4 POSSIBILIDADE DO PEDIDO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL AO PRODUTOR
4.2 CONCEITO DE PRODUTOR RURAL
4.2.1 Produtor rural sem registro na junta comercial
O produtor rural que exerce atividade rural sem registro na Junta Comercial não pode ser equiparado a empresário, por não preencher os requisitos previstos no artigo 968 do Código Civil. Salienta-se que é uma faculdade do produtor rural registrar-se ou não, sendo a inscrição ato pelo qual o equipara a empresário, passando a ter direito a todas as prerrogativas existentes na lei exclusivas para empresários, sendo uma delas a possibilidade de requerer a recuperação de empresa. Neste entendimento, salienta Cavalli e Ayoub (2017, p. 20):
[...] o Código Civil trouxe uma norma de transição em seu art. 971: os produtores rurais continuam a não ser caracterizados como empresário (isto é, continuam não sujeitos às normas empresariais), a menos que voluntariamente se submetam às normas empresariais, mediante inscrição na Junta Comercial.
O produtor rural que não efetuou o registro na junta comercial, não terá direito às prerrogativas legais previstas a empresários com registro. O Código Civil/2002, embora reconhecendo que os produtores rurais exercem atividades inequivocamente econômicas, deixou-os de fora do conceito de empresários, por meio de dois fundamentos, conforme salienta Cavalli e Ayoub (2017): um deles visa a proteção dos ativos dos produtores rurais em face dos credores na falência, evitando, desse modo, que os produtores rurais tenham que se registrar de uma hora para outra, para não ser considerados empresários irregulares, respondendo pelos créditos da empresa, de forma ilimitada, no caso de falência.
Coelho (2012, p.39) diz que se o produtor rural “[...] requerer sua inscrição na Junta Comercial, será considerado empresário e submeter-se-á às normas de Direito Comercial; caso, porém, não requeira a inscrição neste registro, não se considera empresário e seu regime será o do Direito Civil.”
4.2.2 Produtor rural com registro na junta comercial
O produtor rural que estiver registrado na Junta Comercial equipara-se a empresário para todos os efeitos legais. Percebe-se que o Código Civil, em seu artigo 971 trouxe ao produtor rural uma atenção especial, conforme salienta Coelho (2012, p. 39), como segue:
[...] o Código Civil reservou para o exercente de atividade rural um tratamento específico (art. 971). Se ele requerer sua inscrição nos registro das empresas (Junta Comercial), será considerado empresário e submeter- se-á às normas de Direito Comercial.
Nota-se então que o registro na Junta Comercial eleva o produtor rural ao status de empresário rural, sendo não um ato declaratório de atividade empresária, mas sim um ato constitutivo desta, que, a partir do momemento do registro, será considerada empresária e o produtor rural, passará a ser empresário rural para efeitos legais.
Um dos efeitos legais que o registro na Junta Comercial traz ao produtor rural é a possibilidade deste, desde que preencha os requisitos constantes no artigo 48 da Lei de Falências, requerer a concessão do benefício da recuperação judicial. Para requerer a recuperação judicial, é necessário, além do preenchimento de todos os requisitos legais, também que o requerimento da concessão do benefício seja feito por um empresário ou sociedade empresária, que exerça a empresa, regularmente, há mais de dois anos, como explica Souza (2005, apud CAVALLI e AYOUB, 2017, p. 19):
Para o devedor legitimar-se a postular recuperação judicial, não basta que ele seja qualificado como empresário ou sociedade empresária (CC, arts. 966 e 982), pois é necessário que o devedor empresário exerça regularmente, há mais de dois anos, a atividade empresarial (art. 48, caput, da LRF) e, cumulativamente, atenda aos demais requisitos apontados pelos incisos do art. 48 da LRF.
Percebe-se assim que o produtor rural que tiver efetuado o registro na Junta Comercial – se tornando um empresário rural – desde que preencha os requisitos legais para a concessão do benefício da recuperação e encontrando-se em crise econômico-financeira, poderá livremente requerer a recuperação de empresa, não havendo nenhum impedimento legal para negar o seu pedido.
