Perfil histórico de Alfredo Buzaid (1914-1991): gênese e função social de sua ideologia
10. Fechamento ditatorial e ipesianos da FDUSP no poder: Gama e Silva e Buzaid
Cumprindo-se a ―profecia‖ dos rumos reformistas delineados por Miguel Reale em
Revolução e Normalidade Constitucional, formou-se, sob a gestão Gama e Silva no Ministério da Justiça, uma ―Comissão de Alto Nível‖ reunida por Costa e Silva, de 14 a 17 de julho de 1969, para reformar a Constituição Federal de 1967. Anteriormente, Castello Branco se apressara na feitura dessa Carta Política, valendo-se dos trabalhos do Ministro da Justiça Carlos Medeiros Silva, com vistas a deixá-la como legado (e utópico ou ilusório controle) ao governo da incontida linha-dura costista bonapartista que lhe sucederia.
Reale posteriormente relembraria, em torno da polêmica sobre a criação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) – apontado pelos críticos como o despojamento do Supremo Tribunal Federal (STF) da função de uniformizar a interpretação jurisprudencial de lei federal –, que ―esse desideratum não surge agora, visto tratar-se de revisão e atualização de projeto elaborado pelos eminentes processualistas Alfredo Buzaid e José Frederico Marques e por mim, quando, em 1969, fiz parte da chamada ‗Comissão de Alto Nível‘ nomeada pelo Presidente Costa e Silva para revisão da Carta de 1967, tendo contado com o apoio do então Vice-Presidente Pedro Aleixo, que presidia os trabalhos da mencionada Comissão‖322.
No que seria a última reunião de ―Alto Nível‖, agradeceu o marechal-presidente aos
crânios, nesses termos, ―a honra que tive em participar deste colendo tribunalzinho aqui
organizado‖, arrematando o ―tio velho‖ da extrema-direita brasileira, denotando-se o elo legista e militar, de classe, da última ditadura bonapartista:
Espero que, se necessário, amanhã eu possa novamente recorrer aos serviços de V. Exas. Muito obrigado323
A Comissão, entretanto, deixava entrever internamente os matizes e diferenças entre os juristas da autocracia burguesa bonapartista, despontando Gaminha, mais uma vez, como um radicalíssimo civil da linha-dura.
Propugnava, no tratamento constitucional a se conferir ao processo judicial de políticos e parlamentares, ―que fique registrada minha declaração que, mesmo nos casos de injúria e calúnia, eu desejaria que não houvesse necessidade de pedido de licença à respectiva
322 REALE, Miguel. Reforma do Poder Judiciário. In: O Estado de São Paulo. São Paulo, 08 de dezembro de
1985.
323 COSTA E SILVA, Artur da. In: Estudo para a Reforma da Constituição de 1967. Vol. III. Presidência da
República. Arquivo Brasília: 1982, p. 602. Participaram da Comissão de Alto Nível: Presidente Artur da Costa e Silva, Vice-Presidente Pedro Aleixo, Ministros Rondon Pacheco, Luiz Antônio da Gama e Silva, Hélio Beltrão, Carlos Medeiros Silva, Temístocles Brandão Cavalcanti e o Doutor Miguel Reale.
91 Câmara‖324, sendo Gaminha sequencialmente interpolado por Carlos Medeiros Silva,
afiançando que, se assim instituído, ―haverá processo contra deputados todos os dias‖325. Gaminha, reiteramos, situou-se à extrema-direita de Carlos Medeiros, antigo secretário do autor do primeiro Ato Institucional do bonapartismo, de abril de 1964, Francisco Campos, o alcunhado ―Chico Ciência‖ graças a sua expertise em conferir fórmulas legais à desmedida da autocracia de Estado.
Longe, portanto, de ser um democrata liberal de tipo clássico europeu, aquele jurisconsulto mineiro também apostou numa ―renovação constitucionalista‖ capaz de libertar ―os poderes políticos da nação de certos preconceitos constitucionais, cuja ordem remonta aos primórdios do racionalismo liberal‖. Carlos Medeiros defendeu, inclusive, que era preciso armar o poder de instrumentos eficazes e de ação pronta quando o equilíbrio das forças fosse ameaçado diante do ―auspicioso fenômeno da ascensão das massas‖326.
