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PARTE I – RELAÇÃO SUJEITO E OBJETO NA

1.2 A relação Sujeito / Objeto ainda um grande divisor

1.2.4 Sujeito e Objeto na perspectiva de Kant e Goethe

Destas duas concepções de mundo [a es-

piritualista e a materialista], se têm for-

mado outras duas cuja idéia unificadora julga mais imparcialmente aqueles dua-

30 As publicações de Steiner e Simmel trazem, para além da relevância dos temas comuns (os

pensamentos de Kant e Goethe), algumas questões nebulosas e incógnitas que envolvem estes dois filósofos contemporâneos e conterrâneos. Quando Simmel publicou as três obras sobre Goethe e Kant, nos anos de 1904, 1906 e 1916, todos os escritos científicos de Goethe (Goethes Naturwis-

senshiaftlichec Schriften), editados e comentados por Rudolf Steiner, na Deutsche National- Literatur [Bibliografia Nacional Alemã], de Joseph Kürschner, já haviam sido publicadas entre os

anos 1884 e 1897: Vol. I: Bildung and Umbildung Organischer Naturen. zur Morphologie (1883); Vol. II: Zur Naturwissenchaft Imallgemeinen. Mineralogie und Geologie. Meteorologie (1887); Vol. III: Beitiräge zur Optik. zur Farbenlehre. Enthüllung der Thecorie Newtons (1890); Vol. IV: Zur E‟ctrbenlehre Farbenlehre.Mmaterialien zur Geschichte der Farbenlehre (1897); Vol. V:

Matterialien zur Geschichte der Farbenlehre (Schluss). Entoptische Fatrbcn. Paralipomena zur Chromattik. Sprüche in Prosa. Nachträge (1897). No entanto, Simmel não cita essas obras (ao

menos na edição de 1947/1949), nem se contrapõe a elas. É estranho esse silêncio, uma vez que seria injustificável não utilizar tais obras e se debruçar somente nos escritos poéticos de Goethe. Também é estranho o silêncio de Simmel sobre Steiner, pois este, depois de se tornar editor das obras cientificas de Goethe, começa a ser reconhecido nos círculos intelectuais de Berlim e também tem várias publicações antes da virada do século XX, destacando-se, entre elas, as obras que utili- zamos traduzidas para a língua portuguesa: O Método Cognitivo de Goethe, de 1886; Ciência e

lismos: a kantiana e a goetheana

(SIMMEL, 1949).

[...] podemos afirmar que toda a evolu- ção do pensamento alemão transcorre em duas correntes paralelas: uma imbuí- da do pensamento kantiano e outra que se avinha do pensamento goetheano

(STEINER, 2007).

Em que pese sua a ampla e diversificada obra, e ser reconhecido co- mo um dos fundadores da sociologia alemã, ao lado de Max Weber e Ferdi- nand Tönnies, colaborador de Durkheim, Georg Simmel31 (1858-1918) é mais conhecido como neokantiano, que se dedicou aos estudos da micros- sociologia e foi um dos fundadores da chamada “sociologia formal” ou “sociologia das formas”. Defendeu sua tese de doutorado em filosofia na Universidade de Berlim em 1881, aos 23 anos, com o título A natureza da matéria segundo a monadologia física de Kant. Particularmente nos interessam desse autor três livros: Kant (1904), Goethe (1913)32 e Kant und Goethe (1916).

Rudolf Steiner (1861-1925), conterrâneo de Simmel, doutorou-se em filosofia na Universidade de Rostock, Alemanha, em 1891. Sua tese, publicada com o título Verdade e Ciência (1985), foi elaborada com base numa crítica a Kant. Tem uma vastíssima obra33, e nos interessam, particu- larmente, além da sua tese de doutorado, as publicações específicas sobre o

31 Seus trabalhos trataram de temas como a vida urbana, estilo de vida, religião e dinheiro. Influen-

ciou com seu pensamento as ciências humanas, particularmente as áreas da filosofia, antropologia, sociologia, psicologia e teologia. Entre tantos outros, teve influência nos trabalhos de Weber, Luckács, Heidegger, Mannheim, Benjamin, Elias, Adorno, Ortega y Gasset. Sua vasta obra, com aproximadamente 20 livros, iniciou-se em 1890 com o título Da Diferenciação Social e seguiu publicando até a sua morte em 1918 (Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Georg_Simmel#column-one).

32 Este livro foi traduzido para a língua castelhana no ano de 1949, em cuja edição foi acrescentado

um capítulo com o título Kant y Goethe. É uma edição modificada da primeira versão publicada em 1916, com o título Kant und Goethe. Zur Geschichte der Modernen Weltanschauung Auflage (Berlin: Kurt Wolff Verlag, 1916).

