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Família Thyropteridae

No documento Morcegos do Brasil (páginas 140-146)

Família Thyropteridae

A família Thyropteridae é monotípica e

endêmica da Região Neotropical sendo

represen-tada pelo gênero Thyroptera (HUTSON et al.,

2001). Os morcegos desta família são pequenos e

delicados, apresentam discos adesivos na base dos

polegares e nos pés (NOWAK, 1994; RISKIN &

FENTON, 2001; BARNETT, 2003). A

capaci-dade de aderir em folhas não é exclusivicapaci-dade

des-sa família, pois algumas espécies de morcegos

afri-canos tais como Myotis bocagei, Glishropus nanus e

Myzopoda aurita também utilizam as folhas

enrola-das da bananeira como abrigo. A espécie M. aurita,

endêmica de Madagascar, também possui discos

adesivos, mas com origem histológica e anatômica

diferentes (pulsos e tornozelos), sugerindo uma

origem evolucionária independente (NOWAK,

1994). Porém, nestas espécies, os discos adesivos

não são tão especializados quanto nos tiropterídeos

(BARNETT, 2003).

Nos tiropterídeos a sucção dos discos não

é gerada passivamente; neles existem glândulas de

suor modificadas que produzem uma secreção

pe-gajosa e também pela presença de um tendão que

liga uma estrutura cartilaginosa do disco a

múscu-los externos, o que ajuda a manter a forma

apro-priada do disco. Estes morcegos também lambem

seus discos para auxiliar na adesão. A combinação

de sucção e adesão molhada diminui gastos

energéticos e torna a adesão mais eficiente,

possi-bilitando que um único disco suporte o peso

intei-ro do morcego (BARNETT, 2003). Assim como

em Furipteridae, ocorre o sindactilismo, que é a

fusão entre os dedos, no caso aqui, entre o

tercei-ro e o quarto dedo dos pés (NOWAK, 1994).

No curso da evolução, a especialização em

utilizar abrigos com superfícies lisas fez com que

os tiropterídeos perdessem a habilidade de utilizar

poleiros com superfícies ásperas como a maioria

dos morcegos, além de ficarem aderidos nos

abri-gos com a cabeça voltada para cima (RISKIN &

FENTON, 2001; BARNETT, 2003).

Isaac Passos de Lima

Doutorando do Curso de Biologia Animal do Instituto de Biologia

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Renato Gregorin

Professor do Departamento de Biologia

Universidade Federal de Lavras (UFLA)

Gênero Thyroptera Spix, 1823

As quatro espécies atualmente

reconhe-cidas são: Thyroptera devivoi Gregorin et al., 2006;

Thyroptera discifera (Lichtenstein & Peters, 1855);

Thyroptera lavali Pine 1993 e Thyroptera tricolor Spix,

1823 (TAVARES et al., no prelo; PERACCHI et

al., 2006), todas ocorrendo no Brasil (GREGORIN

et al., 2006).

Thyroptera devivoi Gregorin et al., 2006

Thyroptera devivoi - descrita recentemente

por GREGORIN et al. (2006) possui distribuição

para a porção nordeste do Brasil e sudeste das

Guianas. No Brasil há apenas dois registros,

sen-do eles nos Estasen-dos sen-do Tocantins e Piauí. A

loca-lidade-tipo da espécie é Uruçuí-Una, Piauí, Brasil.

O pouco que se conhece desta espécie,

até o momento, está baseado no estudo de quatro

espécimes examinados por GREGORIN et al.