Em igual sentido, em um julgado votou o Desembargador Romeu Ricupero na Câmara Reservada à Falência e Recuperação de empresas de São Paulo, e em seu voto o Desembargador disse que:
[...] empresário rural será tratado como empresário se assim o quiser, isto é, se se inscrever no Registro das Empresas, caso em que será considerado um empresário, igual aos outros”. “A opção pelo registro na Junta Comercial poderá se justificar para que, desfrutando da posição jurídica de empresário, o empresário rural possa se valer das figuras da recuperação judicial e da recuperação extrajudicial, que se apresentam como eficientes meios de viabilizar a reestruturação e preservação da atividade empresarial, instrumentos bem mais abrangentes e eficazes do que aquele posto à disposição do devedor civil (concordata civil – Código de Processo Civil, art. 783). Só a partir da opção pelo registro, estará o empresário rural sujeito integralmente ao regime aplicado ao empresário comum”) (SÃO PAULO, 2010).
Em suma, então, se o produtor rural estiver registrado na Junta Comercial – equiparando-se assim a empresário – preenchendo portanto o requisito de aplicabilidade previsto na Lei de Falência (Art. 1º), e ainda atendendo os requisitos legais do mesmo diploma legal (Art. 48) poderá requerer a concessão da recuperação tanto judicial quanto extrajudicial.
4.3 APLICAÇÃO DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL AO PRODUTOR RURAL
O produtor rural que exercer atividade empresária e que possuir registro na Junta Comercial pode se beneficiar do instituto da recuperação de empresa, tendo-se em vista que o Código Civil (Art. 971) permite a equiparação do produtor rural a empresário que passa a usufruir das prerrogativas do empresário. Entretanto, destaca-se que o referido registro é facultativo, pois o produtor rural pode optar ou não por registrar-se, devendo avaliar os pontos positivos e negativos de sua escolha.
Desse modo, enquadrado como empresário, o produtor rural poderia pleitear a recuperação de empresa, uma vez que esse instituto é de aplicação exclusiva ao empresário e à sociedade empresária. Contudo, para ter legitimidade ativa na recuperação de empresa, a empresa deve cumprir outros requisitos, assim como o produtor rural equiparado a empresário, conforme estabelece a Lei de Falência, como se passa a discorrer.
Registro na Junta Comercial: Constitui o primeiro requisito, pois é o que comprova a equiparação do produtor rural à classe de empresário ou de sociedade empresária. Nesse sentido, destacam-se as disposições da Lei de Falência e do Código Civil, no que tratam acerca desse requisito. Nesse sentido, a Lei de Falência (Art. 1º) estabelece que “esta Lei disciplina a recuperação judicial, a recuperação
extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária, doravante referidos simplesmente como devedor” (BRASIL, 2005); por sua vez, o Código Civil (Art. 971) dispõe que:
Art. 971. O empresário, cuja atividade rural constitua sua principal profissão, pode, observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que, depois de inscrito, ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a registro (BRASIL, 2002).
Por conta dessas disposições legais, o registro é o meio que equipara o produtor rural a empresário para qualquer efeito legal, a possibilidade de aplicação do citado instituto ao produtor rural que exerce atividade empresária, sujeita-se ao respectivo registro na Junta Comercial, não havendo a possibilidade de sua aplicação ao produtor rural que não tenha efetuado o registro. Sobre a necessidade do registro para a equiparação do produtor rural a empresário salienta Vido (2015, p. 66):
[...] a sociedade que tenha por objeto o exercício de atividade própria de empresário rural e seja constituída, ou transformada, de acordo com um dos tipos de sociedade empresária, pode, com as formalidades do art. 968, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da sua sede, caso em que, depois de inscrita, ficará equiparada, para todos os efeitos, à sociedade empresária.
Não ser falido ou declaração de extinção das obrigações: Refere-se à impossibilidade de pleitear a recuperação judicial daquele que se encontra com falência decretada, ou no caso de ter sido falido que não tenha ainda sido declaradas extintas todas as suas obrigações por sentença transitada e julgada, como estabelece a Lei de Falência (Art. 48, I) pelo qual:
Art. 48. Poderá requerer recuperação judicial o devedor que, no momento do pedido, exerça regularmente suas atividades há mais de 2 (dois) anos e que atenda aos seguintes requisitos, cumulativamente:
I – não ser falido e, se o foi, estejam declaradas extintas, por sentença transitada em julgado, as responsabilidades daí decorrentes [...] (BRASIL, 2005).