33 Segundo a Editora Antroposófica, a edição completa das obras de Rudolf Steiner foi toda catalo-

gada e numerada com a designação de GA (Rudolf Steiner Gesamtausgabe). São mais de 350 obras publicadas: aproximadamente 45 livros escritos e seis mil conferências (organizadas em mais de 300 publicações).

Estas publicações foram divididas em três seções: SEÇÃO A: OBRAS ESCRITAS

Livros (GA 1–28): coletâneas de artigos (GA 29–36) e publicações do legado literário (GA 38–45). SEÇÃO B: CONFERÊNCIAS

Conferências públicas (GA 51–84): conferências para membros da Sociedade Antroposófica (GA 93–270); Conferências e cursos para áreas específicas (GA 271–354).

método goetheano: Filosofia da Liberdade (1983[1894]); A Obra Científica de Goethe (1964[1897]); O Método Cognitivo de Goethe (1986[1897])34, pois em todas elas Steiner parte do pensamento de Kant para compará-lo ao de Goethe.

Utilizaremos estas fontes para compreender não só a relação entre sujeito e objeto defendidas por Kant e por Goethe, mas também para nos aprofundarmos sobre as teorias do conhecimento elaboradas por ambos, as quais foram profundamente discutidas por Simmel e Steiner.

De acordo com Simmel (1947), foi a partir do Renascimento (1300- 1500) que tomou corpo a ideia de que o ser humano é um ser dualista, privi- legiando esta forma, juntamente com o contraste, a maneira que capta os conteúdos do seu mundo. Mas é na Idade Moderna (1453-1789) que foi inicialmente elaborado o antagonismo entre sujeito e objeto, no qual a sobe- rania do eu cogitante se constrói, simbolizado na máxima de René Descar- tes (latinizado como Renatus Cartesius): “penso, logo existo – e, logo, exis- te também o mundo”.

Esta imagem do mundo se expressou mais tarde em duas formas o- postas: a materialista e a espiritualista. Enquanto a materialista nega a sepa- ração entre o espiritual e o ideal, sendo o mundo corpóreo exterior o único que existe; a espiritualista, pelo contrário, defende que o espiritual é absolu- to para a existência. Para Simmel, estas duas concepções de ver o mundo de então – a kantiana e a goetheana (SIMMEL, 1949) – originaram outros dois dualismos.

A diferença para o autor é que estes dualismos de Kant e Goethe es- tariam colocados para além do antagonismo entre materialismo e espiritua- lismo: “Kant porque seu princípio coloca abaixo sem equiparar-se e sem antagonismo a matéria e o espírito, por serem ambos meras representações; Goethe, porque as duas essências que ele toma como absolutas formam uma só diretamente” (SIMMEL, 1949, p. 274). Ou seja, para Kant, tudo o que nos apresenta que se expressa no dualismo do mundo sensorial é represen- tação; Goethe ultrapassa o mundo sensorial e este dualismo se transforma numa unidade.

Enquanto em Kant o fato de o ser humano ter dois lados – o interior, correspondendo a nossa “coisa-em-si”, e o exterior, o único realmente co- nhecido – reside em consequência em dois mundos inconciliáveis; para Goethe, o traço fundamental da sua concepção de mundo o separa profun- damente de Kant, pois ele busca a unidade do princípio subjetivo e do obje-

34 As datas entre colchetes referem-se sempre à edição original da obra. Ela é indicada na primeira

vez que a obra é citada. Nas demais, indica-se somente a edição utilizada. As datas referem-se ao ano da publicação no original da língua, enquanto as datas entre parênteses referem-se ao ano da publicação da edição traduzida para a língua portuguesa ou outra que utilizamos.

tivo, da natureza e do espírito, dentro de sua mesma manifestação (SIMMEL, 1949).

Credita Simmel a Kant a proeza do subjetivismo dos tempos moder- nos, a autonomia do eu e sua irredutibilidade do material, além de ter de- monstrado também que “todo fidedigno e objetivo do ser somente é com- preensível, pois só a condição de que as coisas não sejam nada mais que nossas representações pode nos representar” (SIMMEL, 1949, p. 266).

Steiner faz coro a Simmel na crítica ao apriorismo antes da observa- ção e sustenta que todo o nosso conhecimento tem como ponto de partida as observações empíricas. Nesse sentido os julgamentos a priori de Kant.

não são, no fundo, conhecimentos, mas sim postula- dos. Em sentido kantiano só podemos dizer: para que uma coisa possa tornar-se objeto de um possível co- nhecimento, tem de obedecer a essas leis. São, portan- to, prescrições que o sujeito faz ao objeto. Ora, o cer- to seria que, em nossa busca de conhecimentos do que é dado, estes decorressem não da subjetividade, mas sim da objetividade (STEINER, 1985, p. 72).

