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E falamos do L G, que implica com as crianças e implica os professores, que grita e cala, entra e sai, bate e abraça O sofrimento dele é muito e a conversa com o

L G é difícil, tensa, quase sempre triste. Ouvir é difícil. E é difícil também escrever. A

tela do computador ou a folhado caderno fica em branco e os pensamentos

perambulando. Escrevo, risco, apago, reescrevo e salvo outra versão. Às vezes, a escrita

toma uma direção contrária e é preciso fazer o caminho de volta, encontrar o ponto de

desvio e fazer outro caminho.

Ana Maria: Tá muito... Mirela: Não. Assim...

Ana Maria: Tá além, tá de acordo? Mirela: A gente consegue...

Ana Maria: Vocês conseguem trabalhar?

Mirela: Por exemplo Ciências. A ficha tá pedindo pra que a gente trabalhe lá... trabalhasse lá... é o sistema solar. Aí fiz o Sistema Solar com eles. Foi bacana. A aluna de Kátia tava lá e ela ficava assim: “Mercúrio, Júpiter.” Muito engraçado o que aquela menina diz. Aí eu falei: “Você volta aqui então.” “Tia, planetas rochosos, planetas gasosos.” Muito figura! Eu morri de rir, né. Porque você sabe né que às vezes eu brigo muito, muito, muito, mas tem hora que eu não consegui que eu caí na gargalhada. Então lê aqui pra tia: “Júpiter, Mercúrio”. Montamos... aí assim... Aí a Kátia quando eu encontrei com ela hoje ela veio me mostrar os livrinhos. Então assim... A gente consegue os temas trabalhados, os tópicos.

Ana Maria: Ciências, história, geografia vocês conseguem?

Mirela: Matemática também. A gente tá apresentando, Ana Maria. A gente não deixa de apresentar os conteúdos. Eu tô dizendo assim, a gente pode não tá conseguindo na totalidade, mas a gente tá chegando ali. Eu acho que esse é o caminho mesmo. Letícia: E é cansativo. Entendeu? A gente ficar trazendo a todo tempo e todo conselho. A conversinha é que atrapalha. São os assuntos deles mesmos, coisas de adolescentes mesmo. Aí eles falaram... Eu falei alguma gíria brincando com eles e eles falaram: Ah! Até que enfim você falou uma palavra de adolescente. Eu falei: eu manjo muito de palavras de adolescente só que vocês não são adolescentes. Daniel falou comigo. Aí eu falei assim: “Só que nem todo mundo aqui é adolescente.” Aí eles falaram: “Não. A gente é pré-adolescente.” Aí fiquei brincando, né. “Não existe esse negócio de pré-adolescente, não. A maioria aqui tem quantos anos?” Aí eu... um falou que tinha dez. E eu disse: “Não, dez anos não é adolescente não. Ainda é criança.” Mas eles estão muito nessa coisa assim. São os maiores, né. Aqueles papinhos de namoro, de muito cochicho. Sempre a Vitória, o W, o G.

Kátia: O que é essa história que eles tão falando de como é que faz ponta? Eu não sei se foi. Foi na turma deles.

Mirela: A gente colocou... Ana, eu tô olhando aqui no celular só pra sinalizar. Mas o resumão é esse. É... o que acontece ali na turma... acho que dos alunos a gente já passou. Já finalizou, né? É uma turma que tem uma questão de indisciplina, mas ela faz um balanço com a outra questão. Assim, eles não são de todo... eles têm assim uma questão de... assim.

Ana Maria: Eles participam.

Mirela: Abraçam... Tem uma questão assim. De todo modo, eu acho que por ser assim já pré-adolescente tem essas questões que Letícia falou realmente... de namoro.

