4. DISCUSSÃO
4.4 FATORES DE RISCO PARA AS PRINCIPAIS CAUSAS EXTERNAS
Vários aspectos fisiológicos da faixa etária idosa contribuem para a mortalidade nesta faixa etária, como a diminuição de força muscular, a diminuição da flexibilidade e o declínio do processo sensório motor, o que altera a propriocepção e também as respostas ideais para cada tarefa. Ocorrem ainda, mudanças na postura e na marcha, além de diminuição do equilíbrio, desencadeando as quedas. Esses fatores podem ser compensados com intervenções, como por exemplo, correções audiológicas, no caso de problemas auditivos, e oftalmológicos, nas disfunções visuais, além de programas de exercícios físicos, entre outras (UMPHRED e LEWIS, 2001).
4.4.1. Componentes não intencionais (acidentes de transporte
e quedas)
O problema mais grave que enfrentam as pessoas de idade avançada se relaciona com o fato de que sua mobilidade fora do lar pode estar limitada porque o sistema de transporte não responde adequadamente ao que eles necessitam, fazendo com que o uso de automóveis particulares seja sua opção mais segura para locomover-se. Estudos recentes sobre o envelhecimento e o transporte têm destacado a proteção dos pedestres como a principal preocupação em matéria de segurança para os idosos (WHO 2004).
Além disso, os acidentes de transporte crescem quando o volume de viagens e o uso de veículos motorizados, especialmente veículos de duas rodas, aumentam. Eles também ocorrem com mais freqüência com velocidades mais altas e em lugares onde as estradas não suportam o aumento de volume
e de velocidade do tráfego. Também ocorrem acidentes quando os pedestres precisam compartilhar as rodovias com os veículos motorizados e não motorizados (BANCO MUNDIAL 2006).
Uma matriz inicialmente desenvolvida para enfrentar o problema dos acidentes de transporte, a Matriz de Haddon, fornece um esquema compreensível, no qual os pesquisadores podem considerar a multiplicidade de fatores que atuam na rede causal dos acidentes, como destacado na Tabela 4.3.
Tabela 4.3. Matriz de Haddon aplicada aos acidentes de transporte.
Fatores
Fase Natureza da
intervenção Humanos Veículos e
equipamentos Ambiente Antes do acidente Prevenção do acidente Informação Atitudes Falhas/Debilidades Coerção policial Capacidade para rodar Faróis Freios Direção Controle de velocidade Design da pista Projeto da pista Limite de velocidade Aparelhos para os pedestres Acidente Prevenção de lesões durante o acidente Uso de cinto de segurança Falhas//Debilidades Cinto de segurança para os ocupantes Outros dispositivos de segurança Design protetor de acidentes Barreiras laterais na estrada ou equipamentos semelhantes Após o acidente Manutenção da vida Habilidades de primeiros socorros Acesso à assistência médica Facilidade de acesso Risco de incêndio Equipamentos de resgate Congestionamento
Fonte: NORTON e col. (2006)
A prova da eficácia de leis de segurança no transporte mais severas pode ser vista no Brasil, onde um pacote com três intervenções que incluíam alterações legislativas para aumentar as multas, a difusão de mensagens na mídia para informar o público sobre as mudanças e um maior cumprimento das leis obteve uma redução de 25% nas fatalidades no transporte entre 1997 e
certo impacto, estudos na Malásia e na Tailândia demonstraram que a educação tem um impacto muito maior quando faz parte de um pacote que inclua uma legislação severa e maior rigor na execução, pois as intervenções reforçam umas às outras (BANCO MUNDIAL 2006).
A implementação de medidas de segurança no trânsito não exige novos conhecimentos: os fatores de risco são bem conhecidos. Entretanto, a implementação muitas vezes falha devido a conflitos entre os ministérios do governo, serviços públicos ineficientes e corrupção. Embora os custos não sejam insignificantes, as intervenções são custo-efetivas (BANCO MUNDIAL 2006).
