Parte II – Abordagem Empírica
4.1 A Mulher Negra Brasileira
4.1.2 Renda, Mercado de Trabalho e Emprego Doméstico
Quanto à renda, as disparidades apresentadas são bem maiores. Existe uma diferença significativa entre a renda per capita das famílias chefiadas por homens quando comparadas àquelas chefiadas por mulheres. Ao somar-se o corte racial, tem-se uma disparidade ainda mais
Gráfico 4 - Renda domiciliar per capita média, por sexo e cor/raça dos/as chefes de família, Brasil, 1995-2015
representativa, no sentido de que a renda per capita da família branca é quase o dobro da renda per capita da família negra.
Fonte: IBGE/PNAD/IPEA/DISOC.
Obs.: A PNAD não foi realizada nos anos de 2000 e 2010; em 2004 a PNAD passa a contemplar a população rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá; a população negra é composta por pretos e pardos; renda domiciliar per capita deflacionada com base no INPC, período de referência set. /2015.
Observa-se, a partir do Gráfico 4 que as famílias chefiadas por homens e mulheres brancas se localizam no topo do gráfico enquanto, na base, apresentando os menores rendimentos, estão as famílias chefiadas por mulheres negras, o que demonstra o risco de vulnerabilidade social desse grupo e sua situação de carência econômica. Verifica-se que as estruturas socioeconômicas são mantidas com oscilações na renda per capita das famílias entre 1995 e 2003, um crescimento a partir de 2004 e um decréscimo de 2014 a 2015. Por certo, mantidas as piores condições salariais para as mulheres negras. A incidência e a continuidade dos efeitos patriarcais e raciais no país podem ser observadas na manutenção da renda per capita das famílias quando vislumbrado o indivíduo responsável pela chefia da família. Para além, pode-se notar, a partir desse gráfico, a consequência estrutural da interação entre os dois eixos de subordinação, no mesmo sentido das avaliações de Crenshaw (2002). A autora coloca que o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios fundamentam a manutenção das desigualdades estruturais.
No que tange à população de modo geral, sem realizar o recorte por chefia familiar, o Gráfico 5 serve para evidenciar a supremacia dos homens brancos com relação ao rendimento médio mensal, representando mais do que o dobro daquele percebido pelas mulheres negras.
Gráfico 5 - Rendimento médio mensal no trabalho principal da população ocupada de 16 anos ou mais de idade, por sexo e cor/raça – Brasil (1995-2015)
Gráfico 6 - Proporção da população de 16 anos ou mais de idade sem renda própria, por sexo e cor/raça – Brasil (1995-2015)
Fonte: IPEA/DISOC/NINSOC.
Os gráficos 5 e 6 demonstram a situação da mulher negra com relação à renda. Os gráficos não refletem nenhuma novidade daquilo que vem sendo apresentado até aqui, a mulher negra recebe o menor salário, uma média de R$ 1.027,50, quando comparada aos outros trabalhadores e representa 27% da população sem renda do país, o maior percentual nessa categoria.
Gráfico 7 - Taxa de desocupação das pessoas de 16 anos ou mais de idade, por sexo e cor/raça – Brasil (1995-2015)
Com relação ao mercado de trabalho, os reflexos do racismo e do sexismo são ainda mais evidentes. As mulheres negras, segundo Lima et al. (2013), encontram uma série de dificuldades para conseguir uma ocupação no mercado de trabalho. Em 2009, de cada cem negras chefes de família, onze estavam desempregadas, entre as brancas, esse número caia para sete, entre os homens negros, 3,4% e entre os homens brancos 3%. Conforme o esperado, a hierarquia socioeconômica vislumbrada anteriormente se mantem. Para além da questão familiar ou de chefia de família, observa-se a questão da desocupação por sexo e cor/raça (Gráfico 7).
Fonte: IPEA/DISOC/NINSOC.
Conforme o Gráfico 7, tem-se a mulher negra ostentando a maior taxa de desocupação, em 2015, seguida, novamente, pela mulher branca, homem negro e, por fim, homem branco. O mesmo ocorre quando é cruzada a taxa de desocupação das pessoas com os anos de estudo, ou seja, a qualificação educacional ou profissional, tem-se, mais uma vez, a não inserção das mulheres negras no mercado de trabalho, conforme observado pelo Gráfico 6. Tal questão comprova que as estruturas dificultam o acesso da mulher negra, ao mercado de trabalho, mesmo quando ela foi inserida no campo educacional. Segundo Lima (2001), mesmo quando eliminadas as diferenças educacionais, a população negra ainda apresenta desvantagem no acesso às melhores posições ocupacionais, o que demonstra que a distribuição desigual dos indivíduos no mercado de trabalho é condicionada, dentre outros fatores, pela cor (Gráfico 8).
Gráfico 8 - Taxa de desocupação das pessoas com 16 anos ou mais de idade, por sexo e cor/raça e de 9 a 11 anos de estudo – Brasil (1995-2015)
Fonte: IPEA/DISOC/NINSOC.
