Apresentação e Discussões sobre o material utilizado para as análises harmônicas.
HARMONIA TRADICIONAL HARMONIA MODAL TERTIAL
Narrativa musical extensa/funcional Falta de direção tonal/ períodos mais curtos (shuttles, loops)
Baseada em temas, desenvolvimento. Baseada em padrões rítmicos, métrica e periodicidade.
Acordes construídos por superposições de terças (tríadicos)
Acordes construídos por superposições de terças (tertial)
Modo Jônio/Eólio (maior e menor) Modos Jônios, Dórico, Frígio, Lídio, Mixolídio e Eólio.
Dissonâncias são preparadas como suspensões. Condução de vozes. (4ª desce pra 3ª e 7ª sobre para 8ª).
Paralelismos.
Movimentos paralelos de terças e sextas. Movimentos paralelos de quintas e oitavas. Inversão de tríades e tétrades são comuns. Acordes em seu estado fundamental, muitas
vezes com dobra de fundamental. (8ª). Progressões no sentido anti-horário do ciclo
das quintas. (flatward)124
Progressões no sentido horário do ciclo das quintas. (sharpward)125
Estilos: Música tradicional européia, operetta, parlour song, music hall, valsas, marchas, cânticos, hinos nacionais, baladas românticas, Schlager, jazz standards, swing,
bebop, etc..
Estilos: alguns tipos de música latino- americanas: cumbia, son, andina; kwella,
pop, rock n´roll, soul music, música
hispânica, folk-rock britânico, irlandês e norte-americano, country, blues, funk, etc.. - Cadência V7 – I considerada “perfeita” Cadência Plagal IV – I mais recorrente.
Dominante X7 Acordes V sem características de
dominante, por não possuírem a 7ª.
Após apresentar a ampliação dos conceitos da estrutura musical tradicional e a estrutura da harmonia tertial que dá suporte à análise das progressões de variados estilos da
124 Flatward:o movimento anti-horário no ciclo das quintas C – F – Bb – E -... aumenta os número de bemóis
da tonalidade
125
Sharpward: o movimento horário no ciclo das quintas C – G – D – A,...aumenta o número de sustenidos da tonalidade
música popular, falta ainda elucidar alguns “padrões” colocados como essenciais para o entendimento da organização desta harmonia dentro de uma música.
Primeiro temos o conceito de One-chord changes (mudanças de um acorde) que ocorre frequentemente em alguns tipos de música popular. Tagg enfatiza que "nenhuma
peça de um único acorde consiste realmente de um único acorde", ou seja, o músico inclui
na sua performance variações de timbre, ritmo e registro, e até mesmo, tonais. Alguns padrões de distorção, efeitos de tremolo e alternâncias de acordes 126 são inseridos para criar maior interesse na música composta por apenas um acorde. Desta maneira os músicos manipulam as características de um acorde de acordo com o estilo que realizam, podendo
“omitir, incluir, acentuar, sujar 127, "escorregar" 128 as notas tocadas, usar alternâncias de acordes (shuttles) e articular tudo isso ritmicamente, em termos de antecipação, no tempo, fraseado etc...”. 129
O segundo conceito apresentado é o já mencionado shuttle que consiste em uma mudança harmônica realizada pela alternância de dois acordes. Quando este tipo de movimento acontece dentro de um centro tonal (um acorde) ele acaba por “avivar o único
acorde produzindo uma atividade harmônica apropriada, que se torna parte intrínseca e relevante do groove”. (IDEM: 132)
Mas o tipo mais comum de shuttles são aqueles que acontecem entre dois acordes de modo que: “cada acorde possa ser escutado na sua posição fundamental de maneira
que ambos tenham a mesma duração”. (IDEM: 173) Baseados na harmonia modal tertial,
temos então vários tipos de shuttles. Para citar alguns exemplos temos os shuttles plagais amplamente utilizados nas cadências de rock e blues (IV – I no modo jônio ou IV – i no modo dórico), ou ainda os shuttles eólicos (i - bVI) que também aparecem com freqüência na música popular.
126 É muito comum na música popular a realização de alternância de acordes através da utilização da técnica
de violão e guitarra barré, em inglês parallels barre, que consiste em alternar acordes de mesma posição em movimentos paralelos (enfatizando as “proibidas” quintas e oitavas parelas).
127 O termo “sujar” do inglês smudge, se refere ao procedimentos práticos musicais como as ornamentações
de notas, blues notes e apoggiaturas.
128
O termo “escorregar” do inglês slide se refere à forma de tocar a guitarra utilizando um pequeno tubo oco de metal, alterando o tom ascendente e descendentemente, através do deslizamento do tubo sobre as cordas. Esta técnica, também chamada de Slide guitar, ou Bottleneck guitar, é muito comum em estilos como o blues e o country.
129
“É a junção destas características que originam o chamado "groove" na música popular, ou seja, a maneira como o acorde (ou os acordes) se dispõem em um padrão de poucos compassos, de forma rítmica e melódica.”(IDEM:164).
Em terceiro lugar é necessário explicar a utilização do termo Chord Loops ou Loops de acordes. Este termo é definido por Tagg como “uma seqüência de acordes,
usualmente três ou quatro, recorrentes dentro de uma mesma seção da música”. (IDEM:
199) Em termos de duração temporal um loop pode permanecer entre 3 a 8 segundos, aproximadamente. Estes loops repetidos ciclicamente normalmente duram pouco mais de 18 segundos. Tagg enfatiza a diferença entre loop e turnarounds: “Loops e turnarounds
consistem de uma mesma seqüência de acordes, mas os turnarounds têm uma função específica, que é a de sinalizar o final de um ciclo harmônico que levará a progressão em direção ao começo de outra”. (IDEM: 208). Dentro da categoria dos Loops de acordes
temos então os Loops Modais, que são progressões de três a quatro acordes característicos de cada modo. Alguns exemplos são: Loops jônicos com turnaround V - I: I - IV – V ; Loops mixolídios com turnaround plagal IV – I: I – bVII – IV – IV .
Como podemos observar na Tabela A, uma das diferenças descrita entre os conceitos da harmonia tradicional e esta abordagem que estamos apresentando agora, é a funcionalidade dos acordes, ou seja: como a harmonia tertial trabalha com tríades (fundamental, terça e quinta, e às vezes, a repetição da fundamental com a oitava) a função de Dominante acaba por não existir por completo (pois não há a sétima menor característica do acorde de dominante) e consequentemente as outras funções de Tônica e Subdominante perdem suas funções usuais.
Este resumo dos principais conceitos de Philip Tagg tem como objetivo apresentar os elementos que permitem a música popular influenciada pelo pop/rock ser entendida como uma estrutura cheia de significados particulares.
Sabe-se que a análise harmônica de uma obra é passível de inúmeras interpretações. Os conceitos de Tagg exemplificados acima são aplicados a um universo específico da música brasileira que apesar de manter muitas semelhanças com a linguagem a qual a metodologia de Tagg se aplica, possui alguns desvios particulares. As ferramentas teóricas dos chord loops, shuttles e one chord changes servem como um novo olhar para um substrato de uma narrativa harmônica que não se explica pela dualidade tensão- relaxamento. Por isso, muitas sequencias harmônicas demonstradas a seguir não seguirão restritamente os loops e o “vai e volta” dos shuttles, mas mesmo assim contribuirão para a compreensão do que é “mais importante” em uma sequência onde os acordes não caminharão por condução de vozes.
Para complementar a análise harmônica outros trabalhos serão utilizados como “Harmony and voice leading” de Edward Aldwell e Carl Schachter130 e o “Harmonia e Improvisação” de Almir Chediak.131