Vale frisar, já que reiteradamente se insiste na omissão desse fato histórico-social, que Buzaid ajudou a gerir prática e ideologicamente as estruturas do terrorismo oficial do Estado bonapartista brasileiro durante o regime militar, cuja ditadura, na definição sintética de Nelson Werneck Sodré, foi o crime erigido em lei, atuando o jurista, legista e político justamente na fase recrudescida do bonapartismo, em sua fração medicista que coroou ―o assassínio estabelecido como processo comum e o sequestro e desaparecimento dos adversários como norma costumeira‖782.
Um dos exemplos históricos encontra-se na promulgação da ―Lei Fleury‖ – como ficou conhecida a Lei nº 5.941/73 – pelo então Ministro da Justiça Alfredo Buzaid,
juntamente com o general-presidente Médici. A inovação legislativa alterou alguns dispositivos do Código de Processo Penal com o fito de permitir, principalmente, a manutenção da liberdade do acusado por delito de homicídio após a decisão que o submete a julgamento pelo Tribunal do Júri, bem como o direito de apelar sem antes se recolher à prisão, desde que o réu seja primário e de bons antecedentes. Em suma, garante ao acusado por assassinato que não seja preso antes do trânsito em julgado da sentença condenatória. Embora em tese jusprogressista – razão pela qual a corrente mais garantista de juristas defende a permanência desses artigos na legislação processual penal –, a edição da Lei Fleury teve, concretamente, o objetivo de livrar a prisão do chefe do Esquadrão da Morte paulista, Sérgio Paranhos Fleury, denunciado por crime de homicídio pelo membro do Ministério Público, doutor Hélio Bicudo783.
Castellinho salientava que ―o Governo está enfrentando uma questão difícil, nessa tentativa de identificar os membros dos diversos Esquadrões da Morte para promover sua punição e seu afastamento dos quadros policiais. (...) O reaparecimento dos Esquadrões da Morte, ou sua institucionalização (...) deu-se, segundo o noticiário comum, por volta de 1968‖784.
O promotor de justiça do Ministério Público paulista Hugo Nigro Mazzilli, um dos agentes públicos responsáveis pelo arquivamento das investigações sobre a morte suspeita do delegado Fleury, ―encerrou sua manifestação usando a Bíblia para demonstrar seu
782 SODRÉ, Nelson Werneck apud RAGO FILHO, Antonio & TOTA, Antonio Pedro. Apresentação. In Projeto
História: revista do Programa de Estudos Pós -Graduados em História e do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo: EDUC, (29) tomo 1, dez. 2004, p. 11.
783 A chamada ―Lei Fleury‖, de lavra do Ministro Buzaid, alterou artigos do Código de Processo Penal para
favorecer o líder do Esquadrão da Morte paulista. Cf. Lei n.º 5.941, de 22 de novembro de 1973.
784 BRANCO, Carlos Castello. Os Militares no Poder. O Baile das Solteironas. Vol. III. Rio de Janeiro: Nova
181 inconformismo e, mesmo desempenhando a função de fiscal da lei‖, teve tempo de ―fazer um devaneio escatológico‖.
―Disse, com amparo em escrito do Novo Testamento, que Fleury poderia escapar da justiça dos homens mas não teria como livrar-se da justiça divina‖785:
Sob o aspecto cristão, porém, resta dizer que ainda todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante a sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal (2ª Epístola de São Paulo aos Coríntios, 5, 10). Tendo em vista o exposto, requeiro do arquivamento do inquérito policial.
São Sebastião, 19 de junho de 1979. Hugo Nigro Mazzilli, promotor público786
―Se não fosse a morte‖ afastar Fleury ―do cenário político-institucional‖, ―e o promotor Hugo Mazzilli, ao mencionar a existência de um inexorável tribunal divino, esqueceu-se por um momento que tinha em mãos um inquérito no qual Fleury era vítima e não réu de processos em trâmite‖787, talvez os repaginados esquadrões da morte do século
XXI não se espraiassem impunemente, letalmente nas periferias urbanas e rurais, como o têm feito na reprodução dos novos desaparecidos por agentes armados do Estado brasileiro pós- 1988.
Com a radicalização da violência desses agentes do terrorismo de Estado da última ditadura bonapartista brasileira, ―chegou-se, no fim do conflito entre militares e guerrilha, ao momento em que nem sempre os agentes se preocupavam em explicar as mortes, pois toda uma rede de apoios no governo, Ministério Público e Judiciário lhes garantia a impunidade‖788.
O Ministério Público e o Poder Judiciário do Estado brasileiro, entretanto, parecem não ter se conscientizado institucionalmente, ainda hoje, de sua corresponsabilidade na gestão de estruturas voltadas às graves violações de direitos humanos e práticas comissivas em crimes de lesa-humanidade perpetradas, no mínimo, durante o período de 1964 a 1988.
