6. RESULTADOS
6.4. FATORES QUE CONTRIBUEM PARA A SUSTENTABILIDADE DOS PROGRAMAS:
ECONÔMICO
Optou-se por realizar uma terceira etapa de entrevistas com os produtores rurais de Salesópolis com o objetivo de analisar a interferência da questão política local no andamento do programa no município. A análise desse cenário foi realizada também com as contribuições e percepções captadas através das participações nas reuniões das UGP nos dois municípios, bem como entrevistas realizadas com os representantes da ONG.
Nesse contexto, ficou claro que em Jundiaí as questões políticas e, principalmente, a alternância de governo (mudança do gestor público – prefeito e secretários) não afetaram durante o período desta pesquisa, o andamento do programa. Partindo-se dessa premissa, não foram realizadas entrevistas com os proprietários de Jundiaí nessa terceira etapa.
Em Salesópolis, as entrevistas dessa etapa ocorreram em setembro de 2019. Nesse período, os plantios nas propriedades já estavam todos realizados e a última parcela do pagamento do PSA referente ao primeiro biênio estava prestes a ser realizada. A gestão do programa optou pela prorrogação dos pagamentos por mais dois anos neste município. As questões elaboradas para aplicação da entrevista podem ser visualizadas no quadro 8.
Quadro 8: Questões elaboradas para a terceira etapa de entrevistas junto aos produtores rurais de Salesópolis.
Questões Objetivos
Quais as principais mudanças percebidas na sua propriedade no tempo de participação do projeto e desde a última entrevista?
Identificar ao longo do tempo se percebem mudanças na propriedade e como tem sido seu envolvimento com o projeto.
Como tem sido a atuação da Prefeitura em relação
ao projeto? Compreender as interações com a Prefeitura e ONG durante as alternâncias de governo e entender se isso afetou o andamento do programa e comprometimento de todos.
Como estão as interações com a Prefeitura depois da mudança do corpo gestor e com a ONG? Como foi o desenvolvimento das atividades do projeto no período em que a Prefeitura estava em transição de equipe de Secretaria?
Qual foi a atuação da Associação nesse período?
Compreender se, independente dos demais atores, os produtores rurais estão se organizando para discutir as questões do projeto.
O pagamento tem sido feito, e como tem sido re- empregado na propriedade?
Compreender se estão convertendo os recursos recebidos para benefícios da própria área e se acreditam ser importante manter o que já foi realizado.
Como você pretende manter o que foi plantado? Acha importante? Por quê?
O que você percebeu em relação a qualidade da água nesse período? E erosão? E quantidade?
Compreender se percebem, dentro dos princípios da Geoética, a inter-relação entre o plantio e os demais aspectos ambientais da propriedade e do município.
A transcrição das opiniões dos proprietários está apresentada no quadro 9, e suas falas estão representadas nos textos em itálico. Os proprietários foram identificados com “S” (município de Salesópolis), seguido de número sequencial de 1 a 4 (total de proprietários entrevistados).
Quadro 9: Transcrição da terceira etapa de entrevistas junto aos produtores rurais de Salesópolis Proprietário Quais as principais mudanças percebidas na sua propriedade no tempo de participação do projeto e desde a última entrevista?
Como tem sido a atuação da Prefeitura em relação ao projeto? Como estão as interações com a Prefeitura depois da mudança do corpo gestor e com a ONG? Como foi o desenvolvimento das atividades do projeto no período em que a Prefeitura estava em transição de equipe de Secretaria?
Qual foi a atuação da Associação nesse período?
O pagamento tem sido feito, e como tem sido re-empregado na
propriedade?
Como você pretende manter o que foi
plantado? Acha importante? Por quê?
O que você percebeu em relação a qualidade da água nesse período? E erosão? E quantidade? S1 Eu venho percebendo ao longo do projeto, aumentou
muito as aves na propriedade. Antes quase não se via aves, agora você vê que tem bastante. Talvez em relação as frutas também,
a gente tem plantado bastante. Melhorou bastante também em relação a água, a questão de isolamento do boi, isolamento da nascente,
melhorou bem aquele espaço. Uma coisa bem legal que eu percebi esses dias, um cachorro do mato acabou aparecendo, um bicho que a
gente não tinha visto mais.
