2. A LINGUAGEM E O SUJEITO (IN)SENSÍVEIS NO PENSAMENTO OCIDENTAL
2.9. Fechando o capítulo: uma aposta nas complexidades
Iniciei este capítulo com a afirmação de que hoje tem valor de verdade a concepção de que as emoções não são produtivas quando se trata de pensar a produção de conhecimento. Vivemos uma espécie de confusão, pois a emergência desse fenômeno é condenado nos domínios formais de saber e cultivada sobretudo nos discursos das práticas de consumo. A rápida incursão apresentada serviu para demonstrar que as emoções foram postas à margem não só pela filosofia ocidental, mas também pelo pensamento científico moderno, lócus de inclusão das ciências da linguagem. Ao se dar primazia à razão, não só se negou a importância das emoções na construção do conhecimento, mas, principalmente, concebeu-se um sujeito que não precisa das afetividades para transitar no campo de conhecimentos formais. A partir daí a Lingüística concebeu a língua como um sistema; a moderna retórica pôde pensar em argumentos como técnicas produzidas de forma racional para convencer um auditório universal. Nasce a defesa de que o sujeito de conhecimento, liberto das obscuridades das paixões, deve apresentar uma linguagem limpa, livre das marcas de qualquer índice de subjetividade e sustentada em enunciados descritivos do tipo “X é Y”.
O racionalismo não só conformou tudo que significava resistência em padrões de previsibilidade, mas também construiu a idéia de que estava realizando mera observação dos fatos. E as práticas humanas passam então a ser tratadas não como construção cultural, mas como resultado de uma condição inescapável, que já existia desde sempre. Em todos os domínios de conhecimento, prevaleceu a idéia de que somente o triunfo do sujeito da
razão levaria ao triunfo do conhecimento, e as emoções passam a ser uma das matérias- primas de controle para o assentamento de tal concepção. Para tanto, foi preciso sufocar os sentimentos, a imaginação e, sobretudo, controlar as categorias diretamente ligadas às paixões. Ou seja, a objetividade supôs um sujeito capaz de abstrair-se a tal ponto que nem a subjetividade, que inclui sua singularidade perceptiva e emocional, nem os vínculos que estabelece com o contexto em que está inserido influenciam a produção de conhecimento. A dúvida, a incerteza e o imprevisível foram os elementos a serem eliminados do campo da nova sensibilidade que se buscou construir.
Duarte Jr. (2003), olhando para os resultados desse processo na contemporaneidade, assinala que o avanço científico, razão principal da dura defesa da prevalência do sujeito da razão, foi seguido de profundas transformações que acarretaram o embrutecimento dos modos sensíveis de o ser humano se relacionar com a vida. A meu ver, não há como pôr em xeque o triunfo do conhecimento científico e as suas formas de subjetivação racionais, porém, se invertermos o lugar de observação e passarmos a focalizar as ações humanas nas suas produções mais comezinhas, podemos atestar que o sensível na contemporaneidade resulta de construtos vivenciais diferenciados e, por isso, as práticas racionais dominantes, na realidade, tiram a visibilidade de um sujeito cotidiano com capacidade de resistência e com liberdade de criação. O chamado sujeito moderno, embora submetido a estratégias de subjetivação que visam ao controle dos elementos ligados ao campo das afetividades, constrói-se pelo diálogo entre sensível e inteligível. Ou seja, assumo a hipótese de que os processos de subjetivação, que respondem pelo nascimento do que concebemos como sujeito, não se constroem pela submissão total aos atos de subjetivação racionais.
responde que o homem ordinário, apesar de a razão técnica tentar organizá-lo em espaços definidos, em formas de andar e habitar, escapa silenciosamente da conformação. E o deslizamento não se dá pela evasão dos espaços de controle, mas, sim, pela sua re- apropriação de maneiras outras e particulares de ser, sentir e agir. Na concepção do autor, “os praticantes da vida cotidiana” (e aí estão inclusas as práticas escolares), subvertem e usam de modo não previsto ou programado as regras e os produtos que lhe são impostos, criando, com isso, outras maneiras de utilizar, de tecer redes de ações reais, que são condizentes com a vida cotidiana e, exatamente por isso, não podem ser confundidas com meras repetições da ordem social estabelecida, embora com esta não tenham estabelecido uma ruptura total.
