Fazenda Amparo, mostrando sua imponente arquitetura, uma sala enorme com móveis antigos, local de descanso da sua proprietária, D. H., de oitenta e nove anos de idade; e o monjolo, que hoje não é mais utilizado. Essa fazenda contém alguns elementos, ainda bastante conservados, que fizeram parte da tradição do povo indianopolense.
Autor: Gilmar José Ribeiro, 2005.
Como estamos nos referindo ao processo de formação e transformação cultural do estado de Minas Gerais, tratando sobretudo dos aspectos referentes às tradições e costumes do povo triangulino e indianopolense, consideramos de extrema relevância, para este capítulo, fazer algumas considerações sobre os modos de vida e as praticas culturais do povo mineiro. Gostaríamos de ressaltar que a forma como se deu a ocupação inicial do território brasileiro, promovida pela metrópole portuguesa, foi extremamente importante na definição de sua história. Em Minas Gerais, esse processo de ocupação ocorre em circunstâncias distintas, sobretudo no interior do estado.
De acordo com o contexto mencionado, Dias (1971) afirma que o desenvolvimento do estado de Minas Gerais sempre se deu de maneira fragmentada e, muitas vezes, de forma obscura. Nas regiões mais pobres ou que não tinham riquezas a serem exploradas (como o ouro, por exemplo), apenas a agricultura e a pecuária, o desenvolvimento ocorreu na contramão das áreas mineradoras, constituído basicamente de atividades familiares, voltadas para a sobrevivência, utilizando técnicas muito incipientes.
Desse modo, essa produção de subsistência garantiu ao povo do cerrado Mineiro, bem como do Triângulo e Indianopolense, o conhecimento de técnicas de produção e uma culinária peculiares, uma vez que plantavam produtos como a mandioca e o milho, cujas lavouras eram de fácil operacionalização, uma vez que os instrumentos e as técnicas de produção eram muito incipientes. Esses produtos permitiam a fabricação de alimentos como o pão-de-queijo e o biscoito, feitos da mandioca, o angu e a pamonha, feitos do milho. Produtos como o trigo não eram comuns na região.
Nesse sentido, devemos entender que esses produtos, de fácil cultivo e manuseio, foram de extrema importância para a alimentação da população no cerrado de Indianópolis, pois, segundo relato de alguns moradores mais antigos, eram muito comuns, nas propriedades do município, os moinhos, que produziam o fubá de milho, muito utilizado para fazer o angu, que acompanhava o frango caipira no almoço de domingo; além dos poderosos mingaus e canjicas, que faziam parte da alimentação das mulheres que guardavam resguardo e que, de acordo com a tradição1, serviam para aumentar e fortalecer o leite das mulheres, facilitando e
prolongando a amamentação, por um período maior. Também era muito comum a fabricação do polvilho, feito da mandioca, trabalho que reunia muita gente para ser executado; no final
1
A tradição deve ser nítidamente diferenciada do “costume”, vigente nas sociedades ditas “tradicionais”. O objetivo e a característica das “tradições”, inclusive das inventadas, é a invariabilidade. O passado real ou forjado a que elas se referem impõe práticas fixas (normalmente formalizadas), tais como a repetição (HOBSBAWM E RANGER, 2002 p. 10).
da jornada, saíam sempre os pães-de-queijo e o mané-pelado quentinhos, alimentos que eram muito apreciados, no município de Indianópolis.
Embora em outro contexto, Antônio Cândido retrata a importância desses alimentos: A mandioca era, por antonomásia, o mantimento, e o milho, a roça. Mais rudes e fáceis de cultivar que o feijão, admitiam além disso uma série de transformações e empregos que este não comportava. O milho, Verde, Come-se na espiga, assado ou cozido; em pamonhas; em mingaus; bolos, puros (curau) ou confeccionados com outros ingredientes. Seco, come-se como pipoca, quirera e canjica; moído, fornece os dois tipos de fubá, grosso e mimoso, base de quase toda a culinária de forno entre os caipiras, inclusive vários biscoitos, o bolão, bolinhos, broas, numa ubiqüidade só inferior à do trigo; pilado, fornece a farinha e o beiju, não esquecendo o seu papel na alimentação dos animais. Enquanto a mandioca trouxe, mais ou menos sem mudanças, a tecnologia a que se vinculava nas culturas aborígenes – mormente ralo e tipiti – ele deu lugar a importante convergência, que constituiu um complexo material de primeira plana, onde se podem discernir as peneiras, os pilões de mão e de pé, o monjolo, os moinhos d’água, os fornos de barro, as formas de vária espécie etc (CÂNDIDO, 2003, p 69 - 70). O uso desses alimentos, no cerrado triangulino, era muito semelhante ao exposto por Antônio Cândido. Esses produtos exigiam técnicas tradicionais, que já eram conhecidas e dominadas pela população do cerrado, o que facilitou e intensificou o seu uso na culinária do povo mineiro.
