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De conversa em conversa: o cotidiano em uma pesquisa narrativa com as professoras na escola

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

MESTRADO EM EDUCAÇÃO

MINNA GONDIM MARQUES RODRIGUES

DE CONVERSA EM CONVERSA: O COTIDIANO EM UMA PESQUISA

NARRATIVA COM AS PROFESSORAS NA ESCOLA

Linha de Pesquisa: Estudos dos Cotidianos da Educação Popular

NITERÓI/RJ

2019

(2)

2

MINNA GONDIM MARQUES RODRIGUES

DE CONVERSA EM CONVERSA: O COTIDIANO EM UMA PESQUISA

NARRATIVA COM AS PROFESSORAS NA ESCOLA

Dissertação apresentada ao Programa de

Pós-Graduação

em

Educação

da

Faculdade de Educação da Universidade

Federal Fluminense como requisito para

obtenção do título de Mestre em

Educação.

Orientadora: Profª Drª. Carmen L. Vidal

Perez

NITERÓI/RJ

2019

(3)
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MINNA GONDIM MARQUES RODRIGUES

DE CONVERSA EM CONVERSA: O COTIDIANO EM UMA PESQUISA

NARRATIVA COM AS PROFESSORAS NA ESCOLA

Dissertação apresentada ao Programa

de Pós-Graduação em Educação da

Faculdade

de

Educação

da

Universidade

Federal

Fluminense

como requisito para obtenção do título

de Mestre em Educação.

Linha de Pesquisa: Estudos dos

Cotidianos das Classes Populares

BANCA EXAMINADORA

---

Carmen Lúcia Vidal Perez (UFF)

Orientadora

---

Maria Teresa Esteban (UFF)

---

Andrea Serpa(UFF)

---

Mairce da Silva Araujo (UERJ)

---

Carmen Sanches Sampaio (UNIRIO)

NITERÓI/RJ

2019

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5

Às professoras da Escola Municipal

Professor Marcos Waldemar de Freitas

Reis

que

aceitaram

conversar

e

compartilhar seus saberes e não

saberes.

(6)

6

AGRADECIMENTOS

À Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) que me acolheu

no Programa de Pós Graduação.

À minha orientadora Dra. Carmen Lucia Perez Vidal, por ter dedicado seu tempo e

compartilhado seu conhecimento durante a orientação da pesquisa. Pela confiança que

demonstrou no meu trabalho, pelo respeito à minha escrita e pela firmeza das suas

palavras.

À Banca Examinadora que gentilmente se dispôs a ler minha pesquisa, me avaliar e me

orientar. Vocês são exemplos!

Ao Luiz pela assistência técnica, pela paciência, pelas palavras de incentivo e por fazer

questão de estar comigo todo esse tempo.

Às minhas filhas por saberem pedir comida no ifood, por acreditarem na minha

capacidade e por me ensinarem que é preciso lutar por um mundo mais justo PARA

TODAS E TODOS.

Ao meu pai que me ensinou o amor pelos livros e a minha mãe que sempre me lembra

que existem outras coisas na vida.

Às amigas Georgine Tostes, Nívea Fernanda e Eveline Sourbeck por me fazerem

acreditar que a escola funcionava nas minhas ausências.

Às amigas que fiz no Mestrado e que me fizeram sentir confiante mesmo quando os

prazos estavam se esgotando: Patrícia, Beth, Mônica, Alessandra, Marcele e Sueli.

(7)

7

“Metade da arte da narrativa está em evitar explicações.”

(8)

8

RESUMO

A pesquisa surge de dentro da escola e vai se reconfigurando na busca por olhar

investigativo que procura desnaturalizar nossa leitura da experiência cotidiana. Desta

forma, provocadas pelas crianças que parecem não aprender, somos levadas nas

reuniões de planejamento a pensar e discutir sobre como aprendemos e como ensinamos

na escola, fazendo da prática um lugar de produção de conhecimentos. A pesquisa teve

a intenção de trazer o texto de algumas conversas com as professoras gravadas durante

as reuniões de 2017 e transcritas e que se constituem um exercício de ouvir o outro. O

segundo exercício consiste em retomar trechos da transcrição em novas conversas com

as professoras, e assim, a pesquisa vai sendo desenhada no sentido de pensar e discutir

coletivamente nossas práticas e nossas concepções a partir das nossas experiências.

Desta forma, a pesquisa segue no sentido de retomar alguns pontos da transcrição em

novas conversas com as professoras. Ao iniciar este movimento de (re)flexão sobre a

prática cotidiana transformamos as reuniões pedagógicas em um espaçotempo de

formação e de (re)flexão no sentido de nos dobrarmos sobre a nossa prática para

conhece-la e pensa-la. A partir das relações que os estudos com o cotidiano estabelecem

em seu processo de pesquisa propomos pensar a escola como lugar de formação de

alunos e professores e também de pesquisadores. O referencial da pesquisa com o

cotidiano se constitui como modo de pensar e modo de fazer desta investigação que

assume a narrativa como escritura capaz de compartilhar a experiência da prática

pedagógica. Assim, a pesquisa não tem a intenção de analisar ou explicar o que foi dito,

mas de pensar a relação entre as falas das professoras sobre seus alunos e a sua prática.

A narrativa faz circular a experiência ora reafirmando e ora deslocando sentidos. Desta

forma, a pesquisa narrativa traz a possibilidade de produção de um saber reflexivo e

contextualizado construído a partir das experiências escolares. Mais do que um gênero a

narrativa se mostra como única maneira de falar da complexidade do cotidiano em uma

pesquisa que investiga a própria prática e escreve acerca das experiências docentes.

(9)

9 ABSTRACT

The research rises from within the school and is gradually reconfigured in the search for an investigative view which tries to denaturalize our reading of the daily experience. Thus, provoked by the children who seem not to learn, we are led, in the planning meetings, to think and discuss about how we learn and how we teach at school, making the practice a place to produce knowledge. The research intended to bring the text of some conversations with the teachers recorded during the meetings in 2017 and later transcribed and which constitute an exercise of listening to the other. The second exercise consists on resuming excerpts of the transcription in new conversations with the teachers, and therefore the research is outlined in the sense of thinking and discussing collectively our practices and our conceptions from our experiences. As follows, the research goes on towards resuming some aspects of the transcription in new conversations with the teachers. Once we initiate this movement of reflection (“re-flexion”) about the daily practice, we transform the pedagogical meetings into a spacetime of training and reflection (“re-flexion”) in the sense that we bend over our practice in order to get to know it and think it over. From the relations that the studies establish with everyday life in their process of research, we propose to think about school as a place of training for students and teachers, as well as researchers. The research referential with everyday life is constituted as the way of thinking and way of doing of this investigation which takes on the narrative as writing capable of sharing the experience of the pedagogical practice. Therefore, the research has no intention of analyzing or explaining what has been said, but to reflect upon the teachers’ utterances about their students and their practice. The narrative makes experience goes round, at times reassuring it and, at others dislodging senses. This way, the narrative research brings out the possibility of producing the kind of knowledge that is reflexive and contextualized constructed from school experience. More than a genre, the narrative shows up as the only way of talking about the complexity of everyday life in a research which investigates practice itself and writes about teacher experiences.

