PARTE II – ETNOGRAFIA SOBRE O ENSINO DA
4.2 As Instituições de Educação Superior (IESs) no Brasil
4.2.1 As Universidades, os Centros Universitários e a “geografia
4.2.1.2 Faculdades Integradas e Centros Universitários
Algumas faculdades e centros universitários valem-se de uma es- tratégia na divulgação dos seus nomes que as confunde com as universida- des. Por exemplo, o Centro Universitário “F” é conhecido como a UniF, o Centro Universitário “G”, UniG, e o Centro Universitário “H”, UniH. Os Centros Universitários “F” e “H” são credenciados como tal, enquanto o “G” é uma Faculdade Integrada, mas emprega, antes do nome, o prefixo “Uni”. Ao utilizar o prefixo “Uni” deixa subentendido que se trata de uma universidade e muitos alunos desta faculdade assim a consideram. O em- prego deste subterfúgio é ilícito para as faculdades, mesmo as integradas. O uso é tão frequente que o MEC divulgou um comunicado afirmando que iria punir as instituições que se autodenominam universidades112. Um dos argumentos do MEC para coibir o uso indevido do prefixo “Uni” é que, ao utilizar um nome que não foi autorizado, isso pode representar afronta ao Código de Defesa do Consumidor.
Feita esta ressalva quanto à designação dos nomes das IESs, des- creveremos os dois Centros Universitários e a Faculdade Integrada que tiveram professores e professoras colaboradores na pesquisa.
Centro Universitário “F” – “UniF”
O Centro Universitário “F” foi criado em março de 1974. É uma IES privada, particular em sentido estrito, ou seja, é uma instituição empre- sarial. Tem dois campi em Curitiba e mais dois em outras cidades do Esta- do. A instituição tem, na região central de Curitiba, mais nove sedes. Ofere- ce 35 cursos em Curitiba, para aproximadamente 7 mil alunos. Acompanhei as aulas na “Cidade Universitária”, termo pelo qual a mantenedora designa
112 “As faculdades e instituições de ensino superior que se autodenominam „universidades‟ ou
„centros universitários‟ e têm em seu nome „uni‟, „un‟, „centro‟, podem ser punidas pelo Ministério da Educação (MEC). Pelas regras brasileiras só pode utilizar no nome a expressão „universidade‟ ou „c
este Centro Universitário “F”, que é considerado o campus-sede da UniF, construído no ano de 2002, numa área de aproximadamente 400 mil m2.
As construções dos prédios da UniF estão na mesma área, mas cada prédio é considerado um campus. Os mesmos são diferenciados, à noite, por refletores que iluminam cada prédio com uma determinada cor. Por exemplo, o prédio-sede, onde funciona a reitoria, é iluminado com a cor verde e os outros com cores amarelas, lilás etc. Esta intensa iluminação dos prédios chama a atenção de longe113.
Nos seus informativos e vídeo institucional, este campus-sede é de- signado de “palácio educacional”, cujo nome é em homenagem a uma mu- lher com o sobrenome da instituição. A arquitetura deste prédio é definida como sendo no estilo neoclássico pós-moderno. No entanto, tudo indica que houve inspiração no famoso Palácio de Belvedere em Viena (sem o lago na frente) e está mais para o estilo arquitetônico rococó. Todas as colunas de todos os prédios têm o mesmo formato: grandes, altas e redondas. Na entra- da do prédio principal há cinco destes pilares – que são uma espécie de pilastra, que lembra o Olímpo. Cada uma delas tem em torno de dez metros de altura e um diâmetro de mais ou menos um metro. Com este enorme pé direito na entrada, aliado ao declive do terreno, precisa-se subir aproxima- damente 15 lances de escada (o que lembra o acesso a algumas catedrais). Logo na entrada, há um hall, com quatro amplos e confortáveis sofás, um grande tapete e à esquerda quadros que retratam cenas da França antiga, cujas molduras são cheias de rococó. Também as colunas são todas ricas em detalhes no mesmo estilo. No meio da sala, a mais de três metros de altura, há um grande lustre com lâmpadas que lembram cristais, mas tudo indica que sejam de vidro.
O piso da entrada é todo de mármore (e este é o padrão em todos os prédios). Na entrada há, à direita, dois quadros com os retratos do casal fundador da instituição. Estes quadros estão “guardados”, talvez “protegi- dos”, por duas estátuas, que parecem ser de bronze de mais ou menos um metro, representando dois anjos. Ao lado dos quadros, há muitos ramos de flores artificiais e um deles é sustentado por quatro leões de bronze. Logo em seguida, à direita há algumas salas de aula e a sala dos professores. É este o cenário da entrada do prédio da “reitoria” do Centro Universitário “F”.
113 Quando da primeira vez em que me dirigi ao campus, solicitei informação a uma pessoa no
ônibus. Ela gentilmente disse-me: “não te preocupes, fiques olhando para este lado, quando avista- res vários prédios iluminados, você desce, porque lá é a UniF”. E realmente, após alguns minutos, avistei, a uma distancia de aproximadamente 500 metros da avenida principal, vários prédios iluminados com luzes muito fortes e coloridas.
As salas, amplas, podiam acomodar em fileiras em torno de 60 car- teiras almofadadas e com mesas. As paredes eram protegidas com rodapés na altura das cadeiras, e um grande quadro ocupava a extensão da parede na entrada da sala, com um pequeno tablado em toda a extensão do quadro. Não estavam disponíveis equipamentos para projeção, mas isso não signifi- ca que não existiam, pois, quando os docentes precisavam, poderiam dispo- nibilizá-los, desde que fossem solicitados com antecedência.