O tecnicismo ademocrático de Medeiros, no dizer de Castellinho, embateu-se pela instituição de uma ―ditadura constitucional‖ que encarnaria, na elaboração própria do autocrata mineiro, o último recurso do constitucionalismo para que a democracia pudesse sobreviver nos países ocidentais, realçando que não se deveria confundir ―uma ação vigorosa e eficaz‖ com ―poderes despóticos‖327, na medida em que ―os problemas constitucionais não
são primariamente problemas de direito, mas de poder‖328.
Malgrado ademocrático e propugnador de uma ditadura constitucional para conter o
auspicioso fenômeno da ascensão das massas, Medeiros divergiu com bastante frequência do radicalíssimo Gaminha, sobretudo nos debates travados na Comissão oficialmente dita ―de Alto Nível‖.
Defendeu-se Gama e Silva do jurista mineiro ao reiterar seu rígido posicionamento em favor do processo judicial de parlamentares sem a anuência do Poder Legislativo: ―Não me julguem tão radical assim‖329.
No que encerrava, paternalmente, o ligeiro entrevero entre os juristas ―o Sr. Presidente da República‖, Costa e Silva, primo de Gaminha: ―O Ministro Gama e Silva sofreu muito; eu também sofri, mas vamos passar uma esponja no passado‖330.
324 GAMA E SILVA, Luiz Antônio da. In: Estudo para a Reforma da Constituição de 1967. Vol. III. Presidência
da República. Arquivo Brasília: 1982, p. 441.
325 SILVA, Carlos Medeiros. In: Estudo para a Reforma da Constituição de 1967. Vol. III. Presidência da
República. Arquivo Brasília: 1982, pp. 442-443.
326 SILVA, Carlos Medeiros. A Constituição e os Atos Institucionais. Entrevista publicada em O Estado de São Paulo de 18.5.75. In: Revista de Direito Administrativo. Rio de Janeiro. Vol. 121. Jul./set., 1975, p. 407.
327 Ibid., p. 469. 328 Ibid., p. 470.
329 GAMA E SILVA, Luiz Antônio da. In: Estudo para a Reforma da Constituição de 1967. Vol. III. Presidência
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Gaminha, na pena de Elio Gaspari, foi caracterizado como ―velha vivandeira‖ que
―circulava pelos bivaques dos granadeiros com uma proposta de extravagância do poder militar‖331, um esboço ainda pior do que o Ato Institucional n. º 5 outorgado no último mês de
1968, como logo veremos. Costa e Silva ―tinha como corneta o ministro da Justiça, professor Luís Antonio da Gama e Silva, o Gaminha, ex-reitor da USP‖. A eminência parda do
costismo, Jayme Portella de Mello, ―não falava, Gama e Silva não conseguia ficar calado. Um vivia na sombra, o outro era antes de tudo um exibicionista‖332.
Geisel, no amplo acervo (privado de interesse público) disponibilizado ao arquivista Elio Gaspari por Golbery do Couto e Silva e Heitor Ferreira Lima, igualmente caracterizou o Ministro da Justiça costista como revolucionário mas insano: ―O Costa e Silva arranjou um ministro da Justiça que era revolucionário mas era louco, o seu Gaminha‖333.
Seja como for, foi Luiz Antonio da Gama e Silva, Ministro da Justiça de seu primo Costa e Silva, que operou aquilo que o futuro general-presidente Geisel considerou como o verdadeiro ―golpe‖ a manu militari. Em verdade, Gaminha foi artífice do chamado ―golpe dentro do golpe‖, traduzido no afastamento inconstitucional, pelos parâmetros da própria Constituição ditatorial de 1967, do vice-presidente civil Pedro Aleixo.
―Fala-se em golpe de 64, mas o golpe realmente foi dado quando impediram Pedro Aleixo de tomar posse‖.
Entretanto, indagou Geisel: ―por que Pedro Aleixo não assumiu? Por que era um político, e fora o único membro do governo a votar contra o AI-5. Achavam que ele não ia dar conta do problema. A primeira coisa que haveria de querer era derrubar o AI-5. Por isso, concluíram que não podia assumir‖334.