Assim, se ajustarmos bem a lupa, podemos nos deparar com formas outras de viver e, “como na literatura se podem diferenciar ‘estilos’ ou maneiras de escrever, também se podem distinguir ‘maneiras de fazer’ – de caminhar, ler, produzir, falar etc.” (DE CERTEAU 1999, p. 92). Dito de outro modo, diferentes modos de ação intervêm do interior mesmo do campo que os regula num primeiro nível, tirando partido dele a partir da criação de outras regras. Estas se dariam num plano micro e só se deixam ver se consideradas como indícios. O autor aposta num sujeito tático, resistente, que usa a língua, por exemplo, e, nesse usar, age sobre ela. Um sujeito que, impossibilitado de evadir-se do lugar que está, instaura aí a sujeição, a pluralidade e a criatividade, pois a tática lhe permite ler o seu contexto de ação, examinar as certezas e incertezas da situação e, a partir disso, agir ou não.
A capacidade de permanência, transmutação e recriação de si mesmo, apesar do esforço monumental para que, no par razão/emoção, o primeiro fosse sempre o dominante, faz pensadores como Morin (2000), Maturana (2002) e Restrepo (2001) insistirem no
equívoco da concepção racionalista. Afirmam que a vida humana, com suas múltiplas sensibilidades e formas de expressão, é irredutível ao controle absoluto que visa somente priorizar a objetividade e a razão. Para esses autores, a sensibilidade que funda a nossa vida é formada por um complexo tecido de percepções que jamais deve ser desprezado em nome de um suposto conhecimento objetivo. E, como conseqüência da irredutibilidade, o sujeito, tema incontornável na discussão do sensível, força a entrada em cena mesmo nos domínios em que se trabalhou com afinco para elidi-lo. Essa resistência, segundo Morin (2001), resulta do fato que:
O ser humano é um ser racional e irracional, capaz de medida e desmedida; sujeito de afetividade intensa e instável. Sorri, ri, chora, mas sabe também conhecer com objetividade; é sério e calculista, mas também ansioso, angustiado, gozador, ébrio, extático; é um ser de violência e de ternura, de amor e de ódio; é um ser invadido pelo imaginário e pode reconhecer o real, que é consciente da morte, mas que não pode crer nela; que secreta o mito e a magia, mas também a ciência e a filosofia; que é possuído pelos deuses e pelas Idéias, mas que duvida dos deuses e critica as Idéias; nutre-se dos conhecimentos comprovados, mas também de ilusões e quimeras (p. 59).
Apolíneo e dionisíaco ao mesmo tempo, essa é a condição que, para Morin, permite a sustentação das adequações e resistências. Concebido como um ser complexo, o sujeito pode ser submetido, mas não dominado de fora como um prisioneiro ou escravo da cultura ou dos diferentes papéis sociais que ocupa. E a capacidade de resistência não advém de atos conscientes, mas resultantes do que o sujeito faz com tudo o que lhe é dado em termos de história e cultura. Um sujeito alicerçado no mundo da vida (retomo esta questão no sétimo capítulo) é ponto de ancoragem para qualquer pretensão de pôr o emotivo como elemento de linguagem. As afetividades, transformadas em elemento de discurso, impõem a necessidade de considerar o sensível do mundo da vida e o inteligível da elaboração das percepções. Essa é uma questão que Bakhtin enfrenta para demonstrar que as ciências humanas, tais como construídas na modernidade, conceberam um sujeito no interior de um círculo teórico não invadido pelo mundo concreto da vida. Como vimos ao longo do
capítulo, o problema de inscrição das emoções nos domínios de produção de conhecimento sobre o humano, ou na sua linguagem, instala-se porque elas forçam as dicotomias entre mundo da cultura e mundo da vida. O mundo da teoria é sempre acabado e estável enquanto que o da vida está em movimento e, por isso, comporta a incompletude.
Porém, como promover o encontro desses dois mundos a partir de um elemento instável e precário como são as afetividades? Como pensar a construção da linguagem e dos sentidos a partir de um elemento que não permite a construção de fixidez nem a expulsão do corpo? Como chegar, pela consideração dos atos de linguagem, ao sujeito apolíneo e dionisíaco ou a um sujeito que mobiliza razão e emoção para construir o seu discurso? As concepções de Bakhtin serão fundamentais à construção de possíveis respostas para estas questões, uma vez que nelas estão contidas a proposta de não reduzir o sujeito à condição de mero ser empírico ou mera abstração. O autor defende que não se pode dissociar o sujeito de sua condição histórica e concreta no que se refere à construção dos atos discursivos e não-discursivos. Com base na perspectiva bakhtiniana, será possível a apreensão da relação entre o inteligível e o sensível pelo valor que as ações contextuais assumem no agir concreto do sujeito. Considerando o que diz Faraco (2003), a discursivização do ato sentido e do evento singular em que tal ato é concretizado exige que a palavra se realize na sua inteireza, o que engloba seu aspecto concreto-palpável (morfossintático e fonológico), seu aspecto semântico-conceitual e seu aspecto axiológico afetivo.