Faculdades Integradas “G” – “UniG”
Conforme exposto anteriormente, a UniG não é, na sua organização acadêmica, um Centro Universitário, mas sim “Faculdade Integrada do G”. A UniG é a mais nova das cinco IESs pesquisadas, formada por faculdades integradas, cuja categoria administrativa é privada/particular em sentido estrito, ou seja, é também uma instituição com vocação empresarial, funda- da por dois advogados. Recebeu autorização de funcionamento do curso de direito (então com o nome de Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas) em março de 2000. No ano de 2007 oferecia 27 cursos e divulga que é a tercei- ra instituição particular de ensino superior em número de alunos de Curitiba (aproximadamente 8 mil). Instalada num antigo convento, está localizada na região Leste de Curitiba em uma área de aproximadamente 150 mil m2.
Tinha na época da pesquisa seis prédios que haviam sido recente- mente construídos, os quais eram nomeados por números (de 1 a 6) e cada prédio correspondia a uma ou mais faculdade. Os prédios mais próximos estavam interligados por rampas e escadas. Além destes prédios construí- dos, havia na entrada uma antiga casa (que era a casa principal do conven- to) onde funcionava a Reitoria. Aproximadamente um terço da área do campus estava reservado para estacionamento gratuito, mas com porteiros que controlavam o acesso de entrada e saída de veículos em dois portões. Alguns prédios estavam em construção ainda (Centro Esportivo e laborató- rios). A arquitetura prezava pela funcionalidade das salas, aliando-se a isso a simplicidade dos materiais utilizados, mas mesmo assim havia mármore nos corredores. As salas, com piso de madeira, eram amplas (com aproxi- madamente 70 m2), podendo acomodar 60 a 70 alunos sentados em fileiras. As cadeiras eram almofadadas, algumas conjugadas às mesas e outras sepa- radas, no formato convencional escolar. Havia também em cada sala uma mesa para o/a professor/a, geralmente um pouco maior que a dos alunos. As portas têm na parte mais alta um recorte com vidro (de aproximadamente 30 cm x 15 cm), permitindo a quem está no corredor visualizar a sala e
quem está na sala observar as pessoas que estão no lado de fora. Um quadro amplo ocupa praticamente toda a extensão da parede da frente (mais ou menos de 6 metros) e há um pequeno tablado (de aproximadamente 30 cm de altura por um metro) em toda a extensão do quadro. O quadro é todo quadriculado, para facilitar a escrita em linha reta, mas isso não é perceptí- vel de longe.
Há nas salas uma tela móvel para projetar, mas sem nenhum equi- pamento, pois cada andar, em todos os prédios, dispunha de um kit multi- mídia móvel (equipado com datashow e computador) que, caso fosse solici- tado com certa antecedência, um dos funcionários instalava.
“Centro Universitário “H” – “UniH”
A UniH, á época da pesquisa, era um centro universitário e também uma IES privada, particular em sentido estrito, empresarial, cuja mantene- dora é uma empresa do ramo de informática, conhecida nacionalmente.
Este centro universitário tem uma característica peculiar: o seu campus, recentemente inaugurado, é o mais distante do centro da cidade e o que tem a melhor infraestrutura (prédios, equipamentos, localização) de todas as IESs privadas: todas as salas são equipadas com datashow e com- putador, quadros amplos, prédios novos, mesas e cadeiras estofadas e bem confortáveis. Está localizado num antigo haras com aproximadamente 400 mil m2. O lugar é muito amplo, com um lago no centro do campus. Os pré- dios estão diferenciados por pequenos azulejos coloridos, e é a partir destas cores que eles são identificados. Por exemplo, quando se pede alguma in- formação sobre determinado prédio, dizem: “reitoria é o prédio roxo; in- formática, prédio amarelo; engenharia e moda, prédio vermelho” e assim por diante. Todos os 15 prédios já construídos na época estavam distribuí- dos em dois eixos que se cruzam, sendo um destes eixos um amplo corredor coberto com placas acrílicas transparentes, um pouco azuladas, com mais de 500 metros de extensão, com aproximadamente 5 metros de largura, todo alajotado, cuja estrutura é de ferro pintado e galvanizado.
Estavam em construção vários outros prédios, mas principalmente um grande centro de convenção com 2.000 lugares e hotel (divulga-se que será o maior da cidade). O estacionamento ocupa uma importante área do campus (sempre com muitos carros, principalmente à noite). O campus é circundado por uma rua principal, e há uma linha exclusiva de ônibus do terminal mais próximo para o campus. O prédio da Reitoria, com dois anda- res, tem elevador panorâmico e seu piso é todo em mármore. Neste centro
universitário, as escadarias e alguns corredores são também de mármore, mas o piso da maioria dos corredores é cerâmico, com detalhes no piso de mármore. Já as salas são todas em piso cerâmico.
Conforme as descrições das demais IESs, os pisos em mármore é um característica bem peculiar das IESs privadas de Curitiba, as quais po- deríamos qualificar como “universidades do mármore”, pois todas as insti- tuições (sejam elas universidades, sejam centros universitários) têm, em algum local, pisos de mármore. O que as diferencia é que, em algumas, isso ocorre praticamente em todos os prédios, nos corredores, nas escadarias etc., enquanto, em outras, este material fica reservado para os acessos à reitoria ou aos auditórios.