Família Emballorunidae
Adriano Lúcio Peracchi
Professor Livre Docente do Instituto de Biologia
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
Marcelo Rodrigues Nogueira
Pesquisador Associado do Laboratório de Ciências Ambientais
Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro
Essa família é encontrada tanto no Velho
como no Novo Mundo e compreende 13 gêneros
e 51 espécies, sendo que no Brasil ocorrem 7
gê-neros e 15 espécies. São morcegos pequenos, com
olhos relativamente grandes, focinho alongado e
orelhas largamente triangulares, ligeiramente
pon-tudas ou arredondadas no ápice, geralmente
pro-vidas de dobras paralelas na face interna das pinas
e trago simples e curto. A membrana interfemural
é bem desenvolvida e quando estendida é tão
lon-ga ou mais lonlon-ga que as pernas; a cauda é mais
curta que a membrana, perfurando-a na face
supe-rior e ficando com a extremidade livre. O segundo
dedo das asas é desprovido de falanges. As asas
são também muito peculiares, pois quando em
re-pouso apresentam a primeira das duas falanges do
dedo médio dobrada sobre o metacarpo. Várias
espécies apresentam bolsas no propatágio ou na
membrana interfemural. Essas estruturas são mais
desenvolvidas nos machos e durante algum
tem-po pensou-se que tivessem função secretora.
Aná-lises histológicas, entretanto, têm refutado essa
hipótese (SCULLY et al., 2000), e o mais provável
é que tais bolsas atuem apenas como depósito de
substâncias produzidas em glândulas genitais e
gulares. A mistura dessas substâncias apresenta
forte odor e pode ser empregada tanto na defesa
de território quanto durante a côrte (VOIGT &
Von HELVERSEN, 1999). Os molares desses
morcegos são bem desenvolvidos e apresentam
cúspides em forma de “W”, apropriadas para
tri-turar os pequenos insetos que capturam em pleno
vôo e dos quais se alimentam (KALKO, 1995).
Formam um grupo essencialmente tropical,
haven-do um claro decréscimo na diversidade de
espéci-es conforme aumenta a latitude (STEVENS,
2004). Algumas espécies parecem ter no sudeste
do Brasil o limite meridional de sua distribuição
geográfica (PERACCHI & NOGUEIRA, no
pre-lo).
Gênero Centronycteris Gray, 1838
Esse gênero compreende 2 espécies, C.
maximiliani (J. Fischer, 1829) e C. centralis Thomas,
1912, das quais somente a primeira ocorre no Brasil.
Centronycteris maximiliani (J. Fischer, 1829)
Com localidade tipo na Fazenda da
Coroaba, rio Jucú, Espírito Santo, Brasil, essa
es-pécie ocorre também no nordeste do Peru, sul da
Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.
Em território brasileiro já foi observada também no
AM, PA e PE. (1)
S e g u n d o
SIMMONS &
HANDLEY-JR (1998) não há diferenças
externas perceptíveis entre as
duas espécies do gênero, que
diferem pelo tamanho e
ex-tensão das fossas
basiesfenóides. Esses autores
informam que em C.
maximiliani cabeça e corpo
medem de 41 a 64 mm, a
cau-da de 20 a 26 mm e o
ante-braço de 41,5 a 44,7 mm. O
peso varia de 4,5 a 7 g, as
fê-meas sendo ligeiramente
mai-ores que os machos. Nesses
morcegos não há presença
de bolsas e a pelagem é felpuda,
pardo-avermelhada nas partes superiores, sendo mais
pálida nas inferiores.
Essa espécie é insetívora, como
confirma-do por REIS & PERACCHI (1987).
Uma fêmea lactante de C. maximiliani foi
capturada em fevereiro no Brasil central,
constitu-indo-se no único registro reprodutivo da espécie.
Tem sido encontrada em florestas úmidas
primárias de terras baixas, com altitudes de até 300
m, mas ocorre também em áreas de vegetação
se-cundária. Recentemente, BARNETT et al. (2006)
reportaram a ocorrência de C. maximiliani em
áre-as de campina e campinarana no Parque Nacional
do Jaú, Estado do Pará, com base na identificação
de chamados de ecolocalização. Quanto ao uso de
abrigos, um exemplar de C. maximiliani foi
encon-trado pendurado sob folha de melastomatácea na
Guiana Francesa.
Gênero Cormura Peters, 1867
Cormura brevirostris (Wagner, 1843)
Essa espécie é a única do gênero e têm como
localidade-tipo Marabitanas, Rio Negro, Amazonas.
