Parte I – Marcos Teóricos Antecedentes
1. O Feminismo em movimento
2.1 Feminismo Liberal, Sufragista e da Igualdade
O feminismo liberal pode ser entendido como um movimento associado à primeira onda ou uma vertente do feminismo ou, conforme os críticos, uma “armadilha” dos patriarcados e do capitalismo. As mulheres desse movimento adotam ideias liberais, ou seja, a doutrina caracterizada pela busca de liberdades e direitos individuais (propriedade, voto). Nesse sentido, tal pensamento parte de uma visão individualista e tem como principais bandeiras a defesa da liberdade e da igualdade universal. As questões do sufrágio, direitos à propriedade e à educação são pautadas nessas reivindicações; já a reforma no casamento e a liberdade sexual também são discutidas, mas não de forma central. Dessa forma, segundo Nye (1995), surge o entendimento de que a possibilidade de as mulheres elegerem representantes lhes permite corrigir as injustiças
5 Outras correntes feministas constam da bibliografia consultada, porém, optou-se por não as abordar aqui, vez
que o foco deste segmento não é uma revisão bibliográfica das vertentes feministas, mas sim mostrar a construção do pensamento e as principais contribuições que dialogam com o feminismo interseccional, este último, essencial para as análises realizadas nos subitens que se seguem. Julga-se, no entanto, importante citar quatro vertentes feministas que não serão abordadas no estudo, mas que contribuíram de forma expressiva no movimento feminista brasileiro. São elas: 1) Feminismo Anarquista: O feminismo anarquista, anarco feminismo ou o feminismo libertário - movimento de luta e resistência pela emancipação feminina sob um viés anarquista, o termo foi criado durante a segunda onda. O grupo não possui lideranças ou hierarquia, e luta contra qualquer forma de poder autoritário, logo, é autônomo e independente, aqui a libertação da mulher e a emancipação feminina só serão possíveis através da destruição dos sistemas de Estado e de classes. 2) Feminismo Emancipacionista: é teorizado a partir das concepções marxistas sobre a emancipação do indivíduo: emancipar as mulheres para emancipar a sociedade, e emancipar a sociedade para emancipar as mulheres, propõe uma luta unificada contra as opressões de classe e gênero, liderado por uma geração de mulheres em idade mais avançada e permite a participação dos homens. 3) Ecofeminismo: propõe uma nova visão de mundo, desvinculada da concepção socioeconômica e de dominação. Identifica que o alvo das agressões desse sistema foi a mulher e a natureza, ambas associadas à reprodução da vida, e que o poder machista da agroindústria e o patriarcado atacam a fecundidade do ser vivo. 4) Cyberfeminismo: é uma corrente de pensamento, arte e crítica que nasce junto aos desenvolvimentos das tecnologias e dos meios de comunicação, vislumbra na tecnologia uma forma de desestruturar as divisões de sexo e gênero. Atualmente, inúmeros feminismos fazem parte e uso do cyberfeminismo. Mulheres de todo o mundo e de vertentes feministas diversas criam, apreciam e compartilham materiais de cunho feminista.
Imagem 9 - Sufragistas
sociais sofridas por elas. A Imagem 9 exemplifica essa perspectiva com referência as mobilizações das sufragistas em uma passeata pelo direito ao voto feminino no final do século XIX.
Fonte: QG Feminista.
A primeira geração do feminismo surge como uma reflexão crítica às ideias do iluminismo, movimento que reivindica igualdade, direitos e liberdades individuais e não contempla as mulheres, conforme sintetizado na “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, de 1789, França. Dois anos depois, Olympe de Gouges (guilhotinada na Revolução Francesa) apresenta um contraponto ao documento supracitado, a “Declaration des Droits de la Femme et de la Citoyenne” (Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã), explicitando, em 17 resoluções, a exigência por igualdade jurídica, política e social entre mulheres e homens.
As teorias liberais mantinham a ideia de que as mulheres deveriam permanecer no ambiente doméstico, preservando a família patriarcal, onde o homem detinha poder sobre elas, sobre os filhos, os escravos e a propriedade. Para além disso, a sociedade familiar deveria ser separada da política. Com o crescimento do capitalismo, as mulheres perdem cada vez mais a autonomia e aquelas que se mantinham no mercado de trabalho eram mal remuneradas e sem acesso a nenhum tipo de poder ou de autoridade na hierarquia profissional.
A exclusão das mulheres das questões públicas é explicitada, também, na Declaração de Independência dos Estados Unidos, que apresenta como princípio básico: “Todos os homens foram criados iguais”, no qual somente os homens brancos estavam inclusos. Contrapondo-se a ideia contida neste documento, Mary Wollstonecraft escreve A Vindication of Women’s Rights (1792) onde demonstra que os indivíduos dotados de razão não eram os homens destituídos de
propriedade, nem os escravos e nem as mulheres. Ela reivindica direitos e defende que a inferioridade da mulher provinha do fato desta não ter acesso à educação. Por conta disso, reivindica para as mulheres iguais oportunidades de formação intelectual como as oferecidas aos homens. Para Wollstonecraft,
[...] as mulheres devem ser educadas como os homens. Devem ler filosofia, lógica e matemática. Devem ser estimuladas à ginastica; qualquer fragilidade física que tenham deve ser superada e não agravada. Quando tiverem medo, não devem ser afagadas, mas chamadas de covardes. Desse modo, as mulheres se tornarão economicamente independentes e plenamente capazes da participação política (apud NYE,1995, p.26).