O ―dissidente‖ Hélio Bicudo, promotor responsável pelas investigações dos crimes do Esquadrão da Morte de São Paulo, também demarcou a conivência de Buzaid, como gestor público de estruturas no Estado bonapartista, com os crimes de lesa-humanidade praticados
785 SOUZA, Percival de. Autópsia do Medo. Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Rio de Janeiro:
Globo, 2000, p. 619.
786 MAZZILLI, Hugo Nigro apud SOUZA, Percival de. Autópsia do Medo. Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Rio de Janeiro: Globo, 2000, p. 619.
787 SOUZA, Percival de. Autópsia do Medo. Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Rio de Janeiro:
Globo, 2000, p. 619.
788 GODOY, Marcelo. A Casa da Vovó. Uma biografia do DOI-Codi (1969-1991), o centro de sequestro, tortura e morte da ditadura militar. Histórias, documentos e depoimentos inéditos dos agentes do regime. São Paulo: Alameda, 2014, p. 25.
182 pelos agentes da ditadura militar brasileira, colaborando para uma impunidade e irresponsabilidade dos agentes estatais que persistem até hoje.
Impedido por sua própria instituição – o Ministério Público paulista – de levar às últimas consequências legais as investigações contra os crimes de Fleury, aponta Bicudo que foi em ―entrevista com o ministro da Justiça professor Alfredo Buzaid‖ quando então percebeu que ―daí nada tinha a esperar‖ e nada efetivamente recebeu. ―Tratava-se de homem engajado no ‗sistema‘ que se montou a partir do golpe militar de 1964 e que agia em consequência‖789, registrando corajosamente Bicudo ―as conivências no Poder Público‖, em
importante e histórico ―retrato de um ministro‖:
O ministro [Buzaid] negava toda evidência e ‗justificava‘ a atividade de seus serviços. Sua função a isso lhe impunha, mas o homem, contudo, antigo e pacífico professor de processo, manifestava-se como uma ‗fria‘ inteligência, insensível aos gritos que atravessavam os muros das prisões e câmaras de torturas790
Buzaid parecia concordar, nesse quesito, com o delegado Sérgio Paranhos Fleury, para o qual ―a natureza do nosso serviço nos empresta forma. Não sou violento‖791, mas... sua função a isso lhe impunha.
Contudo, demonstrado que é historicamente possível jogar luz à cumplicidade
judicial com o terrorismo de Estado das ditaduras militares instituídas à época em todo Cone Sul pela doutrina de segurança nacional continental, Juan Pablo Bohoslavsky, em
Introducción: Entre complicidad militante, complacencia banal y valiente independencia ao livro coletivo ¿Usted también, doctor? Complicidad de jueces, fiscales y abogados durante la
dictadura, certifica que, no caso da última ditadura argentina, buscou-se compreender o ―rol que juegan específicamente funcionarios judiciales y abogados‖, ―así como el desarrollo de una teoría jurídica, una estrategia política y un diseño institucional adecuados para incorporar eficazmente la complicidad judicial y legal a la agenda de la justicia transicional‖792.
Longe do retardo hipertardio brasileiro no âmbito da justiça transicional, que deveria depurar o que resta e vige da última ditadura militar na atual República Constitucional pós- 1988, o país vizinho, no momento, assiste a ―más de ciento cincuenta funcionarios judiciales‖ ―vinculados formalmente con el terrorismo de Estado, ya sea a través de procesos penales o
789 BICUDO, Hélio. Do Esquadrão da Morte aos Justiceiros. São Paulo: Ed. Paulinas, 1988, p. 19. 790 Ibid., p. 20.
791 FLEURY, Sérgio Fernando Paranhos apud NOSSO SÉCULO. Sob as Ordens de Brasília. São Paulo: Abril
Cultural, 1980, p. 195.
792 BOHOSLAVSKY, Juan Pablo (Editor). Introducción: Entre complicidad militante, complacencia banal y valiente independencia. In: ¿Usted también, doctor? Complicidad de jueces, fiscales y abogados durante la
183 de remoción. El llamado juicio a los jueces en Mendonza, cuya sentencia se espera para abril de 2015, es el proceso penal más emblemático en esa dirección‖793.
Naquele país, muito mais à frente do que o jesuítico Judiciário brasileiro, tradicionalmente ensimesmado em seu minimundo autocrático-burguês corporativo, conseguiu-se ―articular el análisis histórico de la complicidad judicial con el debate actual en torno a la democratización del Poder Judicial en la Argentina‖794.