Para Steiner, reside aí equívoco fundante da teoria kantiana, pois, ao partir de um a priori, emerge uma concepção errônea de que todos os obje- tos que nos vêm dados são representações nossas. Esta interpretação, que Simmel chama de científico-intelectualista da imagem do mundo de Kant, pode ser resumida na seguinte sentença: “o problema não está nas coisas, senão o que sabemos acerca das coisas” (SIMMEL, 1949, p. 267). Já para Steiner, é justamente o contrário, pois é por detrás dos fenômenos sensori- ais que aparentemente se revela o interior do ser humano: “[...] surge a ilusão de que os pensamentos das coisas estão no homem, enquanto na realidade eles existem nas coisas. O homem tem necessidade, numa vivên- cia ilusória, de separá-los das coisas; na verdadeira vivência cognitiva, ele os devolve novamente às coisas” (STEINER, 1986, p.12). Portanto, Steiner concebe que para qualquer objeto existir este deve ter sido construído ante- riormente na forma de pensamentos: “se podemos formar pensamentos sobre as coisas e assim conhecê-las, é preciso que os pensamentos pré- existam nas coisas. As coisas devem ter sido construídas conforme pensa- mentos. Somente por isso é que podemos extrair das coisas os pensamen- tos” (STEINER, 1979 [1909], p. 14).

Conceber o mundo a partir dos objetos e que o mundo foi originado pelo pensamento anteriormente colocado para criar as coisas é a primeira exigência para o exercício da atividade interior, para se chegar à realidade objetiva:

O mundo é construído segundo pensamentos, e só por isso é possível tirá-los dele. Se assim não fosse, não existiria a possibilidade de pensar. Quem se convence do que acabamos de dizer, ultrapassa facilmente o domínio das idéias abstratas. Quem confia plenamen- te na verdade de que atrás das coisas jazem pensa- mentos, de que fatos e fenômenos se realizam segun- do pensamentos, prontamente se converterá a uma prática de pensamento edificada sobre a realidade ob- jetiva das coisas (STEINER, 1979, p.15).

E este é o ponto de separação crucial da relação sujeito/objeto de Kant e Goethe. Segundo Simmel, a busca da unidade objetiva do ser para Kant só é possível em Deus; por isso, ele invoca um Deus transcendente, uma “coisa em si”, enquanto Goethe apoia-se na unidade das coisas, não mais além das coisas, rechaçando um Deus existente de fora (um Deus oposto ao que as religiões cristãs defendem). Para Simmel, pode parecer que existe uma aparente analogia entra as concepções goetheanas e kantia- nas, mas elas são só aparentes, pois “nunca deve-se perder de vista a dis- crepância fundamental de que Goethe resolve do lado do objeto a equação entre sujeito e objeto, enquanto Kant o faz do lado do sujeito, se bem não do sujeito casual, pessoalmente diferenciado, senão do sujeito supra- individual, suporte do conhecimento objetivo” (SIMMEL, 1949, p. 275).

Steiner reconhece a importância da filosofia de Kant, praticamente nos mesmos termos de Simmel, pois, segundo ele, “seria um sacrilégio diminuir os méritos imperecíveis desse homem em prol do desenvolvimen- to da ciência na Alemanha” (STEINER, 1985, p. 9). Credita à Kant o méri- to de remeter o homem a si mesmo, rejeitando, dessa forma, as pretensas verdades impostas de fora (fazendo coro ao Deus de Goethe), as quais se tornaram lema da filosofia kantiana. No entanto, o reconhecimento de Stei- ner praticamente fica restrito a estas contribuições do pensamento kantiano e centra a sua crítica na formulação do problema que Kant defende para desenvolver sua teoria do conhecimento.

O editor das obras de Goethe elegeu Kant o seu interlocutor privile- giado e centro das suas críticas, por considerar que este exercia no final do século XIX e início do XX uma forte hegemonia nas ciências e que, segun- do seu ponto de vista, levou a filosofia da época “a sofrer de uma fé malsã nele e em seus principais seguidores” (STEINER, 1985, p. 9). Também por considerar que foi Kant quem sintetizou, na sua filosofia, a tentativa de solução dos principais problemas para a teoria do conhecimento desde os filósofos antigos até Locke e por isso influenciou, em diferentes escalas,

todos os epistemólogos posteriores (STEINER, 1985). Kant, ao procurar mostrar que “a nossa capacidade cognitiva não pode penetrar no fundamen- to das coisas situado além do nosso mundo sensorial e racional” (STEINER, 1985, p. 9), definiu assim um limite para o conhecimento, pois para ele a ciência deveria permanecer dentro do que pode ser alcançado pela experiência física, não podendo chegar a conhecer o fundamento pri- mordial suprassensível, a “coisa em si”.