Os fatores de risco para quedas em idosos são considerados em termos de riscos para queda, riscos associados à severidade do impacto após a queda e fatores de risco associados com baixos níveis de densidade mineral óssea. Esses fatores incluem baixa densidade óssea, baixo estado nutricional, baixo índice de massa corporal, baixa ingestão de cálcio, outras condições mórbidas associadas (como hipertensão e diabetes), baixa adesão à atividades físicas, visão deficiente, baixa função cognitiva, baixa condição socioeconômica, entre outros (BOONYARATAVEJ e col. 2001; CLARK e col. 1998; JITAPUNKUL e col. 2001, NORTON e col. 2006).
4.4.2. Componentes intencionais (suicídios e homicídios)
Os fatores de risco para violência (suicídios e homicídios) são condições que aumentam a possibilidade de ser vítima ou perpetrador de violência. Nenhum fator isolado explica porque uma pessoa ou grupo está em um maior
ou menor risco de violência. Ao invés disso, a violência é fruto de uma interação complexa de muitos fatores. Esta relação é capturada em um modelo ecológico que classifica os fatores de risco por violência em quatro níveis: individual, relacional, comunitário e social (DAHLBERG e KRUG 2002). Embora alguns fatores de risco sejam exclusivos de um tipo particular de violência, os vários tipos de violência comumente podem compartilhar alguns fatores de risco (Anexo 3).
Um destaque deve ser feito tanto para a família quanto do médico assistente de idosos para a prevalência de quadros depressivos, que são comuns nessa etapa da vida, que podem acarretar suicídios.
4.5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A população do Distrito Federal tem crescido num ritmo muito acelerado, com tendência a se intensificar progressivamente devido à queda da fecundidade e da mortalidade. Por isso, é preciso investir continuamente nos milhões de pessoas com mais de 60 anos que vivem no Distrito Federal e no Brasil.
O envelhecimento populacional traz novos desafios relacionados à pressões políticas e sociais, à maior exigência quanto as demandas de saúde, pressão sobre o sistema previdenciário e sobrecarga para a família.
Conhecer com profundidade as causas que vitimam o idoso é uma das maneiras de planejar e reduzir a mortalidade nessa faixa etária, mas deve haver o envolvimento dos profissionais no intuito de ir além dos problemas físicos e identificar modos mais humanos de interação e apoio mútuo como modo de prevenção de acidentes e mortes.
Existem muitas intervenções eficazes disponíveis para reduzir o risco das causas externas (Anexo 4), necessitando de vontade política para sua execução. A sociedade e as entidades governamentais devem se preocupar com essa crescente parcela da população. As mortes violentas e acidentais são um importante problema no Distrito Federal, mas são potencialmente evitáveis.
ANEXOS
Anexo 1. Declaração de Óbito...55 Anexo 2 .Esquema simples de captação dos dados de mortalidade...56 Anexo 3. Fatores de risco de ser vítima ou perpretador de violência... 57 Anexo 4. Intervenções custo-efetivas na prevenção de lesões
58
Anexo 2. Esquema simples de captação dos dados de mortalidade
Fonte:Secretaria da Saúde do Estado de Santa Catarina. Gerência de Estatística e
Anexo 3. Fatores de risco de ser vítima ou perpretador de violência.