O Gráfico 8 é oportuno para evidenciar que o mundo do trabalho segue conectando as questões de gênero e raça na dimensão educacional. Conforme Márcia Lima, Flavia Rios e Danilo França (2013, p.56), em estudo sobre o período 1995-2009, “o exame da participação das mulheres negras no mercado de trabalho é um aspecto extremamente relevante para a compreensão da interseccionalidade de gênero e raça na constituição das desigualdades sociais brasileiras”. Nesse sentido, corroboram os argumentos de Cristina Bruschini e Maria Rosa Lombardi (2000), sobre a influência de fatores educacionais na bipolarização do emprego feminino. Em um desses polos se movimentam mulheres brancas com acesso à educação superior e, em decorrência, com a possibilidade de ingressar em profissões de maior prestígio e melhor remuneração; no polo oposto, mulheres de classes populares e negras em atividades do setor informal, de menor renda ou em empregos domésticos. Mesmo assim, quando se considera a taxa de desocupação feminina é possível observar que esta é maior do que a masculina e mesmo entre brancos e negros.
Portanto, ao vislumbrar os dados apresentados é possível constatar que gênero e raça formam uma combinação que leva à desvantagem das mulheres na alocação da força de trabalho. Nessa hierarquia, as mulheres negras ostentam as maiores taxas de desocupação, próximas a elas estão as mulheres brancas; na sequência os homens negros e depois deles os homens brancos, estes com taxas menores de desocupação. Já na relação das mulheres negras com o mundo do trabalho, vale lembrar entre as principais opções desse grupo está a do ingresso em serviços domésticos. O Gráfico 9 registra esse tipo de participação conforme gênero e raça.
Gráfico 9 - Proporção de trabalhadoras domésticas no total de ocupadas, por cor/raça – Brasil (1995-2015)
Fonte: IPEA/DISOC/NINSOC.
A ocupação de empregos domésticos é majoritariamente feminina, sendo inexpressiva a participação de homens nesses espaços. Como revelam os dados, embora haja uma redução na proporção de trabalhadoras domésticas, entre 1995 e 2015, estas atividades ainda são femininas e mais desempenhadas por mulheres negras. Segundo os dados do Gráfico 9 e considerados os dois polos da série (1995 e 2015), verifica-se uma queda na proporção de empregadas domésticas brancas, de 13,4% para 10, 3% (-3,1%), entre as negras de 22,5% para 18% (-4,5%). Ainda assim, também se pode observar que embora essa redução seja maior entre as trabalhadoras negras, isso não incide sobre as características do emprego doméstico. Portanto, conforme os dados de 2015, esse tipo de emprego ainda é o responsável por concentrar mais mulheres negras, na proporção de 18%, e 10% de mulheres brancas no Brasil.
Outro aspecto a ser sinalizado sobre a presença de negra no emprego doméstico é o fato dela ser identificada em diversos estudos como uma herança da escravidão. De acordo com Lima et al. (2013, p. 73), se está falando “de um trabalho manual, pouco remunerado, com forte presença de informalidade, pessoalidade, sem perspectivas de ascensão na carreira, e [sem possuir], até muito recentemente, os direitos trabalhistas equiparados aos dos demais trabalhadores protegidos”15. Isso implica em dizer que pelo fato de o serviço doméstico estar diretamente ligado à informalidade, as mulheres que ocupam funções dessa natureza carecem de ser amparadas pela proteção social, como os demais trabalhadores. E isso, independentemente da exigência legal de carteira assinada para trabalhadoras domésticas.
15 Somente no dia 02 de abril de 2013 foi promulgada a Proposta de Emenda à Constituição n° 72/2013 –
Gráfico 10 - Proporção de trabalhadoras domésticas com carteira de trabalho assinada, por cor/raça – Brasil (1995-2015)
Fonte: IPEA/DISOC/NINSOC.
Como pode ser visto no Gráfico 10, apenas 29,3% das trabalhadoras domésticas negras, contra 32,5% das mulheres brancas, possuíam carteira assinada em 2015, o que lhes retira direitos trabalhistas, tais como FGTS, seguro desemprego e jornada de trabalho de 44 horas semanais. Tal dado demonstra outras desigualdades. Essas mulheres muitas vezes são vítimas do preconceito racial, não apenas na perda de direitos, mas em violências verbais, morais e psicológicas.
Nas redes sociais no Brasil, agressões contra as empregadas domésticas são veiculadas como algo aceito socialmente. O perfil de Twitter, “A minha empregada”, deixa pública essa discriminação, através de postagens como: “minha empregada trabalha aqui a dois anos, e ela é negra, meu cachorro ainda late toda vez que vê ela.... e eu também” ou “minha empregada ta precisando de Bombril em casa, não quer me dá um pouco do teu cabelo não?” ou “eu já contei da vez q numa aposta eu peguei uma negra q parecia minha empregada soh q gorda (era pior q a minha empregada...)16. Essas e outras postagens, disponíveis em modo público no perfil, demonstram a discriminação dirigida a essas trabalhadoras, a maior parte das frases disponíveis expõe traços de racismo. Todavia, não se tem notícia de que alguma pessoa tenha sido denunciada ou processada por tais condutas.
Gráfico 11 – Média dos anos de estudo das pessoas de 15 anos ou mais de idade, por sexo, segundo cor/raça, Brasil, 1995 a 2015