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Fator de risco RR ou OR

No documento Rotinas Em Neurologia - Chaves - 1ed (OCR) (páginas 119-122)

Idade (cada 1 O anos) 1 ,97

Sexo masculino 3,73

3,68

Alto consumo de álcool 3,36

Tabagismo ativo 1 ,31

Diabete 1 ,30

RR, risco relativo; OR, Odds Ratio.

da região suprida pela artéria cerebral média; o aumento na gravidade do AVC isquêmico ( escala do

NIHS S

mais elevada na chegada); a idade avançada; os níveis pressóricos elevados pré-trata­ mento trombolítico; o diabete melito ou a elevação nos níveis de glicose na chegada; e a baixa conta­ gem de plaquetas (Tanne et al.,

2002 ).

Fisiopatologia

A

HIC

compreende três fases: ruptura arterial, for­ mação do hematoma e edema peri-hematoma. A

HIC

é conseqüência da ruptura de pequenas ar­ térias penetrantes, resultante geralmente de dano causado por hipertensão arterial (hialinose ou lipo-hialinose), que reduz a complacência dos va­

sos, ou da ruptura de ramos piais, no caso da an­ giopatia amilóide associada a necrose fibrinóide. A localização mais comum é nos gânglios da base

( cápsula externa-putame, cápsula interna-tálamo e substância branca profunda adjacente especial­ mente nos lobos frontal, temporal e occipital), na profundidade do cerebelo e na parte central da ponte. O sangue pode se disseminar pelo espaço intraventricular, o que aumenta substancialmente a morbidade e pode causar hidrocefalia.

Quando as hemorragias ocorrem em outras áreas do cérebro ou em pacientes não-hipertensos, elas podem dever-se a distúrbios hemorrágicos,

AVC hemorrágico

neoplasias, malf armações vasculares, entre outras causas.

A HIC raramente apresenta-se associada a he­ morragia subaracnóidea ou hematoma subdural, exceto em casos de trauma, malformação arterio­ venosa, aneurisma ou fístula dural.

Até recentemente, a HIC era considerada uma doença monofásica, quando se demonstrou que 26% do aumento do hematoma acontecem dentro da primeira hora, e 40%, dentro de 24 horas. Entre os fatores que contribuem para o aumento do he­ matoma, estão doença hepática, diabete, níveis pressóricos muito elevados na admissão, abuso de álcool e hipofibrinogenemia. Entre os marca­ dores inflamatórios e moleculares, estão IL-6, TNF-alpha, MMP-9 e fibronectina celular. Podem ser descritas, pelo menos, quatro formas para o aumento do hematoma: sangramento contínuo devido à ruptura da arteríola, ressangramento da própria arteríola, sangramento principalmente pe­ las veias comprimidas ao redor e defeitos locais de coagulação.

O edema deve-se ao efeito vasogênico de subs­ tâncias osmóticas ativas do coágulo (proteínas, eletrólitos ) . Começa imediatamente após o san­ gramento e tem pico em quatro a cinco dias. A duração do edema pode ser de duas a quatro se­ manas, dependendo do volume hemorrágico.

Por meio da ressonância magnética, pode-se observar uma área hipoperfusional ao redor do hematoma, que havia sido definida como penum­ bra. Atualmente questiona-se esse conceito (Fer­ ro, 2006 ) .

Quadro clínico

Na fase inicial, o paciente apresenta-se com súbita alteração da consciência, dor de cabeça, náuseas,

" . " . " . . .

vomitas e n1ve1s pressor1cos arter1a1s extrema-

mente elevados. Apesar de os sinais e os sintomas citados serem mais comuns no AVC hemorrágico do que nos outros subtipos de AVC, a identificação do subtipo de AVC somente é feita com segurança após o exame de imagem, geralmente TCC, sem necessidade do uso do contraste, ou ressonância magnética de encéfalo ( NE I, G

R

A). Pela f acili­ dade e pela rapidez, geralmente é realizada a TCC. Dependendo da localização do hematoma, o pa­ ciente pode apresentar-se com hemiparesia, afa-

sia, hemianopsia ou outro sinal focal. O risco de deterioração neurológica rápida e de instabilidade cardiopulmonar é alto, sendo muito importante a identificação de marcadores de prognóstico nas primeiras horas para definição de plano e nível de cuidado para os pacientes. O AVC hemorrági­ co é uma emergência médica. O volume do he­ matoma, a graduação na escala de Glasgow e a hidrocefalia são importantes preditores de morta­ lidade nos primeiros 30 dias ( Broderick et al.,

2007).