Sua distribuição vai da Nicarágua ao Peru e Brasil,
onde já foi observada no AM, MA, MT, PA e RO.
Esse embalonu-rídeo apresenta cabeça e
corpo medindo de 50 a 65 mm (EMMONS & FEER,
1
A distribuição geográfica geral apresentada aqui para cada espécie se baseia em SIMMONS (2005), ao passo que a distribuição em
1990), cauda de 9 a 17 mm e antebraço de 41 a 50
mm. O peso varia de 6,8 a 11 g (SIMMONS &
VOSS, 1998), as fêmeas sendo ligeiramente
mai-ores que os machos. A pelagem é sedosa, de
colo-ração marrom-escura ou marrom-avermelhada no
dorso, mais clara na face ventral (BERNARD,
2003). A bolsa é longa e se situa no meio da
mem-brana antebraquial. A base da memmem-brana
interfemural é quase nua, e as asas estão ligadas
aos pés, na base dos dedos.
Alimenta-se de pequenos insetos
captura-dos em vôo no sub-bosque das florestas. Há registro
do uso de ortópteros (RIVAS-PAVA et al., 1996).
Fêmeas grávidas foram encontradas no
Panamá em abril e maio (FLEMING et al., 1972).
Ocorre em mata primária e em clareiras
(REIS & PERACCHI, 1987; SIMMONS & VOSS,
1998), e se refugia em ocos de árvores e
cavida-des rasas na base de árvores viventes, bem como
sob o tronco de árvores caídas e sob pontes de
concreto (BERNARD, 2003). SIMMONS &
VOSS (1998) encontraram na Guiana Francesa um
pequeno grupo dessa espécie abrigado sob folha
não modificada de Phenakospermum guyannensis
(Strelitziaceae), mas
salientaram que esse
não seria um
compor-tamento habitual da
espécie. Nos refúgios
formam grupos
peque-nos de 2 a 5
indivídu-os, mais freqüentemente
3 exemplares.
Gênero Cyttarops
Thomas, 1913
Cyttarops alecto
Thomas, 1913
Única espécie
do gênero, C. alecto tem como localidade-tipo
Mocajatuba, Pará, Brasil. É encontrada também
na Nicarágua, Costa Rica e Guiana, estando
re-presentada por menos de 20 exemplares, todos
capturados em áreas com até 300 m de altitude
(STARRETT, 1972).
Nessa espécie cabeça e corpo medem de
47 a 55 mm, cauda de 20 a 25 mm e antebraço de
45 a 47 mm. O peso varia de 6 a 7 g (REID, 1997).
São morcegos que apresentam olhos grandes e
ore-lhas curtas e arredondadas. O trago é uma
carac-terística importante dessa espécie, pois a metade
inferior da margem externa se apresenta como um
lóbulo grande, muito desenvolvido, único entre os
quirópteros (NOVAK, 1994). A pelagem é longa
e sedosa, de coloração cinza-enegrecida; as
mem-branas são negras. Não há bolsas nas asas nem na
membrana interfemural.
Espécie insetívora, como evidenciado por
STARRETT (1972) que encontrou fragmentos de
insetos no trato digestivo de oito indivíduos
cap-turados na Costa Rica.
Duas fêmeas e um macho capturados na
Costa Rica, no início de agosto, não apresentavam
qualquer evidência de atividade reprodutiva.
Ain-da na Costa Rica, três sub-adultos foram
captura-dos no início de agosto (STARRETT, 1972).
Ocorre em mata primária (BROSSET et
al., 1996) e abriga-se sob as folhas de palmeiras,
geralmente situadas em áreas relativamente
aber-tas. Nesses refúgios forma grupos de 1 a 10
indi-víduos (STARRETT, 1972).
Gênero Diclidurus Wied-Neuwied, 1820
Esse gênero inclui quatro espécies: D. albus
Wied-Neuwied, 1820, D. scutatus Peters, 1869, D.
ingens Hernández-Camacho, 1955 e D. isabellus
(Thomas, 1920). As três primeiras pertencem ao
subgênero Diclidurus, enquanto a última a Depanycteris,
que durante muito tempo foi considerado um gênero
distinto de Diclidurus e que alguns autores insistem
em considerar como gênero válido.
Diclidurus albus Wied-Neuwied, 1820
Essa espécie tem como localidade-tipo
Canavieiras, rio Pardo, Bahia, e ocorre do México
ao sudeste do Brasil. Em território brasileiro já foi
observada no AM, AP, BA, ES, PA e RO.