149 “Tia, eu acho aquela ali bonitinha.” Eles falam isso, eles querem e eu acho que é até natural. Ah! Eu tô sofrendo bulling. Eles falam. E eu acho isso bacana. Eu até pensei: Ah! Vamos tentar ver uma palestra pra essas crianças. Sei lá. Dar uma... Dar um retorno pra eles. “Vocês tão sofrendo?” Vocês sabem o que bulling? Letícia trabalhou um texto, não é? Eles me mostraram o texto.

Letícia: É. Eu trabalhei um texto e queria até colocar isso em algum lugar.

Mirela: É que falaram do cabelo da F que era um cabelo pra cima, sei lá. Aí eu falei: “Ih, gente e o meu cabelo então? Que é ruim pra caramba! Ih! Tô cheia de caspa!” Eu falei: “Só não pode ter piolho, né? Eu disse: “Fui tentar fazer uma progressiva não deu certo.” Tipo assim. Mas eles têm umas questões que são importantes e que a gente não pode... a questão do namoro, a questão da baleia azul. Uma desenhou uma baleia azul no braço. E veio pra escola com aquela baleia azul. Eu falei: você sabe o que é isso? A gente na reunião pediu para que os pais olhassem.

Ana Maria: Pediram?

Mirela: Pedimos. “Olha! O que tá nas mídias que é importante o que que não é. Tem um perigo aí. Fiquem atentos.” Até na primeira reunião, isso lá no início, dois de fevereiro, sei lá, março. Letícia tinha pego uma arminha toda arrumadinha. Eles tavam olhando no Youtube como é que produziam isso e trouxeram pra escola. Então assim... A gente falou pros pais, orientamos, pedimos e tudo mais. E caminha nessa dualidade aí. Poderíamos avançar mais, mas a indisciplina pega um pouco. De todo modo acho que a gente tá conseguindo seguir o barco. Tem dificuldade? Muitas, mas a gente tá seguindo. E tem os dias que aparece uma coisa assim que é pra aliviar a alma, sei lá o que. Pra dar uma regada! Porque quando a gente tá muito murcha aparece alguém lá.

Ana Maria: Agora... o L G não fica na sala. Mirela: Não fica.

Fernanda: Aí gente. Tá difícil. Mirela: E o que a gente faz?

Fernanda: O que a gente negocia com ele no dia seguinte ele já não quer a parte... a parte de atividade da negociação. Ele quer só o que ele quer. E aí fica complicado. Rosa: Eu acho assim que o L G... que com o L G uma coisa importante é que a gente tem de sustentar o que se diz. A Jô saiu e disse que ele ia ficar, ou ele ia pra sala ou ele ia ficar sentado na quadra. Então. Ela falou. Acabou. Não pode fazer diferente daquilo que foi dito, né?

Jorgine: Porque ele não pode ficar brincando... Olha só. A questão do L G é a seguinte, ele junto com os pequenos, ele machuca os pequenos.

Letícia: É verdade. Ele machuca.

Jorgine: Então a gente tem que tá no recreio dos pequenos, alguém viu... É aquilo que a gente tava falando de manhã, né, que a N é aluna de todo mundo e que tá surtindo um efeito bacana porque todo mundo. Então assim... viu o L G no recreio dos pequenos... ele não pode. Todas as vezes que ele está com os pequenos... eu não sei se ele não tem noção. Ele machuca mesmo, ele aperta, ele joga, ele... Entende? Então eu falei com ele: “Ou você vai pra sala... Com os pequenos eu não quero você.” Mas é até pra protege-lo porque se ele machuca uma criança dessas seriamente vai ficar ruim pra gente e pra ele. Então assim...

Mirela: É uma realidade muito difícil. Ana Maria: Ele não atende.

Rosa: A gente precisa que a mãe venha e que a gente tenha um procedimento com ela porque ele tem que ter um acompanhamento. E não é um acompanhamento só de um apoio não. Ele precisa de um acompanhamento fora da escola. Porque olha só tem dias que ele tá deprimido, tem dias que ele fala coisas.

Fernanda: Tem mesmo.

