ABREVIATURAS E SIGLAS/SÍMBOLOS
II. REVISÃO DA LITERATURA
9. FATORES DE RISCO DA LOMBALGIA INESPECÍFICA
São vários os fatores responsáveis pela persistência do quadro crónico em indivíduos com LI, no entanto, na maioria dos casos clínicos, não são levados em consideração no processo de avaliação. São denominados fatores de risco e caracterizam-se como peculiaridades físicas, comportamentais, sociodemográficas, ocupacionais e psicológicas presentes em indivíduos que já desenvolveram a sintomatologia (Andersson, 1999; Andersson et al., 1998; Bogduk, 2004; Koleck et al., 2006). Bogduk
(2004); (2006) consideram como fatores de risco aqueles aspetos presentes em indivíduos que não desenvolveram ainda nenhum episódio de dor lombar, mas que fazem elevar o risco destes sofrerem de tal patologia no futuro. Estes fatores de risco devem ser levados em consideração quando se pretende executar uma intervenção preventiva de EF sobre uma determinada população, tentando minimizar a ocorrência de episódios de lombalgias agudas. Para Brazil et al. (2004), a análise minuciosa dos fatores de risco envolvidos, para além dos aspetos clínicos e físicos, pode ser uma vantagem quando estamos perante um doente com LI. Nesta perspetiva, Koleck et al. (2006) apontam que tais fatores são potencialmente capazes de influenciar não só no aparecimento de um episódio agudo, mas também, podem desencadear um processo de cronicidade numa dor lombar já instalada.
Segundo Imamura et al. (2001) os principais fatores inerentes à constituição do próprio indivíduo e que não são suscetíveis de serem modificados são o sexo, a idade e a raça. Em relação ao sexo, diversos estudos reportam que as mulheres têm uma maior prevalência e um grau de comprometimento funcional mais elevado em comparação com os homens (Leeuw et al., 2007; Preuper et al., 2007; Robinson et al., 2005). Na opinião de autores como Ponte (2005) e Silva et al. (2004) tal situação pode acontecer pelo facto das mulheres, além de estarem mais expostas a posturas viciosas desadequadas, mostrarem particularidades anatómicas, como fragilidades osteoarticulares e musculares, que predispõem ao surgimento de lombalgias mais debilitantes. Além disso, outras justificativas relacionadas aos aspetos psicológicos e culturais provocam uma tendência à somatização e, consequentemente, à maior propensão da dor lombar no sexo feminino (Andersson, 1999; Caraviello et al., 2005; Robinson et al., 2005).
No que se refere à idade, os estudos revelam uma associação direta e proporcional com a LI, ou seja, quanto mais nova for a faixa etária do indivíduo, menor a prevalência e menos complexa será a patologia (Kovacs et al., 2003). Gomes & Santos (1992) referem como fatores de risco juvenil a dismetria dos membros inferiores, as escolioses assim como o tipo de atividade desportiva. Estes fatores parecem estar associados à predisposição para o desenvolvimento de LI, sendo, no entanto, os resultados dos estudos controversos. Gonçalves (1994) menciona que as escolioses implicam concentrações assimétricas das forças vertebrais no plano frontal e a escoliose lombar, contrariamente à escoliose dorsal, é tida como causa de sintomatologia dolorosa.