Morcego de porte mediano, com cabeça e
corpo medindo de 68 a 82 mm, cauda de 18 a 22
mm, antebraço de 63 e 69 mm e peso de 17 a 24 g
(REID, 1997). Como denota o epíteto específico,
nessa espécie a pelagem é branca. Outras duas
espécies do gênero, D. scutatus e D. ingens, também
apresentam pelagem branca, mas D. albus é maior
que a primeira e menor que a segunda. Assim como
as demais espécies do gênero, D. albus apresenta
ore-lhas amareladas, curtas e arredondadas, olhos
gran-des e uma bolsa localizada no centro da membrana
interfemural. Essa bolsa, uma verdadeira cápsula
córnea, é mais desenvolvida nos machos e se torna
maior na época da reprodução. A sua função é
des-conhecida e acredita-se que desempenhe papel
idên-tico ao das bolsas que ocorrem nas asas de outro
embalonurídeos, atraindo as fêmeas nos períodos
reprodutivos. A cauda é curta e estende-se até o
ter-ço basal da membrana interfemural, perfurando-a no
centro da bolsa glandular.
Espécie insetívora. O estômago de oito
exemplares capturados no México apresentou
frag-mentos de lepidópteros (CEBALLOS &
MEDE-LLÍN, 1988). No Brasil, dípteros e lepidópteros
foram reportados por PERACCHI &
ALBUQUERQUE (1987).
Ainda no México, D. albus parece se
re-produzir de janeiro a junho, com a cópula
prova-velmente ocorrendo em janeiro ou fevereiro,
quan-do machos e fêmeas são encontraquan-dos juntos nos
abrigos. Fêmeas com embriões bem
desenvolvi-dos foram capturadas em maio, sendo encontrado
somente um embrião por fêmea (CEBALLOS &
MEDELLÍN, 1988).
Ocorre em florestas úmidas e secas, áreas
peridomiciliares e em ruas de cidades
(HANDLEY-JR, 1976). Nesses locais tem sido
co-letada com auxílio de arma de tiro, não em redes.
Abriga-se entre folhas de palmeiras de palmeiras
altas (GOODWIN & GREENHALL, 1961) e
também em forro de residências (PERACCHI &
ALBUQUERQUE, 1987).
Diclidurus ingens Hernández-Camacho, 1955
Essa espécie tem como localidade-tipo
Puerto Laguizano, rio Putumayo, Caqueta,
Colôm-bia, e ocorre também na Venezuela, Guiana e norte
do Brasil, onde já foi observada no Estado do Pará.
Morcego relativamente grande, com
an-tebraço entre 70 a 73 mm. A pelagem é branca,
como em D. albus e D. scutatus, mas a separação
pode ser feita pelo tamanho, maior nessa espécie.
As demais características descritas anteriormente
para D. albus também valem para essa espécie.
Esse morcego é insetívoro e tem sido
cap-turada em florestas úmidas, nas proximidades de
bancos de riachos, em áreas peridomiciliares e em
ruas de cidades (HANDLEY-JR, 1976). Nesses
locais tem sido coletada apenas com o auxílio de
arma de tiro.
Diclidurus isabellus (Thomas, 1920)
Essa espécie tem Manacapuru,
Amazo-nas, como localidade-tipo, e ocorre apenas no
no-roeste do Brasil e na Venezuela.
Em D. isabellus a cabeça e as espáduas são
pardo-claras, o dorso pardo-escuro e as partes
in-feriores branco-amareladas. Além disso, nessa
es-pécie o polegar não é reduzido e apresenta garra
bem desenvolvida (ele é muito reduzido e tem garra
vestigial nas demais espécies). As demais
caracte-rísticas descritas anteriormente para D. albus
tam-bém valem para essa espécie.
Morcego estritamente insetívoro, que tem
sido encontrado em floresta úmidas, sobre riachos
ou nas proximidades de suas
mar-gens (HANDLEY-JR, 1976). Tem
sido coletado apenas com o
auxí-lio de arma de tiro.
Diclidurus scutatus Peters,
1869
Essa espécie tem Belém,
Pará, como localidade-tipo, e
ocor-re na Amazônia, Venezuela, Peru,
Guiana, Suriname e sudeste do
Brasil. No território brasileiro já foi
observada no Amapá, Amazonas,
Pará e, recentemente, São Paulo
(SODRÉ & UIEDA, 2006).
