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2.3 EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE CIVIL

2.3.6 Fato de terceiro

Por sua vez, o fato de terceiro tem o condão de excluir a responsabilização do causador direito do dano. Isso se dá porque, por vezes, quem realmente deu causa foi, exclusivamente, um terceiro, alguém distante da “relação” da vítima e do causador do dano (VENOSA, 2005, p. 64).

Contrariamente, Gonçalves sustenta que, no estudo do fato de terceiro, “predomina o princípio da obrigatoriedade do causador direto em reparar o dano. A culpa de terceiro não exonera o autor direto do dano do dever jurídico de indenizar”, justificativa essa encontrada nos artigos que tratam sobre o estado de necessidade, sendo eles o 929 e o 930 do Código Civil (2017, p. 540).

Todavia, prefere-se o entendimento de Glagliano e Pamplona Filho, os quais afirmam que o fato de terceiro não se confunde com o estado de necessidade, pois neste o sujeito

28 “Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendo- se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano” (BRASIL, CC, 2019).

age com o objetivo de livrar-se do perigo, enquanto que naquele há um rompimento integral do nexo causal entre a vítima e o causador direto, subsistindo o direito de ressarcimento da vítima em desfavor do terceiro (2019, p. 29).

Além disso, há quem defenda que essa excludente de responsabilidade caracteriza- se como um caso fortuito ou força maior. Porém, Nader concorda parcialmente com essa assertiva, sob o argumento que, mesmo sendo isento o causador direto, haveria a responsabilização por parte do terceiro (2016, p. 137).

E sob esse prisma, Gonçalves diz que o fato de terceiro poderá excluir a responsabilidade quando possuir as características do caso fortuito e da força maior, ou seja, ser imprevisível e inevitável (2017, p. 540).

Por outro lado, como afirmam Gagliano e Pamplona, assim como na doutrina, não há um entendimento sólido na jurisprudência. Dentro das diversas hipóteses, destaca-se o caso da súmula 18729 do Supremo Tribunal Federal, entendimento previsto no artigo 735 do Código Civil, o qual diz que qualquer transportador será responsável pelo ressarcimento do prejuízo de seus passageiros causado por acidente provocado por um terceiro, havendo a possibilidade de ação regressiva. Ressalvados esses casos pontuais, há quem defenda a possibilidade de denunciação da lide do causador direto do dano contra o terceiro, assim exonerar-se-ia da demanda judicial (2019, p. 179-181).

29 “A responsabilidade contratual do transportador, pelo acidente com o passageiro, não é elidida por culpa de terceiro, contra o qual tem ação regressiva” (BRASIL, STF, 1963).

3 RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO

Assim como pessoas comuns podem causar danos umas às outras, as pessoas jurídicas de direito privado tal qual o poder público, por consequência de ações ou de omissões de seus agentes, também poderá prejudicar um bem tutelado de um particular e, do mesmo modo que as pessoas físicas, terão o dever de reparar o prejuízo.

Dito isso, as responsabilidades do campo privado e do campo público apresentam certas consonâncias no que tange a suas regras de causalidade, pois, apesar dos impasses das suas aplicações, a responsabilidade do Estado sujeita-se aos princípios gerais já estudados da responsabilidade civil (CRETELLA JÚNIOR, 2002, p. 26).

Lembramos ainda que toda responsabilidade conta com: a) um causador do dano; b) uma vítima; c) a relação de causalidade entre a conduta e o dano; e d) um prejuízo. Assim, tanto no âmbito privado quanto no âmbito público, a origem do dano que acarreta a responsabilização é o homem, o qual, no que tange à Administração Pública, diz respeito aos funcionários públicos (CRETELLA JÚNIOR, 2002, p. 7-12).

Contudo, Meirelles adverte que não podemos “equiparar” a administração pública ao particular, visto que aquela é dotada de autoridade e prerrogativas públicas, não sendo aplicados, por exemplo, “os princípios subjetivos da culpa civil para a responsabilização da Administração pelos danos causados aos administrados” (2016, p. 780).

Paralelamente, Mello (2010, p. 996-997) ressalta que o Estado possui obrigação de exercer suas atividades em diferentes cenários, com o uso legal da força, afetando inúmeras pessoas. Assim, os possíveis danos causados por ele ameaçam à coletividade por serem muito mais intensos em comparação a um dano causado por um particular, justamente pelo fato da magnitude de seus efeitos.

Desse modo, o presente capítulo tem como objetivo estudar as principais indagações que rodeiam o instituto da responsabilidade civil do Estado. Antes disso, cabe-nos discorrer acerca do termo “responsabilidade civil do Estado”, visto que essa nomenclatura não é usada unanimemente pela doutrina.

Para Meirelles (2016, p. 779), o mais adequado seria o uso da expressão “responsabilidade civil da Administração Pública”, visto que a responsabilidade nasce de ações da Administração Pública e não de ações do Estado como entidade política, pois neste não poderíamos falar em responsabilização.

