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4.1 “Drácula, mas antes e lésbica”10: a Carmilla de LeFanu

Muito frequentemente, Drácula, de Bram Stoker, é apontado como o marco inaugural da literatura de vampiros. Publicado em 1897, o livro se basearia na história de Vlad III, um príncipe romeno conhecido por seu costume de empalar seus inimigos e beber seu sangue, o que lhe rendeu o título de “Vlad, o Empalador”. Apesar dessa fama, porém, Stoker foi precedido por outro autor na tarefa de trazer os vampiros ao cenário da literatura: Joseph Sheridan LeFanu com sua novela Carmilla, publicada no formato de folhetins entre 1871 e 1872, se antecipando a Drácula por 26 anos.

Além da data de publicação, o livro de LeFanu traz ainda mais um ponto em que diverge bastante da obra de Stoker: ele retrata um relacionamento entre Laura, a narradora-personagem, e Carmilla, a vampira que dá nome ao livro. Supostamente, o livro teria sido inspirado principalmente pelos relatos da época sobre ataques de vampiros e pelos mitos acerca da condessa Elizabeth Báthory, também conhecida como “Condessa Sangrenta” por uma série de assassinatos marcados pelo sadismo e pelo suposto costume de se banhar no sangue de suas vítimas a fim de preservar sua juventude. Ainda, Báthory também é descrita como sendo notoriamente bissexual, o que poderia ter influenciado LeFanu na construção da sexualidade de suas personagens.

A trama de Carmilla é narrada a partir do ponto de vista de Laura, uma jovem de 19 anos que vive em um castelo afastado na região da Estíria (pertencente ao império Austro-Húngaro) com seu pai, um soldado inglês viúvo, e suas damas de companhia, madame Perrodon e mademoiselle De LaFontaine. A história tem início quando Laura, que vive solitária devido ao isolamento do castelo e aguarda ansiosamente pela visita do general Spielsdorf, amigo de seu pai, e de sua sobrinha Bertha Rheinfeldt, recebe em vez disso uma carta do general informando que a garota morreu vítima de um “monstro que traiu sua hospitalidade”. Pouca coisa depois da chegada da carta, uma carruagem se acidenta em frente ao castelo e sua senhora

10 Todos os subtítulos desta seção foram nomeados partindo de expressões ou frases do fandom da websérie para se referir à personagem Carmilla.

pede ao pai de Laura que cuide de sua filha, a jovem Carmilla, enquanto ela parte em uma importante viagem por três meses.

Laura reconhece a jovem de um sonho que tivera aos sete anos e as duas não tardam a se afeiçoar, por diversas vezes trocando beijos no rosto. Apesar de a garota sempre demonstrar confusão em relação aos seus sentimentos, uma passagem explicita os sentimentos de Carmilla por ela e indica que as garotas trocam um beijo nos lábios:

“…ela aproximou seu braço da minha cintura e deixou seu belo rosto afundar no meu ombro. ‘Como você é romântica, Carmilla’ eu disse. ‘Sempre que você me conta sua história, ela é feita principalmente de algum grande romance’. Ela me beijou silenciosamente.

‘Eu tenho certeza, Carmilla, que você já se apaixonou; que existe, nesse momento, algum assunto do coração acontecendo’.

‘Eu nunca me apaixonei, e nunca me apaixonarei’, ela sussurrou, ‘a não ser que seja por você’.

Quão bela ela estava à luz da lua!

Tímido e estranho foi o olhar com o qual ela rapidamente escondeu seu rosto no meu pescoço e cabelo, com suspiros atormentados, que pareciam quase soluços, e pressionou na minha mão a dela, que tremia.

