CAPÍTULO IV DISCUSSÃO E CONCLUSÃO
4.2 Fatores internos e externos
Parece que existe consenso de que a família é a responsável pelo desenvolvimento moral da criança, pois, como instituição social, é nela que a pessoa tem seus primeiros contatos e convive a maior parte do tempo, comparando com o tempo escolar diário. Sallas (1999) considera as violências como sendo manifestações de um processo geral que começa na família e prossegue nos grupos, antes da entrada da criança para a escola, o que parece convergir com a opinião dos participantes desta pesquisa.
Entretanto, é preciso ressaltar que os professores não conseguem identificar exatamente como surgem as atitudes violentas no ambiente escolar. Diante de uma situação de violência ocorrida na escola, eles divergem sobre o que aconteceu e apresentam diferentes versões. Em alguns exemplos dados quanto ao surgimento das violências as situações são bem específicas da dinâmica escolar. Portanto, os professores não apresentaram uma visão clara do surgimento das violências no cotidiano da escola. Logo, como afirmar que as questões advindas das famílias estariam potencializando essas violências?
Para os professores, pais alcoólatras, envolvimento dos membros da família com drogas, prisão e fome são situações que se refletem em atos violentos dos alunos nas escolas. Como mencionado, a fala dos professores ao abordar a família e o local de moradia, tende a ser preconceituosa.
Outro ponto destacado se refere ao saudosismo em relação à família de antigamente, composta de pai e mãe, revelando nas falas estereótipos de famílias perfeitas, o que se distancia da estrutura da família na atualidade. Ao apresentarem essas reflexões, observou-se que os professores vêem a violência como problema, porém não o considera como sendo responsabilidade da escola e sim da família. As acusações à família podem estar gerando um distanciamento entre a família e a escola, percebido nas falas, quando os professores queixam-se da não participação da família na escola. Sendo assim, como os professores pensam que deveria ser a família para não potencializar as violências? Os professores apontam que os pais têm que ser equilibrados, a família precisa controlar o filho, impor limites, dar assistência, não pode ser comodista e nem transferir a responsabilidade que lhe é própria, da educação para a formação, para a escola.
Diante do perfil da família dos alunos da escola pública, traçado pelos professores e de como deveriam ser, faz-se necessário também retratar o perfil da escola a partir dos comentários obtidos e compará-los. Segundo os docentes, dentre os fatores internos há omissão da escola em face das violências vivenciadas no cotidiano, ou seja, também a escola transfere a responsabilidade que lhe é própria. Falta de limite da escola é outro ponto de discussão dos professores, nessa perspectiva também a escola não está ‘controlando’ o aluno. O posicionamento do professor de costas para a turma, impedindo-o de perceber situações violentas que se iniciam dentro da sala de aula, parece indicar impotência desse diante da dificuldade em solucionar as situações de violências. Há falta de equilíbrio do professor em situações de confronto com os alunos, portanto este não é um comportamento exclusivo dos pais. Os professores não dispõem de tempo para conhecerem os alunos, pelo fato de trabalharem em duas ou mais escolas, então, assim como os pais, também os professores não estão conseguindo dar a assistência necessária ao jovem. Se a maioria dos professores concebe a escola como uma instituição regida por leis e constituída pela direção e serviço
pedagógico, e não se coloca como integrante do coletivo da escola e também co-responsável pelas decisões, pode-se sugerir também comodismo por parte dos docentes na responsabilidade pelas decisões tomadas. Tudo isso parece apontar para falhas tanto no desempenho do papel de professor e da escola quanto no papel da família.
Por meio desse confronto realizado, questiona-se se existe tanta diferença entre essas duas instituições imprescindíveis para o desenvolvimento da pessoa. Pode-se afirmar com tanta veemência que a família é o fator que mais potencializa as violências nas escolas? Comparando a instituição família e seus desdobramentos em relação aos fatores internos da escola, parece que os desafios constituem os mesmos e ambas as instituições estão com dificuldade para o enfrentamento. Rodrigues (1994) argumenta que há uma crise de valores e de autoridade pela qual passa não só a família, mas também a escola. Já Assis (1999) confirma que as instituições família e escola passam por séria crise no desempenho de suas funções sociais. Dessa maneira, entende-se que família e escola estão desestruturadas e partidas.
No que diz respeito à cultura de formação de gangues, estas podem ser consideradas como um fator potencializador de violências tanto externas quanto internas. Considerada como um fator externo que potencializa as violências nas escolas, elas vêm exercendo autoridade paralela, expulsam da escola alunos que são de grupos rivais ou que não querem aliar-se ao grupo e provocam brigas no entorno da escola. Considerada como um fator interno, a formação de gangues acontece dentro da sala de aula, grupos de domínios são formados e outros grupos que não aceitam esse domínio também se organizam para o confronto. Assim, a escola acaba por favorecer uma espécie de laboratório de aprendizagem de práticas violentas. Dentre elas, a de formação de gangues. Os professores se colocam impotentes frente a essa situação, dizem que essa formação de grupos é para autodefesa porque um jovem não enfrenta o outro sozinho. O enfrentamento sempre acontece com o
apoio do grupo. Portanto, as gangues ora se iniciam no interior das escolas ora no exterior. Abramovay (2003) discute sobre a violência gerada por gangues. Segundo a autora, essa violência facilita a entrada nas escolas de pessoas que nada têm a ver com a instituição à procura de alunos jurados de morte. Entretanto, na presente pesquisa verificou-se que estas pessoas não são necessariamente estranhas à escola. Na verdade, muitas vezes podem ser os próprios alunos e seus grupos de colegas que se organizam dentro da escola. Isso sugere que o inverso do que foi apresentado pela autora pode estar acontecendo, isto é, a violência estaria sendo levada para fora da escola, o que acaba por dar mais ênfase à idéia de escola como lugar de aprendizagem da violência.
