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1 INTRODUÇÃO

1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E ESTRUTURA DA TESE

1.4.3 Fases da pesquisa, técnicas e instrumentos

A pesquisa foi realizada compreendendo três etapas. Na primeira, realizou-se a pesquisa bibliográfica, na qual buscou-se analisar as bibliografias existentes e artigos científicos relacionados ao tema, procurando-se um maior aprofundamento e ampliação dos conhecimentos, os posicionamentos dos diferentes autores e uma possível correlação com as questões da pesquisa para uma análise crítica e melhor contextualização do estudo. Esse processo culminou na elaboração e qualificação do projeto de tese, que ocorreu no final do mês de maio de 2014, quando alguns elementos da pesquisa foram redefinidos.

Na segunda etapa, realizou-se a coleta de dados no campo da pesquisa, que teve como propósito focar na identidade laboral dos trabalhadores pluriativos. Na terceira etapa, procedeu-se com a coleta e a sistematização dos dados obtidos.

Com relação à segunda etapa, recorda-se que, em função de o objeto de pesquisa ser uma continuidade do estudo realizado no mestrado, já se tinha tido contato com o campo e com os sujeitos da pesquisa, o que, em nosso ver, pode ser considerado ponto positivo, por permitir o acúmulo de dados e o aprofundamento da análise acerca da realidade estudada. Durante o processo de pesquisa da dissertação, foram realizadas três visitas in loco para a coleta de dados e duas para a elaboração do texto da tese especificamente.

As técnicas para coleta dos dados da tese foram a observação espontânea, a entrevista semiestruturada em profundidade, a entrevista grupal (focus group) e a pesquisa em fontes documentais, as quais ocorreram conforme descrito abaixo.

Na primeira visita in loco, denominada por nós de exploratória, durante quatro dias decorridos em dezembro de 2014, procedeu-se com a observação espontânea dos fatos que ocorriam, relacionados à rotina e ao processo de trabalho na Copercicla, as entrevistas exploratórias com alguns informantes qualificados (coordenação geral,

coordenadores de produção, integrantes da direção, associados que trabalham em funções administrativas da Cooperativa e técnicos da EMATER de Santa Cecília do Sul) e o levantamento de informações em documentos, tais como regimento, estatuto e fichas cadastrais dos cooperados. As informações colhidas na ocasião dessa visita foram registradas em diário de campo.

Na segunda visita in loco, durante seis dias decorridos do mês de maio de 2015, foram realizadas as entrevistas semiestruturadas com os 13 trabalhadores pluriativos e com 06 informantes qualificados, conforme já descrito.

A entrevista semiestruturada é aquela que parte de determinados questionamentos básicos apoiados em teorias e hipóteses que interessam à pesquisa e que oferecem amplo campo de interrogativas, as quais são frutos de novas suposições que vão surgindo à medida que se recebe as respostas do informante que, seguindo a linha do seu pensamento e experiências dentro do foco principal colocado pelo investigador, começa a participar na elaboração do conteúdo da pesquisa (TRIVIÑOS, 1987).

As entrevistas com os trabalhadores pluriativos foram realizadas tanto na Cooperativa como nas suas residências, visto que dois estavam em férias no período destinado à coleta de dados e um estava em licença médica. Considera-se esse fato como positivo, em decorrência de que, para ter contato e acesso com todos os entrevistados, durante os deslocamentos foi possível observar as moradias da localidade, a paisagem, as características estéticas das propriedades, as condições das vias de acesso (estradas), bem como outras características que auxiliaram na análise da realidade que cerca os sujeitos da pesquisa. Todas as entrevistas foram gravadas e, posteriormente, transcritas, tendo duração média de 1h20min.

Na tentativa de conferir características de uma conversa aparentemente natural e quase casual para a realização das entrevistas individuais e coletivas, foi elaborado o que Gaskell (2002) denomina de tópico guia. Como sugere o próprio nome, trata-se de um guia com questões planejadas a serem abordadas para dar conta dos fins e objetivos da pesquisa, mas sem nos tornarmos escravos dele. A sua elaboração neste estudo se baseou numa leitura crítica da literatura relacionada às delimitações do tema da pesquisa, ao reconhecimento prévio do campo e à discussão dos pontos com o orientador da tese. Segundo Gaskell (2002, p. 67):

À medida que o tópico guia é desenvolvido ele se torna um lembrete para o pesquisador de que questões sobre temas sociais científicos devem ser apresentadas em uma linguagem simples, empregando termos familiares adaptados ao entrevistado. Finalmente, ele funciona como um esquema preliminar para análise das transcrições.