O juiz espanhol Baltasar Garzón, em Prólogo ao mencionado e imprescindível livro coletivo argentino, propugnou, de maneira otimista, que ―los argentinos y las argentinas están rompiendo el blindaje que los cómplices del régimen criminal de la dictadura cívico-militar diseñaron para garantizar su propria impunidad‖, ―y hoy se desarrolla el período de enjuiciamiento y depuración de las instituciones en clara progresión hacia la determinación de la responsabilidad penal de los partícipes económicos795 y judiciales de aquella barbarie‖796.
A Argentina passa , conforme salienta Garzón, por ―una ocasión única para democratizar los organismos de la administración pública y, por supuesto, a la justicia‖797.
Embora se utilizando do conceito de ―autoritarismo‖ (usualmente, qualquer formação política que não ostente o figurino do Estado Democrático de Direito burguês) eivado na matriz liberal – que não pode ver a igualdade jurídica da ideologia liberal como a expressão da hegemonia de uma determinada classe –, vale transcrever excerto do magistrado espanhol, infatigável defensor dos direitos humanos, que destaca duas dimensões pouco aclaradas, no geral, depois da autorreforma e auto-anistia das ditaduras militares latino-americanas: ―los demás ámbitos, como el de los jueces, los fiscales y los abogados que apoyaron y participaron de aquellos hechos, o al de algunos religiosos, ya condenados, y al de los agentes económicos que estuvieron en la base de la dictadura cívico-militar o se nutrieron de ella, y que, de esta forma, contribuyeron definitivamente a consolidar un sistema que torturó, desapareció, asesinó y depredó a sus víctimas‖798:
Una de las dimensiones menos abordadas hasta el momento en el processo de reconciliación nacional argentino: la conivencia del Poder Judicial con el régimen militar. Funcionarios judiciales, abogados y docentes del derecho también fueron actores fundamentales en aquel contexto autoritario, ya fuera a través del apoyo directo a los mandos militares, participando en torturas o elaborando leyes que daban cobertura legal a prácticas genocidas, o del apoyo indirecto, al dejar un lado su deber de investigar y archivar las denuncias de las víctimas o de
793 Ibid. 794 Ibid., p. 22.
795 Cf. VERBITSKY, Horacio & BOHOSLAVSKY, Juan Pablo (Editores). Cuentas pendientes: Los cómplices económicos de la dictadura. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2013.
796 GARZÓN, Baltasar. Prólogo. In: BOHOSLAVSKY, Juan Pablo (Editor). Introducción: Entre complicidad militante, complacencia banal y valiente independencia. In: ¿Usted también, doctor? Complicidad de jueces,
fiscales y abogados durante la dictadura. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2015, p. 18.
797 Ibid., p. 19. 798 Ibid., p. 15.
184 suas familiares. Es cierto que el régimen se valió de ellos para legitimarse interior y exteriormente y, a cambio, ellos se erigieron como valedores de la moralidad nacional y, amparados en un ideario conservador y elitista, mantuvieron la ficción de un Poder Judicial independiente, interpretando el derecho no en función de los acontecimientos, sino en la línea del control social impuesto por las Juntas Militares. Fueron, en definitiva, cómplices y complacientes799
Assim, portanto, ―la Argentina está escribiendo la página más luminosa de la historia judicial universal contra la barbarie desde los juicios de Núremberg‖800. Profissionais do
direito ―cómplices o cooperadores de la dictadura‖ deveriam ser melhor estudados, de modo consequente, e não só na Argentina, para o grande (e ainda inconcluso) trabalho coletivo ―de exigir justicia, verdad y reparación‖801.
―Por ello, debe ser o propio Poder Judicial el que haga esa labor, no actuando corporativamente, sino diseccionando y cortando las partes tumefactas del organismo del que forma parte, limpiando así la herida hasta curarla. No se trata de apelar al escarnio público, sino a la credibilidad de un poder que en un momento histórico cometió el primer crimen de todos, el de la indiferencia y el abandono de aquellos y aquellas a quienes tenia que defender‖802.
Muitíssimo aquém do avançado solo histórico argentino, na parte que nos cabe nesse ―latifúndio‖ latino-americano, digamos assim, nosso Ministério Público e nossos magistrados do Poder Judiciário de Estado não parecem, até aqui ao menos, ter se conscientizado acerca da cumplicidade de seus agentes e de suas instituições na perpetuação dos crimes de lesa- humanidade que operaram como gestores de estruturas voltadas às graves violações de direitos humanos, bem como sua conivência com as demais práticas comissivas nos mais variados crimes cometidos pelo terrorismo do Estado brasileiro, no mínimo, entre os anos de 1964 e 1988. 799 Ibid., p. 16. 800 Ibid., p. 15. 801 Ibid., p. 18. 802 Ibid.
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