Dessa maneira, conforme já exposto, nas regiões que tinham algum tipo de riqueza a ser explorada, melhores condições climáticas e de relevo, o desenvolvimento foi, de certo modo, mais rápido e com maiores influências na economia da região e das comunidades. Tanto nas regiões mais desenvolvidas como nas regiões que se mantinham estagnadas, em termos de crescimento econômico, de infra-estrutura, como estradas, meios de comunicação e até de modernização das frentes produtivas e das comunidades, os relacionamentos culturais sempre ocorreram tendo por base a religião das comunidades, a vida comunitária com seus conflitos e uma consciência política que resultava das relações sociais. Visivelmente, os poderosos procuravam, por meio da fé e/ou de algum tipo de manifestação cultural, manter um fascínio sobre os segmentos sociais marginalizados.
Até o início do século XX, a economia de Minas Gerais se baseava na produção agrícola, existindo uma importante produção camponesa. Portanto, o campo era o centro das mais ricas manifestações culturais e religiosas, baseando-se nessas manifestações a religião católica, que por sua vez propicia a realização de diversas festas religiosas, transmitidas através das gerações, que permaneceram durante muito tempo arraigadas nas áreas rurais, local onde trabalhava e vivia a maior parte da população do Estado.
Desse modo, tornou-se comum a realização de grandes festas religiosas nas fazendas do Triângulo Mineiro; particularmente, no município de Indianópolis, temos como exemplo a Festa de Santo Reis, do Divino, de São João e outras, que faziam parte do calendário festivo do homem do campo ou roceiro, como era chamado, nessa região. Essas festas eram o momento de as pessoas mostrarem sua fé, mas era também o momento de encontros, de reunião e também de os fazendeiros afirmarem o seu prestígio. Desta forma, faziam parte da cultura do camponês, na qual rezar era um costume corriqueiro, pois sempre rezavam antes de dormir e na hora de levantar, muitos até na hora das refeições. A presença de um padre ou qualquer representante oficial da igreja era muito difícil, no meio rural de Indianópolis, de forma que as festas eram dirigidas até mesmo por pessoas da própria comunidade, o que fortalecia a religiosidade popular e enriquecia a cultura do camponês.
Segundo Dias (1971), Minas Gerais está dividida em 11 regiões culturais. No entanto, sabe-se que é muito difícil delimitar essas áreas, utilizando conhecimentos que consideram as regiões a partir de critérios tradicionalmente utilizados, como regiões políticas, econômicas, físicas naturais, geográficas ou sócio-históricas. Embora essas delimitações sejam puramente didáticas, há que se ressaltar que, na verdade, essas áreas são praticamente indelimitáveis. Além disso, aspectos culturais transcendem as fronteiras políticas do Estado. A incorporação de tantos elementos, vindos de fora, que se juntam aos aqui já estabelecidos, faz de Minas, portanto, uma espécie de celeiro cultural. Com a pretensa cultura mineira, recebendo influências de diferentes povos, o que proporcionou muitos tipos de “mineiridades”, dotando o Estado de manifestações únicas e típicas, e de uma extrema diversidade entre as suas próprias regiões.
