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AS FAVELAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

No documento SÃO PAULO, 2011 (páginas 98-121)

SUMÁRIO

3 O PROGRAMA FAVELA BAIRRO NO RIO DE JANEIRO

3.1 AS FAVELAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

As favelas no Rio de Janeiro existem desde a abolição da escravidão, ou seja, desde o final do século XIX. Os conhecidos Morros da Providencia e o de Santo Antônio (esse último demolido quando das obras para a implantação do Parque Brigadeiro Eduardo Gomes, o Parque do Flamengo, ou simplesmente Aterro do Flamengo) figuram na literatura como as primeiras ocupações desse gênero na cidade.

Existe uma espécie de consenso entre autores e historiadores como ABREU, (1994) VAZ (2002), BERENSTEIN (2007), ZALUAR (2006), DAVIS (2006), PASTERNAK (2008), VALLADARES (2009), dentre outros: que o termo favela ficou conhecido a partir da ocupação do Morro da Providência. Abreu (1994), em suas pesquisas sobre as origens da favela nos periódicos do final do século XIX, relata que em meados de 1897 a Prefeitura já lutava para coibir a ocupação dos morros. Soldados do exército que voltavam da Guerra de Canudos para o Rio de Janeiro, ficaram sem ter onde morar, e, ao que tudo indica com autorização do Ministério da Guerra, ocuparam as encostas do Morro da Providencia (Figura 3.1), contribuindo para junto aos escravos forros, aumentar a população ali instalada. Para este autor, a favela tem origem em dois focos de tensão que surgiram no Rio de Janeiro no século XIX: a crise habitacional e a crise política que culminou com a Proclamação da República. (Ibidem)

Ao mesmo tempo em que os cortiços1 eram proibidos, a ocupação nos morros do centro

da cidade como o da Providência, o São Carlos e o Santo Antônio aconteciam sob o olhar das autoridades, dando origem às primeiras favelas. (Figura 3.2)

Segundo Abreu (op. cit.), a ocupação do Convento de Santo Antônio pelos soldados foi

autorizada pelo exercito desde a revolta armada2 em 1891. Entre os anos de 1893 e

1894, barracões eram encontrados no alto do Morro da Providência, cuja construção havia sido autorizada também por proprietários das encostas, que cobravam aluguel dos moradores – esses, provavelmente, teriam vindo quando da demolição do cortiço

“Cabeça de Porco”. 3 (Figura 3.3)

1

A demolição dos cortiços que abrigavam inclusive os escravos libertados pela Lei Áurea em 1888, agravou a crise habitacional que já se tinha noticia há época. (ABREU, 1994)

2

Para aprofundamento sobre o assunto consultar Rio Branco, Barão. Efemérides Brasileiras. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1938.

3

Em 1890 o Inspetor Geral de Higiene informava que a população dos cortiços chegava a 100.000 habitantes, o dobro da recenseada em 1888. Antes mesmo da implementação do plano de Pereira Passos, no período de 1891 a 1893, o Prefeito Candido Barata Ribeiro resolveu combater as moradias populares devido ao alastramento de doenças como a gripe e tuberculose, que se transformaram

73 Em 1897, havia no Morro da Providência 41 barracões de madeira, cobertos com telhas de zinco, alguns construídos por ordem do Governo e outros por iniciativa dos soldados, que, por sua vez, comercializavam a ocupação e a construção de demais barracões. Já no Morro Santo Antonio em 1901, a prefeitura declarava que estavam ali instalados aproximadamente 150 casebres e 623 moradores, mas, segundo Abreu (1994), na verdade eram 400 casebres e, como consequência, uma população também maior. Estas informações vieram à tona a partir de uma denúncia da imprensa, verificada pelo Prefeito Xavier da Silveira. Desde então a favela era colocada como assunto de domínio público e bastante presente no cenário urbano da cidade.

A ocupação precária do território no Rio de Janeiro foi agravada pelo plano para a modernização da cidade, de Pereira Passos, executado entre os anos 1902 e 1906. Em 1906 a população de 811.444 habitantes do Rio de Janeiro superava em números as

cidades de Salvador e de São Paulo4. Para Conde e Magalhães (2004) a política

urbanística do Presidente da República Rodrigues Alves e do Prefeito Pereira Passos5

impôs à cidade um processo intenso de modernização. A demolição do “velho Rio colonial” para a abertura de avenidas, e para os projetos de embelezamento, resultou em desmontes de morros, inúmeros aterros e a demolição de milhares de casas, desabrigando um contingente enorme de famílias.