Por outro lado, Di Pietro pondera que a responsabilização estatal pode surgir de qualquer uma das três funções da administração pública: a) a administrativa; b) a jurisdicional; e c) a legislativa. Porém, em qualquer um dos três poderes “[...] a responsabilidade é do Estado, pessoa jurídica; por isso é errado falar em responsabilidade da Administração Pública, já que esta não tem personalidade jurídica, não é titular de direitos e obrigações na ordem civil” (2019, p. 1453). O que é defendido por Cavalieri Filho (2012, p. 252-253), pois a capacidade é do Estado e das pessoas jurídicas, públicas ou privadas, que exercem partes das atribuições estatais. No que tange ao termo “civil”, Cretella Júnior diz que o mais adequado seria o uso da expressão “responsabilidade do Estado”, já que ao poder público, como pessoa jurídica, jamais poderá ser imputada a responsabilidade penal, disciplinar ou contábil, cabendo-lhe meramente a responsabilização patrimonial (civil) (2002, p. 53).

Cabe destacar que a delimitação deste capítulo é necessária, assim, priorizamos o estudo da responsabilidade extracontratual do Estado, enquanto a contratual30 submete-se a princípios e regras dos contratos administrativos.

Assim, Meirelles conceitua a responsabilidade extracontratual do Estado como “a que impõe à Fazenda Pública a obrigação de compor o dano causado a terceiros por agentes públicos, no desempenho de suas atribuições ou a pretexto de exercê-las” (2016, p. 789).

No que diz respeito a essa modalidade de responsabilidade estatal, o dever indenizatório pode surgir de atos jurídicos, de atos ilícitos, de comportamentos concretos ou de omissões, sendo necessário que o terceiro tenha um prejuízo advindo de um ato de omissão ou comissão do agente estatal (DI PIETRO, 2019, p. 1453).

A autora ressalta, na sequência, que, no âmbito do direito administrativo, há hipóteses em que até mesmo um ato lícito atribuirá a responsabilização do poder público, o que não acontece no direito privado, no qual o requisito da ilegalidade é essencial (DI PIETRO, 2019, p. 1453).

Dessa forma, Mello classifica a fundamentação da responsabilidade estatal em biparte: a) atos ilícitos; e b) atos lícitos. De início, fala-se em atos ilícitos, os quais derivam da ação ou da omissão do agente do Estado, podendo ser jurídicos ou materiais. Nesse caso, o princípio norteador é o da legalidade, já que o ato descumprirá diretamente um dispositivo legal, juntamente com o princípio da igualdade em casos de atos comissivos (2010, p. 1007).

Os atos lícitos baseiam-se no princípio da isonomia, pois há políticas públicas que, apesar de beneficiarem a coletividade, acabam gerando danos a terceiros, e, nada mais justo do que onerar o Estado por atividades por ele desempenhadas. Ou seja, distribuir o ônus financeiro de formar a igualar os encargos públicos entre os cidadãos (DINIZ, 2007, p. 613).

Porém, Mello salienta que, em situações específicas, a lei permite que a administração lese um direito alheio em troca de um benefício público. É o caso, por exemplo, do nivelamento de uma rua, no qual, mesmo com “[...] todas as cautelas e rigores técnicos, algumas casas ficarão, inevitavelmente, abaixo ou acima do nível da rua [...]”. Isto é, “[...] a norma autorizadora não tem em vista qualquer sacrifício de direito. O direito de alguém é atingido [...] como seqüela [sic] de uma atividade legítima que tinha em mira satisfazer outro interesse jurídico” (2010, p. 995-996).

Diferentemente, para alguns, é o caso da autorização legal do sacrifício de um bem jurídico alheio, por exemplo, a desapropriação. Nas palavras de Oliveira:

Na responsabilidade civil, a lesão aos direitos de terceiros é efeito reflexo da atuação estatal, lícita ou ilícita. Por outro lado, o sacrifício de direitos compreende atuação estatal, autorizada pelo ordenamento, que tem por objetivo principal (direto) restringir ou extinguir direitos de terceiros, mediante pagamento de indenização (2017, p. 867, grifo nosso).

Porém, como defende Mello, ambas as hipóteses estariam enquadradas como casos de sacrifícios de direito, sucedidas de indenização, mas estariam excluídos do campo da responsabilização “apenas os casos em que o Direito confere à Administração poder jurídico

diretamente preordenado ao sacrifício do direito de outrem” (2010, p. 996, grifo do autor).

Assim, devido à imensa disparidade e discussão doutrinária a respeito do tema, o conceito da responsabilidade do Estado por atos lícitos talvez possa ser definido como uma consequência de ações do poder público, legítimas na sua essência e prejudiciais na sua materialização (MELLO, 2010, p. 995).

Superada essa discussão, far-se-á necessário discutir a evolução histórica da responsabilidade civil do Estado, que, apesar do disposto nos artigos 37, §6º31, da Constituição

31“Art. 37 [...] §6ºAs pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos

responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa” (BRASIL, CRFB, 2019).

Federal e 4332 do Código Civil, os quais classificam a responsabilidade civil do Estado como objetiva, durante muito tempo não foi essa a teoria adotada. Para Di Pietro, “o tema da responsabilidade civil do Estado tem recebido tratamento diverso no tempo e no espaço; inúmeras teorias têm sido elaboradas, inexistindo dentro de um mesmo direito uniformidade de regime jurídico que abranja todas as hipóteses” (2019, p. 1455). Em vista disso, estudaremos a evolução do instituto.

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