No caso do Triângulo Mineiro e de algumas cidades da região, ainda se podem perceber alguns traços dessa suposta “mineiridade”, que de certa forma permanece em algumas localidades, onde hoje (2006) é possível encontrar resíduos da cultura que marcou o passado de sua população, principalmente nas áreas rurais que, certamente, foram as que sofreram os maiores impactos do processo de modernização. Em algumas fazendas do município de Indianópolis, podem-se perceber os traços desse passado, em que o estilo de vida era totalmente diferente dos dias atuais. Alguns dos fazendeiros mais antigos do município ainda costumam receber as pessoas com a tradicional hospitalidade e receptividade do roceiro mineiro. Durante nosso trabalho de campo, foi possível fazer esta constatação, quando da nossa visita à fazenda Buriti, de propriedade do senhor A. A. F.2 e de dona M. F.,
onde nos receberam com toda a “mineiridade” (hospitalidade) possível, tratando-nos como se fôssemos conhecidos íntimos da família. Contaram-nos “causos”, falaram das experiências da vida no campo e também relembraram o passado, falando das dificuldades do trabalho e da criação dos filhos, na fazenda.
Durante uma longa conversa, na qual o senhor A. chamava sempre de boa prosa, foi possível constatar a pureza e a riqueza de uma vida simples. Chegamos na fazenda por volta das dezessete horas e trinta minutos e, quando conseguimos sair, já eram mais de vinte e uma horas, pois, todas as vezes que ensaiávamos uma retirada, o senhor A. e dona M. insistiam para que esperássemos o pão de queijo que ela preparava em uma simples, porém aconchegante cozinha, em um não menos simples, mas imponente fogão a lenha, ao lado do qual conversávamos, uma vez que nos receberam na cozinha. Ao que se percebe, essa era uma das características da hospitalidade do roceiro de antigamente, nessa região, pois recebiam as pessoas na cozinha, como sinal de confiança e apreço. A cozinha era, pois, o local das mais divertidas e longas prosas. Enquanto a conversa prosseguia, dona M. preparava o pão-de- queijo, usando os ovos das galinhas criadas no quintal e o queijo feito por ela com o leite produzido na fazenda. Só depois de comermos os pães de queijo, que aliás estavam deliciosos, foi possível a nossa retirada. Durante nossa conversa, o senhor A. nos falou, relembrando, com saudades, como era a vida na fazenda:
Antigamente a gente levantava bem cedinho, entre cinco ou seis horas da manhã, e ia fazê os serviço da roça, arrancá toco, batê pasto, capiná, prantá com os boi, etc. O dia parece que era mais cumprido porque o serviço era pesado, o tempo demorava mais pá passá, hoje passa digero, o trabaio era muito custoso, era muito pesado. A diversão era mais custosa, mas era mió, tinha muita festa na roça, tinha o mutirão pos home batê o pasto e pás muié fiá o agudão. Dia de domingo a gente jogava muita bola, tinha as festa na capela, o povo rezava mais, parece que tinha mais fé, a gente quase não via o padre na roça mas ele era muito respeitado, quando ele chegava na roça o povo conversava baixinho. Nas fazenda tinha muito agregado e os agregado votava aonde o patrão mandava. Nessa época os fazendero dominava a política e em indianóp a política era um fuá danado. Tudo que a gente prantava no quintal dava, hoje não dá é tudo cheio de bicho, apodrece tudo. Antigamente o fio obedecia os pai, hoje não obedece mais. Estudá era dificio, a gente tinha que ir a pé, hoje a condução pega na porta. O namoro era um de lá e outro de cá da porta (A. A. F. Conforme trabalho de campo em 13/10/05).
De acordo com as palavras do senhor A., podemos perceber a riqueza e a simplicidade da vida no campo, onde a religiosidade e as relações pessoais eram valorizadas e as dificuldades estavam sempre presentes, mas as manifestações culturais eram riquíssimas.
Nesse sentido, definir a cultura de um lugar ou de um povo qualquer é algo muito complexo, pois, como sabemos, existem várias definições de cultura. Entretanto, consideramos importante, para esse trabalho, analisar a cultura a partir das manifestações que são únicas e típicas do povo mineiro e, especificamente, indianopolense, por ser esta a nossa área de estudo, incluindo-se aí a religiosidade. Portanto, a cultura expressa nessa área pode ser percebida e apreendida pelos comportamentos, valores, crenças, práticas, costumes; conhecimento das técnicas e dos instrumentos utilizados, bem como das novas possibilidades de vida que se apresentam a todo momento, facilitando a convivência entre as pessoas.