Outro fator externo identificado foi o Estatuto da Criança e do Adolescente. Para os professores, os alunos produzem violência porque sabem que, sendo menores, não podem ser punidos. De acordo com os professores, desde que passou a vigorar o Estatuto da Criança e do Adolescente não existe punição nem na escola, nem na sociedade. No entanto, os professores demonstraram não conhecer o Estatuto. Apoiando-se numa fala superficial, acusam o Estatuto da Criança e do Adolescente de causador dos atos violentos praticados pelas crianças e adolescentes. Como são previstas no Estatuto punições por meio de medidas sócio-educativas para diferentes tipos de infrações, entende-se que não foi esse documento que provocou esse quadro. Nesse sentido discorda-se dos professores. O fato dos presídios estarem superlotados seria um poderoso inibidor de violências, o que definitivamente não acontece.
A advertência oral e escrita aplicada como forma de sanção pela escola foi muito criticada. Os professores, não concordando com esses dois tipos de advertências, acusam a escola pela presença de alunos ‘violentos’. Assim, parece que a punição que os professores apóiam e que deve existir na sociedade seria a detenção dos adolescentes em regime fechado, e, na escola, suspensão e expulsão, ou seja, medidas repressivas e não educativas. Essas
medidas relacionadas à escola são contrárias às previstas na Constituição Federal de 1988, de acordo com a qual a educação básica é um direito de todos.
Ao mesmo tempo em que os professores afirmam que os jovens conhecem a lei e se beneficiam dela para cometerem atos violentos, contradizem afirmando que eles não são conscientes dos seus direitos e deveres. Esse fator entrelaçado ao fator interno, omissão por parte das escolas, aponta para a falha da escola no seu papel de formação para a cidadania, pois constitui um dos objetivos da educação escolar a formação do cidadão. Libâneo, Oliveira e Toschi (2003) defendem que o ensino não pode se negar em contribuir para formar cidadãos éticos e solidários. Isso implica que constitui papel da escola propiciar uma formação voltada para a vivência da cidadania, para a formação de valores, no sentido de valorizar a vida humana em todas as dimensões.
Lucinda, Nascimento e Candau (1999) alertam para a dimensão ritual e lúdica das violências, que serve como instrumento para manter e reproduzir uma cultura de violência. Assim, a droga apontada como um fator externo potencializador das violências nas escolas, está sendo tratado pelos alunos com banalidade. Segundo os professores, o assunto é comentado com naturalidade e surge freqüentemente nas situações de brincadeira.
Associada à droga, surgem o tráfico e a perda de valores universais. Para os professores, os jovens não demonstram ter valores, tais como espiritualidade, honestidade e educação. Estes estão sendo substituídos pelo dinheiro e bens materiais. Nesse sentido, as falas denunciam que os alunos estão comparando os baixos salários recebidos pelos docentes com a condição econômica daqueles que conseguem dinheiro por meios ilícitos, como o comércio das drogas. Situações de confronto vivenciadas e expostas pelos professores são visíveis. Os alunos (traficantes?) ostentam dinheiro para afrontar os professores. Isso parece estar atingindo o professor na sua auto-estima.
da escola ao aumento da violência. Assim, no interior das escolas observa-se uma relação direta entre os baixos salários e as condições precárias de trabalho com as violências simbólicas ocorridas no seu cotidiano.
A posse do dinheiro torna-se sinônimo de autoridade. Assim, os alunos tentam disputar o poder da sala de aula com o professor. A autoridade paralela tentando se estabelecer na escola é denunciada pelos professores. Eles projetam o caos se os chefes de gangues e do tráfico controlarem a escola. Os professores afirmam que isto está começando a acontecer. Parece que uma das estratégias para isto é estabelecer a cultura do medo, através do rótulo de ‘escola perigosa’. Quando chega professor novato eles fazem questão de testá-lo.
Esse sentimento de insegurança descrito pelos professores é discutido por alguns autores (v.g. LUCINDA; NASCIMENTO; CANDAU, 1999; DEBARBIEUX, 1996), que o concebem como a lógica que permeia a cultura da violência e está relacionado a uma idéia de que há violência em toda parte. Assim, um dos fatores que contribuem para a banalização da violência é a naturalização de comportamentos violentos pela cultura de massa, gerando uma cultura do medo e afetando as relações interpessoais.