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O sucesso do Programa Mulher Empreendedora, pelo menos no que tange aos empreendimentos observados nesta pesquisa, baseia-se em cinco fatores interligados que impulsionam a aprendizagem entre os envolvidos. Este tópico aborda cada um deles.

Os doze anos de experiência do ICM trouxe à tona mudanças no processo de assessoria de empreendimentos populares. A principal delas, e que possui relação direta com a pesquisa, diz respeito à estruturação das redes de empreendimentos de alimentação. Entre 2011 e 2013, na Unidade São Paulo, especificamente, os negócios deste ramo de atividade apresentaram aumento de 181% na sua renda, enquanto nas outras áreas (artesanato, costura, dentre outros) demonstraram crescimento de 131% (INSTITUTO CONSULADO DA MULHER, 2014b).

Os números evidenciam que os empreendimentos pertencentes à rede de alimentação obtêm maiores rendimentos do que outros assessorados isoladamente. Mas o que explica esse desfecho?

Em primeiro lugar, a criação de uma cadeia de produção e venda baseada no conceito de comércio equitativo entre os empreendimentos. A partir de um processo de precificação dos produtos e definição da margem de lucro, ambos assessorados pelo ICM, os negócios participantes da rede eram estimulados a transacionar entre si. Assim, eles podiam comercializar mercadorias com valores acessíveis e condizentes com as normas de vigilância sanitária.

A troca de experiências e ajuda mútua entre os empreendimentos também contribuiu para o sucesso do formato de rede. As reuniões semanais, fora do horário de expediente, propiciaram momentos de reflexão das empreendedoras para solucionar problemas, além de serem consideradas estimulantes para o diálogo e planejamento das ações. Esses encontros eram estruturados a partir de duas pautas complementares: uma sugerida pelos empreendimentos, responsáveis por propor assuntos que, na visão dos seus representantes,

precisavam ser rapidamente resolvidos; a outra pauta, proposta pelo Educador Social, compreendia demandas do Programa, além de outros aspectos institucionais que impactavam no funcionamento da respectiva rede.

Embora esses momentos fossem importantes para o aprendizado das empreendedoras, o Educador Social assumiu uma função imprescindível na facilitação e encaminhamento das reflexões. Mas de que forma este profissional contribuiu para o desenvolvimento dos empreendimentos?

O papel principal do Educador Social era facilitar os processos de aprendizagem dos integrantes do empreendimento. A velocidade e a intensidade da aprendizagem tinha relação direta com o saber originado na experiência prática e nas vivências anteriores dos participantes. A proposta de trabalho considerava a história e as condições gerais de vida de cada “aprendiz”, somando-se à vivência, conhecimentos e história daquele que estava educando (INSTITUTO CONSULADO DA MULHER, 2012).

O Educador entendia que o protagonista do processo de geração de renda não era ele, mas o público-alvo. Pelo aprendizado e construção de novos saberes, esse público teve condições de provocar mudanças em sua vida, em sua família e comunidade. Sendo assim, o Educador conseguiu atuar com maturidade em relação a conflitos, procurando entender suas origens. Em alguns casos, relacionados à divergência de opiniões. Em outros, como consequência da necessidade de melhoria organizacional, definição de funções, divisão de tarefas e estabelecimento de regras. Adicionalmente, alguns participantes apresentaram um comportamento incompatível com as expectativas coletivas, sendo percebido pelo grupo como distante do compromisso firmado.

O processo de reflexão-ação, importante à aprendizagem social, também foi estimulado pelo Educador Social. Em alguns casos, graças aos questionamentos deste profissional, foi possível provocar as necessidades de mudança por parte das empreendedoras, como observado nas discussões sobre a excessiva carga de trabalho em um dos empreendimentos da Anchieta. Neste episódio em particular, as mulheres nem chegaram a refletir sobre a possibilidade de redução das horas trabalhadas, uma vez que na visão delas uma renda aceitável era sinônimo de um maior tempo despendido no empreendimento. Achavam uma solução difícil de ser implantada. No entanto, depois de três encontros semanais, encontraram diversas saídas, resultando em períodos de folga no horário comercial, até então algo inimaginável. A Educadora Social assumiu uma postura de facilitadora,

enquanto a solução foi desenhada pelas mulheres participantes, conforme demonstrado a seguir nas anotações do diário de campo.

No primeiro encontro, a Educadora Social sugeriu às empreendedoras que escrevessem, em fichas, as tarefas realizas pelo grupo durante um dia comum de trabalho, das 07h00 às 18h00. Como o propósito era fazer algo lúdico, a Educadora elaborou um painel com todos os horários disponíveis. As participantes discutiram entre si e colaram as tarefas nos períodos correspondentes. Ao final do dia, elas tinham um panorama do que era feito nas 11 horas de trabalho diário.

Algumas reflexões surgiram desta reunião, dentre elas a necessidade de todas as empreendedoras aprenderem os processos do empreendimento, principalmente aqueles relacionados à produção de alimentos. Assim seria possível tornar a sua execução mais rápida.

No início da segunda reunião, as empreendedoras comentaram, como resultado da atividade da semana anterior e fruto de algumas reflexões, a redução da quantidade de trabalho.

Dando continuidade às discussões, a Educadora pediu às mulheres que indicassem quantas pessoas realizavam as tarefas já mencionadas. Ainda mantendo o princípio da ludicidade, as participantes colaram a quantidade de bonecos de papel correspondente para cada atividade.

Finalmente, o terceiro e último encontro sobre a divisão de trabalho teve como objetivo indicar os responsáveis pelas tarefas relacionadas no primeiro encontro, obedecendo a quantidade de pessoas sugeridas na segunda reunião. Como resultado, as empreendedoras refletiram sobre quatro pontos: (i) melhoria na divisão de trabalho durante o período de pico da fabricação dos alimentos (das 09h00 às 12h00); (ii) definição de um cardápio de produtos por dia da semana, ao invés de oferecer diversas possibilidades em uma mesma data; (iii) produção diária de refeições, que trazem mais lucro se comparado aos salgados; e (iv) terceirização da fabricação de salgados para outros empreendimentos da rede.

Todas as decisões ajudaram na redução da carga horária das empreendedoras: (i) 1 hora a menos de trabalho por dia; (ii) uma folga de turno (matutino ou vespertino) por semana; e (iii) dois dias de folga por mês.

(Notas de campo das reuniões de rede).

Por fim, durante o trabalho de campo, ficou clara a ligação entre os fatores que impulsionam a aprendizagem no Programa Mulher Empreendedora como um ciclo (figura 12). A cadeia de suprimentos auxiliou a consolidação das redes de empreendimentos. Estas, por sua vez, favoreceram a troca de experiência entre os negócios participantes, facilitada pelo Educador Social. Este profissional estimulou o processo de reflexão-ação das empreendedoras que, por conseguinte, fortaleceu a cadeia de suprimentos das redes, devido à conexão criada entre os empreendimentos produtores e vendedores da rede de alimentação.

Figura 12: Relação entre os fatores que impulsionam a aprendizagem no Programa Mulher Empreendedora.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Mas, enfim, quem aprendeu nas redes de empreendimentos? O que foi aprendido? Como se deu essa aprendizagem e por que aprendeu? Essas questões foram analisadas no ambiente das redes de empreendimentos e associadas à teoria da aprendizagem social nas perspectivas organizacional e de sustentabilidade, a partir do quadro analítico resgatado do referencial teórico deste estudo.