Eles são bem difíceis, a gestão anterior parece que comunicava mais, participava mais. Essa agora, eles meio que
desapareceram um pouco. A gente tem cobrado eles, inclusive
em relação ao pagamento mesmo, atrasaram bastante. A gente tem cobrado, eles
não participam muito, não envolvem muito. Acho que falta isso um
pouco na Prefeitura, acho que tinha que ter mais envolvimento até pra ter mais produtor rural envolvido, estar mais envolvido com a
questão.
Em relação a última gestão, acho
que a Prefeitura piorou, as reuniões
diminuíram, não participaram muito. Com a ONG
acho que foi bom, melhorou, pois o gestor é bem participativo, eles têm ligado para nós, têm envolvido, colocado a par. A gente liga, eles respondem, eles
são bem comunicativos, o que a gente precisa
eles retornam, são bem ativos.
Nessa transição acho que eles abandoram um pouco. Eu cobrei a empresa que faz a manutenção e a ONG. A empresa falou que a Prefeitura não estava pagando e sem repasse eles não tinham condição de trabalhar no local. Aí
o plantio foi bem prejudicado, acabou não fazendo manutenção na época certa, as gramíneas fecharam o plantio, acabou prejudicando
sim nessa transição.
A Associação era bem atuante na época. Aí houve algumas mudanças,
mudança de Diretoria e está meio
que adormecido. O povo da Associação sumiu e nem eu estou participando muito. A gente está fazendo algumas ações via
cooperativa (CAMAT), estamos
focando bastante ações na cooperativa
porque achamos que tem uma força maior.
Eles sempre estão atrasando um pouquinho.
Eles demoram um pouquinho mas acabam pagando. Eu sempre que recebo procuro usar na propriedade com alguma coisa relacionada à parte ambiental, sempre está precisando alguma coisa
aqui. Então eu procuro usar esse dinheiro nesse benefício, que torne alguma coisa para a parte ambiental. Às vezes
alguma coisa para o isolamento da área, para a mina d'água, tubos. Não é muito mas tem ajudado, ajuda bastante a gente.
Eu acho que faltou um pouco complementar o
plantio. Eles abandonaram uma época.
Em volta da mina d'água eu fiz a roçada e algumas mudas que morreram eu
mesmo replantei. Eu mesmo estou produzindo
algumas mudas e estou tentando manter. Para não deixar as pragas sufocarem. Sempre estou
fazendo uma roçada, plantando umas mudas e olhando para o gado não entrar, dando um retoque
na cerca. Acho fundamental a gente
manter.
Em relação a água eu percebi que nos anos anteriores, por estar isolado,
não consegui perceber se aumentou, mas eu acho que a questão de tirar os animais próximos que ficavam pisando, acaba evitando de assorear a nascente. Agora as árvores estão começando a sair em volta da nascente, é a proteção, né? S2 e S3
Bastante coisa que plantou a geada matou, e quando a água subiu encharcou e não
repuseram e hoje nem adianta repor porque ainda continua meio brejo. Aqui é uma várzea, mas no geral
não vingou.
Continua a mesma coisa, próximo de fazer
alguma coisa, não se discute sobre o projeto.
Da Prefeitura mesmo para falar a verdade, nunca veio, e de um ano
pra cá também não.
Sempre a gente conversa entre os
produtores mas ninguém da Prefeitura vem.
Está meio devagar, esse ano nem vieram fazer as manutenções.
As reuniões são mensais mas não são
focadas no projeto. Na reunião da Associação é difícil as pessoas virem. As pessoas não são chegadas na reunião.
O meu eu sei que recebi, tem gente que nunca
recebeu.
O que sobrou? (risos). Como essa área é de várzea, não dá certo o
plantio ali. Aqui se plantava as mudas, depois a água vinha e morria tudo. O que sai
depois é só taboa. Se fizesse o negócio mais alto, talvez daria certo.
Tá baixo. Na época em que vocês vieram fazer as coletas estava bem
alto, agora está baixo assim.
S4
Estão surgindo pássaros que antes não tinham. Está aparecendo muitos pássaros,
o dia inteiro você houve canto de pássaros.
A Prefeitura está muito lenta, até existem
reuniões, eles participam mas eu não vejo um olhar especial para a agricultura,
porque o nosso município é agrícola. Eu vejo que o Prefeito está mais envolvido
com turismo. Está faltando mais empenho.