Sua bochecha macia estava brilhando contra a minha. ‘Querida, querida’, ela murmurou, ‘Eu vivo em você, e você morreria por mim, eu te amo tanto’.”11

À medida que as garotas se aproximam, porém, acontecimentos estranhos se desenrolam nas proximidades do castelo e Laura adoece mais e mais, enquanto uma aura de mistério envolve Carmilla. Ao longo da história, é revelado que a forasteira na realidade se trata da condessa Mircalla Karnstein (“Carmilla” é um anagrama de “Mircalla”), que morrera anos antes e tinha sido reanimada como vampira pela mesma senhora com quem estivera na carruagem acidentada. No desfecho da história, Carmilla/Mircalla é morta — dessa vez permanentemente — pelo general Spiesldorf, evitando que Laura tenha o mesmo destino de sua sobrinha, e pelo

11“…she drew her arm closer about my waist, and let her pretty head sink upon my shoulder. 'How romantic you are, Carmilla,' I said. 'Whenever you tell me your story, it will be made up chiefly of some one great romance.'

She kissed me silently.

'I am sure, Carmilla, you have been in love; that there is, at this moment, an affair of the heart going on.'

'I have been in love with no one, and never shall,' she whispered, 'unless it should be with you.' How beautiful she looked in the moonlight!

Shy and strange was the look with which she quickly hid her face in my neck and hair, with tumultuous sighs, that seemed almost to sob, and pressed in mine a hand that trembled.

Her soft cheek was glowing against mine. 'Darling, darling,' she murmured, 'I live in you; and you would die for me, I love you so.'” LEFANU, J. S. Carmilla, disponível em

barão Vordenburg, cujo pai se envolvera com a vampira anos antes e também se tornara um vampiro.

Apesar de a narrativa ser simples, o livro é considerado um dos marcos das literaturas gótica e lésbica, tendo inaugurado o torpe da vampira lésbica. O termo trope” pode ser traduzido livremente como “figura de linguagem”, mas é mais comumente utilizado para designar ferramentas narrativas que permitam apresentar um conceito já conhecido sem precisar entrar em detalhes sobre ele, causando uma rápida compreensão do público. Essas ferramentas podem se esgotar por serem exaustivamente utilizadas, normalmente no campo da televisão ou do cinema, e sua repetição indiscriminada pode resultar em clichês narrativos que perpetuam discursos problemáticos ou mesmo preconceituosos.

De acordo com o site TVTropes.org, uma wiki colaborativa que se propõe a catalogar tropes identificados em narrativas televisivas da cultura popular, a vampira lésbica tem “cabelos pretos, corpete apertado de couro, pele pálida, e caninos. A única coisa que essa vampira sexy não tem é um desejo pelo sangue quente de homens”.12 O site aponta a série de filmes góticos Hammer Horror, da década de 1970, como a principal responsável por resgatar a figura da vampira lésbica e colocá-la como padrão para a maioria das vampiras mulheres que aparecem na ficção.

É importante ressaltar aqui que não se trata apenas de definir um traço da personalidade de um determinado personagem vampiresco. Conforme explica Dufour (2012), a construção dessa figura normalmente dá enfoque à sua sexualidade, relegando a segundo plano a sua condição de vampira: “em vez de apresentar sua imortalidade, sede por sangue humano e grande força física, a apresentação da vampira lésbica foca em seus desejos sexuais” (DUFOUR, 2012, p. 2, tradução nossa). Esse aspecto pode ser considerado um reflexo de uma sociedade heterocentrista, conforme colocado por Gomide (apud AGOSTINI, 2010):

[em uma sociedade heterocentrista,] movimentos subjetivos que se referem na verdade a uma parcela da identidade de um indivíduo acabam aparecendo socialmente como uma característica dominante da personalidade e toda uma construção social é feita sobre esses determinados atos ou características, globalmente denominados orientação sexual (GOMIDE apud AGOSTINI, 2010, p. 39)

12“She's got the raven-black hair, the tight leather bodice, the pale skin, and the fangs. The one thing this sexy vampiress doesn't have is a lust for hot male blood.” tradução nossa. Disponível em

O argumento de Gomide também encontra sustentação no trabalho de Foucault (1992), para quem a sexualidade se torna um ponto central da construção da verdade do sujeito nos séculos XVIII e XIX e o eixo a partir do qual somos organizados como sujeitos.

Ainda, na construção da sexualidade exacerbada das vampiras lésbicas, Dufour também chama atenção para o fato de que a maioria das personagens que se enquadram nesse trope performa um tipo de feminilidade normativa: são rotineiramente mulheres brancas, magras, com cabelos longos e consideradas atraentes para os padrões ocidentais tradicionais de beleza.