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Sumário

Introdução ... 11

PARA INÍCIO DE CONVERSA ... 12

Como surge a pesquisa ... 13

Eu: a aluna ... 14

Eu: a professora ... 21

Eu: a professora pesquisadora ... 25

Nós: no campo da pesquisa ... 28

O que pretende a pesquisa ... 30

A conversa com o cotidiano ... 34

A conversa como modo de fazer de pesquisa ... 35

A narrativa como modo de escrever a pesquisa ... 39

O FIO DA CONVERSA ... 41

Primeiras conversas ... 43

Conversa com a Professora Amanda... 43

Conversa com a Professora Fernanda ... 47

Conversa com a Professora Elizabeth ... 53

Conversa com a Professora Kátia ... 59

Conversa com a Professora Fábia ... 64

Conversa com as Professoras Alice e Helena ... 70

Conversa com a Professora Débora ... 83

Conversa com a Professora Daniela ... 88

Conversa com as Professoras Letícia e Mirela ... 97

Esticando a conversa ... 103

Conversa com as Professoras Elizabeth, Amanda e Fernanda ... 104

Conversa com a Professora Amanda... 113

Conversa com a Professora Keila ... 118

Conversa com a Professora Cecília ... 121

Conversa com as Professoras Alice e Helena ... 129

Conversa com a Professora Luzia ... 139

Conversa com a Professora Mirela ... 147

Conversa com a Professora Daniela ... 150

Retomando a conversa ... 163

Entre uma conversa e outra ... 174

O QUE FICA DA CONVERSA OU UMA CONVERSA QUE NUNCA ACABA ... 177

(11)

11

Introdução

Essa é uma pesquisa conversa que misturou histórias e trouxe experiências

narradas na primeira pessoa. Uma conversa pesquisa que conta da escola nas falas das

professoras e que se constrói com seus praticantes.

Primeiro trago a história da escola de vidro e busco tecer o desenho do

tema: as crianças que não aprendem e o que falamos sobre elas. Depois com a minha

história na escola como aluna, como professora e como pesquisadora busco refazer o

caminho que me trouxe até aqui para que possamos pensar: O que faz de uma

professora uma professora-pesquisadora?

Então a conversa pesquisa começa. Liga o gravador. Espera aí. Desliga.

Agora pode ligar. Grava. Ouve. Transcreve. Parece simples. Só que não. Eu conhecia as

vozes, eu sabia exatamente do que estávamos falando e logo... eu não ouvia o que

falávamos. Mas eu só ouvia quando eu escrevia. A conversa acontecia quando o outro

não estava. Ou estava? Que coisa curiosa essa relação da oralidade com a escrita.

E eu escrevi. Cada palavra falada, lida, cantada, RIDA. Existe essa palavra?

E escrevi as palavras pensadas. Eu saía da escola e na minha cabeça eu continuava

conversando com as professoras. E acho que elas me ouviam porque no dia seguinte

falavam assim: andei pensando sobre o que conversamos e...

E quando pensávamos que estávamos entendendo o que era essa tal

dificuldade entre aspas ela virava outra coisa e apontava para o currículo, para a

avaliação, apontava os tempos e os espaços escolares.

As professoras perguntavam: vai gravar hoje? E o que você vai fazer com isso tudo que

a gente fala? Já escreveu o que eu falei? Quando vamos começar a ler o que você

escreveu?

E lemos. Lemos a nós mesmas e a nós outras e ouvimos a nós mesmas e a

nós outras e a escola ia experimentando. E eu voltava às transcrições. Eu já não sabia

mais se usava dois pontos, se abria aspas ou se apenas contava o que acontecia ali. Os

tempos de ouvir, transcrever, ler, conversar, escrever se misturam e se atravessam,

puxam fios para fora da reunião, fora da sala, pelo refeitório, pelo corredor, pelo

caminho.

(12)

12

E o que era sempre assim às vezes era diferente. Da dificuldade entre aspas

dos alunos passamos a falar das nossas dificuldades sem aspas de conhecer como

pensam as crianças. Nossas dúvidas sobre o aprender foram mostrando que é possível

construir no coletivo outras formas de ensinar.

Não foi possível chegar ao final das transcrições. O tempo acabou. No ano

seguinte quem era do quinto veio para o primeiro e quem ensinava aos pequenos

escolheu estar com os grandes. Novas professoras, novos projetos de vida, de formação

acadêmica. Mudamos alguns horários, experimentamos espaços e a conversa continua.

A pesquisa mostra a conversa como modo de fazer, a narrativa como modo

de escrever, mostra o cotidiano como modo de pensar com, mostra que é preciso

estranhar para conhecer, que é preciso aprender enquanto ensina. A pesquisa mostra que

é preciso ser sensível para experimentar e que uma escola pode ser ao mesmo tempo

várias escolas.

PARA INÍCIO DE CONVERSA

Para começar esta pesquisaconversa eu queria contar um pedacinho de uma

história que li num livro de literatura infantil. Acredito como a professora Edwiges

Zaccur que “a literatura não resolve problemas, antes semeia questões.” (ZACCUR,

2003, p.87) Essa é uma história para crianças, mas que fala também com os adultos,

principalmente os adultos que falam sobre as crianças.

...eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito. Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes... Eu ia pra escola todos os dias de manhã e, quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro. É, no vidro! Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não! O vidro dependia da classe que a gente estudava. Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho. Se fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior. E assim, os vidros iam crescendo à medida que você ia passando de ano. Se não passasse de ano, era um horror. Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado. Coubesse ou não coubesse. Aliás, nunca ninguém se preocupou se a gente cabia nos vidros. E pra falar a verdade, ninguém cabia direito. Mas, uma vez...

(Texto “Escola de Vidro” de Ruth Rocha no livro Admirável Mundo Louco)

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13

Começo contando essa história que não é minha, mas que poderia ser. A

história de uma escola de vidro. Minha tentativa é a de localizar no tempo e no espaço o

surgimento da questão que me move na pesquisa. Durante meu percurso acadêmico e

profissional custei a entender a relação que existia entre a história individual, de onde

começo este texto, as muitas histórias de crianças das classes populares que vão à escola

querendo aprender a ler e escrever e a história de suas professoras. A relação está na

pergunta: Por que a escola precisa dos vidros e o que significa caber ou não caber dentro

neles?

Na história, os vidros mantinham cada um no seu lugar, ou pelo menos,

tentavam manter. O final dessa história de crianças em vidros (que poderia ser a minha)

nos faz acreditar que pode ser diferente e que uma outra escola é possível. O caminhar

da pesquisa, no entanto, nos conta que não se trata de uma escola ou outra, com vidro

ou sem vidro, mas que o cotidiano e sua complexidade comporta muitas escolas dentro

de uma mesma escola a partir de práticas cotidianas que vão se construindo nas brechas

da rigidez pedagógica, do controle dos vidros, no pulo das tampas.

Muitos grandes não conseguem pensar as escolas sem vidro, precisam das

carteiras enfileiradas, dos exercícios preparatórios, das linhas pontilhadas. Não se

espantam com as crianças que não aprendem pois veem e pensam a escola de dentro

dos seus vidros, mas também não é assim o tempo todo.

Desta forma, a pesquisa pretende narrar práticas comuns e assim se

constituir como exercício de desconstrução disso que nos aparece como familiar, como

dado, como experiência imediata. Através das conversas provocar a desnaturalização

dos nossos saberes e a construção de outros conhecimentos a partir de procedimentos

cotidianos, um consumo astucioso que reemprega os produtos impostos por uma ordem

econômica dominante. (CERTEAU, 2014, p.39)

Como surge a pesquisa

Misturar histórias, trazer experiências ordinárias e assim fazer pesquisa é o

que vamos chamar aqui de uma prática desviacionista (CERTEAU, 2014, p.85), no

sentido em que, não apenas se diferencia, mas de muitas formas se opõe ao modelo

hegemônico de investigação científica e de escrita acadêmica. Escrevo na primeira

(14)

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pessoa sobre conversas que acontecem na escola onde trabalho todos os dias e com a

equipe de professores que dirijo.