Segundo Claval (1999), a cultura é uma criação humana que, mesmo se dando de forma coletiva, é constantemente renovada, o que capacita os indivíduos a viver em sociedade, por meio da qual podem, também, organizar e dominar o espaço. Dessa forma, ele a define da seguinte maneira:
A cultura é a soma dos comportamentos dos saberes, das técnicas, dos conhecimentos e valores acumulados pelos indivíduos durante suas vidas e, em uma mesma escala, pelo conjunto dos grupos de que fazem parte. A cultura é herança transmitida de uma geração a outra. Ela tem raízes num passado longínquo, que mergulha no território onde seus mortos são enterrados e onde seus deuses se manifestaram. Não é, portanto, um conjunto fechado e imutável de técnicas e de comportamentos. Os contatos entre os povos de diferentes culturas são algumas vezes conflitantes, mas constituem uma fonte de enriquecimento mútuo (CLAVAL, 1999, p 111). Nesse sentido, tornou-se de extrema importância, para esse trabalho, a compreensão do processo de formação cultural e religiosa do povo mineiro e, por sua vez, do povo indianopolense, bem como suas práticas cotidianas.
Para compreendermos as manifestações culturais existentes em Minas Gerais, e pela própria impossibilidade de se definirem as regiões culturais do Estado, buscar-se-ão pistas históricas na formação do povo mineiro e na origem das tradições regionais. Segundo Dias (1971), muitos estudiosos afirmam que o caráter regional e cultural do povo mineiro formou- se, claramente, no auge da mineração. Sabe-se, porém, que não existe caráter regional ou mesmo cultural que seja imutável, livre dos processos de mudança. Entretanto, pode-se dizer que alguns fatores contribuíram para manter, até os dias atuais, a presença de uma noção, ainda que frágil, de cultura mineira. Um dos argumentos ressaltados é o fator geográfico em Minas Gerais, que legou aos habitantes da antiga província um isolamento natural, fazendo do mineiro um tipo notadamente retraído e interiorano, avesso aos processos colonizadores das
áreas à beira-mar. Sabe-se, contudo, que os fatores geográficos não podem ser tomados isoladamente e, por si, não determinam, exclusivamente, os fenômenos da cultura.
Desse modo, embora a notoriedade do povo mineiro se dê mais pelos seus aspectos de retração, de introspecção, de sujeito do interior, ficou também notadamente conhecido como acolhedor, hospitaleiro e também pela sua religiosidade e seu jeito pacato, traduzindo assim o “jeito mineiro”; características estas que, no interior de Minas, são atribuídas aos roceiros. Pode-se destacar, porém, que mesmo a mineração sendo um componente econômico importante da economia mineira, as áreas não mineradoras sempre tiveram como base de sustentação econômica a agropecuária, que por sua vez determinava as características desse povo.
Dessa maneira, podemos entender que as atividades agrícolas possibilitaram o desenvolvimento de práticas que promoveram uma vida cultural e religiosa muito rica e intensa no campo, onde eram constantes as festas religiosas, mas também havia muito trabalho pesado na lavoura. Nessa perspectiva, o senhor O. A. de S. fala de como era a vida e o trabalho na fazenda:
A gente levantava antes do sol saí e ia po trabaio que era muito pesado o serviço era rancá toco com o enxadão, ará de boi, capiná e coiê de cutelo, tinha de batê o arroz na banca feita de pau. Nóis drumia no cochão de paia, era tudo dificio, mas era bão, nóis trabaiava naquele tempo era na troca de dia de serviço. Tinha muita festa, mas a festa mió era a de Santos Reis. A festa era na casa do festeiro, depois que a folia cantava tinha a janta, com muita fartura de comida, tinha muito doce, tinha tamém a festa de São João que era muito boa, primeiro tinha a reza do terço que era em casa, depois do terço tinha a fogueira e depois a janta e depois levantava o santo. A vida era mais custosa, tinha que trabaiá muito, o povo não tinha ilusão igual hoje. Naquele tempo as pessoa saia de cavalo pa visitá os cumpade, os vizinho, hoje não tem isso porque as pessoa não tem tempo é ocupada. Antigamente o padre vinha na roça só quando tinha festa, mas o povo rezava muito. Quando morria arguém na estrada punha uma cruz e a famia ia sempre rezá no pé da cruz e punha vela pa quema. Mas depois que começou a prantá a soja eles arranca até os cruzero. Era dificio de estudá porque não tinha escola. A professora era paga pelo fazendeiro (O. A. S. Conforme trabalho de campo em 15/l0/05).