O processo de modernização da cidade fez os preços dos aluguéis subirem, obrigando as famílias a dividirem as moradias, ou mudarem para os subúrbios mais distantes do centro, onde os preços eram mais acessíveis.

Correndo contra o tempo e contra a velocidade com que cresciam as ocupações nos morros, o governo promovia a construção das vilas operárias, cujos números não atendiam ao déficit de moradias observado há época. Em 1907 o Morro da Babilônia, entre a Praia Vermelha e o Leme, começa a ser ocupado; nos anos seguintes até 1912 acontecem as ocupações dos Morros do Salgueiro, da Mangueira, do Teleférico

rapidamente em epidemias, e proibiu a construção de novos cortiços, ordenando a destruição de um dos maiores cortiços localizado no centro da cidade, o conhecido “Cabeça de Porco”; este estava construído no sopé do Morro da Providencia e contava com aproximadamente 2.000 moradores. A demolição dos cortiços agravou a crise habitacional. (ABREU, 1994)

4

São Paulo contava com 240.000 habitantes, pelo Censo de 1900 (PMSP, 2011) e Salvador com 205.813 habitantes em 1900, segundo Pinheiro (2002).

5

Francisco Pereira Passos, nascido em Piraí, 29 de agosto de 1836, morreu em 12 de março de 1913, foi um engenheiro brasileiro e prefeito da cidade do Rio de Janeiro entre 1902 e 1906, nomeado pelo Presidente da República Rodrigues Alves. (BRENNA, 1985)

Figura 3.1: Casa de Canudos: Foto de Flávio de Barros, fotógrafo do exército. Fonte: VALLADARES, 2009, pág. 31.

Figura 3.2: Vista Panorâmica do Morro da Favella. Fonte: VALLADARES, 2009, pág. 38

Figura 3.3: Montagem das imagens da saudação da destruição do cortiço Cabeça de Porco pelo então Prefeito Barata Ribeiro na Revista Ilustrada. Fonte: ABREU, 2010. p. 51e VALLADARES, 2009, p.39.

75 e do Andaraí na Zona Norte e do Estácio. Em 1915, em Copacabana, começa a ser ocupado o Morro dos Cabritos e um ano depois o Morro do Pasmado.

Para Abreu (op. cit.) os padrões de distribuição espacial das classes sociais no Rio de Janeiro foram, através dos tempos, altamente influenciados pela atuação do poder público, por ações ou mesmo omissões em relação aos problemas que há muito ocorriam na cidade. A propagação das ocupações por favelas se tornaria inevitável nos bairros mais ricos, em função inclusive da proximidade das ofertas de trabalho que aquele território apresentava à população pobre da cidade, o que tornava proveitosa a convivência dos ricos com as favelas (Ibidem). Segundo Marins (1999 apud Conde e Magalhães op.cit. p.43) “Num tempo em que apenas trens e bondes precários serviam às periferias longínquas [...] Os morros e brejos do Centro e da Zona Sul acabaram sendo a resposta cômoda para as elites habituadas a agudas explorações sociais.”

Entre os anos de 1917 e 1926, as favelas no Rio de Janeiro convivem de forma pacífica

com as elites cariocas. Em 1927 o arquiteto francês Alfred Agache6, em seu plano para a

remodelação e expansão da cidade, propõe a remoção das favelas, a título de transformações social, estética e higiênica. As favelas então passam a ser uma preocupação carioca e a remoção passa a fazer parte dos discursos, das propostas de profissionais e do poder público. Conde e Magalhães (2004) afirmam que, sob o ponto de vista de Agache, a problemática habitacional era uma consequência indesejada de problemas sociais, econômicos e da administração, ao contrário do pensamento de Pereira Passos, que via os cortiços como causa dos problemas sociais e urbanos observados à época. Como apenas algumas obras propostas por Agache foram realizadas, a questão habitacional e sua eminente crise permaneciam sem a devida atenção, sendo reforçada a visão de que a ocupação dos morros era uma doença que deveria ser eliminada.

“Surgidas na paisagem urbana desde o final do século XIX, somente a partir dos anos 1930 as favelas começaram a marcar o espaço da cidade.” (VALLADARES, 1978. p. 22) A figura 3.4 apresenta as favelas identificadas na cidade do Rio de Janeiro entre os anos de 1948 e 1950.

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O Arquiteto-urbanista Francês Alfred Agache, representante da Beaux-Arts, foi contratado pelo Prefeito Antônio Prado Junior (1926-1930) para elaborar um projeto de reordenação da cidade. Os franceses são importantes na internacionalização do tema do urbanismo, influenciando o Brasil desde o principio do século XIX; e assim permanecem até a vinda de Le Corbusier em 1929, arquiteto autodidata que difundia o conceito do Espírito novo. (PINHEIRO, 2002)

Figura 3.4: Mapa da Cidade do Rio de Janeiro com a indicação das favelas existentes entre os anos de1948 e 1950. Fonte: ABREU, 2010, p. 108.

