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“Feira Moderna” 165 – riff e movimentos plagais

A música apresentada pelo grupo Som Imaginário no V Festival Internacional da Canção, também é representante desta linguagem pop experimentada pelo grupo. Dentre as características desta linguagem, aparece a opção pelos movimentos plagais (I- IV) na Introdução e Refrão e a criação de um riff em uma das seções.

Ex: Progressão harmônica (piano) e baixo da Introdução de “Feira Moderna”:

Na harmonia acima, temos um movimento plagal entre os acordes de I e IV (A e D) com adições de notas (A6) e segundas inversões (A/E e D/A).166

Na parte A de “Feira Moderna”, o baixo pedal em Lá permanece, enquanto modificam-se os acordes da harmonia. De acordo com o trabalho de Thais dos Guimarães, o uso da nota pedal é um recurso encontrado no trabalho do Clube da Esquina e têm a função de reforçar a tonalidade, normalmente aliados ao emprego do sistema harmônico modal. (NUNES, 2005:58). Portanto, o uso deste baixo pedal se justifica pelos compositores de “Feira Moderna”, futuros membros do Clube da Esquina.

Ex: Parte A de “Feira Moderna” (voz, acordes e baixo)

Partimos agora para a seção que chamo de “Ponte”, onde acontece o riff que mais se destaca dentro da obra musical do Som Imaginário. Ele é constituído por uma descida cromática de power chords no âmbito de um intervalo de 5ª justa, realizada através de um padrão rítmico constante, de acentuação no primeiro e terceiro tempo.167 O termo “power

chords” se refere a um tipo de voicing comumente escutado no rock. Consiste em um

acorde de duas notas formado por um intervalo de 5ª justa. A tônica é frequentemente dobrada oitava acima. (TAGG, 2009: 129)

166 Esta introdução se assemelha bastante com a Harmonia da Parte A da música “Sábado”, que veremos a

seguir.

167 Na música “Uê” aparecerá a utilização de outro tipo de riff, também constituído de power chords. Aponto

também para a semelhança da harmonia na música do disco do Clube da Esquina na canção “Nada será como antes” no momento em que a letra diz “resistindo a boca da noite um gosto de sol” – (G-F# -F- E –E). (NUNES, 2005:127)

Ex: Ponte para Refrão (riff) de “Feira Moderna”

Durante o Refrão, enfatizo o uso de uma progressão harmônica que aparecerá também no disco Matança do Porco, na música “Bolero” que consiste no cromatismo entre 8ª, 7ª maior e 7ª menor de um mesmo acorde. No caso de “Feira Moderna” a progressão aparece da seguinte maneira:

Ex: Refrão (voz, harmonia e baixo)

│ A │A7M │ A7 │ D7M │Bm │F#m │Bm │ F#m │ Bm │ D │D ││ A (...)

I I7M I7 IV7M IIm VIm IIm VIm IIm IV IV I

Vemos acima uma progressão onde todos os acordes pertencem ao campo harmônico de lá maior. Apenas três acordes possuem sétimas (tétrades), utilizadas aqui num intuito de proporcionar uma sonoridade diferente entre A e D. Os acordes Bm, F#m e D são tríades com adição da 8ª nota, realizando movimentos de quintas e oitavas paralelas entre si. Três movimentos plagais aparecem: entre o acorde A e D (I – IV), entre o acorde Bm e F#m (IIm- VIm) e na volta ao refrão entre o acorde D e A (IV – I).

Podemos observar recursos específicos na música do Som Imaginário que a faz se conectar com a gama de recursos estilísticos da música pop/rock. Destaco o uso do riff nesta

Cadência plagal IV - I

canção, que sugere uma métrica e periodicidade comumente encontrada em grupos de rock. É interessante observar, no entanto, que se abre uma seção especial na música para a utilização deste riff,168 não tendo então uma função acompanhadora como na maioria das canções anglo-americanas em que este tipo de recurso aparece. A contraposição da linguagem melódica (nas outras seções) e da linguagem rítmica (na ponte) é um dado que nos mostra o conflito da linguagem musical e da incorporação de outros parâmetros à música popular brasileira daquele período.

“Hey Man” – riffs, progressão da pentatônica menor, modo maior e

menor

A música “Hey Man” 169 está na tonalidade de Mi menor (eólio), utilizando os acordes correspondentes a cada grau da escala. O primeiro procedimento que podemos reconhecer nela já acontece na Parte A: uma progressão cromática ascendente constituída de power chords, acordes sem terça, partindo de bIII (G) para o V (B). É importante observar que, apesar dos acordes não possuírem a terça, a linha melódica da voz apresenta as terças maiores de alguns acordes.

Ex: Progressão da Parte A de “Hey Man” (voz, harmonia e baixo):

Durante a Parte B e o Refrão de “Hey Man” podemos observar um loop de acordes retirados da escala pentatônica menor:

168 Philip Tagg enfatiza a importância de um riff na linguagem da música pop. O autor coloca que há ocasiões

em que a parte instrumental de uma canção popular pode ser mais memorizável, facilmente reproduzida e mais importante que sua linha vocal principal. Alguns exemplos de riffs que foram perpetuados no rock é aquele presente na música "Satisfaction" dos Rolling Stones e a canção "Layla" de Eric Clapton. (TAGG: 2009, 267).

Ex: Progressão harmônica do Refrão de “Hey Man”

│Em - A │ G - C │ Im IV bIII bVI

A Parte B utiliza-se do mesmo loop de acordes. Porém um acorde do V grau (sem sétima) é adicionado no final:

Ex: Progressão harmônica da Parte B de “Hey Man”

Parte B: ││ : Em - A │ G - C : │ ││ Em - A │ G - C │ Em - A │ G │B │ B │ Im IV bIII bVI Im IV bIII bVI Im IV bIII V V

Durante a Parte C da música o vocabulário harmônico se modifica, voltando a se basear no empréstimo modal entre modo maior e menor (jônio e eólio). Porém, verificamos que os acordes permanecem sem uso de sétimas ou tensões.

No exemplo da seção abaixo, os acordes, em sua maioria, pertencem ao campo harmônico do modo Mi eólio. Aparecem somente o acorde IV e V oriundos do modo Mi jônio. Trata-se então de uma progressão com maior número de acordes e empréstimo modal do modo maior para o menor:

Ex: Progressão harmônica da Parte C de “Hey Man”

│C - D │ Bm - G │ A │ B │ C - D │ Bm – G │ A │ B │ B │ bVI bVII Vm bIII IV V bVI bVII Vm bIII IV V V

Até agora, observamos inúmeros exemplos musicais que parecem estar em congruência com os todos os parâmetros discutidos no primeiro item deste capítulo: progressões curtas,

riffs, loops, shuttles, power chords, pouca presença de sétimas e extensões nos acordes,

raríssima presença de acordes dominantes (V7), etc.

Aproveito para apontar duas canções do primeiro álbum do grupo que se diferenciam por possuírem uma harmonia um pouco mais “tradicional”, por assim dizer, formadas por progressões mais extensas, presença de acordes dominantes com sétima (V7) e outras tétrades. Do ponto de vista da temática da letra, as duas canções possibilitam uma maior compreensão do universo dos valores da contracultura. Vejamos como isso ocorre.