(2006). Thyroptera devivoi apresenta comprimento

cabeça-corpo entre 38,4 e 46,0 mm; comprimento

da cauda entre 24,6 e 29,0 mm; antebraço de 35,0

a 38,0 mm. Um calcâneo longo com comprimento

entre 7,9 a 11,0 mm. A pelagem dorsal é castanho

escuro, podendo alguns pêlos apresentar duas

ban-das onde a sua terça parte basal é enegrecida. Os

pêlos ventrais apresentam duas bandas, com a

metade basal castanho claro e a superior

esbranquiçada, dando uma aparência grisalha à

pelagem. O contraste entre a pelagem dorsal e

ventral é evidente, mas menos acentuado que em

T. tricolor. Entre os ombros os pêlos são curtos e

densos, já no cotovelo e na terça parte basal do

antebraço são esparsamente providos de pêlos. O

patágio é marrom escuro acinzentado. O

plagiopatágio e o uropatágio possuem linhas

trans-versas pontilhadas, os pontos são semelhantes a

pequenas verrugas. As membranas possuem, em

quase toda a sua extensão, pêlos curtos e

esbranquiçados esparsos, exceto na porção

ventro-medial da membrana interfemoral que possui uma

franja de longos pêlos marrom avermelhados. O

disco adesivo do polegar de T. devivoi é ovalado

(se-melhante ao de T. lavali) e suas dimensões médias

são de 4,1-3,4 mm (GREGORIN et al., 2006).

De acordo com WILSON (1973), os

tiropterídeos são exclusivamente insetívoros.

No Brasil, embora os espécimes de T.

devivoi tenham sido registrados somente para o

bioma Cerrado, eles foram capturados em áreas

mésicas, sendo na Estação Ecológica de

Uruçuí-Una numa vegetação de mata ripária e na Estação

Ecológica Serra Geral do Tocantins (Jalapão), na

vereda (GREGORIN et al., 2006).

Thyroptera discifera (Lichtenstein & Peters,

1855)

Thyroptera discifera é encontrado na

Nica-rágua, Panamá e Colômbia até as Guianas,

Ama-zônia brasileira, Peru e Bolívia. A localidade-tipo

é Puerto Cabello, Carabobo, Venezuela. No Brasil

há registro para os Estados do Amazonas, Bahia,

Mato Grosso e Pará (BEZERRA et al., 2005;

PERACCHI et al., 2006;TAVARES et al., no

pre-lo). Recentemente, BEZERRA et al. (2005)

regis-traram T. discifera para o cerrado da Usina

Hidrelé-trica de Manso, Mato Grosso, e GREGORIN et al.

(2006) observaram que alguns exemplares

identi-ficados como T. tricolor eram na verdade T. discifera,

o que caracterizou uma ampliação na distribuição

até Salvador, Estado da Bahia, sendo também o

primeiro registro de T. discifera para a Floresta

Atlântica no Brasil.

A coloração do pêlo dorsal varia de

casta-nho escuro a avermelhada, enquanto que o ventre

apresenta pelagem castanho-acinzentado ou

ama-relada. Assim, o contrastre entre as porções dorsal

e ventral é incipiente. As orelhas possuem um

for-mato afunilado, não são ligadas pela base e os

pê-los são amarelados. A metade basal do uropatágio

é pilosa. Thyroptera discifera é a menor espécie

den-tro do gênero, com comprimento cabeça-corpo

entre 37 a 47 mm, o comprimento da cauda varia

de 24 a 33 mm, sendo que as duas últimas

vérte-bras estendem-se além da borda do uropatágio

cerca de 4 mm (WILSON, 1978; BARNETT,

2003). O comprimento do antebraço varia de 31,0

a 38,3 mm e o comprimento côndilo-basal no

crâ-nio de 13,8 a 14,2 (BEZERRA et al., 2005). O

polegar é livre e relativamente curto, com a base

mais larga, onde apresenta o disco adesivo. Esses

discos são circulares e possuem cerca de 3,5 mm

de diâmetro nos polegares. Os pés são pequenos e

os discos adesivos menores que os encontrados

nos polegares. O primeiro dedo do pé possui

liga-ção com a membrana da asa, sendo que o terceiro

e quarto dedos são praticamente sindáctilos. Cada

dedo possui duas falanges. Geralmente, o calcâneo

possui uma projeção cartilaginosa simples na

bor-da distal do uropatágio, o que não acontece, por

exemplo, com Thyroptera tricolor,que possui duas

pro-jeções cartilaginosas (WILSON, 1978; PINE, 1993).

Estes morcegos são especializados em

capturar insetos em pleno vôo na vegetação densa

(EISENBERG, 1989; EMMONS & FEER,

1997). Contudo, HERRERA et al. (1999)

captu-raram espécimes de T. discifera a 30 cm do solo e o

conteúdo estomacal dos espécimes continha

per-nas de aranhas e tarsos de ácaros Oribatida.