77 Apesar das tentativas de regulamentação por meio de legislação municipal, a ausência de restrições urbanísticas e de penalidades àqueles que a desrespeitavam facilitaram a implantação de parcelamentos irregulares, criando inúmeros problemas aos moradores. Em 1937 o Código de Obras do Distrito Federal (Decreto nº. 6.000), dentre outras regras tornava proibido o registro das favelas nos mapas oficiais, bem como a construção de novas moradias, ou mesmo melhorias nas moradias existentes nesses locais. No arcabouço dessa lei estava inserida a busca pela solução dos problemas urbanos e de habitação, estimulando o mercado fundiário nas áreas rurais (CONDE E MAGALHÃES, op. cit.), conforme transcrito por Valladares (2009, p.52)

Art. 349 – A formação de favelas, isto é, de conglomerados de dois ou mais casebres regularmente dispostos ou em desordem, construídos com materiais improvisados e em desacordo com as disposições deste decreto, não será absolutamente permitida.

Parágrafo 1° - Nas Favelas existentes é absolutament e proibido levantar ou construir novos casebres, executar qualquer obra nos que existem ou fazer qualquer construção

Art. 375 - É proibida a formação de novas favelas em qualquer zona do distrito federal. Nas favelas existentes é proibida a construção de novas habitações de qualquer espécie, bem como a execução de obras de qualquer natureza;

Art. 377 - Será de competência da Prefeitura a planificação tendente a extinguir as favelas existentes e substituí-las por conjuntos de residências e grupos de habitações do tipo econômico em todo distrito federal.

Nos anos de 1930 aparecem os primeiros loteamentos na Zona Oeste da cidade e em municípios vizinhos, esses se transformam em uma alternativa para a moradia popular.

Em apenas uma década (1930-1940)7 a população do Rio de Janeiro praticamente

dobrou em decorrência da migração interna do campo para a cidade e a partir de outros estados, devido ao estímulo da oferta de trabalho na indústria e na construção civil. Em contrapartida o poder público esboçava tímidas ações no setor habitacional. No período

entre os anos de 1941 e 1943, o Interventor Henrique Dodsworth8 elaborou e

implementou o projeto para higienização das favelas, que incluía a transferência de seus moradores para alojamentos provisórios, enquanto se construíam casas de alvenaria naquelas localidades.

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Embora não existam dados demográficos para o ano de 1930, os números indicavam que a população da cidade do Rio de janeiro era de aproximadamente 1.400.000 habitantes. Ao final desta década a população chega a.2.500.000 de habitantes. (ABREU 2010, p. 96)

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Henrique Dodsworth médico, advogado, sobrinho e chefe de gabinete de Paulo de Frontin, foi interventor do governo do Prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto, no período de 1937 a 1945, quando de seu afastamento em 1936. Foi o governante que mais tempo ficou no comando da prefeitura do Rio de Janeiro. (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO - PCRJ, 2005)

Nesse período 8.000 pessoas foram removidas, e foram levadas aos conhecidos Parques

Proletários9. (Figura 3.5)

Os resultados dos Parques Proletários provisórios são de molde a justificar amplamente os objetivos de sua criação quando secretário de Saúde o Dr. Jesuíno de Albuquerque. Sob todos os aspectos a iniciativa superou a expectativa otimista com que foi ideada. Apesar da desigualdade, da adaptação, conforme a procedência do faveleiro, a maior parte se integra imediatamente em um novo ritmo de vida, com surpreendente recuperação útil para a comunidade da qual se afastara, por tão largo período, mas em termos que comporiam páginas que enalteçam o valor da sua luta dentro um

quadro de acontecimentos tétricos e pungentes. (DODSWORTH, 1945)10

Valladares (1978) comenta que a centralização e o controle dos moradores que foram removidos e alojados nos Parques Proletários - empreendimento progressista nos anos 1930, em pleno Governo Vargas - representou a ampliação das bases de sustentação de uma política populista e autoritária. Os políticos nunca ignoraram o poder político da massa de moradores das favelas, uma vez que utilizavam os pequenos serviços implantados de água e esgoto para angariar votos e apoio, e desta forma eram reconhecidos como seus “defensores”. Esta prática se estendeu por 20 anos.