A pesquisa surge de dentro da escola. Escola que ocupa diferentes

espaçotempos e pratica diferentes modos de pensar e fazer, pois, vai se reconfigurando

e redesenhando na busca por reinvenção ao mesmo tempo que também se mantém a

mesma produtora de injustiças de sempre. “Essas maneiras de fazer se constituem as mil

práticas pelas quais usuários se reapropriam do espaço organizados pelas técnicas da

produção cultural.” (CERTEAU, 2014, p.41) A pesquisa toma forma nas nossas falas e

gestos de professoras e se faz na escuta dos nossos próprios enunciados e enunciações.

Ela se constrói com seus participantes, os sujeitos praticantes como nos diria Certeau, e

instaura um olhar investigativo que procura desnaturalizar nossa leitura da experiência

cotidiana.

Nesse primeiro momento, conto a minha experiência com a escola.

Experiência que começa com a minha entrada como aluna em uma escola pública do

Estado do Rio de Janeiro no final da década de setenta, depois como professora na rede

municipal de Niterói e por fim como pesquisadora no Campo dos Estudos com o

Cotidiano do Mestrado em Educação da Universidade Federal Fluminense.

Eu: a aluna

A minha história, ou a forma como hoje me lembro dela, é muito parecida

com a da escola de vidro, mas eu não sábia disso até que um dia virei professora e a

minha história se misturou com a de muitos alunos. Essa história misturada é, ao mesmo

tempo, minha e da escola, pois ao contar minha experiência conto de uma escola

localizada no tempo e no espaço. O tempo dessa escola é o final da década de setenta e

o espaço é o bairro da Tijuca no Rio de Janeiro.

A coisa mais estranha é sem dúvida a mobilidade dessa memória onde os detalhes nunca são o que são: nem objetos, pois escapam enquanto tais; nem fragmentos, pois oferecem também o conjunto que esquecem; nem totalidades, pois não se bastam; nem estáveis, pois cada lembrança os altera. (CERTEAU, 2014, p.52)

É preciso explicar que o que trago como memória neste momento talvez não

tenha acontecido exatamente assim. Essa memória se transforma com as experiências

(15)

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que vou vivendo e são elas, as experiências, que me permitem reviver os fatos dessa

maneira, logo, uma memória invenção, ficção e narrativa. O exercício é de rememorar

os fatos e os acontecimentos e isso é mais do que lembrá-los, pois a rememoração não

repete o vivido. Ela o reescreve, reinventa, revive.

Para além da memorização e da comemoração, a rememoração leva o espírito à descoberta, ao desdobramento, a um trabalho de memória que envolve não só uma elaboração do que se passou como também o trabalho da imaginação e da singularidade nas narrativas do sujeito. (PEREZ, 2017a, p.19)

Ao ser narrada a experiência transforma-se em história. A minha história é a

da menina que cabia dentro do vidro. Do que consigo me lembrar, nem sentia que

estava lá dentro. De dentro de mim eu me via dentro do vidro, e a maior parte do tempo

eu cabia direitinho, letra bonita, caderno limpinho, livro encapado, lápis apontado.

Levava merenda de casa, uniforme engomado, sapato engraxado, ia embora de carro.

Final de semana tinha passeio, cinema, teatro. Os presentes eram jogos, livros, bonecas.

Eu preferia os livros mesmo antes de aprender a ler. Meu pai também gostava dos

livros. Minha mãe preferia os jornais e encapava meus cadernos, bordava meus

guardanapos, me levava e buscava na escola, queria saber como tinha sido meu dia, o

que eu tinha aprendido.

Cursei a Educação Infantil em uma escola particular no bairro de Botafogo

no Rio de Janeiro. Me lembro do avental cor de vinho que usava por cima do uniforme,

das escadas e corredores com o chão emborrachado de bolinhas (antiderrapante) e dos

brinquedos de madeira na estante (baixa) da sala. Lembro do cheiro da massinha, da

tinta guache, da merenda na merendeira. Lembro da textura do caderno encapado com

plástico azul de bolinhas brancas, do lápis bem apontado, da borracha macia. Lembro da

brincadeira de ciranda no pátio da escola e de pintar uma pedra para fazer um peso de

papel de presente para o dia dos pais.

No ano de 1979 meus pais me transferiram para uma escola pública. Apesar

do discurso de que a escola era para todos era preciso algum tipo de conhecimento para

se conseguir uma matrícula numa escola daquelas. A escola pública ainda era para

alguns poucos, o que foi mudando mais tarde devido ao processo de democratização da

escola pública. O que não resolveu o problema.

(16)

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Meu uniforme agora era azul e branco. Não gostei da escola nova, como

nenhuma criança que não tem facilidade em fazer amigos também não gostaria. O

Instituto de Educação do Rio de Janeiro ocupava um quarteirão inteiro e o prédio do

Grupo Escolar (o prédio novo) era simplesmente enorme, com suas rampas, corredores

azuis e salas numeradas. Eu pedia à professora para ir ao banheiro e aproveitava para

dar uma volta, descia patinando aquela rampa e depois subia devagarzinho para ajudar o

tempo a passar.

Às vezes o tempo passava mais rápido e eu ficava o recreio todo na fila da

cantina porque não gostava do que serviam no refeitório. Havia outras filas, boas como

a do salto na cama elástica ou para pular na piscina e outras nem tanto, como a fila do

consultório médico para ver quem tinha cárie ou piolho. Era minha entrada na primeira

série do Ensino Primário.

Ainda sobre os vidros... Eu não percebia que alguns alunos iam ficando

apertados, sem jeito, outros afundados lá dentro dos vidros. Hoje sei que esse era um

problema antigo, que muitos deixavam de frequentar a escola e que muitos estudiosos e

pesquisadores se esforçaram para entender porque isso acontecia. O processo de

democratização, que parecia ter resolvido o problema das vagas, não garantia a

permanência. Alguns teóricos e pesquisadores buscavam justificativas e outros

acreditavam que era possível fazer diferente. De vidro em vidro, eu ia passando de ano.

Era só quando, vez ou outra, uma tampa dessa pulava que eu me lembrava

dos vidros e mesmo assim não entendia direito porque isso acontecia. Tudo aquilo me

parecia bem familiar e não me parecia tão complicado (na maioria das vezes, pelo

menos) sentar ali, ouvir o que a professora falava e depois escrever do jeito que ela

mandava. A matemática era sempre mais difícil e até hoje ainda é, mas se eu não

entendia o dever de casa minha mãe me ajudava depois da janta e no dia seguinte as

respostas estavam todas ali no caderno. A professora corrigia de caneta vermelha,

olhava e fazia cara de “muito bem”.

Minha letra era mesmo caprichada, diziam por isso que eu ia ser professora,

mas meus traços nem sempre eram muito seguros. Meu caderno de criança que aprende

a ler e escrever tinha marcas de borracha que mostravam as tentativas de fazer do jeito

certo. Não havia folhas com pontas amassadas, pois isso não era permitido. Nem

(17)

17

desenhos livres, pois para isso havia outro caderno, apenas cópias, ditados, classifique,

complete, ordene e efetue.

Hoje sei que não era assim com todo mundo. Havia cadernos de todo jeito

apesar da capa azul de bolinha branca. E crianças de todo jeito também, apesar do

uniforme também azul e branco. As diferenças não pareciam ser importantes porque a

capa do caderno, o uniforme e a aula eram os mesmos para todo mundo. Essa era a

garantia de oportunidades para todos e quem não aprendia devia ser duro de cabeça

1

ou

ter alguma deficiência.

