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4. I WANT TO BE SOMEBODY: MASCULINIDADES NA SELVA DE

4.6 O feminino como ameaça

A femme fatale no cinema noir não é uma “ameaça” somente enquanto personagem, mas sim por representar uma feminilidade não domesticada. Além disso, quando personagens homens se apresentam como um gênero não afirmativo da masculinidade normativa do herói, eles são identificados como “femininos”. O cinema noir apresenta “a construção do feminino como ameaça”316

(DYER, 2007, p. 127, tradução nossa), sendo a feminilidade não domesticada, aliada ao universo da noite e das sombras, um ambiente obscuro também para homens afirmarem uma suposta identidade sólida.

Os perigos que atacam o protagonista surgem de uma sociedade moderna, altamente organizada, mas uma sociedade que tem sido transformada em um quase mítico “lugar ruim”, onde as forças da racionalidade e progresso parecem vulneráveis e corruptíveis, e onde os personagens nas margens da classe média encontram uma variedade de “Outros”: não selvagens, mas criminais, mulheres sexualmente independentes, homossexuais, asiáticos, latinos e pessoas negras317 (NAREMORE, 2008, p. 220, tradução nossa).

Os filmes noir construíram um universo propício para representar essa sensação de ameaça, do homem branco e heterossexual vivenciando um pesadelo do qual não pode escapar. “Pode ser dito que a cidade “escurece” nossos entendimentos e motivos, obscurece

315

the visual style of film noir refers to western culture‟s unconscious linking of the darkness of the psyche (especially the female psyche) not only with the literal darkness of racial others.

316 the construction of femininity as threat.

317 The dangers that assail the protagonists arise from a modern, highly organized society, but a society that has

been transformed into an almost mythical “bad place,” where the forces of rationality and progress seem vulnerable or corrupt, and where characters on the margins of the middle class encounter a variety of “others”: not savages, but criminals, sexually independent women, homosexuals, Asians, Latins, and black people.

nossas ações, e assim, é o cenário para uma sensibilidade que podemos pensar como noir”318 (POMERANCE, 2013, p. 409, tradução nossa). A cidade, nesse caso, sendo o lugar perfeito para a efetivação de péssimas escolhas.

Um dos elementos perigosos que existem na cidade noir refere-se à ameaça ao herói branco e heterossexual em relação a sua identidade e sexualidade. E possivelmente a personagem mais representativa dessa ameaça, como parte de um universo obscuro, é a

femme fatale. Ambiciosa e de sexualidade ameaçadora para o herói, ela está presente no

cinema desde os primeiros anos, na década de 1910, na sua versão vamp com a atriz Theda Bara, em filmes como “Escravo de uma Paixão”319

, assim como a personagem interpretada por Margaret Livingston, no clássico “Aurora”. Ambas as personagens sem nomes e relacionadas ao universo urbano, têm atributos mais diretamente referidos a sua moralidade, Bara como The Vampire (“A Vampira”) e Livingston como The Woman from the City (“A Mulher da Cidade”).

No ano de 1927, o diretor alemão F.W. Murnau dirigiu sua primeira produção estadunidense depois de migrar da Alemanha. “Aurora” conta a história de um casal que mora em um vilarejo e tem sua vida perturbada por uma mulher que seduz o marido. Os personagens não possuem nomes e nos créditos do filme recebem adjetivos que caracterizam sua função na história, e entre os principais estão “o homem”, “a esposa” e “a mulher da cidade”. No filme em questão, o protagonista se vê entre essa nova mulher e sua esposa no início do filme; uma discussão que viria a ser bastante familiar ao cinema noir na década de 1940. Como já foi abordado anteriormente, certos estereótipos referentes às mulheres, e a maneira de entendê-los dicotomicamente, foram muito presentes na cultura ocidental. No entanto, o comum, no início do século XX, em obras como “Aurora”320

, é a atribuição de um tipo de mulher como representativo do universo da urbe.

A “mulher da cidade”, que seduz o marido, possui características muito similares à

femme fatale do noir. A afirmação de um binarismo entre a mulher que habita o privado e a

que habita o público está presente desde o início do cinema, sendo uma constante no cinema

noir. Um dos elementos a se destacar nessa concepção é o de que a mulher ocupante do

espaço público, em oposição ao estereótipo de mãe e dona de casa, é representada através de uma sexualidade exacerbada e não domesticada, e isso estava aliado também à morte (STABLES, 2007).

318 The city can be said to darken our understandings and motives, to obscure our action, and thus to be an

ultimate setting for a sensibility we can think of as noir.

319 A Fool There Was. Dir. Frank Powell. Fox Film Corporation, 1915.

Figura 23 – “Metropolis”, Dir. Fritz Lang, 1927

Fonte: print screen, acervo da pesquisadora

Tal equação foi apresentada simbolicamente por Fritz Lang, em “Metrópolis”321 , na cena em que a “falsa Maria” dança e enfeitiça os homens da elite da cidade (Figura 23). No

noir, esta relação é atribuída à ruína que a femme fatale causa na vida do protagonista, que

mesmo que não acarrete a morte física, provoca uma ruptura com a sua vida anterior. Quando Michael O‟Hara (Orson Welles) afirma, no final de “A Dama de Shangai”, que: “talvez eu viva muito tempo que eu irei esquecê-la. Talvez eu morrerei tentando”322, ele nos fala que

ainda que tenha sobrevivido a uma falsa condenação de assassinato e à morte, sua vida não será mais a mesma.

Em relação à mise-en-scène, como personagens que transitam no cenário urbano, a

femme fatale faz parte de um universo corrompido, violento e moralmente decadente. A

fronteira entre o feminino aceito e domesticado e a femme fatale é representada através dos figurinos (como abordado no segundo capítulo), dos espaços que habitam e da iluminação. Quando o mundo de sombras invade o subúrbio, a mulher é representada como vítima da violência, como em “Os Corruptos” (1953)323

, em que a mulher do policial é assassinada na porta de casa.

Os debates sobre feminilidades e masculinidades são aliados e não devem ser discutidos isoladamente. A afirmação de uma masculinidade sólida, não vulnerável, pautada na ação e na expressão da violência, delimita fronteiras também em relação a identidades de outros homens que não seguem esse padrão. Inclusive, nesse sentido, é relevante considerar que o ideal mencionado é relacionado diretamente a uma masculinidade branca, sendo homens e mulheres de outras raças e etnias também considerados inferiores.

No contexto da literatura hardboiled, essa relação fica mais óbvia, como foi discutido pela autora Megan Abbott. No entanto, no cinema, a questão é um pouco diferente, e é possível relacioná-la não somente aos efeitos do Código de Produção e suas restrições,

321

Metropolis. Dir. Fritz Lang. UFA, 1927.

322 Maybe I‟ll live so long that I‟ll forget her. Maybe I‟ll die trying. 323 The Big Heat. Dir. Fritz Lang. Columbia Pictures, 1953.

mas também ao racismo do período. Em relação aos personagens negros, é possível notar que, em sua maioria, negros são vistos apenas no espaço da noite, trabalhando como garçons em bares ou tocando em bandas de jazz324. No caso de personagens femme fatale, algumas delas são colocadas em contextos orientais ou latinos, como em “A Dama de Shanghai”, em que a personagem é ligada à cultura chinesa; ou em “Gilda”, filme no qual a ação se passa na Argentina e “Fuga do Passado”, em que conhecemos a personagem no México.