Hestbaek et al. (2006) na sua pesquisa sobre a relação dos estilos de vida e dor lombar, realizado em 9600 gémeos dinamarqueses dos 12 aos 22 anos, encontraram uma associação positiva baixa, mas significativa, entre os hábitos tabágicos e LI presente e futura. Constataram também uma associação positiva entre o consumo de álcool e dor lombar esporádica e, uma associação negativa entre o consumo de álcool e dor lombar futura. Apesar de existirem diferentes estudos a reportar associações entre hábitos tabágicos e LI, Leboeuf–Yde (1999) preconiza que o tabagismo deva ser considerado apenas como um fraco fator de risco e não como uma causa definitiva de lombalgia. Autores como Andersson et al. (1998) e Mortimer et al. (2001) acrescentam mesmo que o tabagismo não tem qualquer contributo no aumento do risco de dor lombar. No entanto, Girdler et al. (2005) e Unrod et al. (2004) afirmam que a nicotina tende a diminuir os níveis de atenção e de perceção da dor, facto que pode encobrir os limites físicos impostos pelo quadro clínico doloroso, contribuindo para que a dor se acomode inconscientemente. Outros fatores de risco são referidos na literatura, apesar com uma menor frequência, como agentes para o desenvolvimento de uma LI, destacando-se: o uso indevido de fármacos, os distúrbios de sono, o suporte familiar, os conflitos laborais e o uso de drogas ilícitas (Kovacs et al., 2003).
Um dos fatores frequentemente implicados na LI é o excesso de peso, na medida em que provoca sobrecarga mecânica articular vertebral, podendo condicionar o aparecimento de doenças músculo-esqueléticas e consequente lombalgia. Autores como Bigos et al. (2009) e Toscano & Egypto (2001) referem que níveis elevados de peso corporal alteram o equilíbrio biomecânico postural durante as funções diárias, excedendo os limites toleráveis pelo sistema músculo-esquelético. Assim, segundo os autores, indivíduos com índice de massa corporal (IMC) elevado mostram uma maior prevalência para dores lombares e uma tendência em manter os quadros dolorosos já adquiridos. Entretanto, não existe consenso na literatura quanto a esta associação entre IMC e lombalgia. Por exemplo, os estudos de Mortimer et al. (2001) e Polito et al. (2003) demonstram que o aumento do IMC não se correlacionou com a prevalência de dores lombares, inclusive, estes autores, alertam para a possibilidade da cronicidade da LI estar também associada a valores de IMC abaixo do normal.
Também, Mirtz & Greene (2005) referem que a conjugação entre obesidade e LI é controversa uma vez que não existe documentação suficiente que a comprove, sendo para isso necessários mais pesquisas e dados epidemiológicos. Apesar da pouca evidência científica sobre a relação entre obesidade e a ocorrência de lombalgias, Mortimer et al. (2001) sugerem uma relação entre o aumento de massa gorda e dor
lombar, uma vez que, com o avançar da idade e aumento da massa gorda em particular da gordura abdominal, toda a estrutura da coluna vertebral suportará mais peso, o que implica um aumento de pressão nos discos intervertebrais, principalmente nos lombares, originando o aparecimento precoce de sintomas.
Outro dos fatores comummente implicados na LI são as atividades laborais. Diversas pesquisas epidemiológicas identificaram algumas situações relacionadas com os aspetos laborais como potencial promotora de distúrbios dolorosos para a coluna vertebral. Tais situações podem estar relacionadas aos aspetos físicos e psicológicos do indivíduo no seu ambiente de trabalho ou ocupação, tais como: atividades com sobrecarga física, tarefas repetidas com movimentações do tronco em rotação e torsão, posturas estáticas prolongadas e desmotivação laboral (Andersson, 1999; Bernard, 1997; Bigos et al., 2009; Burton et al., 2006; Chester et al., 2002; Comerford & Mottram, 2001; Rissanen et al., 2002; Wang et al., 2000). As disfunções vertebrais lombares são mais frequentes em indivíduos que realizam tarefas com manuseamento de cargas excessivas, principalmente em atividades laborais que obriguem ao levantamento e transporte de objetos pesados. Nestas situações, a coluna lombar sofre muita pressão, exigindo uma ação muscular mais intensa, principalmente da musculatura antero-posterior, que ao ultrapassar a normal funcionalidade do indivíduo o predispõe ao aparecimento precoce de sintomatologia dolorosa (McKune et al., 2012; Rantanen et al., 1994; Wang et al., 2000).