O fato é que muitas crianças não aprendiam a ler e precisavam fazer de novo

o primeiro ano. Uma hipótese era a de que podiam não estar preparadas, pois muito se

discutia acerca da idade certa para serem apresentadas às letras. E ainda se discute.

Também havia muitos testes de inteligência, de aptidão ou de prontidão, fiz alguns

deles.

Eu aprendi a ler assim: quando eu não sabia eu fingia que lia e aí eu

aprendia. Vou explicar. Eu ainda não sabia ler, mas tinha decorado o texto que contava

de um barquinho de papel amarelo que balançava pra lá e pra cá na água azul que fazia

chuá, chuá. Como num jogo de adivinhar eu prestava atenção na repetição das palavras,

memorizava o ritmo, acompanhava com a ponta do dedo, lia as imagens que

acompanhavam a história. De tanto repetir o texto eu aprendi a relacionar a letra com o

som. Primeiro o som inicial de cada palavra: A de azul, B de barquinho. Depois as

palavras que terminavam com mesmo som, pois elas rimavam e rimar era uma

brincadeira bem divertida.

2

A sala de aula da minha escola tinha, quase sempre, outras alunas mais

velhas sentadas em uma pequena arquibancada com cadernos de anotações. Quando elas

chegavam minha professora nos explicava que estavam ali para aprenderem a ser

professoras, que por isso deveríamos nos comportar ou elas não iam mais querer esse

trabalho e não existiriam mais professoras. Isso parecia ser uma grande

1

PATTO, M. H. S., 1996, p.41

2

O barquinho amarelo

Marcelo faz um barquinho./Marcelo faz um barquinho de papel./Marcelo diz:/- Olhe o meu barquinho!/Rosinha diz:/- Um barquinho amarelo. Que beleza!/Marcelo solta o barquinho./Marcelo solta o barquinho na água./Rosinha diz:/- Que beleza! A água azul.../O barquinho amarelo./O barquinho amarelo balança./O vento faz: u... u...u.../A água faz: chuá... chuá... chuá.../O barquinho balança:/Pra lá... pra cá.../Pra lá... pra cá...

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18

responsabilidade. Às vezes, as normalistas (era assim que eram chamadas as aprendizes

de professoras) é que davam aula. Elas liam histórias, preparavam cartazes coloridos,

davam aula em pequenos grupos, iam nas mesas tirar dúvidas e nos deixavam desenhar

quando acabávamos o dever.

Acredito que a presença das normalistas tenha influenciado na decisão de

muitas de nós em nos tornarmos professoras. Elas eram bonitas, divertidas e tinham

aquela estrela na gola da camisa. Em sua pesquisa sobre a reconstrução da identidade

pela escrita memorialística também no Instituto de Educação do Rio de Janeiro Vidal

(2011) narra sua experiência de aluna e a presença das normalistas em sua sala de aula.

Cada sala possuía uma pequena arquibancada, construída, em geral, ao lado da porta de entrada e perpendicularmente ao quadro-negro. As professoras ali se instalavam e, por duas horas aproximadamente, olhavam as atividades da classe, para em seguida discutir, com a professora de Didática da Escola Normal, o andamento da aula e as escolhas metodológicas efetuadas pela professora primária. (VIDAL, 2011, p.150)

Eu era tão apaixonada pela minha escola que fiz o curso Normal para não

ter que estudar em outro lugar. Talvez, a lembrança das normalistas na minha sala

também tenha ajudado na escolha. Lembro de comprar o uniforme “completo” na Casa

Haddad na rua da escola. Lembro do sapato boneca, da saia de pregas, do ano de

escolaridade bordado na manga da camisa em algarismo romano. Também me lembro

de comprar o material escolar na Casa Mattos, escolher os lápis e cadernos e lembro de

quando mudei do prédio da escola primária (fundamental I) para o ginásio (fundamental

II) que ficava no prédio antigo, construído em 1927-1930 em estilo neocolonial, do

Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Lembro das escadas, das sacadas, dos

corredores, do piso de sinteco das salas, do chafariz no centro do pátio interno, mas

ainda estava no andar de baixo.

Só quando passei para o Curso Normal

3

(curioso esse nome) é que pude

“frequentar” o terceiro andar. E mais uma vez misturo minha história e faço minha a

narrativa de outra aluna: “Três andares, nós ficávamos no primeiro piso. Pouco a pouco,

íamos subindo até alcançar o terceiro, onde estavam as normalistas.” (VIDAL, 2011,

3

Segundo a Lei 5692/72: HEM – Habilitação Específica de 2º grau para o exercício do magistério em 1º grau.

(19)

19

p.152) Estudei no Instituto de Educação do Rio de Janeiro por onze anos e a experiência

que me constituiu como aluna também me formou professora.

Sobre as experiências formativas vividas na escola Vidal nos diz:

Ainda que sempre reelaboradas, as marcas desses doze anos vivenciados no interior de uma mesma instituição conformam parte do meu repertório de experiências de subjetivação, efeitos de uma escolarização longa e contínua, cujas injunções sobre a trajetória pessoal e profissional são dificilmente deslindáveis. A memória afetiva, sensória, traçada na convivência com a materialidade do prédio, dos equipamentos e dos discursos didáticos e no convívio com sujeitos da educação, constitui-se tal qual os saberes aprendidos, em componente significativo do ser professora para mim. (2011, p.155)

A formação, entendida como processo finito e que ainda hoje insiste em

separar as disciplinas entre teóricas e práticas, foi se dando na experiência. E a mais

significativa delas foi o estágio supervisionado. Dentre as disciplinas e demais

atividades o estágio era o que parecia ser o único contato com a realidade. Nas palavras

Regina Leite Garcia: “a prática que confirmava a teoria. A prática que atualizava a

teoria. A prática que nos oferecia novas explicações teóricas. A prática que revelava a

teoria em movimento. A prática que, para nós, dava sentido a teoria.” (GARCIA, 2003,

p.14)

Assim, do estágio nas salas de aula da escola primária do IERJ fomos para o

estágio externo à instituição no CIEP

4

Samuel Wainer. Era o ano de 1989 e o CIEP, que

havia sido inaugurado em 1986 no governo de Leonel Brizola, fazia parte do projeto do

antropólogo Darcy Ribeiro para a construção de uma política pública de educação. O

CIEP seguia o projeto arquitetônico com três espaços: o prédio de salas de aula e suas

rampas, a biblioteca e a quadra.

A realidade do CIEP era bem diferente da escola primária do IERJ. O tempo

agora parecia mais rápido e mais intenso, o espaço era mais amplo, as pessoas eram

muitas, os corredores movimentados. Não dava tempo de ficar na fila da cantina (nem

tinha cantina) então eu aprendi a comer em bandejas no refeitório.

O que era ensinado nas aulas do curso normal por vezes se desencontrava do

que era vivido no estágio, mas as conversas aconteciam no caminhar do IERJ para o

(20)

20

CIEP e depois na volta, também aconteciam na hora do almoço, no intervalo das aulas e

no transporte. Assim, nas conversas, íamos construindo um ser aluna, ser normalista,

ser professora. No último dia como alunas fugimos da sala de aula e pulamos de

uniforme e tudo do trampolim mais alto direto na piscina. Agora éramos professoras, o

que se confirmou com a formatura seus anéis e canudos.

