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3 FERRAMENTAS E TÉCNICAS DO PENSAMENTO LATERAL

Já entendemos a importância do pensamento criativo e como ele acontece no cérebro. Agora, serão apresentadas algumas das técnicas sugeridas por Bono (1997) para chegar ao Pensamento Lateral: A pausa criativa; O foco simples; Os seis chapéus;

Desafio; Alternativas; Conceitos; O leque de conceitos; Provocação; Movimento; O estímulo aleatório; e As técnicas de sensibilização.

Uma técnica simples, porém, poderosa é a pausa criativa. Você faz uma interrupção no fluxo de pensamento para prestar atenção a um certo ponto. Segundo Bono (1997, p. 86),

você faz uma pausa porque há a possibilidade de uma nova ideia caso faça esse esforço. Você pode caminhar rapidamente através de um caminho, ou pode fazer uma pausa para olhar as flores silvestres que crescem às margens. Se caminhar depressa você não irá notar as flores, a menos que haja um agrupamento espetacular delas. Mas se você se esforçar e fizer uma pausa para prestar atenção nas flores, poderá ser recompensado por sua beleza simples.

A pausa proativa é uma forma de transformar a atenção criativa em um hábito.

Entretanto, lembre-se de que ela não deve ser longa, para não se perder o foco e a intenção da tarefa.

Quando fazemos uma pausa criativa precisamos nos esforçar para escolher um novo ponto de foco. A busca por pontos incomuns e despercebidos também é uma técnica criativa, denominada por Bono (1997) como foco simples. Por exemplo, você está fazendo uma refeição e decide focalizar nos detalhes dos talhares que está usando, sem nenhum grande motivo para isso. Ou se a comida esfria e você se questiona: que tal uma toalha de mesa aquecida para manter o prato quente? Que ideias lhe ocorrem?

Há um número infinito de possíveis pontos de foco, que podem ser divididos em duas categorias (BONO, 1997):

- Foco de área geral: onde se define a área geral na qual se deseja ter alguma ideia nova. É importante técnica, pois permite pensar a respeito de qualquer coisa, sem limitações ou problemas pré-definidos. Quando focamos em algo, sem uma finalidade estabelecida, enxergamos as possibilidades de uma forma mais ampla. Veja o exemplo: finalidade definida – “Precisamos de ideias para reduzir o custo do serviço e bordo nos aviões”. Foco de área geral – “Precisamos de ideias na área de serviço de bordo de aviões”.

– Foco proposital: é o direcionamento intencional de ideias. Pode ser utilizado para a resolução de problemas, para execução de tarefas ou para aproveitar oportunidades.

Esse foco é o mais utilizado na direção de arte, já que o briefing, geralmente, apresenta o foco/intenção para a criação das peças.

Quando o foco está claro, independentemente de ser de área geral ou específica, a busca pelas soluções é mais tranquila e a possibilidade de retrabalho é menor.

O Método dos Seis Chapéus foi criado por Bono e sugere usar as cores dos chapéus e o que elas representam, para guiar o processo de concepção de uma nova ideia. A proposta do método é pedir um chapéu por vez, não existe uma sequência correta, guiando as discussões de uma maneira leve e didática.

- Chapéu branco: pense em um papel em branco, que está ligado a dados e informações. “Quando você solicita o pensamento do chapéu em branco em uma reunião, está pedindo aos presentes que deixem de lado propostas e debates e focalizam diretamente as informações” (BONO, 1997, p. 78). Que informações temos disponíveis? O que está faltando? Esses são alguns dos questionamentos que devem ser feitos nessa etapa. Você tem uma folha em branco nas mãos, escolha bem o que você vai colocar nela.

- Chapéu vermelho: segundo Bono (1997, p. 78), “o chapéu vermelho tem a ver com sentimentos, intuições, palpites e emoções”, muitas vezes escondidos por insegurança ou imposições. O chapéu vermelho também envolve a intuição, que pode ser reflexo de anos de experiência e conhecimentos adquiridos, mesmo que ainda não bem arquitetados. Dessa maneira, o chapéu vermelho é de suma importância para os processos criativos.

- Chapéu preto: é o chapéu da cautela, que nos impede de cometer erros. Contudo, quando usado em excesso pode gerar a negatividade, focando apenas no problema e não nas possíveis soluções. Mais uma vez, escolha bem o seu foco.

- Chapéu amarelo: contrapondo o preto, a escuridão, temos o chapéu amarelo, da luz do sol, do otimismo. Nesse momento do processo a busca está direcionada para os benefícios, a viabilidade da ideia. Os dois chapéus, preto e amarelo, são importantes para o resultado final do pensamento criativo.

- Chapéu verde: corresponde ao momento de buscar as alternativas adicionais, as novas ideias, gerar provocações. Assim como a vegetação que cresce, dependendo dos recursos, acontece com as ideias.