Morcego relativamente pequeno, com
an-tebraço entre 51 e 59 mm. A pelagem é branca,
como em D.albus e D. ingens, mas D. scutatus pode
ser reconhecida por seu menor tamanho. As
de-mais características descritas anteriormente para
D. albus também valem para essa espécie.
Morcego insetívoro, coletada em áreas de
mata primária e secundária (BROSSET et al., 1996;
SIMMONS & VOSS, 1998), nas proximidades de
ban-cos de rios, em áreas peridomiciliares e em ruas de
cidades (HANDLEY-JR, 1976; SODRÉ & UIEDA,
2006). Nesses locais, D. scutatus tem sido coletada
principalmente com o auxílio de arma de tiro.
Gênero Peropteryx Peters, 1867
Esse gênero compreende quatro
espéci-es: P. kappleri Peters, 1867; P. leucoptera Peters,
1867; P. macrotis (Wagner, 1843) e P. trinitatis Miller,
1899. Dessas, somente as três primeiras ocorrem
no Brasil. P. kappleri, P. macrotis e P. trinitatis
per-tencem ao subgênero Peropteryx e P. leucoptera ao
subgênero Peronymus, que até pouco atrás era
con-siderado gênero distinto.
Peropteryx kappleri Peters, 1867
Essa espécie tem como localidade-tipo o
Suriname, e ocorre do México às Guianas, Peru,
norte da Bolívia e leste do Brasil. Já foi assinalada
nos seguintes Estados brasileiros: AL, AM, BA,
ES, MA, MG, PA, PE, RJ e SP.
Apresenta tamanho relativamente grande,
com antebraço variando de 45 a 50 mm nos
ma-chos e 46 a 52 mm nas fêmeas. As orelhas são
enegrecidas e separadas, o dorso é usualmente
cas-tanho-escuro, e as partes inferiores ligeiramente
mais claras. As asas são enegrecidas. Pelos longos,
geralmente com 8 mm de comprimento na altura
do pescoço e 10 mm mais para trás. Assim como
as demais espécies do gênero, diferencia-se de
ou-tros embalonurídeos por apresentar bolsa curta,
junto ao bordo anterior do propatágio.
Espécie exclusivamente insetívora
(BRADBURY & VEHRENCAMP, 1976).
Na Colômbia, observações sobre P.
kappleri mostraram que os nascimentos ocorrem
em janeiro, março, abril, maio, outubro e
novem-bro, com um pico acentuado em abril e um menor,
entre outubro e novembro, acompanhando os picos
de precipitação pluviométrica (GIRAL et al., 1991).
Ocorre em florestas úmidas primárias e
secundárias, florestas secas e áreas cultivadas
(HANDLEY-JR, 1976; SIMMONS & VOSS,
1998). Na Colômbia, sete minas de carvão
aban-donadas continham colônias formadas por 5 a 47
indivíduos, que ocupavam as partes mais escuras
desses refúgios. Abriga-se ainda em cavernas,
fres-tas entre rochas, ocos de árvores e câmaras
escu-ras formadas entre sapopemas de troncos caídos
(HANDLEY-JR, 1976; SIMMONS & VOSS,
1998).
Peropteryx leucoptera Peters, 1867
Essa espécie tem como localidade-tipo o
Suriname, ocorrendo também nas demais Guianas,
Peru, Colômbia, Venezuela e norte e nordeste do
Brasil, onde é conhecida do Amazonas, Pará e
Pernambuco.
P. leucoptera apresenta tamanho pequeno,
com antebraço variando de 41 a 43 mm nos
ma-chos e 42 a 45 mm nas fêmeas. O peso varia de
5,5 a 7,8 g. Orelhas ligadas por membrana baixa.
Dorso castanho-enegrecido, ventre mais claro.
Dactilopatágio usualmente branco.
Espécie insetívora, havendo registro do
con-sumo de coleópteros (REIS & PERACCHI, 1987).
Duas fêmeas grávidas e uma lactante
fo-ram registradas em maio no norte do Brasil
(BERNARD, 1999).
Ocorre em áreas de floresta primária
(SIMMONS & VOSS, 1998) e secundária
(BROSSET et al., 1996), e na amazônia brasileira
foi encontrada em fragmento florestal em cercado
por vegetação de savana (BERNARD, 1999).