HERRERA et al. (1999) capturaram,

pró-ximo a Manaus, Estado do Amazonas, uma fêmea

lactante em setembro. Os recém nascidos

possu-em garras e discos adesivos pouco desenvolvidos,

além de serem incapazes de voar. Eles

permane-cem agarrados à mãe até poderem voar, utilizando

para isto, as pequenas garras dos polegares e os

dentes, segurando no pescoço e nas tetas,

respec-tivamente (WILSON, 1978; BARNETT, 2003).

Thyroptera discifera vive em grupos com

jo-vens e adultos de ambos os sexos. Os abrigos

uti-lizados, geralmente, são constituídos por folhas

jovens, ainda enroladas, de bananeiras e Heliconia.

Quando estas folhas se desenrolam eles a

abando-nam e procuram um novo abrigo (KENNEDY,

2002).

O estado de conservação para T. discifera é

de baixo risco (HUTSON et al., 2001; IUCN, 2006).

Thyroptera lavali Pine 1993

Thyroptera lavali - É uma espécie rara com

apenas 10 espécimes colecionados em apenas

cin-co localidades, todas dentro do perímetro da

Flo-resta Amazônica no Peru, Equador, Venezuela e

Brasil (PINE, 1993; SOLARI et al., 2004). No

Brasil, T. lavali foi registrado apenas para Alter do

Chão, Estado do Pará (BERNARD & FENTON,

2002; SOLARI et al., 2004; TAVARES et al., no

prelo).

A coloração da pelagem dorsal é

chocola-te e a ventral levemenchocola-te mais clara variando ao

amarelado, semelhante a T. discifera. Neste caso, o

contraste entre a pelagem dorsal e ventral é

incipiente. A cauda projeta-se bastante além do

uropatágio: entre 4,8-7,2 mm (PINE, 1993;

SOLARI et al., 2004). O comprimento do

ante-braço varia de 38,0 a 40,7 mm e comprimento

to-tal do crânio de 15,7 a 16,1 mm (PINE, 1993).

Possui uma projeção cartilaginosa evidente no

calcâneo. O disco adesivo nos polegares são

mai-ores (5 x 4 mm) e ovalados (SOLARI et al., 2004;

GREGORIN et al., 2006). Possuem

característi-cas semelhantes a T. tricolor como pêlos pretos

lon-gos próximos a margem central do uropatágio e o

terceiro incisivo inferior maior que o primeiro e o

segundo (SOLARI et al., 2004).

Podem ser encontrados em florestas

pri-márias, próximos a riachos, utilizando como

abri-go folhas de palmeiras (SOLARI et al., 2004).

Thyroptera tricolor e detalhe do disco adesivo (Foto: A.L. Peracchi). Folha jovem de babaneira enrolada, o principal tipo de

abrigo utilizado por Thyroptera (Foto: Isaac P. Lima).

Os poucos registros sobre os dados

reprodutivos relatam capturas de uma fêmea

grá-vida em outubro, duas fêmeas lactantes em

janei-ro e fevereijanei-ro, para a região nordeste do Equador

(REID et al., 2000). Entretanto no Peru, uma

fê-mea foi capturada carregando um recém nascido

em setembro. Esta variação pode estar

relaciona-da a uma sazonalirelaciona-dade latitudinal em que os

nas-cimentos ocorram no início da estação chuvosa

(SOLARI et al., 2004).

Thyroptera lavali possui estado de

conser-vação vulnerável (HUTSON et al., 2001; IUCN,

2006).

Thyroptera tricolor Spix, 1823

Thyroptera tricolor - é encontrado desde

Veracruz no México até as Guianas, leste do

Bra-sil, Bolívia, Peru e Trinidad. A localidade-tipo é

Rio Amazonas, Brasil. No Brasil, há registro para

os Estados do Acre, Amazonas, Amapá, Bahia,

Es-pírito Santo, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo

(TAVARES et al., no prelo; PERACCHI et al., 2006).

