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FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL

No documento as-mensagens-da-mensagem-2010.unlocked.pdf (páginas 37-40)

III AS QUINAS

D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL

Deu-me Deus o seu gládio, por que faça A sua santa guerra.

Sagrou-me seu em honra e em desgraça, Às horas em que um frio vento passa Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me A fronte com o olhar;

E esta febre de Além, que me consome, E este querer grandeza são seu nome Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá Em minha face calma.

Cheio de Deus, não temo o que virá, Pois, venha o que vier, nunca será Maior do que a minha alma.

21-7-1913

Lusíadas: C. IV, E. 52-53

Análise estilística do poema Métrica

3 Quintilhas. O primeiro, terceiro e quarto versos são decassilábicos. O segundo e o quinto são hexassilábicos. Isto denota o chamado ritmo heróico.

Esquema rímico

Rima interpolada e emparelhada em esquema abaab.

Número de versos 15

Observações

Uso de met|foras (por ex. “santa guerra”); uso de políptoto (versos 4 e 5 da 1.ª estrofe); uso de encavalgamentos (2 em cada estrofe, sempre do 1.º para o 2.º e do 4.º para o 5.º versos); uso de an|fora (por ex. “esta febre”); uso de polissíndetos (2.ª e 3.ª estrofes); primazia do sujeito sobre o predicado (por ex. 2 primeiros versos das 2 primeiras estrofes); uso da luz como elemento omnipresente e simbólico; transposição de sentimentos pessoais do poeta para o eu poético (v. nota 53).

Com 25 anos de idade, Fernando Pessoa escreve um dos primeiros poemas de Mensagem. É portanto um poema de juventude, embora ele tivesse já começado a sua carreira literária – embora apenas como critico – com o artigo “A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada”, publicado na revista «A Águia», em Abril de 1912.

D. Fernando, o «Infante Santo», foi outro dos membros da Ínclita geração, que cedo se encontrou malogrado, com méritos bastantes para constar na lista de mártires que Pessoa elabora. O maior sofrimento foi-lhe causado depois de ser capturado na campanha militar de Tânger, ficando prisioneiro seis anos dos Muçulmanos, que o torturaram pela sede e fome, e depois de morto o embalsamaram e puseram em exposição, pendurado pelos pés, nas muralhas, para que todos vissem. Durante a sua vida em cativeiro, escreveu ao seu irmão aconselhando-o a não entregar Ceuta, porque valia mais do que o seu resgate.

Análise linha a linha da primeira estrofe: Deu-me Deus o seu gládio, por que faça

Deu Deus a sua espada a D. Afonso para que ele o ajude. A sua santa guerra.

Na sua santa missão.

Sagrou-me seu em honra e em desgraça,

Pelas suas acções, foi ele consagrado a Deus, como mártir. Às horas em que um frio vento passa

Consagrado não às horas felizes, mas às infelizes. Por sobre a fria terra.

Às horas mais horríveis que se vivem na terra. Análise contextual da primeira estrofe:

Na primeira estrofe, Fernando Pessoa começa a descrever-nos o martírio de D. Fernando. Mas fala primeiro do “antes-martírio”, da vida antes da desgraça de Tânger e do cativeiro de Fez.

De novo achamos uma referência à espada de Deus – “o seu gl|dio”. Desta vez, a espada é confiada a D. Fernando, para que aja em nome de Deus, na sua justiça e na sua mudança. Foi D. Fernando a fazer “a sua santa guerra”, ou seja, a “guerra sem guerrear”, a guerra da mudança e da nobreza. Para essa missão, D. Fernando foi consagrado “seu”, o seu Destino foi dado a Deus, para que ele provesse de o preencher.

Geralmente quando um recém-nascido é consagrado, por exemplo a um santo, é para que esse santo o proteja ao longo da sua vida. Mas aqui, Pessoa fala-nos de um paradoxo, de alguém consagrado a Deus, o santo dos santos, que no entanto não protege, mas traz sofrimento57. Mas é um sofrimento, à sua maneira superior e Destino maior: sagrado “em honra e em desgraça”58. Sagrou-o a Deus e às “horas em que um frio vento passa”, as horas mais frias – horas de sofrimento, “sobre a terra fria” – a terra sem piedade.