Nível do modelo ecológico Fatores de risco
Individual
(fatores biológicos e história pessoal que influenciam como os indivíduos agem)
Experiência no início de seu desenvolvimento Características demográficas (p.ex, idade, educação, família ou renda pessoal) Vítima de abuso infantil e negligência Desordens psicológicas e de personalidade Saúde física e deficiências
Problemas de alcoolismo ou dependência química
História de comportamento violento Jovem
Homem
Propietário de arma de fogo Relacional
(com membros da família, amigos, parceiros íntimos, colegas)
Conflitos matrimoniais acerca dos papéis de cada gênero e recursos
Associação com amigos que apresentam comportamento violento ou delinqüência Práticas maternais/paternais insuficientes Conflito com os pais envolvendo o uso de violência
Baixo estado socioeconômico do domicílio Comunitário
(vizinhança, escola, ambiente de trabalho)
Alta mobilidade de residência Alto nível de desemprego Alta densidade populacional Isolamento social
Proximidade ao tráfico de entorpecentes Inadequados serviços de cuidado às vítimas Pobreza
Polícia ineficiente e baixa qualidade de programas em, p.ex, ambientes de trabalho, escolas, estruturas residenciais
Social
(fatores gerais que reduzem a inibição contra a violência)
Rápida mudança social Desigualdade econômica Desigualdade de gênero
Políticas que criam e sustentam as desigualdades econômicas e sociais Normas que priorizam os direitos dos pais ao invés do cuidados com a infância
Normas que favorecem o domínio do homem sobre a mulher
Pobreza
Redes de proteção á pobreza ineficientes Baixo domínio da Lei
Sistema de justiça criminal ineficiente que favorece o uso de excesso de violência pelos policiais contra cidadãos e permite que os criminosos estejam imunes a serem processados
Normas culturais ou sociais que favorecem a violência
Disponibilidade de meios (p.ex, armas de fogo) Situação de conflito ou pós-conflito
Anexo 4. Intervenções custo-efetivas na prevenção de lesões não-intencionais nos países de renda média e baixa
Lesão Intervenções promissoras
Intervenções que demonstraram ser eficazes
em países de renda média e baixa (referências)
Acidente de trânsito
• Redução do tráfego de veículos motorizados: impostos eficientes para combustíveis, mudanças na política de uso da terra; avaliação do impacto de segurança dos planos de transportes e uso da terra, provisão de rotas mais curtas e mais seguras, medidas de redução de viagens
• Maior utilização de formas mais seguras de transportes • Redução da exposição a cenários de alto risco: restrição do
acesso a diferentes partes da rede de estradas, com prioridade para veículos com maior ocupação ou para usuários de estradas vulneráveis, restrição da velocidade e do
desempenho do motor dos veículos de duas rodas, aumento da idade legal para operar uma motocicleta, uso de sistemas de licenciamento diferenciado de motoristas
Estradas mais seguras
• Conscientização de segurança no planejamento das redes rodoviárias, recursos de segurança no projeto de rodovias e ações corretivas em locais de alto risco de acidentes : fazer provisões para tráfego lento e usuários de rodovias vulneráveis; fornecimento de faixas de ultrapassagem, barreiras centrais e iluminação das ruas
• Medidas para acalmar o tráfego, como redutores de velocidade
• Câmeras para medir a velocidade Veículos mais seguros
• Melhorar a visibilidade dos veículos, incluindo a requisição de faróis automáticos para uso diurno
• Incorporação de projetos de proteção contra acidentes nos veículos, incluindo a instalação de cintos de segurança • Licenciamento e inspeção obrigatória dos veículos Pessoas mais seguras
• Estratégias de legislação e aumento do cumprimento de, por exemplo, limites de velocidade, limites relativos ao consumo de álcool, horários de circulação para motoristas comerciais, uso do cinto de segurança, uso de capacete para bicicletas e motos
Aumento do limite mínimo de idade para motociclistas de 16 para 18 anos. NORGHANI e col. 1998)
Redutores de velocidade para diminuir os ferimentos de pedestres (AFUKAAR 2003)
Motocicletas trafegando com faróis acesos durante o dia (RADIN UMAR e col. 1996; YUAN, 2000)
Aumento das multas e suspensão das licenças de condutores (POLI DE FIGUEIREDO e col. 2001) Legislação e cumprimento do uso de capacetes para motociclistas (ICHIKAWA e col. 2003; SUPRAMANIAM e col.1984) Envenenamentos • Melhor armazenamento, incluindo posicionamento e natureza
dos recipientes
• Uso de recipientes com tampas de segurança para crianças • Rótulos de aviso
• Treinamento de primeiros socorros • Centros de controle de venenos
Distribuição gratuita de recipientes que não podem ser abertos por crianças (KRUG e col. 1994)
Lesões relativas a quedas
• Pessoas mais velhas
• Fortalecimento dos músculos e reeducação postural (prescrição individual)
• Exercício de tai chi em grupo
• Avaliação de riscos residenciais e modificações em casos de alto risco
• Exame multidisciplinar e multifatorial de fatores de risco