A gente precisa do poder público, eles
acham que a preservação cabe a
cada produtor.
Quem está mais envolvido é o Secretário do Meio Ambiente. Ele participa, ele visita, ele comparece as reuniões, a gente vê que a presença dele é muito mais do que do Diretor.
A atuação melhorou um
pouco nesse sentido, é a única pessoa que tem os olhos mais voltado pro meio ambiente,
sabe?
Eu continuei cuidando, o meu caseiro é quem faz as
manutenções porque a empresa contratada deixou a desejar e não realizou a quantidade de manutenções que estavam combinadas. O foco é conservação de estradas, a Associação compra entulho, os associados compram
entulho, aí vão na Prefeitura pra solicitar as máquinas e cada um vai contribuindo. A Associação se movimenta mais em caso das estradas, de
festas e calendários específicos. Ao
projeto em si, sinceramente não.
Sim, o pagamento tem sido feito.
Tem que conscientizar o produtor que esse projeto
não vai durar a vida inteira, ele tem um determinado tempo. Não adianta nada abandonar
tudo depois. Tudo depende do produtor e o
produtor não está acostumado a trabalhar no coletivo. Eu acho que é falta de conhecimento. A gente tem que trabalhar no coletivo, esse benefício não é só para a gente, é para o município, para o
mundo que a gente vive, para os nossos netos,
bisnetos, né?
O ano passado estava bem ruim,
esse ano a gente não teve problema
Durante a realização das etapas da pesquisa, observou-se um fator importante na construção e consolidação de programas de PSA, que aponta o cenário político local um indicador de sustentabilidade dos programas.
Como fator importante observou-se no tocante à necessidade de envolvimento de todas as áreas da gestão pública, de forma que a questão ambiental não seja assumida somente por áreas de meio ambiente. Somada a essa perspectiva de gestão, outro fator importante está relacionado a articulação dos diversos atores políticos envolvidos. Foi possível perceber, analisando os contextos dos programas em Salesópolis e em Jundiaí, que quando a coordenação do programa compreende a necessidade dessa integração entre as diferentes áreas técnicas e os diferentes órgãos, promovendo a mesma, o projeto se consolida mais efetivamente. Durante o processo de acompanhamento das reuniões da UGP em Jundiaí essa interação e envolvimento dos diversos atores fica evidente, se destacando, como um dos principais indicadores de sucesso para os programas de PSA.
Percebeu-se um cenário de fragilidade em ano eleitorial em Salesópolis, com períodos em que o projeto não avançou como deveria e o corpo político não se mostrou presente, na opinião dos produtores. Tal fato pode ser considerado um fator de enfraquecimento do programa, que, corroborado pela opinião do monitor da TNC, ainda não possui solução.
Um fator a ser considerado, e que muito se discute, envolve buscar a regionalização da estratégia de implantação desses programas, principalmente entre Comitês e Agências de Bacia, o que permitiria buscar equacionar problemas que envolvem bacias hidrográficas intermunicipais. Tal perspectiva permitiria analisar o contexto técnico local de forma abrangente e promover mais esforços junto aos municípios que necessitam de mais suporte técnico e recursos. Neste tipo de abordagem regional, os projetos não sofreriam com as alternância locais de gestão, mesmo havendo troca de prefeitos e secretários, assim como a falta de corpo técnico efetivo dentre os funcionários das prefeituras.
Como exemplo, programas como o Conservador da Mantiqueira tem demonstrado êxito no atingimento de seus objetivos (conservação e restauração florestal através do PSA). Embora o enfoque não seja conservação dos recursos hídricos, mais biodiversidade, o projeto agrega diversas entidades de governo, iniciativa privada, comitês de bacias hidrográficas, unidades de conservação, ONG, centros e universidades de pesquisas científicas que buscam, também como objetivo, promover planos de gestão municipais e regionais para conservação ambiental (Conservador da Mantiqueira, 2020). A regionalização proposta busca fortalecer o programa, técnica e politicamente, os municípios envolvidos.
Assim, uma vez que essas questões não sejam levadas em consideração nos programas de PSA que já estão implementados ou em fase de implementação, entende-se que um fator que deve ser considerado, e apoiado junto aos municípios, é buscar parcerias e realizar alianças, com o intuito de buscar a regionalização, e assim obter o apoio às necessidades que precisam ser supridas.