Rosa: Não é? Ele fala coisas. Ele fala da baixa estima dele. Tem dias que ele tá mais impulsivo, pra não dizer agressivo, mas ele tá mais impulsivo. Coisas acontecem e ele tá mais... a válvula de escape é a escola, então... Ele precisa de uma interferência a

150 nível de alguém pra dar um fio condutor pra ele. Ele não tá fazendo acompanhamento nenhum. Neurologista, pediatra, nada.

Marina: O psicólogo deu alta a ele. Jorgine: O psicólogo deu alta.

Mirela: Eu até gostaria de falar. Eu conversei com as meninas antes, né. Primeiro eu me reportei às meninas. Na semana passada eu fiquei muito chocada. Eu sai na hora do meu recreio e eu falei: “Jô eu preciso sentar aqui e falar com você o que aconteceu.” A gente... eu entendo que também eles são alunos de todos porque... eu vou citar T, não vou citar ele, mas ela fica com Marcinha, fica com Fernanda. Fernanda tem dado socorro geral. Passa lá.

(...)

Mirela: Aí na sexta feira ele tava lá. Ele sentou no meu colo, me abraçou. Eu falei senta aqui. Ficou dez ou quinze minutos, no máximo meia hora, não foi isso? Por aí. Jorgine: Depois ele ficou lá dentro... ficou comigo.

Mirela: Jô sentou, falou, e ó assim.

Jorgine: Sexta feira eu tenho segurado ele o máximo que eu posso lá dentro. Não é verdade? Até três e meia pelo menos pra não juntar ele muito com T. Pra não dar um...

Mirela: Pra não dar um tilti geral.

Jorgine: Ele conversa comigo. Mas até três e meia é muito tempo. Mirela: Na sexta feira ele entrou na sala...

Ana Maria: Mas é muito difícil, gente!

Mirela: Muito difícil e imagina com uma turma toda que a gente já verbalizou a dificuldade da indisciplina, e ele ficar na sala.

Ana Maria: E vai fazendo assim até chegar no ponto.

Mirela: Cai no chão. Ele rola no chão assim ó. Pega os pés das crianças, prende o pé assim e fica. Do nada ele pega o caderno do colega e joga. Como que você controla? Ana Maria: É muito difícil.

Mirela: É muito difícil, mas pra além dessa dificuldade toda. Ele sentou no meu colo eu abracei ele e fiquei. Daniela chegou e encontrou a gente lá sentado, abraçado. Eu parei. Deixei os outros lá com exercício. Deixei os meninos. Parei. Sentou L G de um lado e T de outro. Fiquei com os dois ali na minha mesa. Um aqui e o outro ali. Falando com eles na sexta feira antes dele sair. Porque depois Jô ficou com ele. Depois eu fui até lá e falei. Desfiou um rosário. “Eu sou um bosta. A minha mãe disse que eu sou uma fábrica de bosta, que ela deveria ter terminado comigo...” Fernanda você passou na hora. O moço da pintura escutou tudo. “Eu sou uma fábrica de bosta. A minha mãe chega em casa e isso aqui ó...” Ele me mostrou (o braço). “A minha mãe que fez. Um machucado.” Isso ele que me arranhou com raiva. Eu falei: “L G você tem certeza meu filho? Você tá falando a verdade pra tia? Você tem certeza?” E eu fiquei indagando assim. Será que é invenção? Será? Você não pode pensar assim. “Eu não sirvo pra nada. Eu não sirvo pra nada. Eu quero morrer. Eu quero quebrar o meu pescoço, eu quero prender uma corda sei lá o que. Quero me suicidar.” Tudo assim. Desse nível pra lá, gente. Eu sentada e aí eu falei... do nada ele começou a chorar. Eu tô ficando... também eu vou chorar.

Conversa com a Professora Daniela

No dia 14/06 à tarde estavam previstas as falas das professoras Fábia e

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