
• O anel B ´e sempre isomorfo ao anel Zn?
A primeira destas quest˜oes ´e muito f´acil de esclarecer:
Proposi¸c˜ao 3.1.23. Se n|m e B ´e o subanel de Zm com n elementos, ent˜ao os grupos aditivos B e Zn s˜ao isomorfos.
Demonstra¸c˜ao. Seja m = dn, donde B = hdi. Definimos φ : Zn → Zm por φ(x) = dx, onde bem entendido x∈ Zn, e dx∈ Zm.2
´
E fundamental mostrar aqui que a fun¸c˜ao φ est´a bem definida, i.e., provar que o lado direito da igualdade φ(x) = dx n˜ao depende da escolha do inteiro x que representa a classe x no lado esquerdo. Para isso, basta verificar que x = x′ em Zn⇐⇒ n|(x − x′) =⇒ m = dn|(dx − dx′) =⇒ dx = dx′ em Zm.
´
E imediato que φ ´e um homomorfismo de grupos, e tamb´em que φ(Zn) ={dx : x ∈ Z} = hdi = B.
Resta-nos provar que φ ´e um isomorfismo entre Zn e B, ou seja, que φ ´e injectivo, o que se reduz a calcular o respectivo n´ucleo:
φ(x) = 0⇐⇒ dx = 0 (em Zm) ⇐⇒ dn = m|dx ⇐⇒ n|x ⇐⇒ x = 0 (em Zn). Como o n´ucleo de φ ´e trivial, φ ´e um isomorfismo entre B e Zn.
Veremos mais adiante que este resultado n˜ao passa de uma propriedade geral dos chamados grupos c´ıclicos. A quest˜ao relativa aos isomorfismos de anel n˜ao ´e t˜ao simples, e podemos ilustrar a complexidade adicional com alguns exemplos.
Exemplos 3.1.24.
1. Considere-se, em Z4, o subanel B = h2i = {2, 0}. Como acab´amos de ver,
(B, +)≃ (Z2, +). No entanto, os an´eis B e Z2n˜ao s˜ao certamente isomorfos,
porque o produto em B ´e sempre nulo, ou seja, x, y∈ B ⇒ xy = 0.
2. Considere-se, em Z6, os suban´eis B =h2i = {2, 4, 0}, e C = h3i = {3, 0}.
Mais uma vez, temos (B, +)≃ (Z3, +) e (C, +)≃ (Z2, +), mas neste caso os
an´eis em causa s˜ao igualmente isomorfos, apesar de este facto n˜ao ser ´obvio.
As observa¸c˜oes feitas nos exemplos acima podem ser esclarecidas pelo resultado seguinte, cuja demonstra¸c˜ao fica como exerc´ıcio.
Proposi¸c˜ao 3.1.25. Se n|m e B ´e o subanel de Zm com n elementos, ent˜ao as seguintes afirma¸c˜oes s˜ao equivalentes:
2Pod´ıamos igualmente escrever, para mais clareza, φ(π
(i) Os an´eis B e Zn s˜ao isomorfos, (ii) O anel B ´e unit´ario,
(iii) m = nd, onde mdc(n, d) = 1.
Neste caso, a identidade de B ´e o ´unico x∈ Zm tal que x≡ 0 (mod d), e x ≡ 1 (mod n). Exemplos 3.1.26.
1. O anel Z36 tem 9 suban´eis, porque 36 tem 9 divisores naturais. Exceptuando
os suban´eis triviaish0i = {0} e h1i = Z36, apenas os suban´eis B =h4i, com 9
elementos, e C =h9i, com 4 elementos, tˆem identidade.
2. Continuando o exemplo anterior, a solu¸c˜ao do sistema x ≡ 0 (mod 4) e
x ≡ 1 (mod 9) ´e x ≡ 28 (mod 36), e portanto a identidade de B ´e x = 28. Analogamente, a solu¸c˜ao de x ≡ 0 (mod 9) e x ≡ 1 (mod 4) ´e x ≡ 9 (mod 36), e portanto a identidade de C ´e x = 9.
Exerc´ıcios.
1. Prove o Teorema 3.1.11.
2. Verifique directamente que os ´unicos suban´eis de Z4 s˜aoh1i, h2i e h0i.
3. Prove que, se m > 1, ent˜ao Zmou ´e um corpo ou tem divisores de zero.
4. Prove que na = na (em particular, n = n1).
5. Mostre que, se n > 1, ent˜ao Mn(Zm) ´e um anel n˜ao-abeliano, com carac-
ter´ıstica m, e mn2
elementos.