Abriga-se em ocos de árvores caídas e também em
câmaras escuras formadas entre sapopemas de
troncos caídos (SIMMONS & VOSS, 1998;
BERNARD, 1999). Nesses refúgios, P. leucoptera
tem sido encontrada em grupos que variam de 2 a
12 indivíduos (SIMMONS & VOSS, 1998;
BERNARD, 1999).
Peropteryx macrotis (Wagner, 1843)
Essa espécie tem como localidade-tipo
Mato Grosso, e é também encontrada do México
ao Peru, Bolívia, Paraguai e sul e sudeste do
Bra-sil. Já foi registrada nos seguintes Estados
brasi-leiros: AL, AM, AP, BA, DF, ES, GO, MA, MG,
MT, PA, PE, PR, RJ, RN e SP.
P. macrotis apresenta tamanho
relativamen-te pequeno, com anrelativamen-tebraço medindo de 43 a 45
mm nos machos e 45 a 48 mm nas fêmeas. O peso
varia de 4 a 7 g. As orelhas são
castanho-acinzentadas e separadas. O dorso é geralmente
castanho-avermelhado e partes inferiores
levemen-te mais claras. As asas são enegrecidas e os pêlos
moderadamente longos, com 6 mm de
comprimen-to no pescoço e com 8 a 9 mm mais para trás.
Espécie insetívora, havendo registro do
consumo de coleópteros e dípteros (BRADBURY
& VEHRENCAMP, 1976).
Fêmeas grávidas de P. macrotis foram
ob-servadas na caatinga em janeiro, setembro e
outu-bro, sugerindo que essa espécie apresenta poliestria
sazonal; fêmeas lactantes foram encontradas em
janeiro (WILLIG, 1985a). Na América Central,
fêmeas grávidas foram observadas em março e abril
(JONES et al., 1973; RICK, 1968).
P. macrotis ocorre em florestas úmidas
pri-márias e secundárias, savanas, florestas secas e áreas
cultivadas (HANDLEY-JR, 1976; SIMMONS &
VOSS, 1998). Abriga-se em cavernas, fendas
ra-sas, minas e construções, freqüentemente
próxi-mo à água. Forma grupos de 10 a 20 exemplares,
mas às vezes congregam quase 80 indivíduos e
vários grupos podem ocupar uma grande caverna.
Gênero Rhynchonycteris Peters,
1867
Rhynchonycteris naso
(Wied-Neuwied, 1820)
Única espécie do gênero, R.
naso tem como localidade-tipo o rio
Mucuri, próximo ao Morro d’Arara,
Bahia, e é encontrada do México ao
Peru, Bolívia, Guiana Francesa,
Guiana, Suriname, Trinidad e sudeste
do Brasil. Em território brasileiro já foi
observada no AC, AL, AM, AP, BA,
ES, GO, MG, MT, PA, PI, PE, RJ, RO
e RR.
Nessa espécie, cabeça e
cor-po medem de 37 a 46 mm, a cauda de
11 a 14 mm e o antebraço de 35 a 40 mm. O peso
varia de 35 a 46 g. Pode ser reconhecida pelo
foci-nho alongado, com extremidade pontuda,
prolon-gando-se além do lábio inferior; presença de tufos
de pêlos esbranquiçados no antebraço e ausência
de bolsas antebraquiais ou no uropatágio. A
colo-ração da pelagem é grisalho-acinzentada no dorso,
com o ventre cinza mais claro. No dorso ocorrem
2 listras longitudinais esbranquiçadas, sinuosas e
pouco distintas.
Esses morcegos são encontrados em
re-fúgios bem iluminados, próximos ou sobre cursos
d’água: pontes, entrada de cavernas, troncos de
árvores e pedras. Formam colônias de 3 a 15
indi-víduos, segundo BRADBURY & VEHRENCAMP
(1976). Contudo, NOGUEIRA & POL (1998)
ob-servaram essa espécie no norte de Minas Gerais
formando colônias de até 80 exemplares. Os vôos
de forrageio começam ao entardecer e se
desen-volvem sobre as coleções d’água, quando são
cap-turados pequenos insetos, incluindo mosquitos,
tricópteros, quironomídeos e besouros
PLUMPTON & JONES, 1992; DALQUEST,
1957). No norte de Minas Gerais, NOGUEIRA
& POL (1998) observaram que R. naso apresenta
poliestria bimodal, com nascimentos ocorrendo no
início e no final do período chuvoso. Essa
sazonalidade reprodutiva foi também constatada por
BRADBURY & VEHRENCAMP (1976) na Costa
Rica, onde os filhotes não foram observados durante
a estação seca. Contudo, em certas áreas de sua
dis-tribuição essa espécie pode se reproduzir ao longo de
todo o ano (PLUMPTON & JONES, 1992).