Fazer o curso normal não me tornou professora: esta foi (e ainda) é uma lenta aprendizagem, engendrada ao longo de minha trajetória em momentos descontínuos, fragmentos de tempo e pedaços de experiência que tecem singularmente meu devir professora. (PEREZ, 2003b, p.99)

Terminado o curso Normal trabalhei em outras áreas e continuei minha

formação em outros espaços. Fui aluna do Curso de Psicologia e lá ainda vi alguns

vidros. Havia também gaiolas onde ficavam os ratinhos que levavam o semestre inteiro

sendo ensinados a passar pela argola para ganhar uma gotinha de água. No final do

semestre, enquanto fazíamos as provas eles eram sacrificados. Triste fim. Muito tempo

depois fui aluna no curso de Pedagogia e os vidros estavam lá também, mas não havia

ratos. Talvez algumas gaiolas. Também fiz cursos de especialização que, muitas vezes,

convidavam a sair do vidro, pensar outras coisas, outros jeitos de ensinar e aprender.

O uso dos vidros parece se justificar pela existência de uma ideia do que é

ser criança e de como as crianças aprendem. Essa ideia defende que aprendem todos as

mesmas coisas, da mesma maneira e ao mesmo tempo. Um semestre para aprender a

passar pela argola. Essa maneira de pensar a escola existe a tanto tempo que todos se

acostumaram a pensar que essa é mesmo a única maneira de ser das coisas.

O vidro não impede a visão, mas distorce, muda as formas, pode ampliar até

tirar o foco ou afastar até perder de vista. Quem olha de dentro do vidro tem seu ponto

de vista reduzido devido a sua falta de mobilidade e quem está fora do vidro... bem...

ninguém está fora do vidro. A metáfora do vidro, como a da gaiola e as muitas outras

metáforas usadas para falar da escola, não dão conta da complexidade desse cotidiano,

mas nos permite um exercício interessante de olhar para fora e olhar para dentro.

Pensar a escola e como as crianças aprendem não é um exercício fácil. É

preciso estar disponível, capaz de ser afetado por uma realidade complexa de relações

que se estabelecem nesse cotidiano que pensamos conhecer, mas que precisa ser

estranhado. Neste sentido, esta pesquisa propõe espichar o corpo e olhar fora do vidro

(21)

21

outras possibilidades de escola dentro da escola que já conhecemos e que temos hoje,

quem sabe encontrar o espaço utópico de que nos fala Certeau (2014), onde se afirma

um possível. “Criam um espaço diferente, que coexiste com aquele de uma experiência

sem ilusões.” (2014, p.74).

Eu: a professora

Passei no primeiro concurso para o magistério em 1996 e comecei a

trabalhar em uma escola de ensino fundamental da rede pública de Niterói. De volta à

escola agora como professora e lá estavam as crianças se remexendo nos vidros,

teimando em fazer pular as tampas. Algumas professoras também. Algumas com o

mesmo caderno de plano do ano passado, outras tentando fazer diferente.

Eu não tinha um (caderno de) plano quando comecei a dar aulas. Cheguei

na escola com meu memorando de apresentação achando que as coisas se resolveriam

quando eu encontrasse as crianças. Não deu certo, não preciso dizer porquê. Era aquela

turma que ninguém quer e que a professora nova pega no meio do caminho porque a

outra professora entrou de licença.

Minha primeira turma era de alunos do terceiro ano no ensino fundamental,

quase todos do meu tamanho. Nos primeiros dias tudo o que eu havia ouvido falar sobre

eles se misturava com eles. No primeiro passeio com a turma achei que não ia ser capaz

de trazer todos de volta. Na noite anterior sonhei que saiam do ônibus correndo e nunca

mais voltavam. Não foi nada disso. Fizemos outros passeios, inventamos novas rimas e

encapamos juntos os cadernos. Foi um ano bem difícil, é verdade, mas de muito

aprendizado, para eles e para mim.

A escola não tinha cantina e a janta era servida no refeitório na hora do

recreio às três da tarde, então enquanto eu comia o sanduiche que levava de casa

prestava atenção nas conversas na sala de professores. Eram apenas quinze minutos para

comer, fazer xixi e aprender mais um pouco sobre ser professora. Tudo que eu havia

estudado precisava agora encontrar espaço e fazer sentido naquele lugar.

O prédio pintado de azul e branco e também com três andares era muito

diferente da minha escola. Construído em outra época, refletia outra concepção de

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22

educação. Eu dava aula no terceiro andar onde ficavam as crianças mais velhas. O

banheiro ficava no primeiro andar e quase sempre eu tinha que pedir para outra criança

ir buscar quem estava demorando a voltar para a sala porque estava passeando pelos

corredores.

Nas conversas na sala de professores, talvez mais do que no curso normal,

aprendi sobre como escolher livros didáticos, selecionar exercícios, planejar o tempo,

corrigir cadernos, escrever no quadro e a fazer um caderno de plano. O caderno de

plano tem, quase sempre, a função de antecipar o que se pretende, qual o conteúdo a ser

trabalhado, seus objetivos (cuidado com os verbos no infinitivo dizem os livros sobre

planejamento), as estratégias, o material necessário, o tempo. Nos cursos de professores

eram muitas as aulas sobre planejamento.

O meu caderno de plano era bonito e com letra de professora, mas também

com muitos comentários pelas margens, exclamações, interrogações, bilhetes que eu

recebia e desenhos, vários desenhos. Como, muitas vezes, o que eu planejava não dava

certo (por diferentes motivos) comecei a usar o caderno de plano com a dupla função de

registrar não apenas o que deveria acontecer, mas também o que de fato acontecia. Isso

deveria evitar que eu cometesse o mesmo erro e assim eu ia eliminando as tarefas

longas demais, as que precisavam de material que eu não tinha à mão e principalmente

eu ia percebendo o que interessava e o que não adiantava insistir.

As anotações me faziam pensar que era preciso propor outras coisas,

repensar a duração das propostas e talvez fazer a rodinha em outro lugar. Ou ainda

pensar que era preciso insistir e que era uma questão de tempo para dar certo. A

anotação também me fazia pensar o planejamento do espaço que era sempre um

problema. Eu desenhava mapas da sala colocando o nome das crianças e onde deveriam

sentar, mas não adiantava separar as que conversavam porque elas iam nas outras mesas

colocar a conversa em dia. Até que um dia chegamos e as mesas estavam em grupos de

quatro carteiras. As crianças adoraram e eu percebi que eles ainda conversavam

bastante, mas pelo menos não precisavam levantar para ir na mesa do colega. Ficamos

em grupos até o final do ano e fizemos combinados de conversar baixinho. Só um olhar

atento consegue ver a ajuda do acaso. Aprendi.

(23)

23

Neste mesmo caderno eu também anotava sobre as crianças. Sempre tinha

aqueles que chamavam mais atenção. Então, para não esquecer de ninguém, eu seguia a

lista da chamada e observava duas ou três crianças por dia. Anotava quem participava

mais, quem chorava sempre, quem pedia toda hora para ir ao banheiro, quem já sabia ler

e escrever, quem tinha dificuldades e outras coisas.

Primeiro eu trabalhava em um único horário, depois com duas matrículas na

rede de Niterói e por algum tempo em três turnos, o que somava até 14 horas de escola

por dia. Turmas regulares, supletivos, aulas de informática, reforço, leitura, alunos com

necessidades especiais, educação infantil, fundamental, EJA. Sempre preferi as turmas

do primeiro ano, as chamadas classes de alfabetização desde os pequenos até os jovens

e adultos. Escolas diferentes, professores diferentes, mas realidades sempre muito

parecidas.