A associação entre vampirismo e sexualidade não é exclusiva à lesbianidade. De fato, o mito dos vampiros é frequentemente associado ao dos íncubos e súcubos, respectivamente demônios noturnos masculinos e femininos que seduziam seres humanos para sugar sua energia vital por meio de relações sexuais. Destoando do Drácula de Stoker, os vampiros que povoam a cultura popular nos dias de hoje são normalmente criaturas sedutoras, frequentemente com um ar aristocrático e maneiras polidas, e o ato de sugar o sangue humano é carregado de erotismo.

Essa visão se fortaleceu especialmente a partir dos livros de Anne Rice, nos quais é possível identificar certa tensão homoerótica entre os personagens que pode ser compreendida como uma indicação de bissexualidade. Na análise de Dufour, “Vampiros são criaturas humanoides de beleza excepcional, com altas libidos sexuais, que encarnam a morte. Essas características intrigam espectadores humanos porque representam maravilhas e medos profundamente relevantes à vida humana que são frequentemente reprimidos pela moralidade e pelas normas da cultura dominante. Pode-se argumentar que o que é mais pertinente e mais atraente para os espectadores sobre o subgênero de vampiros é a revelação de desejos sexuais humanos não normativos” (DUFOUR, 2012, p. 1, tradução nossa).

Partindo desse ponto de vista, então, o vampiro aparece nas narrativas como uma figura capaz de tensionar a norma. Porém, nem sempre essa potencialidade é explorada dessa maneira: especialmente no caso da vampira lésbica, ela pode ser usada como maneira de reiterar as regras de gênero e sexualidade.

Em um regime heteronormativo centrado no homem, em que a sexualidade feminina deve ser sempre subalterna à masculina, a mulher que toma as rédeas da

sua sexualidade é vista como ameaça e as práticas lésbicas só são autorizadas enquanto fetiche masculino. Não é à toa que essas personagens sejam predominantemente versões hipersexualizadas das lésbicas femme ou lipstick: a passabilidade heterossexual e a performance de uma feminilidade mais próxima da normativa são elementos essenciais para a atração masculina que autoriza sua existência.

Assim, enquanto para os vampiros homens a sensualidade e a sexualidade são características atraentes e eles constantemente protagonizam histórias de amor entre humanos e vampiros (vide os livros de Anne Rice ou a série Crepúsculo, fenômeno de vendas no final da primeira década dos anos 2000), a vampira mulher e principalmente a lésbica aparecem como vilãs, predadoras e demônios a serem destruídos. De fato, ainda segundo o site TVTropes.org, uma variação comum do trope da vampira lésbica, especialmente presente na pornografia, é a história da vítima inocente que, depois de seduzida e transformada por outra vampira mais velha, passa a sentir atração sexual por mulheres. Essa imagem traz uma série de implicações nocivas, representando a lesbianidade como resultado de uma influência negativa e associando a lésbica a uma mulher predadora que busca corromper mulheres heterossexuais.

4.2 “Vampiras lésbicas inúteis”: adaptações ao longo dos anos

As características apontadas anteriormente sobre o trope da vampira lésbica podem ser facilmente observadas nas adaptações da história que foram produzidas ao longo do tempo. Em uma rápida leitura das sinopses dos sete principais filmes baseados na novela de LeFanu, o que salta aos olhos de imediato são a inevitabilidade dos finais trágicos para a personagem de Carmilla e o constante deslocamento da lesbianidade, que deixa de ser a relação principal da história — em seis das adaptações, o roteiro acrescenta um par romântico masculino à protagonista. Apesar de nem sempre o relacionamento heterossexual se concretizar, o acréscimo de uma figura masculina que não chega sequer a ser indicada na novela original já mostra a relutância de aceitar um relacionamento entre mulheres que não pressuponha um homem.