Não ter obtido a recuperação judicial: Trata-se da proibição de pedir a recuperação de empresa aquele que já teve a concessão judicial do instituto de recuperação judicial ordinária ou especial num prazo inferior que o de 5 (cinco) anos da data do novo pedido, de acordo com o que preceitua a Lei de Falência (Art. 48, II e III), pelos quais: “[...] II – não ter, há menos de 5 (cinco) anos, obtido concessão de recuperação judicial; III - não ter, há menos de 5 (cinco) anos, obtido concessão de recuperação judicial com base no plano especial [...]” (BRASIL, 2005).
Inexistência de condenação por crime falimentar: Consiste no requisito que veda a concessão da recuperação judicial ao devedor ou ao administrador ou sócio controlador que tenha sido condenados por crime falimentar, segundo o que dispõe a Lei de Falência (Art. 48, IV) pelo qual “[...] não ter sido condenado ou não ter, como administrador ou sócio controlador, pessoa condenada por qualquer dos crimes previstos nesta Lei [...]” (BRASIL, 2005).
Regularidade da atividade empresária por mais de 2 (dois) anos: Trata-se de requisito importante que a legislação falimentar estabeleceu (Art. 48, caput) pelo qual: “[...] Poderá requerer recuperação judicial o devedor que, no momento do pedido, exerça regularmente suas atividades há mais de 2 (dois) anos [...]” (BRASIL, 2005); esse requisito merece destaque, pois constitui a questão central desse estudo, uma vez que há divergência na doutrina e na jurisprudência a respeito do início de sua contagem, no caso do produtor rural: se do início de fato da atividade empresária ou se da data do registro na Junta Comercial, como se abordará no tópico seguinte.
4.4 COMPROVAÇÃO DO EXERCÍCIO REGULAR DA ATIVIDADE RURAL POR DOIS ANOS NO MOMENTO DO PEDIDO
O exercício regular da atividade empresária por 2 (dois) anos é um requisito pelo qual deve-se atentar, tendo em vista que a redação do artigo da legislação falimentar não ficou suficientemente clara, quanto à data de início de contagem do prazo, quando de sua aplicação ao produtor rural que se equipara à empresário mediante o registro na Junta Comercial. Destaca-se que o produtor rural
quando efetua o registro, já atuava como se empresário fosse, antes da data do citado registro, o que vem gerando divergências na doutrina e na Jurisprudência.
Reforçando, assim dispõe a Lei Falimentar (Art. 48, caput): “Poderá requerer recuperação judicial o devedor que, no momento do pedido, exerça regularmente suas atividades há mais de 2 (dois) anos [...]” (BRASIL, 2005).
Nesse sentido, Gomes (2007) salienta que a concessão do benefício da recuperação de empresa requer que o requerente (empresário ou sociedade empresária) exerça de forma regular sua atividade empresária há mais de 2 (dois) anos, entendendo, dessa forma, que o referido prazo deve iniciar a contagem da data do efetivo registro no órgão competente, uma vez que para um produtor rural adquirir o status de empresário rural e usufruir de suas prerrogativas, faz-se necessário o registro.
Nessa mesma linha de pensamento, Vido (2015) destaca que, antes existia a dúvida sobre a possibilidade ou não de aplicação do instituto da recuperação de empresa ao produtor rural; agora, a dúvida é sobre a data do início da contagem do prazo bienal do exercício da atividade empresarial, porém explica que a atividade empresária deve estar regular pelo prazo bienal estabelecido na legislação falimentar (Art. 48, caput) para fazer jus ao benefício da recuperação de empresa; para ser considerada regular a empresa deve estar devidamente registrada na Junta Comercial.
Sendo assim, a autora entende que o prazo mínimo de 2 (dois) anos no exercício regular da atividade deve contar da data do registro no órgão competente, pois é a partir deste momento que o devedor adquire regularidade no exercício da atividade empresarial, fazendo jus a todas as prerrogativas de empresário, inclusive o benefício da recuperação de empresa, desde que preenchidos os demais requisitos da legislação falimentar.
