2 TRANSFORMAÇÕES E TENDÊNCIAS NO MUNDO
2.2 A PLURIATIVIDADE NA AGRICULTURA FAMILIAR
2.2.1 Novas ruralidades e processos identitários
“Ruralidade contemporânea” (CARNEIRO, 1998), “nova ruralidade” (WANDERLEY, 2000) ou “novo rural” (GRAZIANO DA SILVA, 1999) são termos utilizados no meio acadêmico e científico para expressar as transformações recentes do meio rural, dentre as quais destacam-se as relações com o meio urbano e a diversificação das ocupações, decorrentes dos processos sociais globais.
Os resultados desses processos sobre o rural podem ser resumidos de forma genérica em duas grandes perspectivas22 que balizaram vários estudos acadêmicos
nos últimos anos sobre o futuro do meio rural. Uma perspectiva previa o total desaparecimento das sociedades rurais e que a agricultura se transformaria num simples campo de aplicação e utilização do capital. Já a outra perspectiva se firmava no entendimento da existência de uma forma especifica de organização familiar, presente especialmente nas famílias de pequenos agricultores, não estruturada sobre a base de apropriação do trabalho alheio, diferente, portanto, da unidade de produção capitalista, o que permitiria a sua reprodução e consequentemente junto com outros fatores levaria a redefinição do rural e seu desaparecimento (WANDERLEY, 2009).
Observa-se que tal perspectiva se confirmou diante das transformações, isto é, houve uma redefinição do rural sem o abandono e o rompimento de algumas de suas características, assim como aponta Wanderley (2009, p. 205)
[...] as profundas transformações resultantes dos processos sociais mais globais – a urbanização, a industrialização, a modernização da agricultura – não se traduziram por nenhuma uniformização da sociedade, que provocasse o fim das particularidades de certos espaços ou certos grupos sociais. A modernização, em seu sentido amplo, redefine, sem anular, as questões referentes à relação campo cidade, ao lugar do agricultor na sociedade, à importância social, cultural e política da sociedade local, etc.
Que as sociedades tradicionais foram influenciadas pelos processos sociais englobantes é certo. O êxodo rural, a perda da autonomia diante dos ditames do mercado, a progressiva modernização do processo de produção e a influência da cultura urbana no meio rural são algumas das consequências desses processos, porém não suficientes para afirmar o seu desaparecimento e sim serviram para reforçar que estiveram e ainda estão em curso uma redefinição e a emergência de novas ruralidades.
A compreensão do rural apenas como adjetivo de lugar, delimitação de espaço físico, local de produção agrícola, sinônimo de atraso, como polo totalmente oposto ou com quase inexistente relação com o urbano deve ser superada e ressignificada no mundo contemporâneo.
Blume (2004) explica que um dos motivos que influenciou a associação predominante do rural como sinônimo de atraso, residual e subalterno ao urbano foi a forma com que ele sempre foi estudado. Isto é, o campo sempre foi comparado ao meio urbano, com destaque às diferenças entre os dois espaços, vistos como opostos, sendo ainda o âmbito urbano considerado como o ideal. A maior atenção ao estudo do contexto de mudanças que passaram a ocorrer no espaço rural, e não nas características intrínsecas a ele é também um aspecto apontado como motivador para tal visão. Essa posição é destacada nas observações de Carneiro (1998, p. 54-55), como é possível verificar:
Ao invés de se pensar a cultura camponesa através do contraste com a cultura urbano-industrial, o que levaria a repetir o que já fora dito sobre o efeito generalizador do processo de “descampenização” do campo, alguns autores chamam a atenção para a necessidade de romper com a referência à cultura urbano-industrial para se avaliar as verdadeiras mudanças pelas quais essa categoria social ampla e genérica - o agricultor familiar - estaria passando ao longo do tempo.
Os estudiosos que adotaram essa linha, referida por Blume (2004), eram associados a uma perspectiva denominada no meio acadêmico de continuum. Por privilegiar o polo urbano como a fonte do progresso onde o extremo rural do
continuum tenderia a se reduzir sob a influência do outro polo, essa visão, segundo
Wanderley (2000) foi considerada “urbano-centrada”.
Uma segunda visão considera o continuum rural-urbano como uma relação que aproxima e une dois polos extremos, no qual as relações entre o campo e a cidade não destroem necessariamente as particularidades dos dois polos.
Graziano da Silva, afirma que o rural “só pode ser entendido como um continuum do urbano” (1999, p. 1). Para ele, as transformações do rural são decorrentes fundamentalmente da forte influência das atividades urbanas sobre o rural. O desenvolvimento de atividades não agrícolas no rural, anteriormente desenvolvidas apenas no meio urbano, a exemplo da desenvolvida pela Copercicla, é atribuído pelo autor como indicativo das transformações do rural. As novas atividades surgidas no rural e identificadas pelo autor nas pesquisas que coordenou no início da década de 1990 caracterizaram o que denominou, na época, de o novo rural brasileiro (GRAZIANO DA SILVA, 1999).
Salienta-se que a compreensão do autor vai além da simples influência do urbano sobre o rural e a sua consequente transformação em alguns aspectos. Ele previa que, com o tempo, ocorreria a transformação do rural por completo e a dissolução das suas características tradicionais sob influência do espaço urbano (GRAZIANO DA SILVA, 1999).