Eu tomava café, almoçava e jantava nos pratos azuis de plástico no

refeitório da escola e continuava a prestar atenção nas conversas na sala de professores,

mas nem tudo que eu ouvia eu conseguia concordar. Às vezes saia dali pensando se era

mesmo daquele jeito e se algumas coisas não poderiam ser diferentes. Fui virando

professora ouvindo essas conversas, que contavam sobre alunos que não aprendiam

porque eram muito pobres, com pais analfabetos, que não tinham livros, que não faziam

o dever de casa, que não iam ao cinema ou teatro. Muito se dizia para justificar o

fracasso daquelas crianças e até dos adultos que estavam muito cansados para aprender

qualquer coisa. Muitas pesquisas já haviam sido realizadas e muitos livros já haviam

sido escritos sobre isso e as vezes, parecia não haver mais nada de diferente que

pudesse ser feito.

A escola de vidro nos permite algumas reflexões, mas é apenas uma

metáfora dentre as muitas possíveis. Ela nos permite pensar as relações de poder, o

controle dos corpos, a normatização dos comportamentos, mas ela também tem seus

limites ao nos fazer desejar e acreditar na existência de uma escola sem vidros. A

pesquisa foi me mostrando que não se trata da lógica binária do isto ou aquilo, a luva ou

o anel. Não são nem mesmo posições opostas (com ou sem vidro, o mesmo ou o

diferente, a repetição ou a invenção). Entre uma escola e outra, outras possibilidades se

apresentam como uma rede. As escolas são infinitas e uma mesma escola pode ser, ao

mesmo tempo, muitas escolas.

(24)

24

Em vinte e poucos anos de magistério não passei por muitas escolas, mas

sempre aprendi enquanto ensinei. Trata-se como dizem Esteban e Zaccur (2002) da

relação dialógica e dialética entre a ação e reflexão. Segundo as autoras o professor

organiza sua ação a partir da relação entre teoria e prática ou como proposta por elas na

relação prática-teoria-prática, uma vez que “a prática é a finalidade da teoria”. (p.21)

Grávida da minha primeira menina eu cochilava no sofá da sala dos

professores depois da janta enquanto esperava os alunos do turno da noite. E logo a

conversa de professores recomeçava. Às vezes eu entrava na conversa, contava alguma

coisa que tinha acontecido na minha sala, ouvia as outras professoras. Assim, fui me

formando pelo caminho nas escolas, nas salas de professores, nas reuniões de

planejamento, nas caronas com outras professoras.

Fui me formando ouvindo as crianças nas salas de aula, no pátio e no

refeitório. As exigências iam se colocando na prática e eu ia buscando as respostas. “A

previsibilidade, a homogeneidade, a ordem, que caracterizam o processo formativo

entram em choque com a imprevisibilidade, a heterogeneidade e o caos que se fazem

presentes nas relações humanas.” (ESTEBAN e ZACCUR, 2002, p.19) Era a partir das

pequenas e complexas ações cotidianas que eu ia entendendo um pouco mais, ia

anotando no meu caderno de plano e ia aprendendo a ser professora. Porque a prática

que me apontava a necessidade da teoria também me puxava de volta para ela. E quando

eu voltava éramos já outra professora e outra prática.

Grávida da minha segunda menina eu trabalhava em três escolas e tinha três

turmas de alfabetização. As turmas de primeiro ano foram, sem dúvida, as que me

ensinaram mais. O processo de construção da leitura e da escrita me faz pensar sobre

como a criança constrói seu conhecimento sobre todas as coisas. Com eles eu podia

brincar de ler textos que sabíamos de cor, encontrar palavras que terminavam com o

mesmo som, usar letras dos nossos nomes para escrever nomes de outras coisas e

brincar de ciranda no pátio.

Como disse um amigo ao contar como resistiu o quanto pode em ser

professor: a vida me fez professor. A cada turma muitas histórias lidas, ouvidas,

inventadas, escritas e vividas.

(25)

25 Histórias de professoras que habitam o cotidiano da escola. Histórias que nos foram contadas, histórias que contamos nas salas de professores, nas reuniões pedagógicas, no trajeto de casa, na parada de ônibus, na carona no carro da colega. Histórias que não nos falam de fatos, mas de acontecimentos, que não nos apresentam argumentos, mas sentidos. (PEREZ, 2003a, p.100)

E o que fazemos com tudo isso? Lembrar, rememorar, narrar. O que

fazemos com essas histórias dentro da escola? O que sabemos sobre como nosso aluno

aprende? E os professores, como aprendem? O que são todas essas experiências? Vou

tentar contar. Porque a pesquisa narrativa é assim, acredita que a vida, como nos conta

Sampaio, “é vivida de forma narrativa, que o viver é um ininterrupto processo de

construir, reconstruir e interpretar histórias, então a pesquisa narrativa figura como uma

opção potente e coerente no que se refere ao pesquisar a experiência educativa”.

(SAMPAIO e RIBEIRO, 2016, p.139)

Eu: a professora pesquisadora

Minha entrada no campo da pesquisa é minha entrada no magistério. Olhar

em volta e tentar entender o que acontecia, ouvir as pessoas, aprender com a experiência

e estudar a teoria. Eu me matriculei em outro curso e alguém disse: “De novo? Mas no

sábado?” Depois, com o tempo se acostumaram. Também se acostumaram com os

livros na mesa de jantar e espalhados dentro do carro. E quando passei para a segunda

graduação pensaram que eu ia mudar de área, mas que nada. Eu andava atrás de

algumas respostas. E ainda ando.

Desde 2005, trabalho na mesma escola da rede municipal de Niterói e desde

2009 assumi o cargo de direção, primeiro como adjunta e depois como geral. A posição

não é fácil, pois exige o equilíbrio e o discernimento para ora decidir com o grupo e ora

decidir pelo grupo. Também não é fácil estar entre os mandos do órgão central e as

demandas do dia a dia da escola. Agora preciso entender de contabilidade,

administração, resoluções e pareceres, organização de cardápio e estoque de material,

pequenos e grandes reparos, informática, alguma coisa de legislação e enfermagem. Fui

aprendendo essas coisas também.

Almoço na escola (trocamos os pratos de plástico por pratos de vidro) e

corro para a aula no mestrado ou então, ligo para a escola no intervalo da orientação da

(26)

26

pesquisa e peço para guardarem comida pra mim. Sim, eu olho o relógio de tempo em

tempo para checar se vou chegar na hora de abrir o turno e às vezes ando bem

devagarinho até o banheiro para sentir o tempo passando no corredor do último andar do

bloco D, onde fica o mestrado em Educação da UFF.

Assim, a pesquisa que foi se desenhando desde a minha entrada na sala de

aula como professora (e quem sabe como aluna) começa a tomar forma a partir das

conversas, dentro e fora das salas de professores, a partir de experiências e narrativas

que se misturam numa escrita pouco acadêmica. Não vou a escola fazer pesquisa, mas

faço pesquisa na escola porque meu cotidiano me provoca a pensar sobre minha prática

e nesse movimento convido minhas companheiras professoras que também pensam suas

práticas para conversar e fazer pesquisa.

Reconhecer a professora como capaz de teorizar sobre a sua prática é para nós um princípio teórico-metodológico que alicerça nossa postura política e que nos faz considerar a escola como um espaço de teoria em movimento permanente de construção, desconstrução e reconstrução. (GARCIA, 2015, p.17)

Convido as professoras para uma conversa sobre o que nos aflige na escola,

sobre por que alguns alunos não aprendem o que ensinamos. Nessa conversa de sala de

professores constrói-se um espaçotempo de formação de professores e de transformação

de nossas práticas. Convido também alguns teóricos e pesquisadores do campo com

suas narrativas. Às vezes fica difícil saber de quem é esse texto.