Os moradores removidos das favelas para os Parques Proletários construídos na Zona Sul, na Gávea e no Leblon, seriam expulsos anos mais tarde destes conjuntos para dar espaço às novas obras de expansão da cidade. Essa população era considerada vizinhança não adequada aos moradores que viriam habitar as terras, trazidos pela valorização e pela especulação imobiliária naquela região.

Frente à eminente remoção das favelas, os moradores se organizavam por meio da formação de comissões. Era o meio que estes moradores encontraram para a devida representação com vistas à reivindicação para o atendimento e da implantação de obras e serviços públicos, bem frente à tentativa de refrear o processo de remoção das favelas em andamento na cidade.

A criação da Fundação Leão XIII em 1946 seria um contraponto à remoção das favelas, não fosse o aspecto político que sua formação carregava, uma vez que a

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Os Parques Proletários eram conjuntos habitacionais de baixa renda construídos em áreas vagas da cidade para o abrigo provisório dos moradores removidos das favelas. O primeiro deles é o da Gávea, onde não havia instalações internas, sanitárias e de cozinha, sendo os banheiros coletivos. Para aprofundamento no assunto ver PARISSE, 1969.

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Trecho retirado de Artigo de Henrique Dodsworth: Favelas Cariocas: Um tema comum a Dodsworth e Lacerda, Jornal “A Noite”, 17 de outubro de 1945, publicado no n° 144 da COLEÇÃO ESTUDOS DA CIDADE, Prefeitura do Rio de Janeiro, janeiro 2005.

79 Figura 3.5: Vista do Parque Proletário da Gávea. Fonte: VALLADARES, 2009, p. 62.

intenção das ações implementadas era uma tentativa de amainar os ânimos da população que ainda residia nos morros, na medida em que eram instaladas e realizadas melhorias nas redes de abastecimento de água e esgotamento sanitário, e que, agora organizados, se opunham à realocação para os parques proletários. (VALLADARES, 2009) Apesar do caráter de grande obra de apostolado, no sentido da recuperação dos favelados, tinha o apoio do governo, que se antecipava ao temor da infiltração comunista nas favelas, pois a fundação surgia em meio há época em que o Partido Comunista Brasileiro ocupava o terceiro lugar em número de votos no Distrito Federal - Rio de Janeiro (Ibidem). Essa autora ressalta que a Fundação, impedindo a remoção dos moradores nas favelas do Borel e Santa Marta, fez com que o governo a transformasse em Autarquia vinculado-a ao Estado.

Em 1947 foi criada a Comissão para Extinção das Favelas que buscava a retomada do processo de erradicação das ocupações nos morros da Zona Sul, com a remoção dos moradores das favelas. Esta Comissão retomaria as ações dos Parques Proletários, mas a substituição dos barracos pelas casas definitivas jamais foi levada a cabo (VALLADARES, 1978). A Prefeitura do Rio de Janeiro desejando “extinguir as favelas”, ou pelo menos sustar seu desenvolvimento no Distrito Federal, por meio de seu Departamento de Geografia e Estatística, adiantando-se ao IBGE, realiza o primeiro recenseamento das favelas cariocas, que foi concluído em 1949. (VALLADARES, 2009, p. 64)

O estudo identificava as favelas na cidade como conjuntos urbanos e constatou que a população favelada era de 138.837 habitantes instalada em 105 conjuntos que se concentravam na área suburbana (44% das favelas e 43% dos favelados), seguida da Zona Sul (24% e 21%), e a da Zona Centro-Tijuca (22% e 30%). A Zona Bangu-Anchieta, a mais distante dos principais locais de emprego, tinha participação bem menos significativa. A população favelada equivalia então, a 7% da população total da cidade, diferentemente que a imprensa veiculava: eram de 400 a 600 mil os habitantes das favelas cariocas. (ABREU, 2010)

A década de 1940 foi o período de maior proliferação de favelas no Rio de Janeiro. A mais simbólica das favelas, o Morro da Favella, (Morro da Providência) localizada na área central da cidade, não era em 1950 a mais populosa. Com 4.567 habitantes, figurava em 13º lugar, sendo a primeira o Jacarezinho com 18.424 habitantes. (Valladares, op. cit, p. 69)11

Inúmeros debates e estudos foram realizados a partir da publicação dos dados do Censo de Favelas de 1949, “um período de produção de representações e de conhecimentos”, estendendo-se até o final da década de 1960.