A pelagem dorsal varia de castanho

escu-ro a castanho-avermelhado, enquanto que o

ven-tre apresenta coloração branca (nas populações

setentrionais) ou levemente amarelada (nas

popu-lações do sudeste do Brasil), com os flancos

assu-mindo uma coloração intermediária. Este padrão

resulta em um contraste acentuado na coloração

entre o dorso e o ventre. As orelhas possuem um

formato afunilado, não são ligadas pela base e os

pêlos são pretos. O trago é curvado para dentro

com um pequeno lóbulo próximo à base. A

mem-brana do uropatágio é recoberta por pêlos esparsos

até os pés e uma franja de pêlos recobre a borda

livre do uropatágio. O comprimento do antebraço

varia entre 33,5 a 37,5 mm e apresenta peso

mé-dio de 3,5 g. Possui uma pequena cauda livre onde

as últimas vértebras estendem-se além da borda

do uropatágio por cerca de 5 a 8 mm (WILSON &

FINDLEY, 1977; RISKIN & FENTON, 2001;

BARNETT, 2003). Os pés são pequenos,

medin-do cerca de 5 mm, cada demedin-do é composto por duas

falanges. O calcâneo possui duas projeções

cartilaginosas na borda distal do uropatágio

(WIL-SON & FINDLEY, 1977).

Thyroptera tricolor apresenta agilidade em

um vôo lento e tremulado em baixa altura, o que

indica uma dieta de insetos capturados próximos

ao chão. Pequenos besouros e moscas constituem

a dieta principal desses morcegos, que podem em

uma única noite consumir cerca de 25% do seu

peso em insetos (1 g) (BARNETT, 2003).

Aparentemente, T. tricolor dá a luz no início

da estação chuvosa (FINDLEY & WILSON, 1974).

Os abrigos utilizados estão próximos a

fontes de água e fora da incidência direta do sol.

Utilizam folhas jovens de Heliconia (Heliconiacea)

ou Calathea (Marantaceae), ainda enroladas na

ver-tical que tenham cerca de 50 a 100 mm de

diâme-tro. Thyroptera tricolor permanece com a cabeça

vol-tada para cima (BARNETT, 2003; VONHOF, et

al., 2004). As colônias contem de um a nove

indi-víduos (FINDLEY & WILSON, 1974). Quando

esta folha se desenrola eles a abandonam e

procu-ram um novo abrigo (KENNEDY, 2002).

Thyroptera tricolor apresenta estado de

conservação de baixo risco (HUTSON et al.,

2001; IUCN, 2006).

Agradecimentos:

À Drª Margareth L. Sekiama pela revisão

do manuscrito; à Profª. Angélica Torres pela revisão

gramatical; à FAPERJ pela concessão de bolsa de

estudo (processo E-26/152.621/2005) durante o

de-senvolvimento deste trabalho (IPL) e à FAPESP

(pro-cesso 98/05075-7, Programa Biota), a Ernest Mayr

Grant e Field Museum Grants (RG).

Depois de muito tempo sendo

considera-da monogenérica (YALDEN & MORRIS, 1975;

NOWAK, 1994; KOOPMAN, 1993), a família

Natalidae é hoje dividida nos gêneros Natalus, com

seis espécies, Chilonatalus, com duas espécies, e

Nyctiellus, monoespecífico (MORGAN &

CZAPLEWSKI, 2003; SIMMONS, 2005;

TEJEDOR, 2005). Essa família é restrita à região

neotropical, distribuindo-se pelo México, América

Central (incluindo as Antilhas) e América do Sul.

Os morcegos da família Natalidae são

pequenos, com cauda e membros longos, orelhas

em forma de funil com um trago, sem folha nasal,

grande uropatágio envolvendo toda a cauda e

pelagem longa e macia (GOODWIN &

GREENHALL, 1961; FINDLEY, 1993;

VAUGHAN et al., 2000). Apresentam como

apomorfia o órgão natalídeo, uma estrutura

glan-dular localizada no dorso do focinho de machos

adultos (SIMMONS, 1998).

Entre os representantes dessa família,

ape-nas a espécie Natalus stramineus Gray, 1838 é

No documento Morcegos do Brasil (páginas 140-146)