- Chapéu azul: essa etapa do processo sugere uma visão geral. O intuito é controlar os processos, estabelecer uma agenda para pensar, sugerir os próximos passos ou voltar, quando necessário, para etapas que precisam de mais empenho.

O Método dos Seis Chapéus sugere que os debates sejam abandonados para dar lugar a discussões mais produtivas. Bono (1997, p. 81) comenta que “ao invés do pensamento adversário. Há uma exploração colaborativa. É por isso que o método tem sido tão adotado pelas pessoas que precisam dirigir reuniões. Além disso, o método

dos chapéus separa o ego do desempenho. Veja, se uma pessoa não gosta de uma ideia que foi lançada, sob o chapéu amarelo, precisará fazer um esforço para encontrar alguns benefícios.

Outra ferramenta apresentada por Bono (1997) para chegar ao Pensamento Lateral é o desafio criativo. A proposta inicial é responder às perguntas: por que fazemos as coisas dessa maneira? Existem outras formas de fazer? A ideia com essas respostas não é julgar, mostrar que uma coisa está errada ou inadequada, mas sim, buscar soluções singulares a partir do conhecimento do que já foi feito. Por isso, a busca pela verdadeira razão das coisas serem feitas de alguma maneira é tão importante.

Acostume-se a usar o “porquê”, pois só compreendendo os processos poderemos inová-los.

Depois do desafio lançado, passamos a buscar alternativas para se fazer as coisas. Bono (1997) sugere três elementos para isso:

1. Bloquear: temos um desafio e levantamos alternativas convencionais que estão organizadas nos caminhos lineares, como foi apresentado no subtópico anterior.

Contudo, nessa etapa do desafio a proposta é bloquear esses pensamentos correntes, forçando o cérebro a achar outras alternativas.

2. Escapar: “se escaparmos de uma ideia dominante, ou da necessidade de satisfazer uma condição, então nossas mentes estarão livres para considerar outras possibilidades”

(BONO, 1997, p. 103).

3. Abandonar: em alguns casos, ao desafiar a maneira de fazer as coisas, constatamos que realmente não é necessário refazê-la. Assim, o método pode ser abandonado.

No desafio criativo podemos questionar os conceitos – conotação básica por trás de uma operação – ou as ideias – maneira pela qual a operação é colocada em ação. Em ambos os casos, é necessário estar consciente para relacionar os fatores de condicionamento e, depois, desafiar esses fatores, mesmo que pareçam já justificados.

A busca por alternativas é uma etapa fundamental nos processos criativos.

Sobre isso, Bono (1997, p. 120) salienta: “fique no mínimo ciente das alternativas existentes possíveis antes de partir para elaborar novas”. Com isso, o autor quer dizer que algumas alternativas já foram colocadas na mesa e devemos retomá-las, para depois, partir para a busca por novas opções.

Os processos apresentados até aqui – a pausa criativa, o foco, o desafio e os chapéus – são maneiras de procurar as alternativas. O que eles têm em comum é que existe um ponto de referência, denominado de “ponto fixo” (BONO, 1997). Iniciamos o processo com uma ideia vaga, escolhemos um ponto fixo e partimos para novas ideias, para as alternativas.

Finalidade – para alcançar as alternativas com esse ponto fixo a pergunta que fazemos é: qual é a finalidade neste caso? A resposta é o ponto fixo.

Grupos – de acordo com Bono (1997, p. 122), “podemos dar um nome de grupo ou relacionar algumas especificações. Estas passam a ser os pontos fixos e buscamos membros do grupo ou itens que satisfaçam as especificações”.

Semelhança – as semelhanças são formas de especificar um grupo. Contudo, as semelhanças físicas e perceptivas são importantes para o processo. Um cozinheiro, por exemplo, está sempre em busca de maneiras alternativas para obter um determinado sabor.

Conceitos – podemos considerar todos os pontos fixos como conceitos, isso é,

“passamos da ideia real para o conceito por trás dela e então buscamos outras maneiras de levá-lo a cabo” (BONO, 1997. p. 123). A ideia é a maneira prática de fazer algo, já o conceito é o método geral envolvido. Esse é um assunto amplo e vamos aprofundá-lo a seguir.

A base do raciocínio do homem é a capacidade de formar “conceitos” abstratos.

Por exemplo, um banco resolveu instalar caixas automáticos em suas agências. O conceito era que isso proporcionaria “conveniência” às pessoas. Segundo Bono (1997, p. 135), “os conceitos são como entroncamentos. Voltamos a eles para achar outro caminho para diante. É por isso que os conceitos são pontos fixos tão bons para a geração de alternativas”.