Gaminha, peça fundamental no golpe dentro do golpe advertido por Geisel (o impedimento de Pedro Aleixo e o consequente descumprimento, por um Triunvirato das Forças Armadas, da própria Constituição outorgada em 1967), já fora caracterizado, ainda, como ―o maior ferrabrás civil que já teve na história do Brasil‖, mercê de sua ideologia e práxis anticomunistas comparáveis àquelas dos ―nossos mistos de juristas e de gorilas, os ‗jurilas‘ Lyra Tavares, Augusto Rademaker e Márcio Mello‖335, membros da Junta Militar de
330 COSTA E SILVA, Artur da. In: Estudo para a Reforma da Constituição de 1967. Vol. III. Presidência da
República. Arquivo Brasília: 1982, p. 443.
331 GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. As ilusões armadas. São Paulo: Campanha das Letras, 2002, p.
332.
332 Ibid.¸ p. 317.
333 GEISEL, Ernesto apud GASPARI, Elio. O Sacerdote e o Feiticeiro. A Ditadura Derrotada. São Paulo:
Campanha das Letras, 2003, p. 322.
334 D‘Araujo, Maria Celina & CASTRO, Celso. Ernesto Geisel. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV, 1997, p. 210. 335 CHAGAS, Carlos. A Guerra das Estrelas (1964/1984). Os Bastidores das Sucessões Presidenciais. Porto
93 1969 apelidados, por Ulisses Guimarães, de ―Três Patetas‖336. O ministro da Aeronáutica
costista Márcio de Souza e Mello, forçando a edição do AI-5 no Conselho de Segurança Nacional, expressou cabalmente o que vem a ser, no Brasil, a ideologia de um ―jurila‖, sustentando – no que fora amparado por Gaminha – que:
Falta uma regulamentação ou uma legislação subsidiária que, ao invés de obrigar o Estado a provar que o indivíduo transgrediu essas leis ou violou os princípios fundamentais, atue sob o efeito do delito flagrante, atribuindo-se ao indivíduo provar que não transgrediu e não um processo em que o Estado tem de ir colher provas para levar a julgamento, com toda aquela série de recursos protelatórios que prejudicam os resultados337
―Tão radical quanto os outros‖338, ―quando vem a crise do AI-5, o Gama e Silva já
tinha pronto um projeto de AI-5 muito pior do que o que foi afinal editado‖339. No que tange à
confecção do mais draconiano dos Atos Institucionais da última ditadura bonapartista brasileira, pivô de um anticomunista extremado nos bastidores políticos do governo Costa e Silva, ―todos sustentam a edição de um Ato Institucional, só que o de Gama e Silva, já redigido, era radical demais. Começava com o afastamento de todos os governadores, a decretação do recesso do Supremo Tribunal Federal e o fechamento permanente do Congresso‖.
―Tamanha barbaridade que propunha que o general Lyra Tavares comentou: ‗Assim você desarruma a casa toda‘‖340.
Na reunião do Conselho de Segurança Nacional que aprovaria o AI-5, ―Pedro Aleixo fala por 30 minutos. É interrompido pelo ministro Gama e Silva, que o detestava, fosse por sua cultura jurídica, fosse porque não concordava com seus pontos de vista‖341:
‗Dr. Pedro, o senhor desconfia das mãos honradas do presidente Costa e Silva, a quem caberá aplicar esse Ato Institucional?‘. E a resposta: ‗Das mãos honradas do presidente, não, senhor ministro. Tenho certeza de que ele usará dos mais escrupulosos critérios para aplicar o Ato. Desconfio, porém, do guarda da esquina‘342
Além desses registros sobre a radicalíssima práxis e correlata ideologia de extrema- direita de Gama e Silva, também ―o general Mourão reproduz o que lhe pareceu uma frase inteira de Costa e Silva‖343, versando sobre o inviabilizado, por seu demasiado radicalismo de
linha-dura, projeto original de AI-5 de Gama e Silva. Tudo conforme análise do jornalista
336 Moreno, Jorge Bastos. Ulysses Guimarães, o „jurila‟ e os „Três Patetas‟. In: O Globo. 20.11.2011.
337 MELLO, Márcio de Souza e. In: SION, Vitor. AI-5 já era debatido cinco meses antes, opondo Costa e Silva e o futuro presidente Médici. 13.12.2013.