Além desse apagamento, é frequente que a lesbianidade ou o vampirismo apareçam como uma punição, principalmente para mulheres que questionam o papel de submissão da sua sexualidade. Em Twins of Evil (1971), a lesbianidade desaparece da história e a personagem Frieda é punida por se interessar pelo conde Karnstein e não retribuir o interesse do maestro Anton Hogger, sendo transformada em um vampiro por Mircalla (que sequer entra na história como um possível par romântico) e decapitada ao final do filme. Enquanto isso, sua gêmea Maria (cujo nome a aproxima, talvez, da figura da Virgem Maria), que segue as exigências de seu tio, o puritano caçador de bruxas e vampiras Gustav Weil, é salva e sobrevive.

Em Carmilla, the Lesbian Vampire (lançado em 2004 com o título Vampires vs. Zombies), o filme mais recente a buscar inspiração na história de LeFanu, a personagem Carmilla aparece como a única responsável por uma infecção que ameaça toda a humanidade e engaja em uma cena de sexo com a protagonista do filme, uma jovem chamada Jenny contaminada pela praga, enquanto as duas e o pai da garota tentam sobreviver em um mundo infestado por zumbis.

Já em The Blood Spattered Bride (1972), a recém-casada Susan é influenciada por Mircalla Karnstein, ancestral de seu novo marido, a se afastar cada vez mais dele e a cometer os mesmos atos de violência perpetrados por Mircalla, que matara seu próprio cônjuge na noite de núpcias. Quando a vampira aparece na casa do casal sob a identidade de Carmilla, as duas iniciam um relacionamento e dão início a uma sequência de assassinatos, até que o marido consegue matá-las ao final do filme. Aqui, fica clara a associação entre lesbianidade e vampirismo, uma vez que a transformação de Susan em vampira só se concretiza por meio de sua relação com Mircalla, e é evidente a imagem da vampira lésbica seduzindo uma mulher heterossexual e conduzindo-a a um final inevitavelmente trágico, como punição por ter rejeitado as normas da heterossexualidade, representadas pelo relacionamento com o marido.

Em todos os casos citados, a imagem da lesbianidade está associada a algum tipo de mal sobrenatural, que se espalha entre mulheres inocentes (heterossexuais) por culpa de vampiras hipersexualizadas, e na maioria das adaptações da história a personagem lésbica é usada como fonte de conflito entre um casal heterossexual. Dessa maneira, a imagem de lesbianidade que emerge dessas adaptações é justamente de algo que afronta a heterossexualidade compulsória, e o

fim trágico dado à maioria dessas personagens atua como um lembrete claro de que as consequências para aquela que se desviar da norma serão severas.

4.3 “Broody gay Carmilla”13: a websérie

Contrariando a tradição de adaptações audiovisuais da novela, a websérie transmídia produzida em 2014 é voltada especificamente ao público feminino e tem uma proposta distinta às muitas adaptações feitas ao longo dos anos. A websérie foi produzida pela empresa canadense Smokebomb Entertainment, patrocinada pela marca de absorventes U by Kotex como uma estratégia de branded entertainment14 e veiculada no YouTube entre 2014 e 2016. Além das 3 temporadas produzidas neste período, a adaptação também conta com um filme, lançado em outubro de 2017.

A ideia para a adaptação surgiu a partir de uma conversa entre a produtora digital da Smokebomb, Steph Ouaknine, e Ellen Simpson, que mais tarde viria a se tornar editora transmídia da série. Em janeiro de 2014, Ouaknine pediu sugestões de obras em domínio público para serem adaptadas, ao que Simpson respondeu sugerindo Carmilla. Na Figura 5, é possível ver que algumas das características da adaptação — como a transposição da história para os dias atuais — já estavam presentes desde o início da concepção da série. Além disso, a troca de tweets deixa claro que tanto a temática de vampiros quanto a de sexualidade foram pontos-chave para escolha da obra.

Figura 5 — Conversa entre Ouaknine e Simpson.

13 O título é uma referência às frases usadas pelo fandom da websérie para se referir às

personagens. A expressão poderia ser traduzida para algo como “gay mal-humorada Carmilla” e faz parte de um conjunto de outras expressões, como “tiny gay Laura” (pequena gay Laura) ou “tall gay

Danny” (gay alta Danny).

14 Também conhecido como branded content, o branded entertainment é uma estratégia de marketing que consiste na produção de conteúdo de entretenimento por parte de uma marca, a fim de

complementar outras ações de comunicação e fortalecer a imagem da marca e seu relacionamento com seu público.