Tarefas repetitivas são também consideradas como agravantes num processo de dor lombar inespecífica, sobretudo, se elas envolverem movimentos de torsão e rotação vertebral (Bernard, 1997). As posturas viciosas e/ou a realização de movimentos repetidos podem levar a um maior desenvolvimento de determinados músculos em prejuízo de outros, gerando-se assim desequilíbrios musculares (Comerford & Mottram, 2001; Rissanen et al., 2002). No entanto, estes mesmos movimentos são agentes potencialmente causadores de microtraumatismos por esforço repetitivo que, na maioria das vezes, não são detetados em exames complementares propagando o processo doloroso (Bigos et al., 2009; Brereton & McGill, 1999).
As ações repetitivas caracterizam-se pela monotonia constante, situação que torna os indivíduos insatisfeitos com a sua atividade laboral, tornando-os mais sensíveis e predispostos a desenvolverem distúrbios osteoarticulares relacionados com o trabalho e consequentes dores lombares (Burton et al., 2006; Wang et al., 2000). Adicionalmente, diferentes autores como Bernard (1997); Cailliet (2001) e Chester et
al. (2002) referem que a postura sentada pode influenciar mais riscos para a coluna lombar, principalmente se for associada às flexões do tronco, pois nesta posição, os discos intervertebrais sofrem pressões constantes e, dependendo da curvatura realizada pela coluna, essa pressão pode ultrapassar bastante o próprio peso corporal. Vários autores relatam que a falta de movimento leva a um acúmulo de metabolitos, que provavelmente aceleram a degeneração dos discos e aumentam a probabilidade de estrangulamento do disco (Bigos et al., 2009; Brereton & McGill, 1999; Dunn et al., 2006).
Lee et al. (1999) concluíram que o desequilíbrio muscular entre os músculos extensores e flexores do tronco é um fator de risco determinante para a LI. Segundo os autores, existe uma diminuição de força dos músculos extensores mais acentuada do que dos flexores em indivíduos com lesões orgânicas na zona lombar. No entanto, existem outras teorias, suportadas por estudos que apontam o aumento da lordose lombar como fator desencadeante de dores lombares, sendo esta lordose, resultado de músculos abdominais fracos e de posturas sentadas prolongadas (Norris, 1995). Sobre a mesma temática, Nourbakhsh & Arab (2002), concluem que a diminuição da lordose lombar contribui para a compressão do núcleo pulposo, o que pode favorecer igualmente queixas lombares.
Em suma, no quadro da incidência e prevalência das LI é necessário considerar toda a diversidade de fatores de risco que contribuem, em maior ou menor escala, para o aparecimento de dores lombares. Num estudo prospetivo durante cinco anos de Hestbaek et al. (2003), referente ao decurso da lombalgia na população em geral, foram identificados três grupos: (1) grupo de indivíduos que nunca teve um episódio de dor; (2) grupo de indivíduos com episódios de dor lombar de curta duração; (3) grupo de indivíduos com episódios de dor de longa duração/dor recidivante. Destes grupos, o estudo considerou como mais importante, o facto de:
mais de 1/3 dos indivíduos com história de lombalgia, no ano anterior ao do início do estudo, reportou crises com duração inferior a 30 dias;
40% dos participantes com episódios de dor, com uma duração inferior a 30 dias, no início do estudo, permanecia nesse mesmo grupo (1 e 5 anos mais tarde);
apenas 9% daqueles que apresentaram dor com duração inferior a 30 dias, no primeiro ano, não a referia 5 anos depois;
o risco de terem lombalgia, 1 e 5 anos após o início do estudo, para os indivíduos com dor lombar no ano inicial foi, respetivamente, 4 a 2 vezes superiores à daqueles que não a tinham.
Tais resultados sugerem que a dor lombar não deve ser considerada transitória nem ignorada, uma vez que tal situação pode levar ao reaparecimento de crises periódicas/temporárias e com tendência à cronicidade.
10. IMPORTÂNCIA DA ATIVIDADE FÍSICA/EXERCÍCIO FÍSICO NO CONTEXTO