249. Desde o 1.º trimestre de 2020 que a pandemia de COVID-19 vem provocando um profundo impacto negativo no transporte aéreo, na Europa e no resto do mundo. As medidas sanitárias e as restrições de
viagem impostas em termos globais para responder à pandemia suspenderam a oferta por via administrativa e abalaram a confiança dos consumidores a ponto de o volume de passageiros transportados por via aérea ter caído, no mundo, cerca de 60% em 2020, face ao ano anterior.45 Ao
nível dos aeroportos portugueses esta redução foi de 69,4%.46 As previsões apontam para que a redução
do tráfego aéreo se mantenha em 2021, com o retorno aos níveis pré-COVID-19 incerto. Segundo o regulador internacional, não deverá acontecer antes de 2024.47
250. Os efeitos da pandemia de COVID-19 impactaram seriamente a TAP. A redução abruta do tráfego
aéreo a nível mundial criou, de imediato, dificuldades às empresas do sector, no qual se insere a TAP, pois trata-se de um sector de atividade caracterizado por elevados custos fixos e elevada rotação de fluxos de tesouraria.
45 De acordo com o relatório Economic impact analysis of COVID-19 da International Civil Aviation Organization (ICAO).
46 Destaque do INE de 17 de fevereiro de 2021 – Atividade dos Transportes: Dezembro de 2020 — Estatísticas rápidas do transporte
aéreo, 17 de fevereiro.
251. A TAP em período pré-COVID-19 já se encontrava em situação económica difícil. De acordo com
os dados presentes nas contas consolidadas do grupo TAP, é possível constatar que, em 2019, a TAP, SGPS, S.A., único acionista da TAP, S.A. (Figura 4) encontrava-se em situação de falência técnica, nomeadamente por via do capital próprio negativo, em resultado de prejuízos acumulados durante muitos anos. Com efeito, o balanço consolidado do grupo (p. 4 das declarações financeiras consolidadas) revela que em 2018 e 2019 os Capitais Próprios eram – 617,9 M€ e – 580,8 M€, respetivamente.
252. À TAP foi concedido um empréstimo estatal, destinado a satisfazer as necessidades de liquidez imediata. Por regra, o direito europeu da concorrência proíbe a concessão de apoios públicos a
empresas que atuam em mercado com o objetivo de preservar a competição entre concorrentes e salvaguardar os interesses dos consumidores. A regra aplica-se à atribuição de subsídios, empréstimos garantias e, de uma maneira geral, a qualquer outro tipo de apoio financeiro a uma empresa. Contudo, existem circunstâncias em que a atribuição de apoios é possível. Em particular, quando a finalidade é facilitar a reestruturação de empresas não financeiras em dificuldades. Elas estão previstas na Comunicação da Comissão Europeia n.º 2014/C 249/01, de 31 de julho de 2014. O facto de o Grupo TAP já se encontrar em falência técnica a 31 de dezembro de 2019, como indicado no parágrafo anterior, inviabilizou o enquadramento do empréstimo no Quadro Temporário de Auxílios de Estado, um regime criado pela Comissão Europeia em 19 de março de 2020 e que é mais favorável do que o acima citado, permanecendo em vigor para as situações empresariais difíceis não originadas pela pandemia. A operação foi autorizada em 9 de junho de 2020,48 ao abrigo do regime geral que regula os auxílios
estatais de emergência às empresas não financeiras em dificuldades — a citada Comunicação da CE n.º 2014/C 249/01. A aprovação pela CE de auxílios deste tipo exige, normalmente, a aplicação de remédios nas empresas intervencionadas destinados a mitigar os danos na concorrência resultantes do apoio público discricionário. As contrapartidas de reestruturação exigidas pela CE no regime geral para autorizar auxílios de Estado são substancialmente mais penalizadoras para a dimensão das empresas e preveem prazos de reembolso dos capitais públicos mais reduzidos do que as contrapartidas previstas no âmbito do regime especial criado para enquadrar as ajudas de Estado a reestruturações de empresas gravemente afetadas pela pandemia, mas que apresentavam uma situação económica razoável em 2019.
253. Em, 2020, o valor do empréstimo concedido à TAP ascendeu a 1,2 mil milhões M€, com reflexo no saldo orçamental. Este valor foi orçamentado na 2.ª AOE/2020 e totalmente executado até ao final do
mês de dezembro do respetivo ano. Esta operação, em contabilidade nacional, por via do risco de o credor vir a ter uma perda significativa do capital, é classificada como transferência de capital, con- tando, por isso, negativamente para o saldo orçamental. Como tal, a imputação em 2020,do montante total do empréstimo concedido à TAP agravou em 0,6% do PIB o saldo orçamental de 2020.49
48State Aid SA.57369(2020/N) – Portugal – COVID-19: Aid to TAP.
Figura 4 – Estrutura do Grupo TAP
(em percentagem)
Fontes: Relatório e Contas Consolidadas do Grupo TAP de 2019 e apresentação de Resultados do 1º Semestre de 2020 da TAP, S.A. Notas: DGTF – Direção-Geral do Tesouro e Finanças. TAP, S.A. – Transportes Aéreos Portugueses, S.A, (TAP AIR PORTUGAL). CATERINGPOR — Catering de Portugal, S.A.. UCS — Cuidados Integrados de Saúde, S.A.. TAP ME Brasil — Manutenção e Engenharia Brasil, S.A.. SPdH — Serviços Portugueses de Handling, S,A. (GroundForce Portugal). TAPGER — Sociedade de Gestão e Serviços. S.A.. AEROPAR Partici- pações, S.A..
254. O Estado português reforçou a sua posição na estrutura acionista do Grupo TAP. Durante o segundo
semestre de 2020, o Estado português, perante a situação económica frágil, a perspetiva da necessidade de novos apoios financeiros e consequente processo de reestruturação, procedeu à aquisição (por 55 M€) das participações sociais, dos direitos económicos e das prestações acessórias detidos pela Atlantic Gateway, SGPS, Lda. (Atlantic Gateway), representativos de 22,5% do capital social e dos direitos de voto na TAP SGPS. Assim, o Estado passou a deter uma participação social total de 72,5%, e os correspondentes direitos económicos (50% através da Parpública, SGPS SA e 22,5% através da Direção-Geral do Tesouro e Finanças) — ver Figura 4.
255. .Relembra-se que, com a privatização parcial em novembro de 2015, o Estado Português ficou detentor de uma participação social e dos correspondentes direitos económicos valendo 39% do Grupo
TAP. Após renegociação com o principal acionista privado (Atlantic Gateway), concluída em junho de
2017, o Estado passou a deter uma participação no capital social de 50%, mas reduziu os seus direitos económicos para 5%.
256. A POE/2021 previu a concessão de uma garantia do Estado no montante de 500 M€. A POE/2021
apresentada na Assembleia da República não contemplou para o ano de 2021 qualquer empréstimo adicional à TAP, mas sim a concessão de uma garantia de Estado no montante de 500 M€. Visava pos- sibilitar à TAP a contração no mercado um novo empréstimo bancário.