CAPÍTULO 1: O CÁRCERE E SEU ENTORNO
2.4 Fazer viver e deixar morrer: a infância pobre e as tipologias de poder
Uma das grandes contribuições de Michel Foucault para esta pesquisa foi a compreensão de dois conceitos fundamentais: biopolítica e tanatopolítica. Enquanto a primeira refere-se ao cálculo e gestão do poder sobre a vida, a outra diz respeito ao cálculo e gestão do poder sobre a morte. No primeiro volume de História da Sexualidade,179 Foucault escreve que nos tempos da Roma Antiga aparece uma figura importante: o pater familias (o mais alto estatuto familiar na Roma Antiga; sempre uma posição masculina) que exercia o pater potestas (o poder do pai, o poder de um chefe de família, não só pai de seus filhos, mas pai de sua mulher, de seus escravos e de todos aqueles que a ele se submetiam e se subjugavam). Esses subjugados colocavam a sua vida e a sua possibilidade de morte nas mãos desse indivíduo, o pater familias. O poder que ele exercia dava-lhe autoridade de administrar a morte e a vida do outro.
178 BUJES, Maria Isabel Edelweiss. Infância e Maquinarias, Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
179FOUCAULT. Michel. História da SexualidadeI: a vontade de saber (1976) Rio de Janeiro: Edições
90 Com o passar do tempo, este poder foi-se transformando num poder absurdo e, por isso, questionado pela sociedade jurídica em sua interioridade, deixando, então, de existir enquanto radicalidade de ação contra a vida do outro nas formas de governo democráticas. Uma vez que devesse ser feito para o bem, esse poder passou a se realizar no sentido de preservar a vida do outro. Em outras palavras, este poder sobre a morte, iniciado na sociedade moderna, dá lugar, na contemporaneidade, ao poder sobre a vida. Não é mais a gestão da morte do outro que entra em vigência, mas o que pode ser feito com a vida do outro. Uma maneira sutil de gerir os modos de vida. E são os mecanismos de controle sobre esta vida que irão permitir que o poder se exercite. A cultura, a educação, a medicina, a indústria da imagem, da alimentação, a estética, o uso que fazemos da nossa sexualidade, a ordem dos discursos, o governo, as instituições (quaisquer que sejam), a maneira como controlamos, dentro de uma estrutura social, a existência dos nossos pobres, tudo isso vai se inserindo numa vasta rede de relações e dispositivos que Foucault chamou de biopoder.
Se na tanatopolítica o pater familias tinha autoridade sobre seus subjugados, podendo fazer uso do gladio, da espada, para decidir sobre a morte do outro, na biopolítica este poder decidirá sobre a vida, sobre a gestão desta vida. É na biopolítica que a vida passa a ser calculada e administrada pelo poder. Essa vida, pertencente e capturada pela biopolítica, passa a ser tratada como valor ou desvalor, dependendo de que vida está sendo gerida.
Todavia, mesmo que a biopolítica seja o cálculo que o poder faz sobre a vida, ainda há, na contemporaneidade, a gestão sobre a morte. A tanatopolítica não foi eliminada, mas sutilmente reconfigurada. Apesar de Foucault ter iniciado a elaboração da teoria da biopolítica em sua obra História da Sexualidade, e não ter podido continuá- la: faleceu antes de terminar a pesquisa, Giorgio Agamben retomou a discussão da tanatopolítica em Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua180. Em suas análises, apresenta um caminho interessante para se pensar a tanatopolítica nos dias atuais. Para o filósofo italiano, não é qualquer vida que estará subjugada pelas relações de poder. O cálculo que o poder faz sobre a vida é um cálculo muito específico sobre um tipo de vida: é a vida que se isola da política, descontextualizada da polis, a vida zoé, a mera vida.
180AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer: O Poder Soberano e a Vida Nua I, trd. Henrique Burigo, 2 ed.,
91 Essa mera vida, a vida nua, são as apresentações, as aparições de uma corporeidade que não entrou na esfera política. Um corpo que vive dentro da nossa cultura, mas estranhamente isolado e não pertencente a ela. São os que estão dentro, mas ao mesmo tempo fora, são os “hiatos” da existência, aqueles que chamamos de “excluídos”. A tanatopolítica é a gestão da morte dessa vida nua, dessa vida zoé.