Apresentando posição diferente, Carneiro (1998), ao estudar o tema das ruralidades, não acredita na dissolução do rural perante a intensificação da relação com o urbano, especialmente no âmbito das identidades socioculturais. Segundo a autora, é inegável que a associação campo-cidade repercute no espaço rural, porém, não a ponto de anular as suas particularidades. Ela acredita, inclusive, que o fato poderia ressaltar ainda mais as suas características, conforme expressa:
[...] tal processo não resulta, a nosso ver, numa homogeneização que reduziria a distinção entre o rural e o urbano a um continuum dominado pela cena urbana, como já foi formulado no tocante à realidade européia (Lefebvre, 1972; Duby, 1984; Mendras, 1959; entre outros) e para a realidade brasileira (Graziano da Silva, 1996; Ianni, 1996, entre outros) (CARNEIRO, 1998, p. 53).
A posição da autora sugere ainda que se deve focalizar os estudos sobre as transformações do rural nas relações sociais com base na dimensão do local, podendo-se incorporar, ao rural, categorias simbólicas produzidas a partir de distintos meios culturais, como se verifica:
[...] importa mais do que tentarmos redefinir as fronteiras entre o “rural” e o “urbano”, ou simplesmente ignorar as diferenças culturais contidas nessas representações sociais, buscar, a partir do ponto de vista dos agentes sociais, os significados das práticas sociais que operacionalizam essa interação e que
proliferam tanto no campo como nos grandes centros urbanos, tais como a pluriatividade, os neo-rurais, a cultura country etc. (CARNEIRO, 1998, p. 59- 60).
A partir da colocação acima, a autora está sugerindo que as análises sobre o rural podem se voltar para os agentes do processo, e não exclusivamente para o espaço.
Praticamente na mesma linha de entendimento sobre as transformações do rural, Wanderley (2009) refere que o desenvolvimento desses espaços rurais não dependerá unicamente do dinamismo do setor agrícola, mas da sua capacidade de atrair outras atividades econômicas e interesses sociais e, ainda, de realizar uma profunda ressignificação de suas próprias funções sociais.
No mesmo sentido, Froehlich (2002), analisando os principais elementos que fizeram parte das construções modernas do rural, reconhece que este é uma categoria de pensamento do mundo social e faz a seguinte colocação:
Se o rural é uma categoria de pensamento do mundo social (Mormont, 1996), então, é possível apreender em sua análise as dinâmicas sociais e as transformações em curso que a lógica cultural contemporânea imprime. A valorização das diferenças culturais e das biodiversidades, as possibilidades de se construir identidades (culturais, étnicas, regionais etc.), o resgate e a composição das tradições com o moderno são elementos que se articulam na produção de novos sentidos (e funções) para o rural, conjuntamente com a associação positivada deste com a natureza. Em conjunto, tais fatores têm permitido aos espaços rurais o estabelecimento de novos patamares de relações, experiências e valorizações, que expressam o caráter estratégico do rural nas perspectivas de futuro e na tessitura presente das sociedades contemporâneas. (FROEHLICH, 2002, p. 36).
Froehlich (2002) faz referência às transformações que emergem no rural mencionando a importância da introdução das noções de diversidade e de diferença, que passam a ser referenciais significativos para a análise da sociedade e da cultura contemporâneas, por permitir considerar a reelaboração e os novos sentidos dos elementos tradicionais da cultura camponesa e do rural sob os reflexos atuais do fenômeno social da modernização globalizada. Para o autor, "aspectos que, até bem pouco tempo atrás, eram considerados indesejáveis, atrasados e indícios de estagnação social, passam agora a ser resgatados sob um prisma mais positivo" (FROEHLICH, 2002, p. 9).
O conjunto de múltiplas funções do rural e no rural ligadas ao consumo de bens materiais e simbólicos (propriedades, festas, gastronomia, lazer, espairecimento) e
serviços (ecoturismo, turismo rural, atividades relacionadas à preservação ambiental) que influenciaram as reflexões acima referidas neste item sobre o “novo rural”, denominou-se de “Multifuncionalidade do rural”, conforme expressa Froehlich (2002, p. 99, grifo do autor) – com base em Laurent e Mouriaux (1999), Laurent (2000) e Blanchemanche et al. (2000) – ao argumentar a preferência por este último termo ao de “Multifuncionalidade da agricultura”:
[...] pensamos que denominar multifuncionalidade do rural ao amplo processo de transformações que dizem respeito aos diferentes usos e funções que o espaço rural vem assumindo contemporaneamente é mais adequado do que o termo multifuncionalidade da agricultura, noção já bastante difundida no âmbito da comunidade européia.
Em suma, uma afirmação que é possível fazer é a de que a perda da centralidade da agricultura como atividade responsável pela inserção socioeconômica de muitas famílias que habitam o espaço compreendido como rural, associado à diversificação de ocupações, por vezes exercidas por um mesmo indivíduo (processo vem sendo denominado de pluriatividade), nos leva à necessidade de reformulação das imagens acerca do espaço denominado de “novo rural” (CARNEIRO, 2006 apud VIRGOLIN, 2012, p. 40). E, neste novo espaço, como refere Carneiro (1998, p. 73) “[...] devemos entender também o fenômeno da pluriatividade como uma forma alternativa de explorar a agricultura e, em consequência, como uma possibilidade de reelaboração de identidades sociais”, pois, conforme Froehlich (2003, p. 118):
Identifica-se como uma das características da contemporaneidade não apenas a mobilidade espacial, mas, sobretudo, a simbólica que se expressa pela capacidade do indivíduo de mover-se entre os vários universos culturais em diferentes escalas espaço-temporais, e de lidar com um amplo repertório de material simbólico – matéria prima para a construção ou redefinição das identidades sociais.
Assim, a seguir pontuaremos elementos acerca da identidade, a fim de subsidiar o atendimento aos objetivos desta pesquisa que se relacionam à influência do trabalho pluriativo na identidade laboral dos agricultores familiares que trabalham na Copercicla.