Ademais, Vido (2015, p. 442) explica que:
[...] o devedor necessariamente precisa exercer atividade empresarial, ou seja, os profissionais liberais, as sociedades simples e as cooperativas não poderão ser beneficiadas pela recuperação de empresas, já que não exercem atividade empresária. Além disso, a atividade empresarial precisa ser regular, o que significa que a atividade deve ter sido registrada na Junta Comercial, ou seja, o empresário irregular, a sociedade comum e a sociedade em conta de participação não poderão pleitear a recuperação judicial. Outra questão relevante sobre este requisito, é que o devedor precisa demonstrar a regularidade da atividade no prazo mínimo de 2 anos,
o que significa que além dos registros, os livros autenticados desse período demonstrarão a continuidade da atividade [...]
Já, Buranello (2016, apud CAETANO, 2018) explica que um dos motivos da existência do prazo bienal para o pedido de recuperação de empresa é o de evitar que devedores que exerçam há pouco tempo a atividade empresária utilizem- se de maneira ardilosa do instituto para postergar o pagamento de dívidas; no caso do produtor rural, entende que essa atividade está sujeita a diversos fatores que estão fora do controle do produtor, mas que não são capazes de imediatamente decretar um estado de crise econômico-financeira da empresa, conforme expõe:
É notório que uma crise empresarial não surge de forma abrupta, repentina.Trata-se de um processo contínuo de endividamento e dificuldade em honrar seus compromissos, até alcançar um momento em que o empresário ou mesmo a empresa não possui mais condições de continuar suas atividades sem que haja reestruturação de suas dívidas. Transportando este pensamento para a atividade rural, é amplamente sabido que esta atividade está sujeita a diversos fatores que estão fora do controle do produtor, como o excesso de chuvas, pragas, doenças, seca, dentre outros fatores que podem ser determinantes para o sucesso ou insucesso da produção, bem como risco de, por exemplo, flutuações de preço das commodities, já que precificadas nas bolsas de mercadorias e futuros. Contudo, a quebra de uma safra, por exemplo, não é capaz de imediatamente decretar um estado de crise da empresa, principalmente para produtores rurais que diversificam sua produção e movimentam grandes volumes financeiros. A necessidade de ingressar com um pedido de recuperação judicial não decorre, portanto, de um fato isolado, mas sim de uma conjunção de fatores de longo prazo, por vezes imprevisíveis, que acarretaram na delicada situação econômica de uma empresa. Neste sentido, o prazo de 2 (dois) anos imposto pelo art. 48 da Lei 11.101/2005 tem como objetivo principal evitar que este instituto seja utilizado por devedores mal-intencionados, que demonstram incapacidade em gerir a atividade (Buranello, 2016, apud CAETANO, 2018).
Para Campino (2009, apud CAETANO, 2018) ainda que o produtor rural esteja exercendo a atividade empresarial há mais de 2 (dois) anos antes do registro ou do pedido de recuperação, o prazo bienal deve ser contado da data do efetivo registro na Junta Comercial, não do exercício da atividade laborativa em si; no momento do ajuizamento de seu pedido deve demonstrar que exerce de forma regular sua atividade por mais de dois anos, através da exibição da certidão passada pelo órgão competente, pois os empresários de fato ou irregulares, entendidos como sendo aqueles que não têm personalidade jurídica, estão proibidos de requerer a recuperação judicial. No caso do produtor rural, mesmo que há mais de dois anos esteja exercendo sua atividade econômica em moldes empresariais,
somente poderá fazer uso do pedido de recuperação judicial se o seu registro na Junta Comercial distar de mais de dois anos, sendo que não estaria atendida a condição legal do exercício regular da atividade, conforme descreve:
No momento do ajuizamento de seu pedido, necessita o devedor empresário demonstrar que exerce de forma regular a sua atividade em prazo maior que dois anos. A prova prima facie a ser produzida resulta na exibição, pelo empresário individual, de certidão passada pela Junta Comercial de sua inscrição e, pela sociedade empresária, de igual certidão de registro de seu contrato social ou estatuto, conforme o caso. Em face dessa exigência legal, estão proibidos de requerer recuperação judicial os denominados empresários de fato ou irregulares, expressão consagrada para aqueles que exercem a atividade sem registro, muito embora passíveis de falência. [...] Da conclusão insta, portanto, salientar a situação especial do empresário rural. Consoante os art.s 971 e 984 do Código Civil de 2002, é a ele facultado, seja pessoa natural ou jurídica, requerer sua inscrição no Registro Público de Empresas de sua sede, caso em que, depois de inscrito, ficará equiparado ao empresário sujeito a registro para todos os efeitos legais. Mesmo que há mais de dois anos viesse de fato exercendo sua atividade econômica em moldes empresariais, somente poderá fazer uso do pedido de recuperação judicial se o seu registro na Junta Comercial distar de mais de dois anos, sem o que não estaria atendida a condição legal do exercício regular da atividade (Campino, 2009, apud CAETANO, 2018).