Ao longo da história, essa mera vida sempre foi manipulada, controlada, gerida, para deixar viver ou morrer. Todavia, administrar esta vida para a morte não tem, na contemporaneidade, as mesmas significações daquelas presentes nas sociedades antigas. As formas de eliminação desta vida são sutis, não inscritas juridicamente: não precisamos assinar nenhum documento que autorize a morte do outro. Não há responsáveis; eles são invisíveis. Deixamos morrer, todos os dias, as crianças famintas, os mendigos na rua, os bandidos nas prisões, os loucos nos manicômios, os doentes nos hospitais, os soldados em guerra, os chefetes181 do tráfico, a prostituta da esquina. Meras vidas. Vidas geridas pelo exercício do poder que visa a aniquilação do outro, mas sem o comprometimento com tal aniquilação. Esta vida nua, portanto, é uma produção específica das relações de poder, e não um dado natural. Para Agamben,
Nem sequer a criança é vida nua: ao contrário, vive em uma espécie de corte bizantina na qual cada ato está sempre já revestido de suas formas cerimoniais. Podemos, por outro lado, produzir artificialmente condições nas quais algo assim como uma vida nua se separa de seu contexto: o muçulmano em Auschwitz, a pessoa em estado de coma etc. [...]. O humano e o inumano são somente dois vetores no campo de força do vivente. E esse campo é integralmente histórico, se é verdade que se dá história de tudo aquilo de que se dá vida. Porém, nesse continuum vivente se podem produzir interrupções e cesuras: o "muçulmano" em Auschwitz e o testemunho que
responde por ele são duas singularidades desse gênero.182
É o homo sacer que Agamben apresenta como a figura que carrega dentro de si a vida nua, a mera vida isolada dentro do seu próprio modo de existir. Uma vida que não cabe mais dentro da cidade, mas habita ao seu redor. Continua sendo humano, mas um
181Chefetes , na linguagem do tráfico, refere-se a chefes sem prestígio ou de autoridade limitada. É a parte
inferior de uma rede organizada e hierarquizada de traficantes.
182Entrevista com Giorgio Agamben. Revista do Departamento de Psicologia. UFF, vol. 18 no 1.
Niterói Jan/Jun 2006. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104- 80232006000100011> .Acessado em 27 jun/2012.
92 humano isolado da ordem, desintegrado da polis. Ao ser lançado para fora da cidade por alguma penalidade sofrida, o homo sacer está condenado à exclusão dentro da civitas romana, ou seja, condenado a viver fora da sociedade, mas ao redor dela. Não pode ser sacrificado, morto, pois já é considerado sacro (impossibilitado de conviver com os outros).
Mas quem define o humano e o inumano? Quais são, em seus mecanismos, em seus efeitos, em suas relações, esses diferentes dispositivos de poder que se exercem, em níveis diferentes da sociedade, em campos e com extensões tão variadas? São dispositivos de poder que se alimentam, nesta sociedade democrática e profana, de uma ordem de discursos que transforma os meros viventes em figuras manipuláveis, subjugadas, descartáveis, sem valor e, portanto, dignas de morrer. Se, então, a vida nua, zoé, se separa de seu contexto de bios, mesmo que artificialmente, quem são esses da mera vida? Para Agamben, todos somos homenes sacer. Figuras passíveis de morte. Todavia, não é apenas a morte do outro que assisto como espetáculo, mas a possibilidade da minha própria morte.
O sentimento banalizado é de que estamos desprotegidos. A ordem convencional, artificial, inventada pelos homens tendo em vista um bem comum – a preservação da vida – está confusa. O poder de estado de proteger e o poder de polícia de matar – o pátria potesta – e o dever de defender a vida se misturam de forma promíscua. Pensar numa proteção da vida é uma ilusão que nos agrada e uma esperança necessária para que a vida em sociedade não se torne insuportável.