Na avaliação clínica inicial do paciente, é fun­ damental observar os sintomas de apresentação do quadro, além de questionar sobre o que o pa­ ciente estava fazendo no início dos sintomas, o tempo de início, a idade, a presença de trauma, hipertensão, diabete e tabagismo, o uso de álcool ou a possibilidade de uso de outras drogas, como cocaína. O questionamento sobre medicações, principalmente anticoagulantes como warfarin ou antiagregantes plaquetários, é muito importante na análise da etiologia do evento. Também se deve investigar a possibilidade de doenças hematoló­ gicas ou hepáticas que possam causar alteração de coagulação. O exame físico é focalizado no nível de consciência e nos déficits neurológicos; logo após é necessário avaliar via aérea e ventilação, circulação e sinais vitais. Os exames de rotina rea­ lizados são hemograma completo, exame de ele­ trólitos, uréia, creatinina, glicose, tempo de pro­ trombina com RNI e tempo de tromboplastina parcial ativado, eletrocardiograma e raio X de tó­ rax (Broderick et al., 2007) .

Uma escala clínica simples ( escore HIC ), que utiliza como parâmetros a escala de coma de Glas­ gow, a idade do paciente, o sítio infratentorial, o volume do sangramento e a presença de sangue intraventricular, é empregada para predizer a mor­ talidade em 30 dias (Figura 9 .6). O uso dessa esca­ la pode auxiliar na padronização dos protocolos de atendimento clínico, contribuindo para a reali­ zação de futuros estudos com melhor definição terapêutica ( Hemphill et al., 2001 ) .

A realização de angiotomografia nas primeiras três horas do início do quadro, além de poder defi­ nir a etiologia do sangramento (aneurisma ou malf armação arteriovenosa), pode demonstrar

um minúsculo sinal de realce

(spot sign ) .

Esse sinal

100 - '#. _.. cn Cll 80 "O o (") 60 E Q) Q) "O Cll 40 Cll t:: o 20 � o Escore Overall o 1 2 3 4

HIC

n = 1 52 n=26 n=32 n=27 n=32 n=29

Rotinas em neurologia e neurocirurgia

5 n=6

Componente

Pontos no

escore

Escala de 3-4 2 Glasgow 5-12 1 13-15 o Volume de > 30 1 HIC (cm3) < 30 o Sangue Sim 1

intraventricu lar Não o HIC de origem Sim 1

infratentorial Não o

Idade (anos) > 80 1

< 80 o

Escore total HIC

0-6

[

Figura

9.6 ]

Escore HIC (adaptada de Hemphill et ai., 2001).

e com alto valor preditivo, à expansão do hemato­ ma. Poucos pacientes que têm esse sinal têm boa evolução clínica ( escore na escala modificada de Rankin < 2 ) . A presença desse marcador radioló­ gico ainda necessita ser validada em estudos de coorte (Wada et al., 2007) .

Tratamento

Em contraste com os inúmeros avanços obtidos no tratamento do AVC isquêmico e da HSA, o tra­ tamento no AVC hemorrágico ainda é primaria­ mente focado em suporte ventilatório, manejo da pressão arterial, monitoração da hipertensão in­

tracraniana, osmoterapia, controle da temperatu­ ra, profilaxia das crises convulsivas e suplemento nutricional. O reconhecimento rápido e o diag­ nóstico precoce são fundamentais devido ao risco

freqüente de progressão rápida do hematoma, com diminuição do rúvel de consciência. São fundamen­ tais, também, para o planejamento do rúvel de cui­ dado do paciente, com conseqüente indicação ci­ rúrgica. O escore HIC ajuda nesse momento de de­

finição terapêutica ( Cheung; Zou, 2003 ).