Nesse mesmo entendimento, manifesta-se Coelho (2013, apud CAETANO, 2018) afirmando que o produtor rural que se inscreve na Junta Comercial como empresário quando está em crise econômico-financeira não tem direito a requerer a recuperação judicial, como leciona:
Deste modo, o exercente de atividade rural que, ao enfrentar dificuldades, vai ao Registro Público de Empresas Mercantis requerer a inscrição como empresário visando ingressar, em seguida, com o pedido de recuperação judicial, não terá direito a esta. Em síntese, o exercente de atividade rural, seja pessoa física ou jurídica, só tem direito à recuperação judicial se já estiver inscrito no Registro Público de Empresas Mercantis há pelo menos dois anos (Coelho, 2013, apud CAETANO, 2018).
Diante do exposto, percebe-se que prevalece o entendimento na doutrina de que o prazo bienal definido na legislação falimentar deve ser contado a partir do registro da atividade empresarial na Junta Comercial, sendo que, no caso do produtor rural, mesmo que a atividade laborativa de fato já fosse exercida pelo produtor rural há mais de dois anos antes da efetuação do registro.
Todavia, os Tribunais demonstram entendimentos divergentes quanto ao assunto, pois alguns julgados manifestaram-se a favor de que o biênio da atividade laborativa de fato é suficiente para a demonstração de legitimidade para o
requerimento e processamento da recuperação da empresa; outros não, devendo o prazo de dois anos ser contado a partir do registro na Junta Comercial.
Desse modo, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo manifestou entendimento favorável ao processamento da recuperação judicial, argumentando que não há razão para iniciar a contagem a partir da data do citado registro no órgão competente, tornando-se irrelevante a proximidade entre as data de ajuizamento do feito e da prévia inscrição do produtor rural como empresário individual na Junta Comercial, pois a regularidade da atividade empresarial pelo biênio mínimo estabelecido na legislação falimentar deve ser aferida pela constatação da manutenção e continuidade de seu exercício, e não a partir da prova da existência de registro do produtor rural por aquele lapso temporal, como se pode constatar na decisão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, como segue:
Competência. Competência recursal. Prevenção. Câmaras pertencentes a diferentes Seções de Direito Privado. Inocorrência. Inteligência do disposto nos artigos 103 e seguintes do Regimento Interno deste E. Tribunal de Justiça e artigos 5º, II.3, e 6º, caput, da Resolução TJSP nº 623/2013. Impossibilidade desta Câmara Reservada de Direito Empresarial, integrada à Primeira Subseção da Seção de Direito Privado, apreciar e julgar agravos das partes oriundos de execuções por títulos extrajudiciais, cuja matéria está compreendida na competência da Segunda Subseção da Seção de Direito Privado. Recurso. Agravo de instrumento. Pressupostos de admissibilidade. Tempestividade. Atendimento. Comprovação de que a agravante tomou conhecimento do processo de recuperação judicial com a notícia de sua distribuição nos autos das execuções ajuizadas contra os agravados. Recuperação judicial. Requerimento por produtores rurais em atividade por prazo superior àquele de 2 (dois) anos exigido pelo artigo 48, caput, da Lei nº 11.101/2005, integrantes de grupo econômico na condição de empresários individuais respaldados pelos artigos 966 e 971 do Código Civil e/ou de sócios das sociedades coautoras. Legitimidade reconhecida. Irrelevância da alegada proximidade entre as datas de ajuizamento do feito e das prévias inscrições dos produtores rurais como empresários individuais na Junta Comercial do Estado de São Paulo. Firme entendimento