Portanto, entende-se que o cenário técnico e político é um indicador a ser analisado quando da implantação de programas de PSA e durante toda sua gestão, para que o programa seja desenvolvido com sucesso e se torne sustentável com o passar dos anos.
Em Salesópolis entende-se que a figura do Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê (CONDEMAT) poderia atuar junto ao Comitê de Bacia e a Agência de Bacia para dar suporte a criação e consolidação de políticas públicas municipais relacionadas as questões de conservação, preservação e programas que envolvam a sociedade. Essa interação, e principalmente o envolvimento desses atores técnicos no cenário municipal, são fatores importantes para que os programas de PSA se desenvolvam com êxito no município.
Abordando também as questões técnica e econômica e fazendo uma análise com o Programa Produtor de Água, no contexto do que foi verificado ao longo dessa pesquisa, promover projetos de recuperação florestal que possam consorciar recuperação e proteção da biodiversidade com geração de renda para aqueles que cedem suas áreas parece uma solução interessante, e que desperta bastante interesse dos produtores rurais, cujo interesse e envolvimento são o fator de sucesso desses programas. Assim, possibilitar a implantação de sistemas agroflorestais como forma de recuperação das áreas, para que o produtor possa cumprir suas metas de compensação aliadas ao ganho econômico, com o plantio de espécies que possam lhe trazer retorno financeiro, pode ser apontado como indicador de sustentabilidade para os programas de PSA.
Em algumas abordagens com os produtores rurais realizadas ao longo dessa pesquisa, ficou evidente que muitos “enxergam” que os plantios realizados acabam por “inutilizar” as áreas que antes eles criavam gado ou mantinham algum tipo de cultivo. Embora o apelo da obrigação legal da recuperação, na qual os proprietários são obrigados a proteger e manter as áreas de preservação, é necessário que sejam criados mecanismos de integração de culturas, por meio dos sistemas agroflorestais, que possam servir como fonte de renda para os produtores e assim despertar seu interesse pela conservação.
Dessa forma eles passariam a “enxergar” o contexto de forma diferenciada, protagonizando a manutenção e conservação do reflorestamento implantado pelo programa, visto que dali teriam benefícios – a recuperação com o reflorestamento, como serviço ambiental
por si só, não é percebida como ganho pelos produtores. Apesar de alguns se expressarem a favor da conservação e sua importância no contexto da bacia e para as gerações futuras, fica evidente que eles prefeririam manter nessas áreas cultivos ou atividade que pudessem apoiar no orçamento familiar.
No município de Salesópolis foram identificadas duas experiências em propriedades com projetos de recuperação que visam equilíbrio com exploração para uso econômico, por meio de sistemas agroflorestais. A legislação atual permite tais práticas, utilizando recursos de programas como o Nascentes, através de consórcio de áreas de preservação integral com áreas de plantio de espécies que possam ser utilizadas para fins econômicos. A Resolução SMA n° 32 de 2014 considera como método de restauração ecológica o plantio intercalado de espécies lenhosas, perenes ou de ciclo longo exóticas, com nativas de ocorrência regional, respeitando- se o limite percentual de até 50% da área de preservação permanente a ser recomposta, desde que ocorra em pequena propriedade ou posse rural familiar. A Resolução também prevê que, em áreas de Reserva Legal, para todos os tipos de imóveis, a área recomposta com espécies exóticas não poderá exceder a 50% da área total a ser recuperada.
Desta forma, observa-se que existem mecanismos legais que permitem ser viável utilizar a estratégia de combinar o reflorestamento com cultivos que possam reverter em atividade econômica, de forma a atrair os proprietários e a garantir a sustentabilidade dos programas que possuem como foco a restauração dos serviços ambientais.
De fato, essa perspectiva se alinha com as observações verificadas a partir da entrevista com o técnico da ANA, de que as políticas públicas devem emergir de baixo para cima, ou seja, a partir da identificação das interações locais e/ou regionais, onde, a partir daí, os municípios possam estabelecer junto aos órgãos estaduais mecanismos para que, legalmente e tecnicamente, sejam viabilizadas alternativas sustentáveis, independente das alternâncias na gestão política local.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS: PROPOSTA DE INDICADORES PARA OS