6. Considere o anel das fun¸c˜oes f : Z→ Zme mostre que para qualquer m > 1
existem an´eis infinitos com caracter´ıstica m.
7. Prove que A∈ Mn(Zm) ´e invert´ıvel se e s´o se det(A)∈ Z∗m3.
8. Dˆe um exemplo de um espa¸co vectorial finito sobre um corpo finito (compare Rn com Zn
p).
9. Determine todas as matrizes em GL(2, Z2) (matrizes 2× 2 com entradas em
Z2, invert´ıveis).
3O determinante de uma matriz A = (a
ij) de dimens˜ao n × n com entradas num anel
comutativo define-se da forma usual: det A = X
π∈Sn
3.1. Os An´eis Zm 125
10. Qual ´e o cardinal de GL(n, Zp), se p ´e primo? (sugest˜ao: Note que as
linhas da matriz M ∈ GL(n, Zp), que s˜ao vectores de Znp, devem ser linearmente
independentes.)
11. Calcule a inversa da matriz 1 0 0 2 3 4 3 2 4 ∈ GL(3, Z5). 12. Resolva o sistema x + 2y = a −3x + 3y = b em Z5.
13. Prove quehai = Zm se e s´o se a∈ Z∗m.
14. Conclua as demonstra¸c˜oes da Proposi¸c˜ao 3.1.20 e do Corol´ario 3.1.21. 15. Quais s˜ao os elementos e os geradores deh85i em Z204?
16. Quantos elementos tem o idealh28, 52i em Z204?
17. Determine todos os ideais de Z30. Quais destes ideais s˜ao an´eis unit´arios, e
quais s˜ao as respectivas identidades?
18. Sendo p um n´umero primo, e n ∈ N, mostre que ϕ(pn) = pn
− pn−1.
sugest˜ao: Mostre que x∈ Z∗
pn ⇐⇒ x 6∈ hpi.
19. Calcule ϕ(3000). sugest˜ao: Mostre que
x∈ Z∗3000⇐⇒ x 6∈ (h2i ∪ h3i ∪ h5i).
20. Suponha que d = mdc(a, m), m = dn, e φ : Zm→ Zm´e dada por φ(x) = ax.
(a) Mostre que φ ´e um homomorfismo de grupos.
(b) Prove que o n´ucleo de φ ´ehni, e φ(Zm) tem n elementos.
(c) Supondo m = 12, quais s˜ao os valores de a para os quais φ ´e um auto- morfismo de grupos?
(d) Supondo m = 12, quais s˜ao os valores de a para os quais φ ´e um homo- morfismo de an´eis?
21. Supondo n|m, prove que a fun¸c˜ao φ : Zm → Zn dada por φ(x) = x, i.e.,
φ(πm(x)) = πn(x), com x ∈ Z, est´a bem definida, e ´e um homomorfismo de
an´eis. Qual ´e o respectivo n´ucleo?
22. Para provar a proposi¸c˜ao 3.1.25, proceda como se segue: (a) Demonstre a implica¸c˜ao “(i) =⇒ (ii)”.
(b) Para provar que “(ii) =⇒ (iii)”, mostre primeiro que se a ´e a identidade de B ent˜ao hai = hdi, e a2 = a. Conclua que a ≡ 0 (mod d), e a ≡ 1
(mod n).
(c) Resolva o sistema a≡ 0 (mod d), e a ≡ 1 (mod n), e considere a fun¸c˜ao φ : Zn → Zm dada por φ(x) = ax. Prove que φ est´a bem definida,
´e um homomorfismo injectivo de an´eis, e φ(Zn) = B, o que termina a
demonstra¸c˜ao.
23. Esta quest˜ao refere-se a homomorfismos φ : Z4→ Z36.
(a) Quais s˜ao os homomorfismos de grupo φ? Quais destes s˜ao injectivos? (b) Quais s˜ao os homomorfismos de anel φ? Quais destes s˜ao injectivos? 24. Suponha que a∈ Z∗
m, e considere Ψ : Z∗m→ Zmdada por Ψ(x) = a· x.
(a) Prove que Ψ ´e injectiva, e que de facto Ψ(x)∈ Z∗
m, para qualquer x∈ Z∗m.
(b) Sendo Z∗
m={x1, x2, x3, . . . , xk}, onde k = φ(m) e φ ´e a fun¸c˜ao de Euler,
mostre que Qki=1Ψ(xi) = Qki=1xi, e utilize este facto para provar o
Teorema de Euler : ak= 1.
(c) Prove ainda o Teorema de Fermat : Se m = p ´e primo, ent˜ao ap = a.