DE TRANSPORTE DE MASSA
3.2 FATORES CONDICIONANTES DE ENCHENTES E INUNDAÇÕES
Segundo Brasil (2010) os processos de enchentes e inundações têm como fatores condicionantes os fatores naturais e antrópicos. A frequência de ocorrência depende da tipologia e da dinâmica do escoamento superficial. Os fatores naturais podem ser: climáticos (pluviometria) e; geomorfológicos (relevo, tamanho e forma da bacia e dos vales, gradiente hidráulico do rio). Os fatores antrópicos, principalmente em áreas urbanas, têm sido grande determinante da ocorrência de enchentes e inundações, são eles: desmatamento; exposição dos terrenos à erosão, o que provoca por sua vez o assoreamento dos cursos de água; intervenções nos cursos de água; ocupação desordenada dos terrenos marginais.
3.2.1 - Fatores naturais
A precipitação, principal fenômeno gerador de enchentes, é gerada por condições meteorológicas que não podem ser controladas e podem ocorrer de forma aleatória no tempo e no espaço. Em longo prazo, a sua ocorrência e sua magnitude não podem ser previstas, mas estimadas em função dos dados históricos disponíveis e das alterações que ocorrem no uso e ocupação da terra da bacia hidrográfica (BRASIL, 2007b).
De acordo com Ramos (2009) as chuvas podem ser de dois tipos: ou são contínuas e prolongadas, podendo até não atingir grande intensidade (originam neste caso cheias lentas e a subida do lençol freático, com inundação de áreas deprimidas), ou são concentradas no tempo e no espaço, mas de grande intensidade (dando origem às cheias rápidas e às inundações urbanas).
Mudança climática é outra tendência global de larga escala percebida como tendo impacto significativo sobre o risco de inundação. As alterações nos padrões meteorológicos que
estão associados com um clima mais quente são potencialmente causadoras de maiores inundações bem como impactos diretos e indiretos associados (JHA et al., 2012).
Tucci (2003) elenca que a cobertura vegetal tem como efeito a interceptação de parte da precipitação que pode gerar escoamento e assim protege o solo contra a erosão. A perda desta cobertura tem produzido como consequência processos erosivos, assoreamento dos rios que repercutem no aumento da frequência de inundações.
As características do solo também influenciam neste processo, para uma dada chuva, quanto maior a capacidade de infiltração do solo, menor o escoamento superficial resultante. A permeabilidade do solo influi diretamente na capacidade de infiltração, isto é, quanto mais permeável for o solo, maior será a velocidade do escoamento da água subterrânea e, em consequência, maior a quantidade de água que ele poderá absorver pela superfície por unidade de tempo. Assim, ao aumento da permeabilidade do solo corresponde uma diminuição do volume do escoamento superficial e consequentemente diminui a probabilidade de uma inundação (Lima, 2010).
Vedovello (1996) cita que o conhecimento das características do revelo, como amplitude, declividade e a forma das encostas, é essencial para a compreensão dos processos de inundação. Botelho (2005) destaca que algumas características essenciais da paisagem devem ser identificadas, pois influenciam no processo, tais como ambientes de acumulação e transporte, afloramentos rochosos, depósitos de talús, rampas de colúvio, terraços, planícies de inundação, feições antrópicas, etc.
Os rios normalmente drenam nas suas cabeceiras, áreas com grandes declividades produzindo escoamento de alta velocidade. A variação de nível durante a enchente pode ser de vários metros em poucas horas. Quando o relevo é acidentado as áreas mais propícias à ocupação são as planas e mais baixas, justamente aquelas que apresentam maior risco de inundação. A várzea de inundação de um rio cresce significativamente nos seus cursos médio e baixo, onde a declividade se reduz e aumenta a incidência de áreas planas (TUCCI, 2003).
3.2.2 - Fatores antrópicos
A urbanização mal planejada e gerida também contribui para o perigo crescente de inundação devido à mudança inadequada do uso do solo. Enquanto as cidades incham e crescem para acomodar o aumento populacional, a expansão urbana em larga escala ocorre frequentemente na forma de desenvolvimento não planejado, em áreas alagáveis costeiras e para o interior dos países, bem como em outras áreas sujeitas a inundações (JHA et al., 2012).
De acordo com Neves (2008) o crescimento urbano brasileiro, no qual o planejamento territorial tem sido falho, produziu um aumento caótico na frequência das inundações, à medida que a cidade se urbaniza, ocorre o aumento das vazões máximas (em até sete vezes) devido à impermeabilização e canalização de rios e córregos.
As interferências e intervenções marcantes do ser humano nas áreas urbanas produzem impactos diretos tanto para o próprio local como para a população. Tais impactos, segundo Moretti (2004 apud Reis, 2011), são o aumento da vazão, em decorrência da impermeabilização; redução da vazão dos cursos d’água nos períodos de estiagem; aumento da erosão; aumento da quantidade de sedimentos presentes na água; presença de lixo diretamente nos cursos d’água ou carreado pelos sistemas de captação das águas pluviais; e presença de esgotos, oriundos das redes de coleta e de lançamentos irregulares nos sistemas de drenagem de águas pluviais. Dessa maneira, as ocorrências de enchentes, inundações e alagamentos se manifestam mais frequentemente e com maiores consequências.
Para Tucci (2003) além de todos os impactos acima citados há diversas outras ações humanas que podem favorecer o extravasamento dos rios, tais como a formação de aterros, as canalizações e as construções de pontes. As próprias obras de controle de drenagem muitas vezes se tornam prejudiciais, resolvendo o problema no local, mas transferindo para outro ponto da bacia.
Os níveis atuais e projetados de impactos de inundações implicam na necessidade de tornar a gestão de risco de inundações em assentamentos urbanos uma prioridade na agenda política e de elaboração de políticas. Compreender as causas e efeitos dos impactos das inundações e projetar, investir e implementar medidas que os minimizem devem tornar-se parte do pensamento corrente de desenvolvimento e estar incluídos nos objetivos mais amplos de desenvolvimento (JHA et al., 2012).