Ainda segundo a autora inglesa, as mulheres devem ter suas próprias representantes no Parlamento. Tais ideias reverberam para outras partes do mundo. No Brasil, Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885) faz uma adptaçã do livro de Wollstonecraft e o usa como base para pôr em prática o seu projeto para a educação feminina no país. Coube a ela fundar o “Colégio Feminino Augusto”, onde colocava em prática uma educação intelectual feminina e ensinava ciências para meninas. Por outra via, Nísia Floresta deixa claro, em “Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens”, não tem a intenção de revoltar-se contra a ordem masculina ou de desconhecer a sua permanência e autoridade.
Também no século XIX e no contexto da reforma democrática da Inglaterra, outras mulheres, como Harriet Taylor, que escreve “Ensaios sobre igualdade sexual” em 1851, discutem e endossam o pensamento feminista liberal e defendem o acesso à educação como forma de desenvolver as mulheres. Taylor, referenciando Rousseau, afirma que nenhum contrato social pode exigir que se renuncie à liberdade e à igualdade e compara as mulheres da sociedade sexista aos escravos de Rousseau, cujo consentimento em sua escravização não é válido. Se as mulheres são humanas, devem ser livres.
A autora influenciou o marido John Stuart Mill que escreveu “A Sujeição das Mulheres”, onde defende que nenhuma sociedade é livre se a metade de sua população, as mulheres, encontra-se oprimida. O casal, no entanto, segundo Andrea Nye, 1995, parte de pressupostos utilitaristas e elitistas. Portanto, apesar de defenderem a liberdade das mulheres, no casamento, no âmbito político e na participação do mercado de trabalho, não contemplam mulheres desprovidas de propriedade e não vislumbram a realidade da maior parte das mulheres trabalhadoras de fábricas da época. Não obstante, ao ser eleito deputado da Câmara dos Comuns, em 1865, Mill defendeu, com empenho, o sufrágio feminino. Na mesma direção, Bertha Lutz (1894-1976) endossou o movimento feminista liberal no Brasil, buscando, também, na educação e no voto, a emancipação feminina.
Ao feminismo liberal, portanto, cabem as características de ser um movimento em defesa da igualdade universal das mulheres através das suas próprias ações, escolhas e capacidades. Esse primeiro feminismo propõe modificações nos sistemas jurídicos, mas não sugere mudanças nas estruturas sociais ou econômicas. Para atingir a igualdade requerida aqui, uma reforma política e jurídica é suficiente. O feminismo liberal questiona as ausências de direitos das mulheres e o fato destas não ocuparem os espaços públicos. No entanto, conforme Johnson (1997), não questiona e aceita a resistência ao direito da mulher a praticar o aborto - pois implica outros parceiros sexuais, família e sociedade em geral -, a pornografia (pois “não reconhece a exploração econômica de mulheres pobres por pornógrafos” (NYE, 1995, p.41) e considera o direito comercial destes), o capitalismo (livre mercado), militarismo, hierarquia e competição (meritocracia). Além disso, não direcionam suas reflexões às origens históricas da desigualdade entre mulheres e homens.
Na avaliação de Andrea Nye (1995, p. 42), “o feminismo liberal exige que sejam garantidos à mulher os direitos do homem, mas não é necessário propor um altruísmo ou uma passividade feminina essencialista para enxergar as limitações de tal realização”. Por conseguinte, essa vertente é criticada por não incidir, de fato, nas desigualdades de gênero, mas sim, de manter o status quo. Sendo assim, diz a autora, apesar dos avanços das legislações para as mulheres em muitos países ocidentais, elas permanecem restritas a determinados espaços, assumindo o “seu lugar” social.
Outro aspecto destacado por Nye é o da realidade das mulheres envolvidas na luta pela emancipação feminina. Segundo ela, militantes dessa causa como Harriet Taylor poderiam ir para as suas casas e refletir sobre a situação das mulheres de classes sociais inferiores, mas dificilmente uma trabalhadora do século XIX sentia-se representada em sua teoria feminista. “No fim das contas, os interesses e os privilégios de classe acabavam prevalecendo, independente do feminismo ficar na moda” (NYE, 1995, p.48). Logo, as feministas liberais não rejeitam totalmente a representação rousseauniana sobre o papel passivo, frágil e submisso das mulheres naquela ordem social, ao contrário, reafirmam-no. Enfim, na brecha deixada pelas feministas liberais encontra-se um dos pontos de partida do debate das feministas marxistas e socialistas.