Os conceitos devem ser genéricos, vagos e difusos para não limitarmos os caminhos das ideias. Uma maneira de encontrar um caminho conceitual útil é pensar em um conceito e torná-lo o mais genérico possível. Por exemplo, o conceito bem específico de uma escova de dentes é “uma haste com feixe de cerdas numa extremidade, sobre a qual é colocado o creme dental”. Esse conceito pode ser reduzido para “uma maneira conveniente de se usar creme dental” ou, generalizando mais, “item para a saúde bocal”.

Uma técnica interessante para o pensamento lateral é o leque de conceitos. A ideia é começar com o objeto, a finalidade do pensamento. Depois disso, chegamos aos conceitos amplos, também apontados por Bono (1997) como abordagens ou direções que podem levar até o objeto. Cada uma dessas direções, levarão para conceitos alternativos que devem gerar diversas ideias, conforme foi ilustrado na Figura 7.

FIGURA 7 – LEQUE CONCEITUAL

FONTE: Adaptado de Bono (1997, p. 128)

A cada etapa, que acontece de trás para frente, o ponto fixo deve mudar para mantermos o foco bem direcionado. Veja o seguinte exemplo (BONO, 1997):

Objetivo/objeto – enfrentar a escassez de água.

Direções/ conceitos amplos – 1. Reduzir o consumo de água; 1. Investir em novas formas de captação.

Conceitos – para “reduzir o consumo de água” podemos: 1. Ter mais eficiência no uso; 2. Menos desperdício; 3. Desencorajar o uso; 4. Educação.

Ideias – depois de definidos os conceitos específicos podemos então gerar as ideias. Para “desencorajar o uso” as medidas seriam: medir a água, cobrar pelo uso excessivo, elevar a taxa, disponibilizar água somente em determinados horários, restringir o uso desnecessário.

Resumindo, “há ocasiões em que pode haver muitas camadas de conceitos, entre as direções e as ideias. A direção é sempre o conceito mais amplo e a ideia é sempre a maneira específica de se fazer algo. No intervalo, tudo passa a ser um conceito”

(BONO, 1997, p. 128).

No pensamento linear, apresentado no subtópico anterior, entendemos que o cérebro trabalha estabelecendo trilhas principais de pensamento e para alcançarmos novas ideias precisamos “escapar” da trilha já estabelecida. A provocação é outra forma de escapar da trilha, afastando a percepção de sua direção usual, lógica e abrindo espaço para as novas ideias (BONO, 1997):

Os carros deveriam ter rodas quadradas;

As mesas deveriam ser de almofada;

Veja o exemplo apresentado por Bono (1997, p. 158):

Dizem que um excêntrico escreveu a Robert Watson Watt no final dos anos 30 e sugeriu que o Ministério da Defesa deveria considerar a produção de uma onda de rádio forte o suficiente para derrubar aviões. De acordo com a história, Watson Watt rejeitou a ideia por considerá-la maluca (a quantidade de energia em uma transmissão de rádio é muito pequena). Também de acordo com a história, foi o assistente Watson Watt que usou a ideia como uma provocação e sugeria que talvez a reflexão da onda de rádio pudesse ajudar a detectar aviões. Nasceu assim o conceito de radar, o qual se mostrou muito valioso na guerra que começaria alguns anos depois.

As provocações podem ser feitas por outras pessoas e cabe a cada indivíduo utilizá-las ou não nos seus processos criativos. Ainda, elas podem ser criadas por você a partir dos seguintes métodos (BONO, 1997):

O método da exclusão – em qualquer situação existem coisas normais, que damos como certas. O primeiro passo é expressar uma coisa que damos como certa:

“Damos como certo que restaurantes tem comida”. O passo seguinte é a exclusão: “os restaurantes não têm comida”. Com essa provocação, imaginamos um restaurante sem comida. Nesse caso, as pessoas vão até ele pelo ambiente que é muito acolhedor, mas precisam levar seus alimentos, como uma espécie de piquenique. Você leva seus amigos e sua comida e paga uma taxa ao proprietário da casa. Pronto, o que parecia sem sentido agora é um modelo de negócio. A proposta é que apresentando o contrário do que é comum, se possa chegar a novas possibilidades.

O método do atalho – Bono (1997) afirma que a dificuldade da provocação é que o pensador pode escolher atalhos que se encaixam nos seus conceitos ou ideias e isso não fará muito efeito. Por isso, a importância de criar maneiras formais e deliberadas para criar as provocações. Podemos olhar para a direção “normal” na qual uma coisa é feita e seguir a direção oposta. Também é possível criar uma provocação com o exagero, que pode acontecer para cima ou para baixo: “os policiais têm seis olhos”. A distorção é outro método para criar provocações: “você fecha as cartas depois de postá-las”. E, por fim, criando visões fantasiosas podemos criar atalhos para a nossa mente sair do caminho linear e buscar soluções criativas.