Análise linha a linha da segunda estrofe: Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me

Fez olhá-lo de frente, com firmeza

A fronte com o olhar;

E fez brilhar nos seus olhos o seu Destino. E esta febre de Além, que me consome, E a febre deste Destino, de ser ungido de Deus. E este querer grandeza são seu nome

Esta missão nobre e grande. Dentro em mim a vibrar.

Fazem-no esquecer as dificuldades do cativeiro. Análise contextual da segunda estrofe:

Na tradição medieval, o jovem aspirante era armado cavaleiro com um toque de espada no seu ombro. Pessoa faz-nos imaginar D. Fernando armado cavaleiro por Deus, mas com as mãos imateriais daquele sobre os seus ombros e o seu olhar nos seus olhos – “Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me / A fronte com o olhar”59.

57 Também Pessoa foi, à sua maneira, consagrado a um santo. O dia 13 de Junho, dia do seu nascimento, é dia tradicionalmente consagrado a Santo António na cidade de Lisboa, além disso, os Pessoas reclamavam uma ligação genealógica a Fernando de Bulhões, que viria a ser companheiro de São Francisco de Assis com o nome de Frei António. Estará Pessoa a recordar a sua própria consagração? Sabemos que este poema “D. Fernando, Infante de Portugal” foi “reciclado” de uma vers~o original, intitulada “Gl|dio” e intencionada para publicaç~o no n.º 3 de Orpheu, que nunca saiu. No poema “Gl|dio”, Pessoa falava claramente na primeira pessoa (Cf. Clécio Quesado, Op. cit., 2.3.2.).

58 Clécio Quesado aponta aqui um tema recorrente neste poema: “a duplicidade” (Op. cit., 2.3.2.).

59 António Cirurgião sugere que Pessoa descreve em três passos, as três pessoas da Santa Trindade, à medida que cada uma investe D. Fernando: “o Pai Criador fê-lo cavaleiro, dando-lhe a espada; o Filho Redentor fê-lo colaborador na sua obra de

Não é de estranhar então que D. Fernando, mesmo prisioneiro, sofra silencioso, porque uma “febre de Além” o consome e o alimenta. Ele sabe sofrer por um “querer grandeza” que o ultrapassa, “dentro” dele “a vibrar”, a motiv|-lo a ultrapassar a dor60.

Análise linha a linha da terceira estrofe: E eu vou, e a luz do gládio erguido dá

E ele persiste, sofre sempre, e a luz da espada erguida (a sua missão). Em minha face calma.

Atinge-o sempre na sua face calma e resignada. Cheio de Deus, não temo o que virá,

Cheio de certeza divina, não sente medo do futuro. Pois venha o que vier, nunca será

Pois por maior sofrimento que ele passe. Maior do que a minha alma.

Nunca será maior o sofrimento do que a sua alma, o seu Destino. Análise contextual da terceira estrofe:

Como que construindo nas duas estrofes anteriores uma proposição e um desenvolvimento, Pessoa dá-nos agora uma conclusão condizente. Vemos um D. Fernando não só resignado ao seu futuro, mas ciente dele, ciente da sua suprema importância.

Já como «Infante Santo», ele caminha, enquanto “a luz do gládio” que lhe deu Deus, agora ilumina a sua “face calma”. “Face calma”, porque ele é todo determinaç~o, consciência de que é um escolhido. Ele est| “cheio de Deus”, e por isso sem medo da tortura Muçulmana. “Venha o que vier”, ele diz-nos que o sofrimento nunca superar| “a minha alma”.

mãos sobre os ombros», e doirando-lhe «a fronte com o olhar»” (in Op. cit., págs. 103-4). Embora não recusemos liminarmente

esta leitura, ela parece-nos contraditória com o que diz o próprio Pessoa: “A Ordem de Cristo n~o tem graus, templo, rito (…)

Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciaç~o (…) Na Ordem de Cristo n~o h| juramento nem obrigaç~o” (in

Fernando Pessoa, À Procura…, págs. 228-9).

60 Esta visão, como indica Clécio Quesado, ultrapassa em pormenor a de Camões, que apenas elogia o mártir, recorrendo a comparações com heróis da Antiguidade (C. IV, E. 53) (Op. cit., 2.3.2.).

No documento as-mensagens-da-mensagem-2010.unlocked.pdf (páginas 37-40)