O saber da narrativa é transformado da experiência, advém dela, da

experiência que passa de pessoa para pessoa. Segundo Benjamin (1994), a narrativa é o

intercâmbio da experiência, narramos experiências. No entanto, as pessoas estão

perdendo, segundo o autor, a capacidade de narrar e por isso esta arte está em extinção.

É a experiência de que a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente. Quando se pede num grupo que alguém narre alguma coisa, o embaraço se generaliza. É como se estivéssemos privados de uma faculdade de intercambiar experiências. (BENJAMIN, 1994, p.197-198)

O que me pergunto é por que estariam as pessoas perdendo a capacidade de

narrar? As professoras contam o tempo todo sobre suas experiências com seus alunos.

Não serão narrativas? Segundo o autor, a perda da capacidade de narrar seria devido ao

(27)

27

empobrecimento da experiência. E o que vemos nas escolas senão um lugar de múltiplas

experiências e por isso mesmo habitado por narrativas? A escola se mostra como lugar

de viver as experiências, narrá-las e assim, ir aprendendo a ser professora pelo caminho.

A escola é o lugar onde as conversas acontecem. Assim, o meu campo de

pesquisa é o cotidiano da escola, que é também o meu cotidiano. Eu sou professora e eu

estou na pesquisa. É o homem ordinário que se torna narrador. (CERTEAU, 2014) Não

presto atenção na conversa na sala de professores. Nestes quinze minutos de recreio, na

hora do almoço corrido ou nas reuniões de planejamento, em cada espaçotempo do dia a

dia eu converso com elas, conto sobre coisas que acontecem pela escola e de coisas que

tenho lido nas aulas do mestrado. Não conto sobre elas, também me narro.

Assim, se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso. Os narradores gostam de começar sua história com uma descrição das circunstâncias em que foram informados dos fatos que foram contados a seguir, a menos que prefiram atribuir essa história a uma experiência autobiográfica. (...) Assim, seus vestígios estão presentes de muitas maneiras nas coisas narradas, seja na qualidade de quem viveu, seja na qualidade de quem as relata. (BENJAMIN, 1994, p.205)

A pesquisa com o cotidiano assume a complexidade das relações, a história

das pessoas, a provisoriedade das respostas. Assim, começo a pesquisa sem saber

exatamente o que vai acontecer. É como uma conversa em que alguém diz: “falando

nisso...” e o assunto se transforma em outra coisa. A cada leitura proposta nas aulas do

mestrado eu respondia algumas questões e outras apareciam no lugar, mas o melhor era

aprender a fazer as perguntas. Às vezes a dica não estava no texto, mas na fala de uma

colega ou professora na conversa na hora do almoço. “Essas práticas colocam em jogo

uma ratio ‘popular’, uma maneira de pensar investida numa maneira de agir, uma arte

de combinar indissociável de uma maneira de utilizar. (CERTEAU, 2014, p.41)

Enquanto isso, as coisas vão acontecendo na escola. Chega professor,

transfere aluno, acaba a merenda, chega a verba, manda ofício, quebra a bomba d’água,

compra papel, precisa lápis de cor e mais brinquedos, perde a chave, quebra o cadeado,

concerta o aparelho de ar condicionado, faz curativo, manda chamar a mãe, corrige a

prova, faz relatório, preenche a ficha, entra em greve!

Isso é a complexidade do cotidiano, me diz a professora Carmen Perez e diz

ainda:

(28)

28 Ao assumir teoricamente o cotidiano em sua complexidade, procuramos através do exercício de um pensamento rizomático, mapear os fluxos que atravessam as relações que se produzem entre subjetividades e práticas, para captar nas dobras dessa cotidiano movimentos de ruptura com discursos e práticas instituídas, cruzando esses movimentos com as experiências de professoras e professores – sujeitos e sínteses de múltiplas tensões, contradições e afirmações; sujeitos circunstanciados por histórias pessoais e sociais singularmente vividas: histórias que revelam percursos, que falam de práticas concretas, constitutivas de subjetividades e de diferentes formas de (vi)ver a educação. (PEREZ e MENDES, 2017b, p.179-180)

Assim, assumo o risco da pesquisa com o cotidiano, da relação

sujeito-sujeito, assumo o risco da pesquisa narrativa como gênero e as conversas como modo de

fazer pesquisa

5

. Não pretendo apontar verdades, mas talvez, provocar algumas

transformações no cotidiano da escola ao buscar junto com as professoras outros

sentidos para antigas práticas.

Proponho com a pesquisa, em conversa com as professoras e a partir de suas

narrativas, problematizar o modelo cognitivo hegemônico que atravessa nossas falas e

nossas práticas e o conceito de fracasso escolar que, historicamente, assume a forma da

deficiência, da carência, da diferença e aparece disfarçado de “aluno com dificuldade”

como um discurso produzido por uma lógica também hegemônica e assim, refletir sobre

o cotidiano da escola na busca por suas inventividades. Porque acredito que mesmo

tendo sido sempre assim é possível para a escola ser diferente. Muitas escolas são

possíveis. É possível uma prática pedagógica inventiva. E é possível a formação que

acontece no espaçotempo da escola a partir da pesquisa narrativa.

Nós: no campo da pesquisa

A Escola Municipal Professor Marcos Waldemar de Freitas Reis,

inaugurada em 2004 tem sete salas de aula que atendem, em dois turnos, catorze grupos

de referência (GR), ou turmas como se costuma dizer.

Cada grupo tem de 25 a 28 crianças dependendo da idade e das necessidades

educativas especiais de alguns alunos, totalizando cerca de trezentas e cinquenta

5

A opção de substituir a palavra metodologia por modo de fazer pesquisa se dá pela compreensão do termo metodologia como algo já determinado a priori enquanto a expressão modo de fazer permite o entendimento de uma pesquisa que vai se construindo na relação com a escola e com seus praticantes.

(29)

29

crianças. Cada turma possui uma professora regente, aquela que é responsável pela

turma, pelo planejamento, diários e relatórios e, em alguns casos, possui também uma

professora de apoio. As professoras de apoio dividem com a professora regente o

trabalho nas turmas em que temos alunos com necessidades educativas especiais

(NEE). Elas também substituem professoras regentes, ajudam na coordenação, no

refeitório durante as refeições e no portão nos horários de entrada e saída.

Alguns alunos com necessidades educativas especiais também recebem

atendimento educacional especializado (AEE) por professoras na Sala de Recursos. O

projeto deveria acontecer no contraturno de cada criança ampliando o seu tempo de

permanência na escola. No entanto, em função de suas condições essas crianças não

conseguem permanecer muito tempo na escola e por isso permanecem por um único

turno e às vezes menos.

A coordenação de turno abre e fecha a escola, recebe e distribui materiais,

supervisiona os recreios, conversa com responsáveis, controla os horários e faz alguns

curativos, sempre com o olho no portão. Temos três merendeiras que recebem e

preparam os gêneros quase sempre de acordo com o cardápio e servem o desjejum, o

almoço e o lanche da tarde. Antes era servido também o jantar na hora da saída, mas por

ordem da Secretaria de Educação essa refeição deveria ser servida na hora do recreio, as

quinze horas. Não deu certo e as crianças do turno da tarde, desde então, entram mais

cedo para almoçar.