A ideia desses processos é levantar uma provocação formal e usar os métodos de movimento para prosseguir da provocação até uma ideia ou conceito novo. O movimento é uma operação mental importante que auxilia a seguir das provocações até as grandes ideias. Quando um indivíduo lança uma ideia ilógica, o comportamento normal do cérebro é julgar – usar o chapéu preto – para avaliar se é apropriada ou não.

No caso do movimento, chegamos a uma ideia e não interessa se ela está certa ou errada, “a única coisa que nos interessa é para onde podemos nos “mover” a partir dela.

Queremos ir adiante” (BONO, 1997, p. 148).

As técnicas para obter o movimento podem ser divididas em cinco:

1. Extrair um princípio: a partir da provocação você tira um princípio, conceito, característica ou aspecto, ignorando o que foi colocado até então.

2. Realçar as diferenças: aqui se compara a provocação com a ideia já existente ou a maneira mais usual de se fazer as coisas.

3. Momento a momento: nessa etapa visualizamos, sem julgamento, como seria colocar a provocação em ação. Não nos interessa o resultado final, somente o que acontece momento a momento. São dessas observações que podemos desenvolver ideias ou conceitos interessantes.

4. Aspectos positivos: levantamento dos aspectos positivos dos benefícios da provocação.

5. Circunstâncias: aqui são relacionadas as condições que dão valor à provocação. Por exemplo, na provocação “os copos deveriam ter fundos redondos”, as circunstâncias que teriam valor direto: o copo não poderia ser largado até terminar a bebida, aumentando as vendas nos bares. Os copos só poderiam ser colocados em um suporte especial, assim não marcaria a mobília.

Bono (1997) salienta que os estímulos aleatórios, eventos acidentais, também podem provocar uma nova ideia, porém isso só acontece se estivermos preparados ou pensando no assunto. Para isso, o autor sugere algumas maneiras de usar os estímulos aleatórios:

- Crie uma lista com 60 palavras, as primeiras que vierem a sua cabeça. Quando precisar de uma palavra aleatória para o projeto olhe para o relógio e registre o segundo em que está. Use esse número para obter a palavra que está na lista. Pronto, você terá uma palavra aleatória para usar no processo criativo.

- Use um dicionário. Pense em número de página e na posição da palavra que você vai usar. Abra o dicionário na página que você escolheu e veja qual a palavra localizada.

Essas são maneiras sugeridas por Bono (1997), mas você pode buscar formas particulares de provocação. O importante é estar conectado ao processo. Para isso, existem técnicas de sensibilização. Por exemplo, “se você declarar que irá escolher pessoas com roupas amarelas em um estádio, quando passar seus olhos pela multidão aquelas que estiverem de amarelo irão se destacar das outras. O cérebro foi sensibilizado para o amarelo” (BONO, 1997, p. 177).

Entre as técnicas de sensibilização apresentadas por Bono estão:

1) Estratiformes – que se referem à seleção de declarações ou observações desconexas que são reunidas para sensibilizar o cérebro quanto ao assunto em questão. Por exemplo (BONO, 1997):

ESTRATIFORME SOBRE SEGUROS DE CARROS:

... pode acontecer fraudes de assegurados ou oficinas;

... custo crescente de reparos de danos;

... comportamento diferente de cada assegurado;

... leis estaduais divergem o serviço em cada local.

DESSA LISTA VEM AS SEGUINTES IDEIAS:

1. Foco em grupos altamente selecionados;

2. Oportunidade para dirigir e administrar um esquema de seguros de carros em cada estado.

2) Técnica do filamento – esse processo sugere que a partir do objeto que está sendo intencionado façamos uma lista de palavras relacionadas a ele. Depois disso, de forma aleatória, são colocadas palavras que não estão necessariamente ligadas ao objeto, apenas as palavras inicialmente relacionadas. Veja uma abordagem de filamento à propaganda (as palavras inicialmente relacionadas estão em caixa alta e os filamentos em caixa baixa):

PROPAGANDA

VISÍVEL: grande, em local dominante, chama a atenção, manuseada com frequência.

CHAMATIVA: ruído, gritos, escândalo, surpresa, inesperado.

BENEFÍCIOS: promessa, valor, recompensa imediata, dinheiro.

BOA IMAGEM: sentimento cordial, associações, qualidade, coisas boas, atraente.

Todas as técnicas apresentadas são maneiras de chegar ao Pensamento Lateral, nas ideias novas. Elas podem ser utilizadas de acordo com cada projeto e suas limitações, inclusive de tempo. Contudo, conhecendo como funciona o pensamento criativo é mais fácil treinarmos nosso cérebro para fugirmos do senso comum.