Os potenciais tratamentos são os seguintes: cessação total ou redução do sangramento duran­ te as primeiras horas após seu início; remoção do

sangue do parênquima ou dos ventrículos, elimi­ nando, assim, fatores químicos ou mecânicos que causam a lesão cerebral; manejo das complicações do sangramento, como aumento da pressão intra­ craniana e redução da pressão de perfusão cere­ bral; ótimo manejo clínico do paciente com manu­ tenção da via aérea, da oxigenação, da circulação, dos rúveis glicêmicos, da temperatura e da nutri­ ção; e profilaxia da trombose venosa profunda.

O fator VII recombinante ativado (rFVIIa) está aprovado para o tratamento de pacientes com he­ mofilia. O rFVIIa, resumidamente, estimula a pro­ dução de trombina, que converte o fibrinogênio em fibrina e estabiliza o coágulo. No estudo de fase II para determinação da dose do tratamento em pacientes com AVC hemorrágico (40, 80 e 160

µg/kg), com 399 pacientes com até quatro horas do início do sangramento, quando o rFVIIa foi comparado ao placebo, foram observadas redução no volume do hematoma, redução na taxa de mor­

AVC hemorrágico

pacientes em

90

dias, com pequeno aumento de

eventos adversos tromboembólicos. Com esses re­ sultados, começou-se o estudo de fase III, cujos

resultados foram apresentados em

2007,

em que

se observou uma redução significativa no volume do hematoma, porém sem benefício no desfecho clínico (melhora funcional ou redução da mortali­

dade) ( Mayer,

2007).

Os níveis pressóricos ideais no cuidado dos pa­ cientes são baseados em fatores individuais, como presença de hipertensão crônica, pressão intra­

craniana, idade, etiologia do sangramento e tem­ po de início do sangramento. Teoricamente, a ele­ vação da pressão arterial favorece o risco de san­

gramento das pequenas artérias e arteríolas nas primeiras horas. Entre os benefícios do tratamen­ to, estão a redução do edema local e a limitação do crescimento precoce do hematoma. Entre os potenciais riscos, estão o agravamento da isque­ mia perilesional e a redução no fluxo sangüíneo

cerebral pela redução da pressão de perfusão ce­ rebral. Em

2005,

começou-se o estudo Tratamento Anti-Hipertensivo em Pacientes com AVC Hemor­ rágico (ATACH - Antihypertensive Treatment in Acute Cerebral Hemorrhage), em que os pacientes foram divididos em três faixas de níveis pressóri­ cos:

170

a

200, 140

a

170

e

1 10

a

140

mmHg. Buscam-se níveis pressóricos inferiores ou iguais a

180

mmHg ou pressão arterial média inferior

Quadro

9.3

ou igual a

130

mmHg (Broderick et al.,

2007)

( Quadro

9.3 ).

O uso de corticóide não está indicado por não ter demonstrado benefícios. O estudo STICH (In­ ternational Surgical Trial in Intracerebral Hemor­ rhage) não demonstrou redução no prognóstico funcional ou aumento na mortalidade com a ci­ rurgia realizada dentro de

72

horas do início do evento, comparando a cirurgia ao melhor trata­ mento clínico. Permanece a dúvida quanto ao tra­ tamento cirúrgico ultraprecoce.

O prognóstico é fortemente determinado pela gravidade inicial do evento, sendo a mortalidade e a morbidade elevadas. Como o regime de trata­ mento ainda é pobre, é fundamental o controle de fatores de risco. A presença de sangue intra­ ventricular pode aumentar a mortalidade em

30

dias em até cinco vezes.

O desafio no AVC hemorrágico é encontrar tra­ tamento que reduza a morbidade dessa doença, já que até hoje somente se conseguiu reduzir mor­

talidade com alto grau de incapacidade.

Recomendações para o tratamento clínico

No documento Rotinas Em Neurologia - Chaves - 1ed (OCR) (páginas 119-122)