338 CHAGAS, Carlos. A Guerra das Estrelas (1964/1984). Os Bastidores das Sucessões Presidenciais. Porto
Alegre: L&PM, 1985, p. 128.
339 CHAGAS, Carlos. Carlos Chagas, II (depoimento, 2006). Rio de Janeiro: CPDOC/FGV, 2010, p. 11.
340 CHAGAS, Carlos. A Guerra das Estrelas (1964/1984). Os Bastidores das Sucessões Presidenciais. Porto
Alegre: L&PM, 1985, p. 133.
341 Ibid. 342 Ibid., p. 134. 343 Ibid., p. 135.
94 Carlos Chagas, acompanhada de importante resgate nas Memórias de um Revolucionário de Olympio Mourão Filho, antigo integralista e autoproclamado ―vaca fardada‖, arrependido dos supostos descaminhos da ―Revolução‖ de 1964:
Mourão, se você lesse o primeiro, você cairia duro no chão, aqui. Era uma barbaridade. Fechava-se o Congresso, modificava-se o Judiciário, além de várias outras medidas de caráter nazista feroz. Recusei assiná-lo. O segundo era mais brando e, como quem toma um purgante ruim, assinei-o‘344
Antes, porém, da promulgação do AI-5 na sexta-feira 13 de dezembro de 1968,
Gaminha já se ouriçara, radicalíssimo, pelo endurecimento da ditadura militar. Recentemente, graças à escavação histórica do jornalista Vitor Sion em fontes primárias, ―as ameaças de amnésia e acomodação não se consumaram e ficamos sabendo que o AI-5 vinha sendo formalmente discutido desde julho de 1968, no Conselho de Segurança Nacional‖345.
Gaminha, ávido em coarctar e castrar o Poder Judiciário, vociferava aos ministros de Costa e Silva que ―lá encontramos inimigos figadais da Revolução, que são contra nós, [e] que no momento oportuno de lá não foram afastados como deveria ter sido‖346.
Caiu por definitivo, portanto, aquela trampa farsesca montada no entorno do discurso contestatório de Marcio Moreira Alves – que para Buzaid ―não foi uma contestação ao regime, [mas] foi falta de decoro parlamentar‖347 – como motivo deflagrador da outorga do
AI-5, simples pretexto à radicalização ditatorial já programada, entre outros, por Gama e Silva, Ministro da Justiça costista que, em julho de 1968, defendera que ―a legislação que está aí é insuficiente‖.
Assim, na medida em que, propugnando uma contrarrevolução permanente ou um Estado ―revolucionário‖ bonapartista perenizado, afiançava Gama e Silva que:
Essa legislação não nos dá os elementos necessários para que possamos restaurar os princípios e os propósitos da Revolução. (...) Não vejo outro remédio se não retornarmos às origens da Revolução e, através de um Ato Adicional à atual Constituição [de 1967], darmos ao Poder Executivo, os meios necessários para salvar a Revolução e com ela a felicidade, o bem-estar do nosso povo e a democracia pela qual nos batemos348
344 MOURÃO FILHO, Olympio. Memórias: A Verdade de um Revolucionário. Porto Alegre: L&PM, 1978, p.
450.
345 DINES, Alberto. Exercícios de memória. In: Observatório da Imprensa. Edição 776. 14.12.2013.
346 GAMA E SILVA, Luiz Antonio da. In: SION, Vitor. AI-5 já era debatido cinco meses antes, opondo Costa e Silva e o futuro presidente Médici. 13.12.2013.
347 BUZAID, Alfredo in VEJA. Edição 188, 12.04.1972, p. 23.
348 GAMA E SILVA, Luiz Antonio da. In: SION, Vitor. AI-5 já era debatido cinco meses antes, opondo Costa e Silva e o futuro presidente Médici. 13.12.2013.
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