Steiner, assentado no método científico de Goethe, não aceita que possa haver limite para o conhecimento e procurou desmontar todo o edifí- cio teórico kantiano (e dos seus seguidores), partindo da crítica da “coisa em si”, da relação sujeito/objeto e dos dados a priori, e, ao mesmo tempo, propôs uma teoria do conhecimento que se contrapunha à de Kant.

Mas no que consiste esta diferença tão marcante na relação sujei- to/objeto entre Kant e Goethe? Segundo Simmel, Goethe busca em Spinoza, principalmente, a expressão filosófica que enfoca a antinomia de Sujei- to/Objeto e funda a relação cognitiva entre eles, numa espécie de paralelis- mo com a natureza35,

porque em nosostros mismos están los elementos de todas las cosas, podemos conocerlas. [...] No es que el ojo forme el sol – como habría que interpretar aquel verso a la manera kantiana –, antes bien ojo y sol son de igual esencia objetiva, hijos equiparados de la na- turaleza divina y capaces, por ello, de entenderse en- tre si. (SIMMEL, 1949, p. 275).

Nesse sentido, parecia à Goethe que a solução dada por Kant ao su- jeito, por uma parte, era demasiada e, por outra, pouco demasiada, e que, por uma parte, essa solução “hacía violência em el objeto em vez de entre- gársele fielmente, mientras, por outra, se le escapaba de las manos como algo incomprensible – como “cosa em si” (SIMMEL, 1949, p. 279). Assim, para Goethe, neste caso, “o sujeito não tem outra tarefa senão arrumar o objeto de tal forma que revele o seu cerne. O verdadeiro é parecido com Deus; não aparece imediatamente – temos que adivinhá-lo por meio das suas manifestações” (STEINER, 1984, p. 79).

Goethe manteve intenso diálogo com Johann Gottfried von Herder (1744-1803), aluno de Kant e que mais tarde tornou-se seu opositor, e com Johann Christoph Friedrich von Schiller (1759-1805), e trocou muitas idei- as com Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), Friedrich Wilhelm

35 Simmel cita um verso de Goethe para exemplificar: “Si el ojo no fuera solar, cómo podría perci-

bir el sol? Si em nosostros no hubiera la fuerza de Dios cómo podría encantarnos lo divino?” (SIMMEL, 1949, p. 275).

Joseph von Schelling (1775-1854) e Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), não porque se interessava pela filosofia, mas porque queria saber como poderia expressar suas descobertas científicas empregando uma linguagem filosófica (STEINER, 1985). Em 1794 escreveu a Fichte: “Ficar-lhe-ei muito grato se V.S. conseguir reconciliar-me com os filósofos, sem os quais não pude viver e com os quais nunca pude concordar” (GOETHE apud STEINER, 1984, p. 73). Mais tarde, em 1817, faz uma análise histórica da influência kantiana sobre suas ideias e, a partir destes estudos, produziu vários ensaios relacionadas com a ciência da natureza e as ideias de Kant. O resultado destes ensaios foi a confirmação para ele de que “todo objeto tem dois lados: aquele, imediato, do seu fenômeno (forma que se manifesta), e o segundo, que abarca sua essência”. Goethe chega por esse caminho “[...] à única visão realmente satisfatória da natureza, ponto de partida para o mé- todo genuinamente objetivo. [...] pode afirmar que nada acrescenta aos objetos que já não esteja contido neles” (STEINER, 1984, p. 65-66).

O que Goethe estava procurando em Fichte, de acordo com a leitura de Steiner (1984), inicialmente encontrou em Spinoza e iria mais tarde buscá-lo em Shelling e Hegel: “era uma visão filosófica que estivesse de acordo com sua maneira de pensar. Contudo, nenhuma das tendências filo- sóficas que conheceu deu-lhe inteira satisfação” (p. 71). Apesar da falta de um ponto de vista científico que aproximasse Goethe dos filósofos, Steiner buscou trazer às obras de Goethe uma visão abrangente da cosmovisão do escritor do Fausto. Esta cosmovisão abrangente de Goethe levou Steiner a situá-lo mais próximo do idealismo alemão. Esse idealismo não era um idealismo “atrás de uma nebulosa e apenas sonhada unidade das coisas, mas sim um idealismo que procura chegar a uma vivência das idéias concretas contidas na realidade, da mesma forma como a pesquisa hiper-exata dos nossos tempos investiga o seu conteúdo factual” (STEINER, 1984, p. 76). É um idealismo distinto do método dialético de Hegel, pois considera ser o de Goethe um empirismo mais elevado: um idealismo objetivo.

