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3 APLICAÇÃO DO INSTITUTO DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL

3.5 FASES DO PROCESSO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL

Com a propositura da petição inicial, inicia-se o processo de recuperação judicial que se divide em três fases distintas e sequenciais: a primeira se denomina fase preliminar ou postulatória; a segunda, fase de deliberação ou assemblear; e, por fim, a terceira, fase de execução, conforme (GOMES, 2007).

A Fase Postulatória ou Preliminar da recuperação judicial se inicia com a propositura da petição inicial pelo devedor ou em sua ausência, qualquer dos sucessores definidos em lei. A petição inicial de recuperação judicial deve conter – segundo o artigo 51 da Lei de Falências – informação sobre a exposição das causas concretas da situação patrimonial do devedor e das razões da crise econômico- financeira; as demonstrações contábeis relativas aos 3 (três) últimos exercícios sociais demonstrando o balanço patrimonial, os resultados acumulados e desde o último exercício social e o relatório gerencial de fluxo de caixa e de sua projeção; relação nominal completa dos credores, com indicação do endereço de cada um, a natureza e classificação do valor atualizado do crédito, discriminando sua origem, o regime dos respectivos vencimentos e a indicação dos registros contábeis de cada transação pendente; a relação integral dos empregados, em que constem as respectivas funções, salários, indenizações e outras parcelas a que tenham direito discriminando os valores pendentes de pagamento; a certidão de regularidade do devedor no Registro Público de Empresas, o ato constitutivo atualizado e as atas de nomeação dos atuais administradores; a relação dos bens particulares dos sócios

controladores e dos administradores do devedor; os extratos atualizados das contas bancárias do devedor e de suas eventuais aplicações financeiras de qualquer modalidade, inclusive em fundos de investimento ou em bolsas de valores, emitidos pelas respectivas instituições financeiras; certidões dos cartórios de protestos situados na comarca do domicílio ou sede do devedor e naquelas onde possui filial e a relação, subscrita pelo devedor, de todas as ações judiciais em que este figure como parte, inclusive as de natureza trabalhista, com a estimativa dos respectivos valores demandados (BRASIL, 2005).

Instruída a petição, o juiz constatando a documentação exigida profere o despacho mandando processar a recuperação judicial. No despacho, “o juiz nomeia o administrador judicial, determina a suspensão de todas as ações e execuções contra o devedor (ressalvadas as exceções da lei) e a intimação do Ministério Público e de todos os Estados e Municípios em que a requerente tiver estabelecimento” (COELHO, 2012, p. 432); e publica o despacho em edital, com informações de data, local e hora convocando a assembleia geral de credores. A suspensão das ações e execuções pelo despacho do juiz é temporária, tendo seus efeitos pelo prazo de 180 (cento e oitenta dias), conforme redação do artigo 6º, parágrafo 4º da Lei de Falências, ou caso haja a aprovação do plano de recuperação judicial (BRASIL, 2005).

A Fase Deliberativa começa com o despacho favorável ao processamento da recuperação judicial proferido pelo juiz, iniciando-se o prazo para os credores apresentarem habilitação e divergências e o administrador consolidar o quadro geral de credores, bem como, começa o prazo para o devedor apresentar o plano de recuperação judicial. Esse plano deve ser apresentado num prazo máximo de 60 (sessenta) dias da publicação do edital, devendo conter, segundo o artigo 53 da Lei de Falências: a discriminação pormenorizada dos meios de recuperação a ser empregados, conforme previsão do artigo 50 do referido diploma legal; a demonstração de sua viabilidade econômica; e o laudo econômico-financeiro e a avaliação dos bens e ativos do devedor, subscrito por profissional legalmente habilitado ou empresa especializada (BRASIL, 2005). O edital deve conter: a advertência quanto ao prazo de 15 (quinze) dias para a habilitação de créditos tempestivas; a advertência quanto ao prazo de 30 (trinta) dias para apresentação de objeção ao plano de recuperação, publicado em edital; a relação de credores do administrador judicial, conforme estabelece o artigo 7º, parágrafo 2º da Lei de

Falências, ou do próprio edital de aviso de apresentação do plano de recuperação, que deverá ocorrer no prazo de 60 (sessenta) dias da decisão (BRASIL, 2005). Esse plano deve indicar exatamente os meios pelos quais a empresa devedora vai adotar para superar as dificuldades financeiras, podendo os credores na assembleia geral apresentar alterações, conforme ensina Gomes (2007, p. 329), como segue:

O plano de recuperação judicial poderá, ainda, ser objeto de alterações propostas pelos credores na assembleia geral, conforme prevê o art. 56, § 3º, desde que haja expressa concordância do devedor e em termos que não impliquem diminuição dos direitos exclusivamente dos credores ausentes.