As questões do tópico guia, tanto para as entrevistas individuais quanto para a abordagem grupal (focus group), foram elaboradas contendo essencialmente pontos relacionadas aos processos de socialização secundária dos sujeitos, conforme sugere Dubar (2009). O focus group foi realizado com os agricultores familiares pluriativos como uma técnica auxiliar, após o término das entrevistas individuais, com a finalidade de complementação dos dados, e a partir da expectativa de contribuição para o esclarecimento de alguns aspectos que não ficaram suficientemente esclarecidos através da utilização das outras técnicas. O focus group é, segundo Gil (2009, p. 83- 84):

Um tipo de entrevista em profundidade realizada em grupo, que privilegia a observação e o registro de experiências e reações dos participantes. Essa entrevista é conduzida por um moderador, que introduz um tópico a um grupo de respondentes e direciona sua discussão sobre o tema de uma maneira não estruturada. Constitui, portanto uma técnica apropriada para a obtenção de dados em pesquisas que tenham por objetivo saber como as pessoas consideram uma experiência, um evento ou um fato.

A abordagem grupal durou aproximadamente duas horas, ocorreu no refeitório da própria Copercicla, onde, a fim de criar um ambiente de descontração, foi servido pela pesquisadora um lanche para os participantes. A pesquisadora foi a moderadora do grupo e contou com o auxílio de uma colaboradora externa da Cooperativa para a realização das anotações acerca dos comentários e observações. Também houve gravação de áudio durante a abordagem.

Considerando-se que a identidade relacionada ao trabalho é sempre forjada num jogo de interações sociais em que o contexto organizacional, as características biográficas do indivíduo e os seus percursos formativos desempenham um papel fundamental e no qual existem acordos e desacordos entre a identidade real e virtual, questões dessa natureza fizeram parte dos questionamentos realizados nas abordagens de coleta de dados (DUBAR, 2009).

Na terceira etapa, foi realizada a sistematização e organização dos dados para posterior descrição e análise, sendo que foram priorizadas as informações obtidas através das falas dos sujeitos no momento da realização das entrevistas. Os dados coletados foram examinados através da análise de conteúdo que, segundo Moraes (1999), é utilizada para descrever e interpretar o conteúdo de toda classe de documentos e textos. Essa análise, conduzindo a descrições sistemáticas, qualitativas ou quantitativas, auxilia a reinterpretar as mensagens e a alcançar uma compreensão de seus significados num nível que vai além de uma leitura comum. A seguir, o quadro 1 apresenta a síntese das dimensões metodológicas da pesquisa.

Quadro 1 – Síntese das dimensões metodológicas do estudo

Pesquisa Qualitativa

Delineamento Geração de

dados

Análise de dados Interesses do conhecimento

Estudo de caso Observação espontânea Análise de conteúdo Construção de consenso e/ou “empoderamento” Pesquisa em fontes documentais Entrevista individual em profundidade Entrevista grupal (focus group)

Fonte: Elaborado pela autora da pesquisa.

A tese está estruturada em oito capítulos. Após a Introdução, o segundo capítulo apresenta os acontecimentos que marcaram a sociedade capitalista e as transformações advindas desses eventos para a ruralidade brasileira, que passa a contar com o fenômeno da pluriatividade na agricultura familiar. No terceiro capítulo, é apresentada a evolução do conceito de identidade, as diferentes abordagens da temática e a compreensão do que se entende por identidade laboral. O quarto capítulo trata de apresentar um panorama sobre a situação dos resíduos sólidos no País, destacando os avanços e desafios em relação à sua destinação e ao seu processamento atualmente.

No quinto, sexto e sétimo capítulos, são apresentados os dados empíricos e a análise da realidade estudada à luz dos referenciais explorados nos capítulos anteriores. Desse modo, no capítulo cinco são apresentadas informações sobre a história da Copercicla, o perfil dos trabalhadores pluriativos e a dinâmica do trabalho realizado pelos agricultores familiares. Nos capítulos seis e sete, a fim de identificar as repercussões do trabalho pluriativo na identidade laboral dos sujeitos, são apresentados elementos relacionados ao processo de socialização secundária vivenciados por eles em ambas as atividades – na reciclagem e na propriedade rural –, bem como, à percepção dos próprios trabalhadores acerca da sua identidade e ao modo como são identificados pela comunidade externa diante das atividades laborais que exercem. Por fim, o oitavo capítulo apresenta as considerações finais do estudo.