As favelas deixam de ser, por esses motivos, um fenômeno à parte, próprio e exclusivo do Distrito Federal, com características inconfundíveis e essencialmente diversas de quaisquer outros aglomerados das classes pobres. Suas populações representam uma parcela como tantas que integram a sociedade brasileira. (VALLADARES, 2009, op. cit., p.71)

Os moradores, na ocasião, já conscientes de que seus problemas somente poderiam ser resolvidos pela via política, criaram em 1957 a Coligação dos Trabalhadores Favelados do Distrito Federal. (VALLADARES, 1978) (Figura 3.6)

Segundo Abreu (2010), o crescimento populacional das favelas foi bastante expressivo entre as décadas de 1950 e 1960: de 169.305 habitantes em 1950 para 335.063 em 1960, praticamente um crescimento de 98%. Observa-se que nessa época a ocupação dos bairros da Zona Sul carioca apresentava um adensamento expressivo em função da verticalização, propiciada pela Prefeitura em 1946, que liberara o gabarito das edificações (por pressão do mercado imobiliário e em função da área disponível restrita, pois o bairro estava confinado entre o mar e a montanha). Além de Copacabana, a edificação nas encostas do Leblon e da Gávea, pela classe média-alta, contribuiu para o adensamento.

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81 Figura 3.6: Favelados acampam no Palácio das Laranjeiras em 1964.

Fonte: CONDE E MAGALHÃES, 2004, p. 46.

O padrão de ocupação do bairro de Copacabana mais popular na década de 1950 era conhecido como a democratização de Copacabana, onde proliferaram os edifícios de quarto e sala e os chamados conjugados, posteriormente invadido pelas favelas. (Ibidem) O primeiro documento que apresentou as características físicas das favelas foi elaborado pela Sociedade pela Análise Gráfica e Mecanográfica Aplicadas aos Complexos Sociais –

SAGMACS12. Tal documento identificaria certo tipo de eleitor e certa categoria de

problemas urbanos que o político poderia utilizar em sua propaganda.13 A SAGMACS do

Rio de Janeiro, segundo Valladares (apud FREIRE e OLIVEIRA, 2008), somente se

tornou um centro de pesquisas a partir da pesquisa realizada por José Arthur Rios14,

denominada “Aspectos Humanos da Favela Carioca”, publicada pelo jornal O Estado de São Paulo, em abril de 1960. (Figura 3.7)

12

A Sociedade para Análise Gráfica e Mecanográfica Aplicada aos Complexos Sociais (SAGMACS), fundada pelo dominicano francês Louis-Joseph Lebret em 1947, foi uma instituição de planejamento urbano que teve destacada atuação no Brasil, especialmente durante os anos de 1950. (ÂNGELO, 2010)

13

Destacamos aqui que a SAGMACS foi criada por Louis-Joseph Lebret, conhecido como Padre Lebret, e foi onde realizou inúmeros trabalhos à frente de uma equipe de profissionais brasileiros. Pesquisas como as de Leme nos anos 1999 e 2000 e Leme e Lamparelli em 2001, ressaltaram a contribuição de Lebret na consolidação do pensamento urbanístico no Brasil e da SAGMACS como formadora de uma nova vertente do urbanismo no país. A Sociedade teria aberto novas perspectivas de inserção profissional do urbanista no planejamento das cidades. (Ibidem)

14

José Arthur Rios, advogado, cientista social, professor da Pontifícia Universidade Católica - PUC do Rio de Janeiro, tendo ali chefiado o Departamento de Sociologia e Ciência Política, foi convidado pelo Padre Lebret para dirigir a SAGMACS no Brasil.

A pesquisa então confirmou que a população favelada estava organizada e era muito

importante para a cidade do Rio de Janeiro.15

Nessa ocasião, a Zona Sul era a segunda região da cidade em concentração de favelas, contando com 33 favelas, perdendo somente para a Zona da Leopoldina, com 47. (ABREU, 2010) A favela já era o padrão de habitação popular mais conhecido no cenário carioca.

Em 1955 durante o 35º Congresso Eucarístico Internacional16, Dom Helder Câmara

retoma o debate sobre a questão da habitação popular no então Distrito Federal, criando a Cruzada de São Sebastião, uma associação católica que tinha seu trabalho centrado nas questões relacionadas aos trabalhadores e seus locais de moradia. (GONÇALVES et al., 2010) (Figura 3.8)

A Cruzada de São Sebastião construiu no Leblon, ao lado do Canal do Jardim de Alah, onde mais tarde seria erigido o Condomínio Selva de Pedra, um conjunto de prédios para abrigar os moradores da Favela da Praia do Pinto, que após um incêndio foi removida. Parte dos moradores foi removida para este conjunto e parte realocada para conjuntos habitacionais na Zona Oeste da cidade. A ideia era que este conjunto se tornasse um modelo a ser replicado na cidade, com o intuito de remover as 150 favelas que existiam

No documento SÃO PAULO, 2011 (páginas 98-121)