A equipe de limpeza possui apenas três funcionários que precisam limpar

várias vezes por dia espaços como o refeitório e os banheiros. Eles também ajudam

olhando o portão, ligando e desligando a bomba, cuidando do jardim, separando o

material reciclável. Estão sempre por ali e ajudam com as crianças no recreio e no

refeitório. No entanto, é preciso dizer que entre licenças e términos de contratos o

quadro de funcionários da escola dificilmente fica completo.

Sua localização é na Região Oceânica de Niterói. Próxima da Serra da

Tiririca e sua área de preservação ambiental, das praias de Itacoatiara e de Itaipu, da

Vila de Pescadores e do Museu de Arqueologia. Seu prédio construído em 2004, não

possui corredores ou escadas. E todas as salas estão voltadas para o pátio que fica no

(30)

30

centro da escola, com a exceção da sala de artes, a preferida de todos, que fica fora do

prédio, com muitas janelas e de onde se vê a serra.

As crianças aqui são umas levadas e outras quietas, umas pequenas e outras

grandes, umas passam rápido e outras ficam mais tempo. As famílias também são de

todo jeito, pais, mães, tios, avós, instituições de acolhimento. Os cadernos também são

diferentes, alguns gostam de capas azuis de bolinhas brancas, mas poucos usam o

uniforme até porque nem sempre tem uniforme para todo mundo. Tem criança que

brinca na hora do recreio e tem criança que prefere comer, tem quem vai embora de

carro, de ônibus, de bicicleta ou a pé com o irmão, às vezes, só um pouco mais velho.

E as professoras? Umas gostam das carteiras enfileiradas e outras preferem

as crianças em pequenos grupos. Umas contam que escolheram ser professoras, outras

se formaram de um jeito ou de outro, umas são recém-formadas outras formadas há

mais tempo, estas reclamam que querem se aposentar, mas buscam cursos de

especialização e compram livros sobre educação. É com todas elas que vamos

conversar.

O que pretende a pesquisa

A pesquisa surge com o objetivo de refletir sobre a concepção de fracasso

que se repete nas falas das professoras sobre as crianças “com dificuldades”. Utilizo

aqui as mesmas aspas que usamos como gestos (com as mãos) quando usamos essa

palavra e falamos dessas crianças. A expressão com dificuldade é utilizada para

categorizar um grupo de crianças que parece não aprender mesmo com todo o esforço

do grupo de professores e apesar do incômodo, parece não haver surpresa. Em nossas

escolas estamos acostumadas que um percentual, às vezes significativo, das crianças das

classes populares não aprenda a ler e escrever nos primeiros anos de escolaridade ou

mesmo não aprenda. Estamos familiarizados também com os quadros e porcentagens

apresentados pelas pesquisas. Este estar acostumada reflete um processo de

naturalização do fracasso, o da escola, o nosso e dos nossos alunos. Esse é o

mal-entendido do qual fala Patto, o de “acreditar que é natural o que, na verdade, é

socialmente determinado”. (1996, p.39)

(31)

31

De tanto ouvir falar de alunos que não aprendiam eu já conhecia também

algumas teorias que explicavam o não aprender: falta de interesse, falta de atenção,

fome, família que não liga, alguma necessidade especial não identificada. Uma conversa

antiga que se repetia nas reuniões de professores em discursos quase sempre

deterministas e reducionistas que atravessavam temas gerais sem que fossem pensados

mais de perto, com mais atenção. Como no texto Quem pensa abstratamente? de Hegel

ao qual cheguei através da professora Marisol e no qual o autor, de forma irônica e

satírica, nos fala sobre o pensar abstrato. O pensar abstrato da vendedora de ovos que

faz com que ela enumere os defeitos da mulher que diz que os ovos estão podres é o

mesmo pensamento abstrato que nos faz ver o não aprender no lugar da criança.

Vemos a letra feia, o caderno desorganizado, o uniforme sujo a família que não vem às

reuniões, mas não vemos a criança que está ali.

É como o senso comum que “reproduz-se espontaneamente no quotidiano

da vida (...) que aceita o que existe tal como existe” (SANTOS, 2010, p.90), ou ainda

como resultado de uma leitura do discurso científico (ou de uma racionalidade

cientifica) que observa fatos e estabelece relações de causalidade sem refletir acerca da

complexidade que os caracteriza. (SANTOS, 2010, p.35) Por exemplo, a constatação de

que as crianças das escolas públicas têm dificuldades para aprender é relacionada com

dimensões observáveis como a classe social e esta é imediatamente identificada como

causa. Em seu texto que discute a Amandae do paradigma dominante, Santos nos fala

da reflexão crítica que:

tem incidido tanto no problema ontológico da causalidade (quais as características do nexo causal?; esse nexo existe na realidade?) como no problema metodológico da causalidade (quais os critérios da causalidade?; como reconhecer um nexo causal ou testar uma hipótese causal?). (SANTOS, 2010, p.52)

Assim, os fatores familiares, sociais, políticos e econômicos são, há muito

tempo, apontados de forma ora isolada e ora conjunta como determinantes do que é

esperado do aluno da classe popular, da escola pública e de seus professores. Um

determinismo e um reducionismo que acabam sendo usados para justificar o fracasso

dos alunos.

O cotidiano escolar, no entanto, nos ensina que a interrelação que se

estabelece entre esses fatores é complexa no sentido proposto por Morin ao apontar a

(32)

32

necessidade de “desenvolver uma teoria, uma lógica, uma epistemologia da

complexidade que possa convir ao conhecimento do homem. Portanto, o que se busca

aqui é ao mesmo tempo a unidade da ciência e a teoria da mais alta complexidade

humana.” (MORIN, 2011, p.17)

Em uma linguagem cotidiana chamamos de complexo o que é difícil ou

mesmo impossível de explicar. É complexo o que não pode ser reduzido a uma palavra

ou a uma ideia simples. Tampouco pode ser reduzido ao conhecimento de suas partes ou

mesmo à ideia de completude que por sua vez, não é a totalidade e/ou a realidade, pelo

contrário, é sempre parte de um todo ainda mais complexo. Para o pensamento

complexo a realidade é movente e transitória, se constitui e se transforma a partir do

diálogo e das tensões entre os acontecimentos, ações, reações, retroações, interações e

acasos da vida cotidiana.

No decorrer das primeiras conversas (na escola e nas orientações individuais

e coletivas do projeto) o foco da pesquisa, atingido pelo movimento dessa rede de

interações, se desloca da questão especifica relativa ao fracasso e as narrativas assumem

o centro da atenção por revelarem múltiplas possibilidades de reflexão sobre a prática.

Desta forma, provocadas pelas crianças que parecem não aprender, somos levadas nas

reuniões a pensar e discutir sobre como aprendemos e como ensinamos na escola,

fazendo da prática um lugar de produção de conhecimentos. O que tem início como uma

preocupação pedagógica se amplia numa reflexão sobre o sentido político da educação e

se desdobra numa questão filosófica sobre o aprender e sobre como alunos e professores

aprendem, sobre o ensinar e o que nós professoras sabemos/pensamos sobre isso.

Esta a razão de nossa defesa da prática como locus de teoria em movimento, reatando assim o que foi rompido no movimento histórico em que foram separadas a teoria e a prática, quando a prática foi desqualificada pelos que passaram a se autodenominar ‘cientistas’. (GARCIA, 2003, p.12)

Através das conversas e de seu processo de transcrição, a pesquisa busca

identificar, nas brechas da rigidez pedagógica, imposta por uma lógica positivista que

tudo mede e tudo controla, as práticas desviacionistas que inventam outro tempo e

espaço, narrar o cotidiano da escola junto com os seus praticantes e enfim contar uma

história da escola, de dentro dela com suas crianças e suas professoras. Entendo, assim

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