Gênero Saccopteryx Illiger, 1811
O gênero Saccopteryx compreende 5
espé-cies: S. antioquensis Muñoz & Cuartas, 2001; S.
bilineata (Temminck, 1838); S. canescens Thomas,
1901; S. gymnura Thomas, 1901 e S. leptura
(Schreber, 1774). Dessas, somente a primeira não
ocorre no território brasileiro.
Saccopteryx bilineata (Temminck, 1838)
Essa espécie tem o Suriname como
loca-lidade-tipo, e é encontrada do México à Bolívia,
Guianas, Trinidad e Tobago e sudeste do Brasil.
Em território brasileiro já foi observada no AC,
AM, AP, BA, CE, GO, MA, MG, MT, PA, RJ, RR e RO.
É a maior das quatro
espécies do gênero, com
ante-braço medindo de 45 a 48 mm
nos machos e 48 a 51 mm nas
fêmeas. O peso varia de 6,7 a
9,9 g nos machos e 7,8 a 13,2
g nas fêmeas (SIMMONS &
VOSS, 1998). Apresenta a
pelagem dorsal e as
membra-nas enegrecidas, e a face
ven-tral cinza-escuro. Há duas
lis-tras dorsais esbranquiçadas
bem nítidas. Assim como as
demais espécies do gênero, S.
bilineata apresenta bolsa
situ-ada no propatágio, junto ao antebraço e próximo
ao cotovelo. Essa bolsa é bem desenvolvida nos
machos e rudimentar nas fêmeas.
A dieta é composta exclusivamente por
insetos, tais como coleópteros e dípteros
(BRADBURY & VEHRENCAMP, 1976;
RIVAS-PAVA et al., 1996).
De acordo com dados obtidos na Costa
Rica e em Trinidad por BRADBURY &
VEHRENCAMP (1976), S. bilineata forma
gru-pos comgru-postos por um macho adulto e um harém
que pode conter até oito fêmeas. Numa mesma
árvore vários grupos podem ser encontrados,
for-mando uma colônia de 40 a 50 indivíduos. Cada
macho defende ativamente uma área de 1 a 3
metros quadrados de refúgio e apresenta um
com-plexo comportamento de côrte para atrair as
fê-meas de seu harém. Em ambas as funções esses
machos podem executar uma série de
procedimen-tos, incluindo vocalizações, bocejos e vôo
paira-do, no qual dispersam o odor da mistura de
subs-tâncias que são depositadas em suas bolsas
antebraquiais (VOIGT & Von HELVERSEN,
1999; BEHR & Von HELVERSEN, 2004).
Ma-chos solitários em uma colônia procuram formar
seu próprio harém (VOIGT & STREICH, 2003)
Tem sido capturada em áreas de floresta
pri-mária e secundária (REIS & PERACCHI, 1987;
BROSSET et al., 1996). Abriga-se em árvores ocas,
cavernas, blocos de pedra e construções, incluindo
ruínas (POLANCO et al., 1992, RICK, 1968),
Freqüentemente são também encontrados pousados,
durante o dia, em troncos de árvores na floresta.
Saccopteryx canescens Thomas, 1901
Essa espécie tem Óbidos, Pará, como
lo-calidade-tipo, e ocorre na Colômbia, Venezuela,
Peru, Bolívia, Guianas e norte do Brasil, onde já
foi observada no AM, AP, MA, PA e RO.
S. canescens é de tamanho semelhante à
espécie anterior, da qual pode se distinguir por
apresentar pelagem dorsal castanho-agrisalhada de
cinza ou amarelo e listras dorsais esbranquiçadas
e distintas. O antebraço varia de 35,8 a 40,8 mm
(SIMMONS & VOSS, 1998).
Esse morcego insetívoro ocorre em
flo-restas úmidas e secas, áreas abertas, tais como
pas-tos e pomares (HANDLEY-JR, 1976), e em
ambi-ente urbano (BROSSET et al., 1996). TEJEDOR
(2003) encontrou colônia com cinco
in-divíduos abrigados sob teto externo em
construção situada em área bem
ilumina-da de uma reserva biológica no Peru. A
composição dessa colônia (com um
No documento
Morcegos do Brasil
(páginas 28-40)