Fonte: https://twitter.com/StephInTeevee/status/426060485956354048, acesso em 13 jun. 2017.

Apesar de não haver informações que confirmem esta ideia, não é arriscado supor que a busca por uma obra em domínio público tenha sido motivada principalmente por questões financeiras, especialmente porque a patrocinadora U by Kotex só entrou no processo mais tarde. Além disso, o formato de vídeo explorado por Carmilla e o tipo de expansão transmídia adotado seguem o formato desenvolvido pela produtora Pemberley Digital: adaptação de livros em domínio público (nesse caso, com o objetivo explícito de reduzir gastos) para vídeos em formato de vlog e ramificações em redes sociais.

Sete meses depois dessa troca de tweets, em 19 de agosto de 2014, eram publicados os seis primeiros episódios da primeira temporada da websérie.

Derivada de outros formatos de ficção seriada, como aquele produzido principalmente para a televisão, a websérie é aquela produzida pensando-se em uma veiculação pela internet (García, 2011), geralmente de maneira gratuita, em sites de streaming de vídeo como o YouTube e o Vimeo. Como consequência desse modelo de distribuição, o formato tem algumas particularidades. Por serem pensadas para serem assistidas em dispositivo móveis e telas menores, as webséries são abundantes em closes e têm poucas cenas de plano aberto. Os episódios também costumam ser mais curtos, seguindo o padrão de vídeo para a web, e as tramas costumam ser mais simples, apesar de isso não ser uma regra.

Figura 6 — Cena do episódio 25 da 2 temporada. O ângulo escolhido para contribui para a criação de um quadro mais profundo, o que permite que mais personagens participem de uma

mesma cena.

Fonte: Imagem da autora, produzida a partir de

<

https://www.youtube.com/watch?v=0at5ENBCT84&index=25&list=PLbvYWjKFvS5q3y3BO-qkmo7FQ8jwlwj5v>, acesso em 31 mai. 2018.

No caso específico de Carmilla, segundo entrevistas com o elenco e a produção (que chamaremos em diante de “equipe”), o estilo cenográfico e de atuação também toma emprestadas características do teatro. Como os episódios praticamente não têm cortes e a gravação usa apenas uma câmera, qualquer erro de gravação demandaria que o episódio inteiro fosse regravado, o que exigiu dos atores habilidades de improviso para seguir com a cena mesmo que alguma coisa saísse do

roteiro. Além disso, para não se limitarem aos closes, os diretores de Carmilla fizeram uso da profundidade do cenário, dispondo os personagens a distâncias distintas da câmera para fazer todos caberem no mesmo enquadramento. Com isso, era preciso que os atores que estivessem mais ao fundo exagerassem um pouco mais em sua atuação, como é típico do teatro, a fim de garantir que ela fosse efetiva nas telas reduzidas em que as webséries costumam ser assistidas.15

Além dos vídeos16, hospedados no canal Vervegirl (que mais tarde foi rebatizado de KindaTV), a websérie também contou com quatro contas oficiais no Twitter, três blogs no Tumblr e um conto publicado no site Wattpad, todos produzidos e apresentados como se fossem os perfis de personagens ou de instituições existentes na história.

Nessa versão, Laura, uma estudante de Jornalismo recém-ingressada na Silas University, dá início a um vlog para documentar suas tentativas de investigar o suspeito desaparecimento de sua colega de quarto, Betty Spielsdorf, e sua subsequente substituição por Carmilla, uma garota mal-humorada e misteriosa. Laura conta com a ajuda de Lola Perry, monitora do dormitório; LaFontaine, estudante do segundo ano que, ao início da série, está começando a se identificar como pessoa não binária; e Danny Lawrence, sua professora-assistente e interesse amoroso.

À medida que a história se desenrola, o núcleo central de personagens descobre que Carmilla é uma vampira e está envolvida em uma trama maior envolvendo rituais, sacrifícios e dramas familiares. Em momento algum a sexualidade das personagens é discutida claramente nos vídeos (apesar de Laura e Carmilla se identificarem explicitamente como lésbicas em seus blogs em interações com os fãs),