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Fazenda Amparo mostrando a parte dos fundos e no seu interior objetos antigos, como as rodas de fiar, que estão bastante conservadas, e o porão que era utilizado para fabricar o queijo.

Autor Gilmar José Ribeiro 2005.

Dona H. A. de S. descreve sua experiência de vida na fazenda:

Setembro era o mês de preparar a terra, tudo era feito com os boi, de noite nós usava a lamparina que era na base de querosene, jogava truco e contava “causos”. Antigamente não tinha conforto, mas tinha muita fartura, todo mundo tinha a sua lavourinha o tempo era diferente, o arroz a gente limpava no pilão, a alimentação era diferente, a gente usava era a banha de porco, todos tinham a sua galinha, o quiabo, a abobra, na cidade a gente só comprava o querosene e o sal. O povo era mais alegre e despreocupado, tinha mais fé e rezava mais, tinha muito terço tinha muita fé, tinha muita festa de São Sebastião e Santos Reis, sempre com muita comida e muito doce. Antigamente tinha mais gente na roça, nas beira do corgo, a vida era mais sussegada, parece que o tempo era diferente, passava mais devagar. Hoje a vida é diferente, mas eu só vou na cidade uma vez por mês, hoje o povo é tudo apavorado (H.A.S. Conforme trabalho de campo em 10/10/05). Como já vimos, a prática da agricultura era feita de acordo com os ciclos da natureza, e permeada pela influência das forças divinas. Havia, ao lado das práticas agrícolas, um forte exercício da religiosidade que estava presente em, praticamente, todas as famílias, tanto do meio rural, quanto do meio urbano. A vida no campo era marcada pelas dificuldades. Produzir era muito difícil e as dificuldades só eram superadas com muito trabalho, que começava com a derrubada das matas e se desenrolava durante todo o processo até a realização das colheitas.

Para o senhor A. A. P., a derrubada da mata era completada realizando a queimada. Em seguida vinha o preparo da terra, com o uso de tração animal e a manutenção por meio das capinas, feitas com a enxada.

As limitações impostas pela escuridão eram enfrentadas com o uso das lamparinas, as relações de trabalho não envolviam o uso de dinheiro, pois existia a produção em parceria e a realização constante dos mutirões.

Nesse universo de dificuldades, rezar era praticamente uma obrigação diária. O mundo religioso era cheio de manifestações e o poder divino era sempre conclamado para a superação dos obstáculos. Quando o ciclo da natureza se alterava causando, por exemplo, o atraso das chuvas, a única solução era rezar, quase sempre nos pés da cruz. O contato com o mundo dos mortos se dava nas rezas para as almas, que se intensificavam durante o período da quaresma. A vida prática era marcada, muitas vezes, pelas superstições e orações traduzidas, quase sempre, nas festas, aos santos de devoção. A vida se desencadeava em função dos interesses dos fazendeiros, que tinham forte ascendência sobre seus agregados, mantendo assim seus interesses políticos e econômicos (A. A. P. Conforme trabalho de campo em 18/10/05).

Nesse contexto, as práticas diferiam muito pouco, de uma propriedade para outra, já que as condições técnicas eram praticamente as mesmas para todos. Desta maneira, o senhor E. afirma que a vida era cheia de dificuldades. Começava logo cedo, desde a hora de tirar o leite, durante todo o trabalho pesado na lavoura, até a hora do descanso. Todas as atividades eram trabalhosas, porém, a vida era muito simples e ele comenta da seguinte maneira:

Levantava cedo tirava o leite e ia trabaiá na roça ará o chão com o arado de bico puxado pelos boi, a minha mãe dizia pá começa no mês de julho e não em agosto que era pá não tê disgosto. Depois que prantava vinha a primeira carpidação depois a desquilinação, a segunda carpidação e depois era Deus que tomava conta até na coiêta. A diversão era o jogo de bola dia de domingo e as festa na capela, o povo era muito animado. As sede da fazenda era construída nos fundo, nas curtura pá aproveitá as queda d’água que fazia funcioná o monjolo e o moinho, os vizinho levava o milho pá troca no fubá. A comida não podia tê nada diferente que o povo falava que fazia mal, o que era mais difícil era o dinheiro que quase não tinha, mas uma coisa era melhor o povo era mais alegre e mais religioso rezava muito mais que hoje (E.J.P. Conforme trabalho de campo em 20/10/05).

A originalidade desse tempo de trabalho duro no campo era marcada pelas conversas noturnas e também pelos encontros para rezar. Conta-se que era muito comum, no município de Indianópolis, as pessoas se visitarem e baterem longos papos, como também ir na casa do

vizinho ou do amigo ajudar a rezar um terço ou a levantar um santo. Tanto as visitas quanto as rezas eram acompanhadas por muita comida e bebida.

O senhor O. P recorda, com saudosismo, desse tempo:

O trabalho na lavoura era tudo manual, por isso era muito difícil, de noite não tinha energia, a gente usava a lamparina, mas o povo era mais amigo fazia visita e ficava conversano até tarde, era costume sair de cavalo para visitar os parente, os amigos. O povo também era mais companheiro, quando ia trabalhar cada um queria fazer mais do que o outro. O trabalho era pago com banha, açúcar e também com arroz. Tinha sempre os terço nas fazenda e as festas de Santos reis, nessas festas tinha muita fartura. Ninguém plantava no cerrado porque não existia o adubo e ele não dava nada. Nesse tempo o povo rezava muito e fazia muita promessa. A comida era melhor, era mais natural, a banana era colhida no quintal, as frutas não tinha bichos e não existia inseticida (O.P. Conforme trabalho de campo em 21/11/05).