A infância pobre está inserida neste contexto de desproteção e isolamento. Os discursos elaborados para assisti-la não são suficientes para ampará-la. Há um flagrante insucesso das instituições “em fazer prevalecer seus objetivos discursivos, o que as reduz ao que são efetivamente: instâncias de produção de sujeitos dependentes e tutelados sobre os quais deita o poder sua voracidade e intolerância.”183 E são as infâncias de crianças pobres que entrarão “mais facilmente dentro da mira coletiva e do olhar moralizador da comunidade.” 184 Estas infâncias ficam numa relação de forças e de ajuste de poder: de um lado, grupos profissionais e saberes que lidam com a infância e, de outro, a família, nomeada e instituída, em primeira instância, para protegê-la e ampará-la. Mas, o que fazer, quando nenhuma dessas relações de força, em que o poder
183ADORNO, Sérgio. A experiência precoce da punição. In: O massacre dos inocentes. São Paulo,
2008.
93 se exerce, é capaz de oferecer a essas crianças os direitos que lhes são garantidos em lei? Seus testemunhos dão evidência das marcas do abandono e do cenário de desproteção/isolamento e maus tratos que muitas vivenciam. É possível amenizar a dor e fazê-las superar o momento que estão vivenciando?
Segundo Anthony Lake, Diretor Executivo do Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância, centenas de milhões de crianças vivem hoje em favelas urbanas, muitas delas sem acesso a serviços básicos. São vulneráveis a perigos, como a violência e exploração, a lesões, doenças e morte. Para o diretor executivo, a infância está vivenciando um estado de penúria e privação que aflige desproporcionalmente as crianças e as famílias mais pobres e desprotegidas. Além disso, essas crianças que vivem em condições tão desfavoráveis
são a comprovação de uma ofensa moral: o fracasso de garantir seus direitos de sobreviver, prosperar e participar da sociedade.
E cada criança excluída representa uma oportunidade perdida –
porque, quando não consegue garantir às crianças urbanas os serviços e a proteção que permitiriam seu desenvolvimento como indivíduos produtivos e criativos, a sociedade perde as contribuições sociais, culturais e econômicas que essas crianças poderiam gerar. Precisamos fazer mais para alcançar todas as crianças mais desfavorecidas, onde quer que estejam vivendo, em todos os lugares em que são excluídas e deixadas para trás. Haverá quem pergunte se conseguiremos bancar esse esforço, especialmente em uma época de austeridade em orçamentos nacionais e redução nas alocações de ajuda. Mas, se superarmos as barreiras que vêm privando essas crianças dos serviços de que precisam, e que são seus por direito, teremos muitos milhões de crianças a mais crescendo com saúde, frequentando a escola e vivendo vidas mais produtivas. Será que não
conseguiremos bancar esse esforço?185
A pergunta calorosa de Anthony Lake é, na verdade, a pergunta de milhares de pessoas que anseiam por um mundo mais justo, mais solidário, menos desigual, mais tolerante, sobretudo com nossas crianças. A vulnerabilidade a que são expostas, todos os dias, como vítima ou algoz do crime e da violência, escancaram a ofensa moral coletiva. Essas crianças, todavia, têm nome. Elas carregam uma história, cada uma escrita com a caligrafia do seu abandono, dos maus-tratos sofridos, dos sentimentos recalcados, das experiências de desamparo e solidão.
94 Apesar de saber que existem centenas de milhares de crianças sofrendo em todo o mundo, conforme relatório do Unicef –, seja por fome, pela pobreza imensurável, pela violência sofrida ou, mesmo, praticada, seja pela exploração do trabalho infantil, seja pelo abandono de quem deveria protegê-las, nesta pesquisa, suas narrativas são audíveis. Seus testemunhos mostram o quão desprotegidas elas estão.
Para as crianças que tem um parente próximo na prisão, de maneira mais grave se for o pai ou a mãe, o sofrimento acontece duplamente: primeiro, por serem desprovidas de bens materiais, de lazer, de uma ambiência de proteção e conforto e, segundo, por terem de lidar com sentimentos, os quais, nem sempre, estão preparadas para enfrentar. Algumas conseguem, mas, outras, terão de conviver com os danos e traumas sofridos. Seus sofrimentos serão como sombras e marcas a assustar ou estigmatizar.