A este idealismo objetivo de Goethe, Steiner aproximou o seu mo- nismo conceitual opondo-se ao dualismo kantiano justamente por este se fixar na divisão entre o Eu e o mundo, instituindo limites intransponíveis para a capacidade cognitiva. Steiner considera a visão dualista equivocada porque coloca a realidade em dois domínios opostos, com regularidades próprias e distintas, sem mediação, na qual todo o empenho kantiano

é uma luta constante, mas impotente, para conciliar os opostos, que ora denomina de espírito e matéria, ora sujeito e objeto, ora pensamento e fenômeno. De um dualismo desse gênero, provém a distinção, introduzi- da na ciência por Kant, e que se conservou até hoje, a

saber, o objeto da percepção e a “coisa em si”. Se- gundo ele, a razão pela qual um objeto particular nos é dado como percepção reside unicamente na maneira como funciona a nossa organização mental (STEINER, 1983, p. 33).

Simmel sintetiza a visão monista de Goethe e a dualista de Kant nos seguintes termos:

[...] los objetivos finales de la esencia kantiana sería: trazar los límites; la de Goethe: la unidad. Para Kant todo consistia em deslindar entre si lãs competências de lãs facultades internas que determinan el conoci- miento y el obrar; poner a lo sensible su limite frente al entendimiento, a este el suyo frente a la razón, a ésta el suyo frente a la beatitud, a la individualidad el uyo frente a lo universalmente válido. [...] los movi- mientos íntimos de Goethe encuentran su última ex- presión em la unificación de los elementos: „separar y sumar‟ – confiesa Goethe – „no es cosa de mi tempe- ramento‟; [...] minetras que Kant encuentra estableci- da la asociación y estima que su problema más urgen- te es la división. Para Goethe la unidad es lo claro, la separación lo oscuro; para Kant a la inversa. Em Kant el principio del deslindamiento, así em Goethe el de la unidade prosigue desle la contemplación general de la naturaleza hata llegar a lãs cosas singulares” (SIMMEL, 1949, p. 281-282).

Mas o monismo que Goethe imaginava, de acordo com Simmel, era monismo não cindido (oposto dos monistas concretos ou materialistas, representados pelo biólogo alemão Ernesto Haeckel), no qual o ser humano deveria estar incluído. Ao mesmo tempo, Goethe procurou distinguir, den- tro desta unidade, diferentes graus, o que o levou a imaginar o mundo como um “círculo de círculo”, cada qual com seus próprios princípios explicati- vos. Dessa forma, a unidade proposta por Goethe não é concebida como uniformidade:

“lo que para Goethe interesa es la unidade, existente a pesar de los limites de lãs facultades espirituales; para Kant, los limites de esas facultades, existentes a pesar de la unidad de lãs mismas. Para El esa fijación de li- mites es correlato inmediato de la unidad” (SIMMEL, 1949, p. 284).

Segundo Steiner, Kant, na Crítica da Razão Pura, centrou seu fun- damento no sujeito “pelo fato de a Matemática e as Ciências Naturais puras serem ciências apriorísticas, a forma de toda experiência deve ser fundada no sujeito”. Mas critica esta concepção do mundo kantiana, porque ele não demonstra, de maneira alguma, “o apriorismo da Matemática e da Ciência Natural pura, mas apenas determina a área da sua validade, sob a premissa de que suas verdades devem ser obtidas independentemente da experiência” (STEINER, 1985 p. 36).

Para Steiner, só é possível adquirir um conhecimento sobre o que são os objetos, partindo-se da própria natureza do que seja o conhecimento. Nas suas obras, que tratam do método científico de Goethe, procurou mostrar que

a discussão das diversas concepções do mundo se de- ve ao fato de se pretender adquirir um conhecimento sobre o que são objetos (coisa, eu, consciência, etc.) sem previamente conhecer com exatidão o único que nos permite esclarecer todo o saber restante: a própria natureza do conhecimento (STEINER, 1985, p. 95). O lugar ocupado pelo sujeito e pelo objeto na teoria do conhecimento destes dois pensadores criou uma cisão sobre como se chega ao conheci- mento. Como se sabe, uma delas é hegemônica na nossa sociedade. Mas