Cabe à assembleia geral de credores a discussão e votação do plano de recuperação judicial, podendo aprová-lo, caso em que o juiz concede o benefício da recuperação judicial; reprová-lo, caso em que o juiz profere a declaração de falência; ou haver votação significativa de aceitação ao plano, mas sem que se alcance o quórum para deliberação, caso em que o juiz tem a discricionariedade de aprovar ou não o plano de recuperação (COELHO, 2012).

Havendo a aprovação do plano, a empresa devedora deve apresentar certidões negativas dos créditos tributários, conforme define o artigo 57 da Lei de Falências. São os seguintes efeitos decorrentes da aprovação do plano de recuperação judicial: novação dos créditos anteriores ao pedido; sujeição do devedor e de todos os credores a ele sujeitos; constituição de título executivo judicial; obediência às regras impostas pela legislação falimentar na venda de unidades produtivas; e ampla publicidade quanto ao estado da empresa, nos documentos e registro, através da expressão “Em Recuperação Judicial” em todos os atos, contratos e documentos firmados pelo devedor e anotação da recuperação judicial no Registro Público de Empresas (BRASIL, 2005).

A Fase de Execução ocorre após a aprovação do plano de recuperação, quando se inicia seu cumprimento nos exatos termos que foram acordados entre devedor e os credores. Conforme preceito do artigo 61 da Lei de Falências, o devedor deve permanecer em recuperação por um prazo de até dois anos da concessão da recuperação, e caso aconteça descumprimento do plano pelo devedor, ocorrerá a sua conversão em falência e a restituição dos direitos e garantias dos credores originalmente contratados, como segue:

Art. 61. Proferida a decisão prevista no art. 58 desta Lei, o devedor permanecerá em recuperação judicial até que se cumpram todas as obrigações previstas no plano que se vencerem até 2 (dois) anos depois da concessão da recuperação judicial.

§ 1º Durante o período estabelecido no caput deste artigo, o descumprimento de qualquer obrigação prevista no plano acarretará a convolação da recuperação em falência, nos termos do art. 73 desta Lei. § 2º Decretada a falência, os credores terão reconstituídos seus direitos e garantias nas condições originalmente contratadas, deduzidos os valores eventualmente pagos e ressalvados os atos validamente praticados no âmbito da recuperação judicial.

(BRASIL, 2005).

Caso haja considerável mudança da situação econômico-financeira da empresa em recuperação judicial, pode o plano ser aditado, desde que a assembleia geral dos credores ratifique a mudança, conforme sustenta Coelho (2012, p. 435):

Não pode, porém, a lei iguinorar a hipótese de revisão do plano de recuperação, sempre que a condição econômico-financeira da sociedade devedora passar por considerável mudança. Nesse caso, admite-se o aditamento do plano de recuperação judicial, mediante retificação pela assembleia dos credores.

O devedor continua tendo capacidade de contrair obrigações, contudo, em caso de alienação ou oneração dos bens ou direitos pertencentes ao ativo da sociedade, deve comprovar a utilidade do ato para a recuperação judicial, mediante a autorização do juiz ouvindo o comitê de credores. Caso seja o devedor afastado da administração da empresa em recuperação, deve-se convocar a assembleia de credores para nomear o gestor judicial para assumir a administração da empresa durante a fase de recuperação (GOMES, 2007). Ocorrendo o cumprimento de todas as obrigações contraídas pelo devedor no plano de recuperação, esta será encerrada em sentença que determina o pagamento dos honorários do administrador judicial; apuração dos saldos das custas do processo de recuperação; apresentação do relatório do administrador judicial sobre o plano de recuperação, num prazo não prorrogável de 15 (quinze) dias; dissolução do comitê de credores; e, por fim, a retirada da expressão “Em Recuperação Judicial” da junta comercial que a empresa tiver registro.

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